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2. Tipos, classes e géneros

2.2. O conceito de género

O aparente consenso entre muitos dos investigadores no que diz respeito ao recurso à noção de género não impede, é claro, a proliferação de confusões terminológicas e conceituais por vezes importantes. É por isso que para a presente investigação será necessário delimitar suficientemente o alcance da noção de género a que se recorre – em detrimento das noções de “tipo” e de “classe” – para depois aprofundar certos aspectos que considero relevantes (ver próximo item).

François Rastier é talvez um dos autores mais insistentes na afirmação de que um género não é nem um tipo nem uma classe (cf., por exemplo, Rastier 2001a: 230). Com efeito, se assumirmos a distinção entre tipo e classe comentada mais acima, veremos que nenhum destes termos coincidirá com a noção de género. O primeiro termo remete sempre para uma categoria específica no contexto de uma dada tipologia58, de modo que só é possível falar em “tipo” no caso de trabalharmos conforme uma tipologia estabelecida. Já em relação ao segundo termo, nota-se que resulta demasiado vago para identificar os objectos categorizados, pois tal como observa Isenberg ([1983] 1987: 124) a noção de classe apresenta duas propriedades fundamentais: a heterogeneidade (já que os critérios de classificação podem ser muito variados) e a parcialidade (que diz respeito à relação de desequilíbrio entre a quantidade de espécies de textos existente e as formas de denominação social de uso corrente).

Ao contrário destas duas noções, o género não é o simples resultado de uma classificação, mesmo que seja possível adoptar a categoria género como parâmetro classificatório de textos. Por outras palavras, dado um conjunto de textos quaisquer, pode propor-se uma classificação de cada elemento (de cada texto) tomando como critério a sua inscrição num determinado género, da mesma forma que o seu modo de circulação (ou suporte), o seu tamanho (ou extensão), a esfera de utilização social da língua de que participa ou qualquer outra especificação. Daí que dizer que um género é uma classe de texto não resolve o problema da definição do conceito.

58 Ver também a definição de “tipo de texto” do glossário da obra espanhola Introducción a la Lingüística

del Texto: “cada una de las clases o grupos que pueden delimitarse dentro de una tipología”,

A dificuldade em definir o que é exactamente um género pode levar os investigadores a optarem por evitar a discussão terminológico-conceptual ou a proporem definições em extensão, ou seja, a formularem enumerações de elementos possíveis da categoria (p.ex. carta comercial, receita de cozinha, debate, aula, romance, etc.). Esta última opção tem duas consequências claras: por um lado, não consegue elaborar teoricamente o que há de específico e distintivo nesta noção, e, por outro lado, deixa entrever a ideia de que o género existe apenas na medida em que há um lexema socialmente partilhado para a sua denominação.

À complexa relação entre os géneros e as ‘etiquetas’ dedicaremos uma secção especial (ver item II.3.2.), mas convém avançar que a mera existência de um nome de género (ou a sua ausência) numa determinada língua natural não constitui um parâmetro de definição, uma vez que se todo o texto se inscreve necessariamente num género – tal como assumo – esta consideração será válida ainda para o caso dos textos cujo género não disponha de uma designação socialmente partilhada.

Para compreender, então, o que entendemos aqui por género, vale a pena retomar – e pôr em relação –, em princípio, duas definições que se orientam para um mesmo sentido. Em primeiro lugar, e precedendo no tempo, recordemos as palavras de Todorov na sua obra intitulada Os géneros do discurso:

Numa sociedade, institucionaliza-se a recorrência de certas propriedades discursivas e os textos individuais são produzidos e concebidos em relação à norma que constitui essa codificação. O género, literário ou não, não é mais do que essa codificação de propriedades discursivas.

TODOROV [1978] 1981 :51

Em segundo lugar, veja-se a definição proposta por Rastier no glossário da sua obra:

Programme de prescriptions (positives ou négatives) et de licences qui règlent la production et l'interprétation d’un texte. Tout texte relève d'un genre et tout genre, d'un discours. Les genres n'appartiennent pas au système de la langue au sens strict, mais à d'autres normes sociales.

Ambos os autores põem em evidência a especificidade do género relativamente a dois aspectos centrais – aspectos estes que são também referidos por Adam num artigo em que propõe, justamente, uma “reconcepção linguística do conceito de género” (cf. Adam, 1997a: 670-671). Por um lado, nota-se que se trata de uma categoria da ordem do social59. Os géneros são construções sociais e é neste sentido, aliás, que se pode verificar a existência de um “sistema de géneros”60 partilhado por uma dada comunidade sociodiscursiva. Além disso, cada género surge no quadro de uma prática social, o que implica que o estudo desta categoria exige a consideração primeira do âmbito discursivo associado a tal prática61:

Un discours s’articule en divers genres, qui correspondent à autant pratiques sociales différenciées à l’intérieur d’un même champ. Si bien qu’un genre est ce qui rattache un texte à un discours. (...)

