4. Análise de textos e análise de géneros
4.2. Vias de abordagem
4.2.4. J.-P. Bronckart: o modelo da arquitectura interna dos textos
No quadro do Interaccionismo Sociodiscursivo (ISD) propõem-se dois modelos fundamentais para a análise dos textos: o modelo da acção de linguagem e o modelo da arquitectura textual102. Alguns dos contributos surgidos na conceptualização do primeiro destes modelos já foram retomados na discussão acerca do texto enquanto unidade de comunicação (cf. secção II.1.1.). Agora, observaremos em particular o segundo modelo, que diz respeito à organização interna dos textos.
Antes de apresentar os elementos constituintes do modelo, interessa referir o modo como Bronckart introduz a necessidade de analisar a organização interna dos textos na sua obra de 1997. O capítulo 4º do livro, que dá uma visão de conjunto do modelo, é iniciado por um “texto-exemplo”. Depois, o autor indica algumas características do texto que permitiriam inferir que se trata de um exemplar do género
conto: a indicação paratextual na publicação original (“Contes populaires et légendes”),
a presença de segmentos que apresentam uma sucessão de acontecimentos ancorados numa origem temporal única, a ocorrência de segmentos que reproduzem diálogos de personagens e o processo de colocação em intriga (“mise en intrigue”) em que o texto de baseia. A partir deste exemplo, Bronckart coloca algumas ideias que, apesar da extensão, vale a pena reproduzir literalmente:
Outres qu’elles sont assez banales, ces considérations ont ceci de paradoxal qu’elles ne nous permettent pas d’identifier les propriétés spécifiques du conte ; on retrouve habituellement dans des genres voisins, comme le roman ou la
novelle, les trois sortes de segments que nous venons de décrire, de même que
les processus de mise en intrigue, souvent orientés par une visée morale. Si donc, pour un lecteur averti, notre texte-exemple constitue bien un conte, le problème de l’objectivation de cette évidence, c’est-à-dire de l’identification des caractéristiques qui le différencieraient des autres genres, demeure largement ouvert.
Pour progresser dans cette direction, il convient de procéder à une analyse plus fine de l’organisation interne du texte, allant au-delà des indications intuitives fournies par la lecture, et allant également au-delà des indices para-linguistiques qui y sont disponibles. Et une telle analyse doit reposer sur les hypothèses, les concepts et les méthodes que les sciences du langage élaborent aujourd’hui, à partir de l’examen comparatif des multiples sortes de textes attestables.
BRONCKART 1997:119
102
“Les produits de base de l’ISD sont d’une part le modèle de l’action langagière, qui vise à conceptualiser les conditions synchroniques de production des textes, et le modèle de l’architecture textuelle”, BRONCKART 2005a : 155.
Há três questões que importa comentar nesta citação. A primeira questão diz respeito a que, segundo Bronckart, as características observadas no exemplo não permitem identificar “propriedades específicas” do género conto, já que se encontram também em outros géneros próximos. A meu ver, o problema apontado aqui pelo autor prende-se com o facto de assumir que as propriedades “específicas” de um género deveriam ser ‘exclusivas’ desse género. Contudo, parece-me ser possível admitir que ‘específico’ e ‘exclusivo’ não são necessariamente sinónimos e, portanto, as características levantadas podem ser ‘específicas’ (sem ser ‘exclusivas’) de vários géneros em que são recorrentes. De facto, o próprio autor demonstra – eis o paradoxo de que fala – que essas características descritas são recorrentes nos textos do mesmo género, quando utiliza ao longo da sua análise as seguintes expressões: “Comme dans
toute conte...” e “comme dans la plupart des contes...”.
É claro que isto não resolve o problema da diferenciação dos géneros, o que nos leva à segunda questão suscitada pelas palavras do autor. Bronckart explicita em poucas linhas a problemática que constitui o motor da minha investigação: se um leitor é capaz de identificar um texto como inscrito no género conto, como será possível objectivar essa evidência? Sendo o núcleo do meu trabalho, não se justifica agora tentar responder a esta interrogação. O que interessa destacar especialmente neste momento é o facto de o autor explicitar, por um lado, que isto constitui um problema ainda em aberto e, por outro lado, que para avançar na identificação e diferenciação dos géneros é preciso realizar análises mais aprofundadas da organização interna dos textos.
