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1. O(s) problema(s) do texto

1.2. Texto, discurso e enunciado

1.2.1. Texto / enunciado

O termo enunciado é, de entre os três que nos ocupam, aquele que mais consensualmente se tem associado a uma unidade de realização linguística concreta. Maingueneau põe isto em destaque quando em diversas publicações39 apresenta o conceito de enunciado oposto ao de enunciação e ao de frase ou, então, definido como uma “unidade da comunicação verbal”. Mas se o enunciado é uma unidade da comunicação verbal, o que é o texto?

Adam, por exemplo, utilizava ambos os termos nos seus Éléments de

linguistique textuelle de 1990. Nessa altura, o autor definia enunciado como o “objecto

empírico da linguística” (Adam, 1990: 24) e reservava a noção de texto para identificar um “objecto abstracto” destituído de qualquer contexto40. Note-se, porém, que esta organização terminológica e conceptual – ainda presente na obra que o autor publica em 1992 – iria ser reformulada nos seus trabalhos posteriores (ver infra).

Maingueneau, por seu lado, considera que enunciado e texto são termos que podem ter uma significação próxima, e em Analyser les textes de communication explicita que emprega o termo enunciado com valor de “frase inscrita num contexto

particular” e o termo texto para designar “as unidades verbais que relevam de um género de discurso” (cf. Maingueneau, 1998: 43, tradução minha).

Nota-se nestes dois autores a influência dos teóricos da enunciação – como Benveniste – assim como também dos escritos bakhtinianos. Assumir o enunciado como unidade real da comunicação verbal é, certamente, situar-se na esteira das reflexões de Bakhtin. Este autor diria cedo algumas coisas que hoje são simplesmente um lugar comum: “Aprender a falar é aprender a estruturar enunciados (porque

falamos por enunciados e não por orações isoladas e, menos ainda, é óbvio, por palavras isoladas)” (Bakhtin [1979] 1992: 302); ou então, “A utilização da língua efetua-se em formas de enunciados (orais ou escritos), concretos e únicos, que emanam duma ou doutra esfera da atividade humana” (p. 279). Bakhtin concebia o enunciado

como produção oral ou escrita, cuja delimitação é assinalada pela mudança de locutor, e

39 Cf. Maingueneau ([1996] 1997: 41-42; 1998: cap. 4; 2002a: 221-223).

40 Enunciado aparece, de resto, associado a discurso nos seguintes termos: “(...) un discours est un

énoncé caractérisable certes par des propriétés textuelles, mais surtout comme un acte de discours accompli dans une situation (...)”, ADAM, 1990: 24. Para uma discussão acerca das relações entre

é sobre esta concepção que iria desenvolver a noção de géneros do discurso (ou géneros de enunciado), que analisaremos mais à frente:

Todo enunciado – desde a breve réplica (monolexemática) até o romance ou o tratado científico – comporta um começo absoluto e um fim absoluto: antes de seu início, há os enunciados dos outros, depois de seu fim, há os enunciados-respostas dos outros (ainda que seja como uma compreensão responsiva ativa muda ou como um ato-resposta baseado em determinada compreensão). O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa do outro. O enunciado não é uma unidade

convencional, mas uma unidade real, estritamente delimitada pela alternância dos sujeitos falantes (...)”.

BAKHTIN [1979] 1992: 294 [Sublinhado meu]

No conjunto de apontamentos intitulado «O problema do texto», o autor distingue duas acepções para o termo texto: uma, que dirá de “sentido amplo”, que se refere ao texto enquanto “conjunto coerente de signos” (Bakhtin [1979] 1992: 329), e outra, sobre a que particularmente se debruça, que é a do “texto enquanto enunciado” (Bakhtin [1979] 1992: 330). Acerca desta última o autor indica: “Dois fatores

determinam um texto e o tornam um enunciado: seu projeto (a intenção) e a execução desse projeto” (Ibidem).