L’origine des genres se trouve donc dans la différenciation des pratiques sociales. Et il ne suffit pas de dire, avec Todorov, que nos genres sont issus de ceux que les précédaient; il faudrait encore montrer comment les genres se forment, évoluent et tendent à disparaître avec les pratiques sociales auxquelles ils sont associés.

RASTIER 1989: 40

Por outro lado, nas definições citadas destaca-se aquilo que pode ser considerado o núcleo linguístico do conceito: o género constitui o plano de estruturação dos textos, de modo que é no plano genérico que se estabelecem as possibilidades (ou impossibilidades) de organização textual. Este aspecto leva Rastier a pôr em causa a própria noção de “textualidade” no âmbito da problemática da “boa formação textual”, reiterando em diversas ocasiões que “si existem regras de boa formação, elas são relativas aos géneros e não à textualidade” (cf., por exemplo, Rastier, 2001a: 22, tradução minha). Por outros termos, a construção dos textos (e, portanto, a utilização da língua) é condicionada pelo género em que o texto se inscreve.

Também Karl Canvat (1998: 275) aponta este aspecto quando considera o género como “uma unidade de estruturação, de organização e de composição”

59 No caso de Rastier, veja-se também esta passagem: “Il n’existe pas de texte (ni même d’énoncé) que

puisse être produit par le seul système fonctionnel de la langue (au sens restreint de mise en linguistique). En d’autres termes, la langue n’est jamais le seul système sémiotique à l’œuvre dans une suite linguistique, car d’autres codifications sociales, le genre notamment, sont à l’œuvre dans toute communication verbale”, RASTIER, 1989: 37 [sublinhado meu].

60 Acerca da expressão “sistema de géneros”, consulte-se, por exemplo, Adamzik (1998: 35).

61 Esta é uma observação também levantada por Adam (1997a: 670), que exemplifica com o caso do estudo dos géneros jornalísticos.

relativamente à escrita. A participação activa do plano genérico na produção e recepção textual em termos linguísticos (ou semióticos) é óbvia, e não apenas para os linguistas, pois qualquer falante de português sabe que não se escrevem/dizem nem se lêem/ouvem da mesma forma um regulamento e um horóscopo, por exemplo. Neste sentido, o problema que se coloca é o de saber como – com que ferramentas – podemos descrever esta relação entre género e texto. Esta questão, central para o presente estudo, será aprofundada nas secções II.4 e II.5.

Se até este ponto da discussão ficam em destaque duas dimensões essenciais do género – social e linguística/semiótica –, resta contudo referir uma outra dimensão que permitirá identificar melhor o modo como texto e género se ligam, a saber: a dimensão psicológica ou cognitiva. Com efeito, lembremos que já na introdução deste trabalho foi assumido que o texto é um objecto psico-sócio-semiótico, isto é, uma construção operada nessas três dimensões. Ora bem, o género – sendo uma forma textual relativamente estabilizada pelo uso – pode (ou deve) ser observado também à luz de tais dimensões.

Apesar de o aspecto cognitivo ser propositadamente o menos explorado neste trabalho – já que precisaria de estudos específicos mais aprofundados – pode dizer-se que nas reflexões sobre o género, muitos dos autores têm introduzido alguma consideração nesta matéria. Assim, por exemplo, Sophie Moirand propõe considerar o género como sendo, ele próprio, “uma representação sociocognitiva interiorizada”:

(...) une représentation socio-cognitive intériorisée que l’on a de la composition et du déroulement d’une classe d’unités discursives, auxquelles on a été « exposé » dans la vie quotidienne, la vie professionnelle et les différents mondes que l’on a traversés, une sorte de patron permettant à chacun de construire, de planifier et d’interpréter les activités verbales ou non verbales à l’intérieur d’une situation de communication, d’un lieu, d’une communauté langagière, d’un monde social, d’une société…

MOIRAND 200462

Também no citado livro de Todorov, uma passagem refere o modo como o autor vê o funcionamento do género em relação às actividades de produção e compreensão:

“É pelo facto de os géneros existirem como uma instituição que funcionam como

«horizonte de espera» para os leitores, e como «modelos de escrita» para os autores.”

