1. O processo de intertextualização
1.3. Intertextualização e intertextualidade – algumas especificações
1.3.1. Do «constitutivo» e do «mostrado» (ou estratégico)
A distinção entre o “constitutivo” e o “mostrado” foi proposta inicialmente por Jacqueline Authier-Revuz a propósito da problemática de “heterogeneidade enunciativa” (cf., entre outros, Authier-Revuz, 1982 e 1984). Apoiando-se na concepção de dialogismo de Bakhtin e na psicanálise lacaniana, a autora diferencia a
heterogeneidade constitutiva de todo o discurso (e de todo o sujeito) da heterogeneidade mostrada no discurso:
Hétérogénéité constitutive du discours et hétérogénéité montrée dans le discours représentent deux ordres de réalité différents : celui des processus réels de constitution d’un discours et celui des processus non moins réels, de représentation dans un discours, de sa constitution. (...)
À une hétérogénéité radicale, en extériorité interne au sujet, et au discours, comme telle
non localisable et non représentable dans un discours qu’elle constitue, celle de l’Autre du discours, où jouent l’interdiscours et l’inconscient, s’oppose la représentation, dans le
discours, des différentiations, disjonctions, frontières intérieur/extérieur à travers lesquelles l’un, sujet, discours, se délimite dans la pluralité des autres, et en même temps affirme la figure d’un énonciateur extérieur à son discours.
Assim, a heterogeneidade constitutiva diz respeito à alteridade intrínseca de todo
o discurso, enquanto que a heterogeneidade mostrada reúne as formas marcadas (citação, discurso directo...) ou não marcadas (alusão, ironia...) de presença de outros discursos nos textos.
Posteriormente, esta distinção nascida no seio da Linguística Enunciativa foi largamente retomada, por exemplo, por analistas do discurso (ver, a título de exemplo, Maingueneau, 1987). Isto implica que hoje falar em “constitutivo” e “mostrado” esteja marcado por uma tradição de trabalhos que foram fixando um sentido preciso para tais termos. Apesar disso, correrei o risco de propor a utilização destes termos para exprimir duas classes de relações dialógicas particulares, diferentes das identificadas por Authier-Revuz.
No quadro da discussão acerca dos processos de intertextualidade e intertextualização – tal como antes definidos – podemos identificar duas espécies de existência para cada um dos processos: por um lado, a intertextualidade constitutiva e a intertextualidade (mostrada ou) estratégica, e, por outro lado, a intertextualização constitutiva e a intertextualização (mostrada ou) estratégica.
Dizer que ‘algo’ é constitutivo de ‘alguma coisa’ significa que esse ‘algo’ faz parte da natureza (da essência) daquela ‘coisa’. Ou seja, a ‘coisa’ não pode ser sem esse ‘algo’. É por isso que apenas este termo consegue exprimir a relação causal que pretendo explicitar através das formas intertextualidade e intertextualização constitutivas.
A intertextualidade constitutiva corresponde a uma característica específica de relação entre textos empíricos: há intertextualidade constitutiva quando um texto só pode existir a partir da existência de um determinado texto anterior. Esta característica pode ser um dos parâmetros de certos géneros de texto. Alguns exemplos muito claros são as recensões académicas, os apontamentos escolares e as entrevistas publicadas na imprensa. Uma recensão académica só existe na medida em que há um texto anterior (obra científica ou literária, artigo, tese, etc.), os apontamentos escolares (seja qual for o nível de ensino) só existem na sequência de uma aula e uma entrevista na imprensa
sempre depende de uma entrevista prévia, normalmente oral. Também observámos esta característica no caso do boletim meteorológico da imprensa, analisado na secção II.4.4. O Texto B.1 é um exemplo desta classe de relação constitutiva. Trata-se de uma recensão da obra “A Vontade de Sistema. Estudos sobre Filosofia e Política” de Diogo Pires Aurélio realizada por André Barata. É evidente que este texto (a recensão) só pode existir na medida em que existe a obra comentada. Esse texto anterior (a obra comentada) percorre e instaura toda a recensão. A intertextualidade é constitutiva deste texto, independentemente de ele conter citações explícitas de fragmentos da obra.
A intertextualidade estratégica (ou mostrada, para retomar o termo de Authier-Revuz) diz respeito às diferentes formas de integração, na construção textual, de textos (ou fragmentos textuais) anteriores. Esta espécie de intertextualidade é uma opção assumida pelo produtor textual. É aqui que se situam os mecanismos da citação (directa ou indirecta), da alusão, da paródia e, ainda, do plágio.
