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Ana Rosa de Freitas*

No documento monumentos #1 (páginas 63-68)

1. A igreja

A Igreja de São Pedro, em Dois Portos, é uma edificação manuelina de planta longitudinal atribuída a João de Castilho, cuja construção remonta ao primeiro terço do século XVI. Situa-se no caminho de Lisboa para Torres Ve- dras, num ponto elevado, junto à estrada (fig. 1). É constituída por três naves, de dife- rentes alturas, e seis tramos. As naves são divi- didas por arcos de volta perfeita, que assentam em colunas cilíndricas de capitéis jónicos, de- corados com pinturas de ferronerie dourada da- tadas, num dos arcos, de 1645 (fig. 2). Junto a uma coluna ergue-se o púlpito, de pedra, ci- líndrico e fechado. Na capela-mor, forrada de mármores branco, rosa e negro, existem qua- tro painéis de Diogo Torres, um retábulo bar- roco de talha dourada (final do século XVII) e abóbada de lunetas.

Possui um lambril de azulejos enxaquetados dos séculos XVI e XVII e dois altares laterais com retábulos de talha. Na sacristia existe um silhar recortado de azulejos com cenas campes- tres (finais século XVII-início século XVIII). O tecto da nave central, em madeira de cedro, apresenta na esteira central um invulgar tra- balho de alfarge – ornato de origem muçul- mana constituído por molduras cruzadas em arabescos, formando um elaborado entrelaçado

de linhas rectas e quebradas (figs. 3 e 4). É uma das poucas igrejas do distrito de Lisboa que ainda conserva um tecto em estilo mudé- jar. Apesar de haver casos mais antigos, é so- bretudo no século XVI que aparecem mais exemplos deste trabalho em Portugal, tanto na arquitectura religiosa (Igreja de Dois Por- tos e Matriz de Caminha) como na civil (casa do arcipreste Amaral, em Coimbra, e alfân- dega do Funchal). Fig. 1 Exterior da igreja. DGEMN. Anos 60

Igreja de São Pedro em Dois Portos

Fig. 2 Vista do conjunto interior na direcção da capela-mor.

Fig. 3 Pormenor do alfarge. Fig. 4 Vista do tecto em madeira da nave central com trabalho de alfarge. 3 2 4 DGEMN. Anos 60 DGEMN. Anos 60 DGEMN. Anos 60

Procedeu-se ao destelhamento de novas faixas do telhado, desta vez na zona situada sobre a parede divisória da nave central e laterais, a fim de se substituirem as varas e o forro, am- bos em madeira de cedro igual à existente.

Substituição da clarabóia existente Durante a intervenção procedeu-se à remoção de uma clarabóia existente na esteira central, acrescentada em tempos mais recentes, a qual interrompia a sequência visual do trabalho do alfarge e ameaçava ruína (fig. 10).

Procedeu-se à desmontagem da sua estrutura, que assentava sobre o tecto, provocando uma sobrecarga adicional (fig. 11).

Executou-se em madeira de cedro uma nova malha recticular e sobre esta foi feito um trabalho artesanal de alfarge idêntico ao exis- tente (fig. 12).

A modulação adoptada na nova malha, para o espaço ocupado anteriormente pela clarabóia, foi idêntica à existente no resto do tecto. Veri- ficou-se, depois da sua execução, que se inte- grou rigorosamente no espaço a preencher, de- monstrando-se que a introdução desta clara- bóia foi feita a partir da substituição de alguns elementos do alfarge (figs. 13, 14 e 15). Houve a preocupação de criar uma unidade for- mal no conjunto, marcando todavia sempre uma distinção entre a área existente e a recuperada. !

2. O restauro

Restauro do tecto em madeira Numa primeira análise verificou-se que o tecto apresentava sinais de grande degradação, sobretudo ao longo da esteira central, onde havia uma acentuada flexão (fig. 5).

Após consulta ao Instituto José de Figueiredo, foi decidido proceder ao restauro através da co- bertura, evitando assim uma intervenção pelo interior da igreja com consequências imprevi- síveis para o delicado entrelaçado do alfarge. Procedeu-se em primeiro lugar ao destelha- mento de sucessivas faixas do telhado, come- çando pela zona da cumeeira. Verificou-se que o tecto, inicialmente autoportante, fora supor- tando ao longo dos tempos madeiramentos su- cessivos, fruto de intervenções antigas no te- lhado, que exerciam uma carga prejudicial, responsável pela flexão observada (fig. 6). Assim, procedeu-se à colocação de linhas e pendurais (fig. 7), que passaram a constituir uma base de suspensão para o tecto a restaurar. Estas linhas foram ligadas ao tecto através de pernes em aço de 10 milímetros, os quais fo- ram aparafusados progressivamente até se atin- gir uma tensão que garantisse a segurança do tecto durante o restauro (figs. 8, 9 e desenhos). Foram seguidamente retirados todos os madei- ramentos desnecessários existentes. Como con- sequência do retirar deste peso, houve a neces- sidade de se proceder a um novo apertar dos pernes em aço até ao nivelamento do tecto.

Igreja de São Pedro em Dois Portos

Fig. 5

Flexão observada no tecto antes da intervenção.

Fig. 6

Madeiramentos que sobrecarregaram o tecto.

* Arquitecta

Direcção Regional dos Monumentos de Lisboa

DGEMN.

1992-1993

DGEMN.

Igreja de São Pedro em Dois Portos

Fig. 7 Colocação de linhas e pendurais. Figs. 8 e 9 Pernes de fixação do tecto

às linhas e pendurais. 8 9

Pernes para fixação do tecto

Aparafusamento de linhas às varas

2 3

CORTE TRANSVERSAL DA NAVE CENTRAL ESC. 1:50

Pernes em barrote de 80 * 70

Linhas em barrote de 80 * 70

Aparafusamento de linha à vara Perne de fixação do tecto

ø 10

Aparafusamento do pendural à linha Perne de fixação do tecto

ø 10

PORMENOR 1 – FIXAÇÃO DA LINHA À VARA PORMENOR 2 – FIXAÇÃO DO TECTO À LINHA

PORMENOR 3 – FIXAÇÃO DA LINHA AO PENDURAL

DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993

Igreja de São Pedro em Dois Portos

Fig. 10

Clarabóia existente no princípio da obra.

Fig. 11

Fase de desmontagem da clarabóia. Fig. 12

Execução, em madeira de cedro, da nova malha recticular com modulação igual à existente. Fig. 13

Preenchimento da malha com trabalhos de alfarge. Fig. 14

Aspecto do conjunto final antes da velatura. Fig. 15

Pormenor da área de intervenção junto à malha existente.

10 11 12 14 15 13 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993 DGEMN. 1992-1993

Limpeza

No documento monumentos #1 (páginas 63-68)