3. Questões sobre a problemática do género
3.1. Géneros de... enunciado, texto ou discurso?
3.1. Géneros de... enunciado, texto ou discurso?
Provavelmente um dos aspectos fundamentais na problemática dos géneros – e que propositadamente evitei discutir nas secções anteriores – diz respeito às ‘unidades’ ou ‘realidades’ que a categoria visa distinguir: trata-se de enunciados, de textos ou de discursos? É fácil verificar diferentes modos de posicionar-se face a esta, aparentemente inofensiva, escolha terminológica, havendo autores que empregam a forma “géneros do [ou ainda, de] discurso” (Bakhtin, Todorov, Maingueneau e Adam) enquanto outros assumem que se trata de “géneros de texto” (Rastier e Bronckart). E não são estas as únicas formas utilizadas, pois há outras expressões a que os autores também recorrem para tratar aspectos da problemática genérica com diferentes matizes, por exemplo,
géneros sociolinguísticos de textos (Beacco 1991), géneros situacionais (Charaudeau
2001), géneros linguísticos (Bouquet 2001) e géneros da “parole” (Revista Langages, 153).
A opção por uma expressão ou por outra não é uma questão sem relevância, já que por trás de qualquer escolha terminológica há sempre um posicionamento de ordem epistemológica. Neste sentido, interessará distinguir o que sustenta cada uma destas escolhas – especialmente no que diz respeito às duas mais difundidas – e, ao mesmo tempo, assumir de modo explícito a opção que se defende neste trabalho.
Será conveniente começar a distinção das duas expressões – géneros do discurso e géneros de texto – recordando que muitos dos autores que hoje trabalham sobre os géneros se reconhecem influenciados pelas reflexões que sobre esta matéria surgiram nos trabalhos do “círculo de Bakhtin” – nomeadamente, no ensaio póstumo intitulado «Os géneros do discurso» (ou «O problema dos géneros do discurso», conforme as
traduções). Neste ensaio, Bakhtin define os géneros do discurso como sendo “tipos
relativamente estáveis de enunciados”. Uma definição condensada que merece algumas
observações: em primeiro lugar, o emprego do termo “tipo” não se inscreve, é claro, na problemática tipológica que discutimos acima – ou, em todo o caso, sendo mais próximo do uso corrente do termo, poderia corresponder à forma “classe” tal como Isenberg e outros linguistas textuais a definem (ver supra). Em segundo lugar, o facto de se explicitar o carácter “relativamente estável” dos tipos de enunciado deixa ver um modo de conceber os géneros em que se articulam dois traços inerentes à categoria: a estabilidade e a instabilidade, que são, portanto, constitutivas dos géneros. Em terceiro lugar, convém notar que Bakhtin utiliza o termo “enunciado”, tal como já vimos, enquanto unidade da comunicação verbal, cujas fronteiras estariam assinaladas pela alternância dos sujeitos falantes, e é por isso que para o autor quer a réplica de um diálogo quer o romance em vários tomos constituem enunciados (de géneros diferentes65).
Se esta definição – bem como todas as reflexões contidas neste ensaio – são objecto de discussão (ou até, de inspiração) para muitos dos investigadores actuais, menos frequente é, porém, a menção a uma passagem das notas publicadas sob o título «O problema do texto» em que Bakhtin utiliza a expressão “géneros de texto”66. Admitindo o cariz programático e fragmentado desses apontamentos, interessa, contudo, destacar que a presença dessa expressão parece indicar que para o autor não haveria coincidência entre géneros do discurso e géneros de texto – o que, de resto, se prende com o modo como Bakhtin discute o problema do “texto enquanto enunciado”.
Actualmente, a distinção entre estas duas denominações parece poder relacionar-se com questões que dizem respeito ao ponto de vista ou ao privilégio dado, no trabalho empírico, a algum aspecto da complexidade do género. Isto pode justificar-se, pelo menos em parte, pela diversidade de elementos que entram em jogo na definição desta noção – como já foi salientado – e, talvez, pelos próprios interesses dos investigadores,
65 Note-se que já Voloshinov num trabalho anterior a este de Bakhtin tinha falado em “pequenos géneros quotidianos” a propósitos de: uma pergunta completa, uma exclamação, uma ordem ou uma súplica. Cf. Voloshinov [1929]1992: 134-135.
66 Cf. Bakhtin [1979]1992: 330. Vale a pena referir que entre as poucas referências a esta forma de denominação na obra de Bakhtin conta-se o sistema de equivalências terminológicas proposto por Bronckart (1997: 144).
tal como deixa entrever Charaudeau no artigo «Genre de discours» do Dictionnaire
d’Analyse du Discours:
On voit que, pour définir cette notion, tantôt est pris en compte, de façon préférentielle, l’ancrage social du discours, tantôt sa nature communicationnelle, tantôt les régularités compositionnelles des textes, tantôt les caractéristiques
formelles des textes produits. On peut penser que ces différents aspects sont liés,
ce qui crée d’ailleurs des affinités autour de deux orientations majeures : celle qui est plutôt tournée vers les textes justifiant la dénomination « genres de texte », celle plutôt tournée vers les conditions de production du discours justifiant la dénomination « genre de discours ».