Finalmente, a terceira questão surge na sequência deste último comentário. No quadro do ISD propõe-se, como veremos, o modelo da “arquitectura textual” para dar conta da organização interna dos textos. Este modelo permite descrever textos empíricos, identificando níveis de organização comuns a todos os textos. No entanto, nesta apresentação global do modelo – em particular, no fragmento citado acima –, Bronckart menciona a necessidade de analisar a organização interna dos textos para objectivar o que possibilita identificar e diferenciar os géneros. Neste sentido, pode assumir-se que se este instrumento permite descrever características linguísticas de um texto empírico (ou, hipoteticamente, de todos os textos empíricos), poderá permitir também dar conta de regularidades linguísticas ao nível das configurações genéricas. Convém sublinhar, todavia, que esta é uma conclusão minha e que a possibilidade de
descrição linguística dos géneros apresenta algumas oscilações na produção científica de Bronckart. De facto, na obra de 1997, o autor parece defender a impossibilidade de caracterização dos géneros através de critérios linguísticos (cf., por exemplo, Bronckart, 1997: 138), mas em trabalhos posteriores Bronckart explicitará que a análise de características linguísticas próprias aos géneros constitui uma das tarefas do ISD (cf., por exemplo, Bronckart: 2006).
A arquitectura interna dos textos
Na proposta do ISD, a organização de todo o texto é concebida como um “folhado” constituído por três camadas sobrepostas. A camada mais superficial envolve os mecanismos de responsabilização enunciativa, a camada intermédia diz respeito aos
mecanismos de textualização e a camada mais profunda constitui a infra-estrutura geral do texto. Cada uma destas camadas corresponde a um nível da arquitectura interna dos textos. A distribuição em níveis visa dar conta da estruturação hierárquica da organização dos textos e constitui uma distinção metodológica que se assume, por isso, como parcialmente “artificial”. Vale explicitar que o termo “nível”, tal como aqui se emprega, diz respeito ao ‘grau de dependência contextual’ dos fenómenos – o que justifica falar em níveis mais ou menos “superficiais” ou mais ou menos “profundos”.
Os mecanismos de responsabilização enunciativa
Este nível corresponde, como dissemos, à camada mais superficial do “folhado textual”, já que depende mais directamente dos parâmetros da situação de acção. Reúne duas classes de mecanismos: por um lado, a gestão das vozes no (ou do) texto e, por outro lado, a marcação das modalizações.
No que diz respeito à gestão das vozes, defende-se uma organização hierárquica que contempla uma instância supra-ordenada, encarregada da atribuição das responsabilidades enunciativas, e um conjunto de instâncias infra-ordenadas. A instância supra-ordenada poderá ser denominada expositor ou narrador conforme o tipo de discurso mobilizado no texto (ver infra a noção de “tipos de discurso”). As instâncias
infra-ordenadas constituem vozes que podem ser agrupadas em três subconjuntos: a voz
do autor empírico do texto, as vozes sociais (ou seja, as que correspondem a pessoas ou
instituições humanas exteriores ao conteúdo temático do texto) e as vozes de
personagens (pessoas ou instituições implicadas directamente no percurso temático).
As modalizações, por seu lado, correspondem às avaliações ou julgamentos que a partir de qualquer uma das vozes se realizam relativamente a aspectos do conteúdo temático. Elas são distribuídas em quatro subconjuntos: as modalizações lógicas, as modalizações deônticas, as modalizações apreciativas e as modalizações pragmáticas. Estas são realizadas por unidades ou conjuntos de unidades linguísticas (a incluir tempos verbais, auxiliares de modalização, certos advérbios, frases impessoais, etc.).
Os mecanismos de textualização
O nível intermediário da arquitectura textual é constituído por três mecanismos que asseguram a coerência temática dos textos: a conexão, a coesão nominal e a coesão
verbal.
