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2. Tipos, classes e géneros

2.1. A problemática tipológica

Categorizar (ou classificar) é uma operação científica necessária, entre outras coisas, para a sistematização dos dados e resultados das investigações. Assim, no âmbito particular dos estudos linguísticos do texto, os linguistas textuais assumiram desde cedo a tarefa de descrever (e explicar) as várias espécies de textos de um ponto de vista tipológico – o que levou até ao extremo de se construírem diversas ‘tipologias de tipologias’52. Nesta perspectiva, a noção de tipo de texto – independentemente do uso corrente que os falantes possam fazer desta expressão – apenas pode ganhar sentido enquanto categoria específica de uma tipologia fechada, em que cada tipo não se sobrepõe aos restantes. Assim sendo, para alguns linguistas, tipo (noção teórica) opõe-se a clasopõe-se (noção pré-teórica):

Utilizamos la expresión clase de texto como designación, conscientemente vaga, para toda forma de texto, cuyas características pueden fijarse mediante la descripción de determinadas propiedades, no válidas para todos los textos, independientemente de si estas propiedades pueden concebirse teóricamente y de qué manera, dentro del marco de una tipología textual. Utilizamos, en cambio, el término tipo de texto como designación teórica de una forma específica de texto, descrita y definida dentro del marco de una tipología textual. Todo tipo de texto es, según esta diferenciación, al mismo tiempo una clase de texto, pero no a la inversa.

ISENBERG[1983] 1987: 101

Uma concepção da noção de ‘tipo’ desta natureza é certamente válida e consensual para o nível da frase (cf. declarativa, interrogativa, exclamativa, imperativa), mas no plano do texto os investigadores não têm conseguido elaborar e justificar de modo suficiente uma tipologia que permita incluir todos e quaisquer exemplares textuais numa única (e só numa) categoria. Face a esta situação, colocam-se naturalmente duas questões: em primeiro lugar, cabe perguntar se é necessário – para a Teoria do Texto – construir uma tipologia textual e, em segundo lugar, se é possível

52 Veja-se, por exemplo, a “tipologia de tipologias” proposta em Petitjean (1989). Para uma discussão deste artigo, consulte-se Bronckart (1997) e, para uma leitura mais desenvolvida em língua portuguesa, Coutinho (2003).

elaborar uma tal tipologia. Na tentativa de responder a estas preocupações, Isenberg publica na década de ’80 um artigo – de que retirei o fragmento citado acima – em que discute os fundamentos da problemática tipológica ao nível textual53. Em relação ao primeiro problema anteriormente apontado, o linguista identifica uma série de “razões para uma tipologia”, retomando algumas já indicadas por outros autores54 e acrescentando (ou aprofundando) aspectos que surgem em destaque:

Se hace necesaria, además, una tipología textual:

a) para determinar el ámbito de validez de las regularidades (principios, máximas, reglas, normas), que son fundamento de la producción y recepción de textos,

b) para analizar textos concretos, c) para describir la intertextualidad,

d) para determinar la intertextualidad de los textos.

ISENBERG[1983] 1987: 98

As duas primeiras razões referidas pelo autor interessam, como é evidente, a qualquer estudo do texto, enquanto que as duas últimas dizem respeito a um campo mais específico e menos explorado pela Linguística: a problemática das relações entre os (tipos de) textos. Se admitíssemos estas quatro razões como válidas, pareceria justificar-se, no âmbito de uma investigação que se propõe mergulhar nos diálogos textuais, a necessidade de contar com uma tipologia que enquadrasse a análise. De modo que nos encontraríamos perante a segunda questão já colocada: é possível construir uma tal tipologia?