CHARAUDEAU 2002:280
É possível observar que os autores que, na esteira de Bakhtin, utilizam a forma “géneros do discurso” – eventualmente transformada em géneros de discurso67 –, colocam o acento no acto de utilização da língua numa determinada prática social. Assim, Maingueneau, por exemplo, considera os géneros como constituindo “actividades sociais”, “actos de linguagem de um nível de complexidade superior” (Maingueneau, 1998: 51)ou “dispositivos de comunicação” (Maingueneau, 1998: 47) e J.-M. Adam diz, numa passagem citada supra, que se trata de “tipos de práticas
sociodiscursivas” (Adam, 2001a: 28)68.
Já os autores que utilizam a forma “géneros de texto”, sem descurar a relação dos textos com as circunstâncias em que são produzidos e/ou interpretados, põem o foco no facto de o género ser uma categoria que diz respeito aos diferentes “formatos textuais”, que moldam ou organizam a utilização da língua, e imprimem ao termo
discurso um valor particular – quer mais geral e abrangente (Rastier), quer mais
específico e restrito (Bronckart).
67 A transformação da contracção “do” para a preposição “de” não constitui um simples pormenor. Acerca desta alteração, parece-me esclarecedora a seguinte observação de Bronckart: “Ce déplacement
nous paraît contestable pour deux raisons:
- il revient à annuler la distinction de niveau ou d’ordre que le programme méthodologique de Voloshinov posait entre l’agir langagier (ou discours) et le texte;
- il conduit en conséquence à poser de facto une relation de correspondance bi-univoque entre sortes de discours-activités et sortes de textes, ce qui est contredit par les faits.”,BRONCKART 2004: 102.
Um problema adicional da eliminação do artigo na contracção do é que a expressão género de discurso (ou género discursivo) parece poder ser mais ambígua. Por exemplo, há autores que utilizam esta formulação a propósito do jornalismo, da publicidade, da literatura, etc. (Ver, a título de ilustração disto, Marnette 2003). No quadro da minha investigação, evito essa acepção, pois conforme as discussões já realizadas, isso corresponde a “esferas de utilização da língua” (Bakhtin) ou a espécies de “actividades de linguagem” ou “espécies (sortes) de discursos” (Bronckart) ou ainda a “tipos de discurso” (Rastier), mas em nenhum caso a géneros, tal como ficou definido na secção II.2.2.
68 De facto, Maingueneau reconhece num artigo de 2004 que na área da Análise do Discurso a categoria “género de discurso” é geralmente definida a partir de critérios situacionais. Cf. Maingueneau 2004: 108.
Mas, curiosamente, se observarmos os exemplos que todos os autores referidos mencionam como membros da categoria género, comprovaremos que, na maior parte dos casos, ambas as expressões são utilizadas para fazer referência à mesma classe de objectos (não faltam o romance, o debate, o editorial, o anúncio publicitário...). Isto pode explicar-se pelas concepções que cada investigador defende acerca das próprias noções de texto e de discurso.
Em suma, a opção por género de texto ou género do discurso depende de dois factores essenciais: a perspectiva (e os interesses) de estudo e a concepção assumida relativamente às noções de texto e de discurso. Daí resulta que para o presente trabalho seja necessário fazer corresponder a noção de género ao modo como concebemos o texto, o discurso e, também, o enunciado.
No intuito de justificar as minhas opções, proponho começar por uma breve reflexão a partir de alguns exemplos. Depois destas observações, será proposta uma sistematização das relações entre as expressões, tais como elas poderão ser utilizadas, quando necessário, ao logo da presente dissertação.
Começo por citar quatro exemplos: dois, que Maingueneau considera “géneros do discurso” e dois que Rastier considera “géneros de texto”. Os exemplos de Maingueneau são o provérbio e o cabeçalho dos artigos de jornais (“chapeau”), e os casos de Rastier são os exemplos de linguística e os títulos dos tratados69. Que Maingueneau e Rastier considerem estes exemplos como sendo géneros do discurso e géneros de texto, respectivamente, é coerente com o modo como cada um destes autores concebe as noções de discurso e de texto, mas no quadro das opções terminológicas que se definiram para o presente trabalho (secção II.1.2.) estas modalidades de estruturação do material linguístico não podem constituir géneros “de texto”. De facto, se estas etiquetas identificam unidades de materialização do uso da língua relativamente estabilizadas, elas não são auto-suficientes do ponto de vista comunicacional. De modo que a diferença fundamental entre estas formas e as mencionadas mais acima (romance, debate, editorial, anúncio publicitário...) radica na possibilidade ou impossibilidade de funcionamento autónomo. Quer isto dizer que enquanto um anúncio publicitário ou um
debate político são unidades auto-suficientes, um exemplo de linguística ou um
69 Sobre os cabeçalhos de artigo de jornal, ver Maingueneau 1998: 45; sobre o provérbio, ver Grésillon & Maingueneau 1984; sobre os exemplos de linguística, ver Rastier 1989: 37; e sobre os títulos, ver Rastier 2001a: 266.