Apesar desta distinção, convém relembrar que a terminologia de Bakhtin apresenta oscilações, por vezes importantes. Como diz Bronckart (1997: 144), a flutuação terminológica de Bakhtin pode estar associada à evolução da obra e a problemas de tradução. É justamente por isso que Bronckart estabelece um sistema de equivalências de termos entre a sua proposta e a de Bakhtin41. Nesse sistema, o autor defende que os termos bakhtinianos enunciados, textos e enunciações podem equivaler a texto – quando se trata de “produções verbais finitas, associadas a uma única acção de linguagem” – e enunciado – no caso de “segmentos de produções verbais do tamanho da frase”42. O que implica que texto e enunciado são, para o autor, sempre unidades empíricas que podem coincidir ou não, de acordo com o duplo critério da completude e do tamanho (igual ou maior à frase).

41 No sistema também se integram outros termos como, por exemplo, “tipos de interacção verbal”, “géneros do discurso”, “língua” e “estilo”. Cf. Bronckart (1997: 144).

42 Textos: “productions verbales finies, associées à une seule action langagière”. Enunciados: “segments

O problema desta transposição terminológica é que parece abandonar – embora não o explicite – duas observações essenciais das reflexões bakhtinianas: por um lado, o factor da alternância de locutores como elemento delimitador e, por outro lado, e na sequência do papel que o autor atribui a essa alternância, o facto de que o enunciado para Bakhtin não se define pela extensão.

Dado este panorama, cabe delimitar os valores que adquirem estes dois termos no âmbito do presente trabalho. Para a noção de texto adopto especialmente o ponto de vista de Bronckart. Ou seja, trata-se de uma unidade semiolinguística “situada, finita e auto-suficiente”43. O traço da “completude” ou da “auto-suficiência” não deve, porém, entender-se como implicando uma propriedade de fechamento da unidade sobre si mesma, pois o texto é um objecto em permanente interacção com o exterior, isto é, constitui um sistema aberto (cf. Bernárdez, 1995: 138-142). Sendo uma unidade de comunicação completa, a alternância dos sujeitos falantes não constitui um parâmetro delimitador, uma vez que um texto pode ser produzido por um ou mais sujeitos (cf. Maingueneau, 1998: 43).

Para a noção de enunciado, também recorro a Bronckart, mas introduzindo uma diferença subtil. Como na definição bronckartiana, direi que os enunciados constituem “segmentos de produções verbais”, mas a diferença que proponho é não tomar como factor de medição a extensão da frase, ou seja, aceitar que, por exemplo, pode haver enunciados maiores do que uma frase. Quando um fragmento de uma obra científica, por exemplo, aparece como citação numa outra obra, esse fragmento (ou segmento textual) constitui um enunciado – uma parte de uma produção verbal anterior – e não um texto (que seria a obra completa). Neste exemplo, a citação é um enunciado, independentemente da quantidade de frases gramaticais que a conformem. Da mesma forma, diferentes secções (verbais) de qualquer texto constituem enunciados: o título, uma nota de rodapé, um slogan, um par pergunta-resposta numa conversa, etc. Os enunciados assim concebidos são unidades ‘dependentes’, ou seja, unidades que não são

43 Note-se que modifico propositadamente esta definição de Bronckart, em que assume o texto como uma unidade “verbal”: “Toute unité de production verbale située, finie et auto-suffisante (do point de vue

actionnel ou communicationnel)”, BRONCKART, 1997: 78. Esta alteração prende-se com o facto de eu defender que o texto pode conter elementos verbais e não verbais.

produções auto-suficientes, capazes de funcionar de forma autónoma na comunicação – como acontece com os textos.

Mesmo que esta distinção entre ambas as noções possa ser considerada marginal relativamente às outras definições, mais estabilizadas em Linguística, acredito que poderá revelar-se fundamental para o tratamento da problemática dos géneros e para a abordagem específica do processo de intertextualização.