Para responder a esta interrogação, não basta simplesmente optar pela afirmativa ou pela negativa. No artigo citado, Isenberg assume uma tarefa minuciosa de identificação da estrutura lógica de uma tipologia textual e dos requisitos que esta deve reunir. Para esta tarefa o autor recorre a exemplos concretos e a modelos tipológicos já consolidados na altura como os de Grosse (1976), Werlich (1976), Sandig (1972) e Longacre & Levinson (1978), entre outros. O autor – que define a tipologia textual como “um complexo de enunciados sobre textos” (Isenberg, [1983] 1987: 102) – menciona os seguintes elementos estruturais de qualquer tipologia:

53 A versão do artigo consultada – e que é citada aqui – corresponde à tradução para o espanhol de um artigo de 1983. Esta versão foi publicada numa colectânea editada por Enrique Bernárdez em 1987. O artigo de 1983, por sua vez, era uma versão revista e ampliada de um trabalho de Isenberg de 1978. 54 Entre as razões dadas pelos seus colegas Isenberg cita a necessidade de superar a tarefa interdisciplinar da linguística do texto (na sequência de Gulich & Raible e de Schmidt) e de solucionar problemas relativos à coerência (Schmidt) e à gramática (Zimmermann). Cf. Isenberg ([1983] 1987: 98).

1. Uma determinação geral do seu campo de aplicação.

2. Uma base de tipologização, ou seja, um critério (se possível complexo) diferenciador dos tipos de texto.

3. Um conjunto manejável e limitado de tipos de textos.

4. Uma especificação das regularidades textuais de cada tipo de texto.

5. Um conjunto de princípios de aplicação que evidencia de que maneira se relacionam os tipos de textos com os textos concretos.

No que diz respeito aos requisitos (ou propriedades) da tipologia, o linguista destaca a homogeneidade, a monotipia, o rigor (isto é, a falta de ambiguidade) e a

exaustividade, demonstrando que nenhuma das tipologias analisadas consegue reunir

todas estas condições. Assim, por exemplo, Isenberg salienta a falta de homogeneidade nos critérios seleccionados por autores como Grosse, Sandig e Longacre & Levinson para a elaboração das suas tipologias que se baseiam em traços (ou parâmetros) de natureza diversa. Já no caso da hoje clássica tipologia de Werlich (descrição, narração, exposição, argumentação e instrução), Isenberg reconhece uma certa homogeneidade tipológica, mas observa um problema evidente em relação aos “princípios de aplicação” (não discutidos por Werlich): na confrontação da tipologia com os exemplares empíricos a classificação não cumpre geralmente o requisito da monotipia, ou seja, um texto concreto pode ser classificado em (ou como contendo vários) tipos de texto diferentes, o que leva o próprio Werlich a considerar a possibilidade de textos tipologicamente mistos – como, por exemplo, numa entrevista na que convivem segmentos de narração, argumentação, descrição, etc.

O artigo de Isenberg, tal como o próprio autor sublinha, consegue demonstrar que uma única tipologia textual é insuficiente para compreender todas as propriedades dos textos – o que só se pode resolver utilizando várias tipologias que se complementem (cf. Isenberg, [1983] 1987:127). Neste sentido, o autor propõe desenvolver um sistema de classificação complexo – a integrar várias tipologias – que permita descrever os textos de forma exaustiva. Em última análise, fica em evidência a impossibilidade de construção de uma tipologia textual única, o que implica que o necessário não é ‘a tipologia’, mas antes o facto de elaborar (e contar com) um conjunto de instrumentos de

descrição das várias espécies de textos que possa dar conta das diferentes dimensões dos objectos sob observação.

Independentemente da repercussão que este artigo em particular possa ter tido na comunidade científica, o que é facto é que a partir dos finais da década de ’80 os investigadores orientaram os seus trabalhos para duas direcções que, no fundo, partilham o mesmo pressuposto da impossibilidade de elaboração de uma tipologia única: os investigadores assumiram a tarefa de construir sistemas tipológicos complexos (de vários níveis) – como no caso da proposta de Heinemann & Vieweger (1991)55 – ou, então, abandonaram explicitamente a noção de tipo de texto em favor da categoria género.