cabeçalho de artigo de jornal só são produzidos e compreendidos no quadro de uma
unidade maior onde ganham sentido – unidade essa a que chamamos texto.
Neste sentido, e na sequência das considerações já realizadas, estes exemplos são, a meu ver, géneros de enunciado70 que se integram em géneros de texto: o cabeçalho num artigo de jornal, o exemplo de linguística numa dissertação académica, etc. Isto, porque estes casos são formas de estruturação do material linguístico que, apresentando uma relativa estabilidade (semântica, composicional, pragmática, disposicional, etc.), constituem formatações não autónomas.
Assim, um artigo científico – que é auto-suficiente do ponto de vista comunicacional – é um género de texto, no qual é possível identificar diferentes géneros de enunciado, a saber: título, resumo, listagem de palavras-chave, notas de rodapé, referências bibliográficas, etc. Esta diferenciação segue as escolhas realizadas
relativamente ao modo como já se assumiu a distinção entre texto e enunciado (secção II.1.2.1) e que, da minha perspectiva, resulta operatória para o trabalho de identificação de unidades.
Eventualmente um género de enunciado pode funcionar como único constituinte de um texto. Por exemplo, uma troca de cumprimentos constitui em muitos casos um género de enunciado que se actualiza na abertura de uma conversa entre um entrevistador e um entrevistado – sendo, portanto, uma unidade subordinada ao género de texto entrevista –, mas no caso de um encontro entre dois sujeitos na rua este pode ser o único constituinte do texto produzido.
Outro exemplo: um prólogo é sempre uma unidade dependente, isto é, um género de enunciado. Mas no caso da colectânea de prólogos do escritor argentino Jorge Luís Borges pode dizer-se que este género é de certa forma ‘recategorizado’, uma vez que passa a integrar uma antologia de prólogos71. Neste exemplo, o género de enunciado prólogo parece ganhar uma autonomia que justificaria considerá-lo género de texto, contudo, um prólogo retirado do seu contexto original e re-publicado
70 Como veremos mais à frente, isto seria equivalente àquilo que Rastier chama “géneros incluídos”. 71 Trata-se do livro Prólogos con un prólogo de prólogos, de 1975, que reúne prólogos de obras anteriores do escritor. Um caso diferente é o de outro escritor argentino, Macedonio Fernández, que escreveu um romance – Museo de la novela de la Eterna – constituído por uma série de capítulos que assumem o formato de prólogos para um romance. Como veremos mais tarde, o primeiro é um caso de intertextualidade e o segundo de intertextualização.
isoladamente (ou em articulação com outras obras do mesmo autor e/ou do mesmo género) já não é nem o mesmo enunciado nem um verdadeiro prólogo72.
Dado que em qualquer um dos exemplos comentados estamos a falar em formatações específicas da língua em funcionamento, pode dizer-se que se trata sempre de géneros do discurso. Portanto, a organização terminológica que seguirei permite incluir as três expressões: géneros do discurso, géneros de texto e géneros de enunciado. Como vemos, a relação entre estas três denominações não é de uma completa sinonímia: a forma géneros do discurso pode corresponder a qualquer uma das outras duas, na medida em que se refere a configurações relativamente estáveis da língua em (disc)u(r)so73. Os géneros de texto são aquelas formatações que funcionam de forma autónoma na comunicação, enquanto que reservamos a noção de géneros de enunciado para dar conta das construções verbais que, apresentando também uma certa estabilidade reconhecível, carecem da auto-suficiência associada à unidade texto. Neste sentido, o emprego da forma género sem especificação pode remeter para qualquer uma destas possibilidades.
GÉNEROS DE TEXTO (CONSTITUINTE DE...)
GÉNEROS DE ENUNCIADO (INTEGRA...) (PODE EQUIVALER A...) (PODE EQUIVALER A...) GÉNEROS DO DISCURSO
72 Uma pergunta que surge naturalmente desta observação é qual seria o género desse ‘novo’ texto destituído da sua função original de prólogo. Assumo que não tenho uma resposta para isto e fica só esta nota para explicitar que não desconheço as implicações das minhas afirmações.
73 Note-se que no Brasil, por exemplo, onde existe um número importante de investigadores interessados na problemática do género há uma tendência para o emprego das formas género de texto (ou textual) e