O Texto B.2, um exemplar de anúncio publicitário, ilustra este processo, na medida em que se introduz um fragmento da obra publicitada – segmento isolado graficamente e colocado entre aspas. Tal citação não é uma presença exigida pelo género anúncio. De facto, trata-se de uma escolha (estratégica) que visa despertar o interesse do destinatário para a leitura da obra e, portanto, para a compra do livro.
Paralelamente, a intertextualização constitutiva é a relação necessária entre dois ou mais géneros textuais no interior de um texto. Neste âmbito localizam-se todos aqueles géneros que se instituem a partir da convocação de outros géneros (ou dos seus traços ou parâmetros). Quando se discutiu a problemática das classes de géneros, mencionei o caso dos “géneros secundários” identificados por Bakhtin: “Durante o
processo de sua formação, esses gêneros secundários absorvem e transmutam os gêneros primários (simples) de todas as espécies, que se constituíram em circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea” (Bakhtin [1979] 1992: 281).
Os géneros secundários fundam-se, portanto, numa intertextualização constitutiva. Também os “géneros rapsódicos” de que fala Rastier – por exemplo, o romance – podem ser considerados casos desta espécie de relação.
O Texto B.3 exemplifica este caso. O género cartoon precisa mobilizar diferentes formas genéricas para a sua realização – do mesmo modo que a banda desenhada e a tira123. Muitas vezes trata-se de géneros orais, embora, como se observará em outros exemplos deste trabalho, esta não seja a única possibilidade. No caso escolhido, o texto convoca parâmetros (temáticos, enunciativos, composicionais) do género ‘sessão de terapia psicológica’. Far-se-á uma análise mais detalhada destes elementos na secção III.2.
A intertextualização estratégica é o correspondente, ao nível dos géneros, da intertextualidade estratégica, que funciona ao nível dos textos empíricos. Trata-se do processo de construção textual em que se convocam traços associados a géneros diferentes daquele em que se inscreve o texto em causa, sem que se trate de uma relação causal necessária – ou seja, este texto poderia ‘existir’ sem a convocação desses géneros outros, já que o género de que participa não ‘exige’ a convocação de outras formas genéricas.
O Texto B.4 é um exemplo de intertextualização estratégica. O exemplar inscreve-se no género ‘artigo jornalístico de opinião’, mas convoca traços associados ao género ‘conto maravilhoso’ (por exemplo, a expressão ritualizada “Era uma vez...” e a organização descritivo-narrativa dos dois primeiros parágrafos). Este cruzamento de géneros não é ‘constitutivo’ do género artigo de opinião, mas corresponde a uma estratégia (argumentativa) implementada pelo autor do texto, na sequência de objectivos precisos. Também este caso será comentado mais à frente.
Note-se que a intertextualidade e a intertextualização constitutivas são aspectos envolvidos na ‘constituição’ dos géneros, enquanto que a intertextualidade e a intertextualização estratégicas podem localizar-se apenas ao nível do texto singular e não dos géneros. Por outras palavras, quando se trata de um processo estratégico, ele não constitui necessariamente uma ‘regularidade’ do género em causa, mas antes uma ‘possibilidade’ do género ou, até, uma ‘inovação’.
123 Cabe sublinhar que refiro apenas àqueles cartoons que incluem uma componente verbal. Acerca destes géneros, e para um estudo de caso sobre textos portugueses ver Souza & Gonçalves (2004). Para uma distinção do ponto de vista icónico, ver Peltzer (1991: 144-148).
Um último aspecto deve ser referido relativamente à distinção destas relações dialógicas. Desde que haja uma relação ‘constitutiva’ poderá existir alguma classe de relação ‘estratégica’ – marcada ou não marcada. Por exemplo, na recensão – que se constitui a partir de um outro texto – o texto anterior é ‘mostrado’ de alguma forma. O mesmo acontece no caso da intertextualização constitutiva. Por exemplo, no género
cartoon, constitutivamente construído mediante a convocação de outros géneros, haverá
sempre intertextualização estratégica – embora não seja possível em todos os casos identificar com exactidão o género “absorvido ou transmutado”. Contrariamente, uma relação estratégica pode integrar-se em exemplares de géneros que não se constituem na convocação de outros textos ou de outros géneros. De modo que é possível observar casos em que há somente intertextualidade ou intertextualização estratégicas. Voltaremos a estas relações na secção III.4, em que se propõe uma identificação de diferentes formas do processo de intertextualização.