Tal como se mencionou na introdução deste trabalho, o recurso (ou talvez melhor, o retorno) à noção de género vem acompanhar a consideração do texto na sua complexidade. Pode dizer-se, com efeito, que se a Linguística evitou o emprego desta noção – contrariamente à Teoria Literária – foi por causa, entre outras razões, da desvalorização da dimensão sócio-histórica dos textos. Assim, no auge dos esforços de tipologização da década de ’70, podemos encontrar afirmações como a seguinte: “El

concepto linguístico de tipo de texto debe distinguirse del concepto histórico-literario de género. Pero los dos conceptos pueden coincidir parcialmente en su extensión”

(Weinrich, 19752: 161, apud Bernárdez, 1982: 212).

É verdade que, tal como advertia Bernárdez (1982: 213), há algum risco na utilização do conceito de género para os textos não literários. Não se trata, de facto, de transpor simplesmente um termo de uma área de estudo para outra e, menos ainda, no caso de um conceito tão carregado de história e confusões quanto este56. Mas se a Teoria Literária se debruçou sempre sobre textos empíricos, a Linguística Textual – uma vez aceite o desafio de estudar os textos enquanto objectos semióticos complexos – não pode rejeitar o seu contributo neste sentido.

Por outro lado, a noção de género – que herdamos da Antiguidade – surgiu não só no campo da produção e crítica literária como também no intuito de dar conta de

55 Infelizmente, os trabalhos destes autores permanecem inacessível para quem não domina a língua alemã. Contudo, refira-se a existência de algumas boas ‘leituras’ desta obra em particular, como a que em língua espanhola propõe a argentina Guiomar Ciaspuscio (1994: 100-130).

produções não literárias, constituindo uma outra linha de reflexão ou uma problemática específica, como nota Charaudeau:

(...) issue de la nécessité de gérer la vie de la cité et les conflits commerciaux et politiques, qui a pris naissance dans la Grèce classique et son essor dans la Rome cicéronienne, faisant de la parole publique un instrument de délibération et de persuasion politique.

CHARAUDEAU 2001:45

Também no século XX o termo género é utilizado em referência às formas de organização de textos (ou enunciados) literários e não literários na corrente de trabalhos que hoje situamos no chamado “círculo de Bakhtin” (cf., nomeadamente, Voloshinov [1929] 1992 e Bakhtin [1979] 1992) e que seria inspiradora de muitas das reflexões mais recentes nesta matéria.

Além disso, vale a pena mencionar o emprego reiterado deste termo – género – em áreas como o jornalismo, a música e o cinema, cujo objecto de produção (e análise, no caso da crítica) tem sido, sempre, produções semióticas concretas.

É fácil constatar, então, que nos últimos anos a opção pelo termo género aparece com frequência no centro das discussões sobre as formas textuais. Embora seja por vezes utilizado como sinónimo de ‘tipo de texto’, na maior parte dos estudos, o recurso à noção de género visa, precisamente, romper com a pretensão de construir tipologias textuais.

Num artigo explicitamente intitulado «En finir avec les types de textes», Adam discute aquilo que considera ser “um erro epistemológico e metodológico” (Adam, 2001a: 25): a própria ideia de ser possível elaborar tipologias ao nível textual. Para demonstrar esta afirmação, o autor analisa os diversos caminhos tipológicos normalmente seguidos pelos investigadores, com base no seu modelo dos “planos ou níveis de organização da textualidade e da discursividade”. Este modelo aparece frequentemente esquematizado, com algumas alterações, nas diversas publicações do linguista (cf., por exemplo, os trabalhos de 1992, 1997, 1999 e 2005), sendo que neste artigo em particular são introduzidas indicações em relação às diferentes bases de tipologização possíveis (assinaladas no esquema pela forma “Tip.”). O esquema, que se reproduz abaixo numa versão traduzida, apresenta a distribuição e as relações dos níveis propostos. Na região superior, o autor inclui os planos que considera serem responsáveis pelas “determinações discursivas”, enquanto que na região inferior se

destacam cinco níveis de organização “mais propriamente textuais”. Note-se que esta repartição é coerente com o modo como Adam põe em relação as noções de texto e discurso – e, inclusive, as áreas da Análise do Discurso e da Linguística Textual –, tal como já foi comentado acima.