(cf. Todorov, [1978] 1981:52). Mas se esta passagem se centra no caso dos textos escritos, esta observação será também pertinente para o caso de textos veiculados por suporte áudio ou audiovisual.

A ideia do género como “horizonte de espera” ou, melhor, de ‘expectativa’ – proposta originariamente por Jauss (1970) – consegue exprimir globalmente o modo como os falantes se defrontam com as actividades de compreensão textual, orientados pelas representações de que eles dispõem em relação aos parâmetros do género em causa. Já a questão dos “modelos de escrita” – ou melhor, da produção textual – pode ser ainda aprofundada a partir de uma proposta de Bronckart. O autor descreve o processo de produção textual como sendo constituído por um procedimento duplo de

adopção de um “modelo de género” disponível no arquitexto63 e adaptação do modelo de género adoptado às propriedades da situação de acção de linguagem específica. Deste procedimento resulta, então, um novo texto empírico que integra, simultaneamente, os traços do género adoptado e os traços do processo de adaptação (cf. Bronckart 1997: 40; 2004: 105 e 2005b: 65).

Ainda no âmbito da dimensão psico-cognitiva dos géneros, outros autores têm defendido a existência de uma “competência genérica” – por exemplo, Kerbrat-Orecchioni & Traverso (2004), Maingueneau (1998) e Ryan ([1979] 1988) – que seria responsável pelo emprego e a identificação dos géneros. Mas convém sublinhar que não se trata de uma noção ‘estável’, na medida em que alguns autores, Ryan por exemplo, assumem “competência” seguindo a dicotomia chomskyana competência/performance – o que implica descrever um conjunto de “regras” interiorizadas pelos falantes –, enquanto outros autores, como Kerbrat-Orecchioni & Traverso e Maingueneau, parecem seguir a concepção de Dell Hymes, ou seja, a utilizar o termo “competência” no sentido de “conhecimento e capacidade de uso” (cf. Hymes, [1971] 1995: 38). A meu ver, é apenas nesta segunda linha de reflexão que seria relevante indagar acerca dos saberes e capacidades que implica a construção e reconhecimento de textos de diversos

63 Note-se que na obra de 1997, Bronckart identificava o ‘reservatório social’ ou a “nebulosa dos géneros” como constituindo o “intertexto”; todavia, em trabalhos posteriores – e nomeadamente a partir da sua participação, em 2002, num Seminário em Lisboa – o autor concede a substituição desta noção pela de “arquitexto” (Cf. Bronckart 2005b: 63). Esta reformulação, as suas razões e implicações serão compreendidas melhor no quadro da nossa discussão da secção III.1.1.

géneros – que seria o que estaria em jogo numa tal competência. Contudo, uma dúvida que me suscita esta ideia da “competência genérica” é se – uma vez aceite o pressuposto de que todo o texto é construído necessariamente a partir de um género (ou modelo de género) – ela não estaria já contemplada na noção de “competência textual”, ou acaso seria possível ser competente (ou capaz) na produção/compreensão de textos independentemente de um género?64 Em qualquer caso, esta é uma discussão marginal relativamente aos objectivos da presente investigação.

Na sequência das observações precedentes, o género deve definir-se levando em consideração o carácter complexo que lhe é próprio. Assim, o género constitui-se na convergência das três dimensões acima referidas, o que lhe imprime o estatuto de categoria psico-sócio-semiótica. Este carácter complexo do género permite compreender a existência de concepções variadas, que privilegiam ora uma dimensão ora outra(s), manifestadas eventualmente através de metáforas como as de jogo (Schmidt, [1973] 1978) ou contrato (Charaudeau, 1983), ou, então, que recorrem a noções desenvolvidas primeiramente no quadro de outras problemáticas e/ou disciplinas como no caso de protótipo (Adam, 1997a) e atractor (Bernárdez, 1995).

Assumindo estas considerações, concebo o género como um dispositivo dinâmico de estabilização de parâmetros para os diferentes planos de organização textual – ou seja, não se trata de um “molde” estático, mas de uma configuração que se altera com o tempo. É, também, uma construção social, que surge no quadro de uma prática sociodiscursiva. Os falantes interiorizam, portanto, uma representação – a partir da experiência com textos ou de uma aprendizagem explícita –, por um lado, dos parâmetros genéricos que organizam os mecanismos de textualização e, por outro lado, do modo como uma dada configuração paramétrica (um género) se insere numa situação específica. Contrariamente à noção de “tipo de texto”, os géneros assim concebidos não podem ser objecto de uma classificação única, estável e definitiva (cf. item II.3.3).

64 Um exemplo de emprego da noção de “competência textual” neste sentido é o modo como o concebe Coutinho (2003).