• Nenhum resultado encontrado

a Praça do Comércio

No documento monumentos #1 (páginas 30-33)

O abalo sísmico de 1 de Novembro de 1755 arrasa parte significativa da cidade de Lisboa e o Terreiro do Paço não é excepção. As preocu- pações que presidem à necessária reconstrução da praça vão evoluir da linear preservação morfológica e funcional do preexistente até à edificação daquilo que podemos designar um conjunto arquitectónico inovador mas deten- tor de memória.

Com naturalidade, o Terreiro do Paço rapida- mente se constituiu, após a destruição do ter- ramoto, como um dos principais alvos da atenção de Sebastião José de Carvalho e Melo e dos seus arquitectos, assumindo-se com facili- dade como um centro ideal da reedificação da baixa lisboeta. Desde cedo que Manuel da Maia (1677-1768) – nas dissertações elabora- das acerca da reconstrução da cidade dirigidas ao marquês de Pombal, a primeira das quais data de 4 de Dezembro de 1755 – realça as vantagens do local para se fazerem as “boas en- tradas” da cidade reconstruída.

Assim se procede à reedificação pombalina da praça, tendo subjacente o modelo das praças reais europeias e não negligenciando a ante- riormente marcante presença do famoso tor- reão filipino, nem tão-pouco a presença efé- do anterior), dos Passarinhos (localizado perto

do ângulo formado pelos lados norte e oeste do terreiro) e ainda a porta da Ribeira. A este panorama, D. João V fará acrescentar a célebre torre do relógio, construída de acordo com um projecto de António Canevari, durante a per- manência deste arquitecto italiano em Lisboa, entre os anos de 1728 e 1732. Mantinha-se então o palácio real como edifício dominante e

Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio

Biblioteca

Nacional.

O contributo de ordem natural para o con- junto é obviamente a presença do rio, que funciona não só como abertura cenográfica à paisagem mas ainda como factor modelador da luz que banha a praça com sazonais varia- ções.

Aos primeiros anos da reconstrução pomba- lina remonta também a alteração da designa- ção da praça, o que corresponde igualmente a uma alteração de função e a uma adequação ao contexto socioeconómico da época pomba- lina.

Em 1758, tendo em consideração os projec- tos em elaboração para o então Terreiro do Paço, os comerciantes da cidade solicitam e obtêm autorização (por decreto de 16 de Ja- neiro desse ano) para aí procederem à edifi- cação de uma bolsa ou praça que antes do sismo se reunia sob as arcadas da Rua Nova dos Ferros e que seria paga com os 4% de donativo à Coroa. No ano seguinte, um “aviso” do marquês de Pombal designa já o terreiro como Praça do Comércio, designa- ção que alude não só à localização da bolsa dos comerciantes no topo oriental daquele espaço, mas que funciona também como uma homenagem a uma actividade e a uma classe da maior relevância na sociedade do tempo.

A denominação Real Praça do Comércio ainda se regista, até que se determina o afastamento da residência régia daquele espaço urbano e prevalece a designação de Praça do Comércio. Verifica-se assim uma perfeita sintonia entre programa urbanístico e ideologia do Estado, conjugados no projecto de Eugénio dos San- tos, o qual traduz claramente a preocupação em transformar o velho Terreiro do Paço na nova Praça do Comércio. A partir do mo- mento em que se fixa o projecto e o programa a cumprir, têm início de facto as obras de edi- ficação do complexo arquitectónico da Praça do Comércio – obras com uma progressão lenta, que permite a alguns viajantes estran- geiros o registo da ideia de destruição (cau- sada pelo terramoto) ao longo de variados anos. Assim se verifica com os escritos do ita- mera de arcos celebrativos realizados na praça

em ocasiões de entrada na cidade de personali- dades de relevo ou de festividades relacionadas com a vida da família real.

Quanto ao torreão dito de Terzi, a ideia da sua duplicação em posição simétrica remonta a um momento anterior ao terramoto, mais precisamente a 1750, data de um projecto anónimo5 que Eugénio dos Santos (1711-

-1760) não ignora ao elaborar, em 1759, o projecto que acabou por prevalecer e segundo o qual se procedeu à construção dos edifícios que constituem o novo Terreiro do Paço, numa área de 177 # 192,5 metros. Este pro- jecto de Eugénio dos Santos contemplava igualmente a edificação de um arco que aca- bou por não ser construído de imediato – op- tando-se bastante posteriormente pelo pro- jecto do francês Anatole Celestin Calmels, responsável pela aparência que apresenta hoje o arco da Rua Augusta – e ainda erecção de um monumento ao monarca no centro da praça, a estátua equestre de D. José, cuja exe- cução acabou por ser confiada a Joaquim Ma- chado de Castro (1731-1822).

Do ponto de vista arquitectónico, e como no- tou José-Augusto França, a principal qualidade do Terreiro do Paço pombalino é o ritmo6, ob-

tido pela constituição dos alçados por elemen- tos celulares simples – arcadas em arco de volta inteira, descarregando sobre pilares de secção quadrada, encimadas por janelão rectangular centrado, sobrepujado por vão quadrangular de emolduramentos de cantaria sem decoração. Ainda de registar, no contexto de generalizada sobriedade que se verifica, é a animação operada pelos dois torreões que rematam as alas laterais junto ao rio. Elemento dinamizador, em termos estritamente arquitectónicos mas também ur- banísticos, é o arco de triunfo – assinalando o acesso à rua central –, ladeado pela abertura de outros dois eixos que se equilibram. É esta a ar- quitectura de Eugénio dos Santos, expressa numa linguagem que, revelando ter assimilado os ensinamentos do classicismo francês, simpli- fica e funcionaliza o desenho barroco, legado pelo período joanino.

Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio

Fig.1

(página anterior)

Desenho do Terreiro do Paço – com a réplica do jardim do Palácio do Conde da Ericeira aquando do casamento de

D. Pedro II com Sofia de Neuburgo, em Agosto de 1684 – constante da obra de João dos Reis,

Copia dos Reaes. Aparatos e Obras que se Ficeram em Lixboa na ocasiam da Entrada e dos Desposorios de Suas Magetades.

(Lisboa, Biblioteca Nacional, Secção de Reservados.)

Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio

Fig. 2 Gravura de Wells, segundo desenho de NöeI, publicada em Londres em 1793, na qual se observam os edifícios da Praça do Comércio e em especial o torreão oriental, onde funcionava a bolsa dos mercadores. (Lisboa, Museu da Cidade.)

Fig. 3 Alçado da Praça do Comércio segundo o projecto de Eugénio dos Santos, sendo visível o torreão oriental e a Casa da Índia, 1823. Escala 1:135. (Lisboa, Biblioteca e Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas, Transportes

e Comunicações.) 2 3 Museu da Cidade. 1994 BAHMOPTC. 1994

A ocupação dos edifícios

No documento monumentos #1 (páginas 30-33)