[Tip.1]

FORMAÇÕES INTERACÇÃO ACÇÃO (ÕES) SOCIODISCURSIVAS SOCIODISCURSIVA DE LINGUAGEM

(ALVOS, OBJECTIVOS) (dimensão perlocutória) INTERDISCURSO [Tip. 2] GÉNEROS (subgéneros) [Tip. 3] [Tip. 0] T E X T O (S)

Textura Estrutura Semântica Enunciação Actos de frásica e composicional (representação (ancoragem linguagem transfrásica (sequências e discursiva) situacional e (ilocutório) e planos de texto) [Tip. 5] responsabilização57) orientação

[Tip. 6] [Tip. 4] argumentativa

Traduzido de ADAM (2001a: 28)

Adam considera que as tipologias ao nível do texto [Tip. 0] não são realizáveis, porque quando se pretende elaborar uma tipologia ‘textual’ identifica-se, na verdade, um efeito de dominância explicado a partir da “estrutura composicional” dos textos, ou seja, trata-se de tipologias construídas a partir de um dos níveis de organização [Tip. 6]. Estas são as tipologias que Adam denomina “sequenciais” e é sobre elas que particularmente se debruça na maior parte da sua obra. Uma tipologia desta natureza é a de Werlich, que, de resto, está na base da proposta de “sequências prototípicas” desenvolvida por Adam.

Da mesma forma, as tipologias enunciativas [Tip. 4] – essencialmente derivadas dos trabalhos de Benveniste ou de Weinrich –, as semânticas [Tip. 5] – que, segundo o autor, se ocupam da oposição factual / ficcional ou de categorias temáticas – e as que se baseiam nos actos de linguagem [Tip. 3] constituem sempre abordagens parciais, quer dizer, não conseguem dar conta da totalidade do texto.

57 Utilizo a forma “responsabilização” como tradução da expressão francesa “prise en charge”. Para uma discussão acerca do emprego desta expressão na língua portuguesa, ver Miranda (2004b: 18, n. 4).

Relativamente aos níveis que Adam situa integralmente no plano discursivo, o autor tentará evitar o emprego do termo ‘tipologia’, indicando que a categorização das produções discursivas em discurso político, religioso, escolar, jornalístico, literário, etc. [Tip. 1] surge de uma necessidade de classificação das interacções dentro do quadro das formações sociodiscursivas em que se desenvolvem. É, segundo Adam, no interior de tais formações que se podem diferenciar “tipos de práticas sociodiscursivas” – isto é, géneros e subgéneros:

Ces formations socio-discursives possèdent leurs genres et sous-genres propres (Typ. 2). Si l’on tient à parler de “types” au niveau global et complexe des organisations de haut niveau, il ne peut s’agir que de types de pratiques socio-discursives, c’est-à-dire de genres (genres du discours littéraire, du discours journalistique, religieux, etc.). Un genre est ce qui rattache – tant dans le mouvement de la production que dans celui de l’interprétation – un texte à une formation socio-discursive.

ADAM 2001a: 28

Em suma, tanto Isenberg, quanto Adam demonstram a impossibilidade da (mono)tipologização ao nível textual. O que este último autor acrescenta, porém, é o facto de existir uma categoria que domina a organização dos diferentes níveis (ou planos) do texto, sendo que – embora dito com alguma ambiguidade neste fragmento citado supra – esta categoria não pode ser objecto de uma tipologização. Introduzir a categoria género implica, de facto, romper com a ambição tipológica própria da

perspectiva lógico-gramatical (Rastier, 2001a) ou representacionalista da linguagem

que orientou uma grande parte dos estudos linguísticos do texto.