Os mecanismos de conexão assinalam as articulações da progressão temática através de marcas de conexão denominadas “organizadores textuais”. A categoria dos organizadores textuais reúne unidades linguísticas que pertencem a classes gramaticais diferentes, que se organizam em tipos de sintagmas diferentes e que podem assumir funções específicas no quadro da microssintaxe ou da macrossintaxe. Entre as funções dos organizadores textuais distinguem-se as de segmentação, demarcação ou balizamento, empacotamento, encaixe e ligação.
Os mecanismos de coesão nominal são responsáveis pela introdução e retoma de argumentos, explicitando as relações de dependência referencial. São assegurados por unidades que podem assumir uma função anafórica – nomes e pronomes.
Finalmente, os mecanismos de coesão verbal permitem explicitar as relações de continuidade, descontinuidade e/ou oposição entre séries de predicados ou entre sintagmas verbais; de modo que estes mecanismos são responsáveis pela organização temporal e hierárquica dos processos (estados, acontecimentos ou acções) verbalizados nos textos.
No quadro da presente dissertação, importa sublinhar que a escolha do termo ‘textualização’ para dar conta apenas dos mecanismos de conexão e coesão parece ser difícil de justificar. De facto, não fica claro, na proposta do ISD, o que significaria exactamente ‘textualizar’. A meu ver, a opção por este termo nesta proposta tem mais a ver com a ideia de ‘textura’ (enquanto acção de ‘tecer’) que com a noção de ‘texto’. Neste sentido, note-se que existem textos em que os mecanismos acima apresentados não se realizam; por exemplo, nos textos compostos por uma única palavra – como no caso de um cartaz com a palavra “saída”. Por isso, cabe explicitar que no meu trabalho o termo assume, como já vimos, um significado diferente. Este significado está ligado à noção de ‘texto’ que defendo.
A infra-estrutura geral
A infra-estrutura geral do texto corresponde ao nível mais “profundo” (ou menos directamente dependente da situação de acção) e é composta pelo plano geral do texto, pelos tipos de discurso, pelas sequências e outras formas de planificação, e pelas
modalidades de articulação entre os tipos de discurso (encaixe e fusão). É preciso
dizer, contudo, que cada um destes elementos apresenta graus de desenvolvimento diversos e que, portanto, o peso de cada um deles no modelo é desigual.
O elemento que apresenta menor grau de desenvolvimento (teórico e empírico) nesta proposta diz respeito à noção de plano geral do texto. Numa primeira definição assume-se que o plano de um texto corresponde à “organização de conjunto do conteúdo temático” que, sendo recuperável no processo de leitura, “pode ser codificado num resumo” (Bronckart, 1997: 121, tradução minha). Mais tarde na mesma obra, acrescenta-se que o plano é “determinado pela combinatória específica dos tipos de discurso, das sequências e das outras formas de planificação que aparecem no texto” (Bronckart, 1997: 253, tradução minha). Apesar destas definições, nota-se a dificuldade em lidar com uma noção que, como o próprio autor assinala, costuma ser utilizada num “sentido fraco ou não técnico” (Bronckart, 1997: 252). Para Bronckart, não parece ser possível conceptualizar, categorizar e classificar os planos de texto. Todavia, o facto de o ISD introduzir este elemento no modelo demonstra a necessidade de identificar uma unidade de estruturação (ou composição) que permita apreender a globalidade do texto.
Esta necessidade evidencia-se, também, em trabalhos de análise de textos empíricos desenvolvidos no quadro do ISD, em que o plano geral do texto constitui um dos primeiros elementos observados (cf., por exemplo, Bronckart & Machado 2004: 145).
A noção de tipos de discurso é, em contrapartida, amplamente desenvolvida no modelo e constitui, de facto, um dois maiores contributos do ISD para a análise dos textos e dos géneros. Os tipos de discurso são definidos como segmentos que entram na composição dos géneros103 (e, portanto, de cada texto empírico), nos quais se traduzem mundos discursivos particulares (ou diferentes “atitudes de locução”). Na base desta noção encontra-se a “tipologia dos discursos” de Simonin-Grumbach (1975), que visava identificar o conjunto de unidades linguísticas dos mundos ou planos enunciativos e descrever as suas operações psicológicas constitutivas104.
Na proposta do ISD, defende-se a existência de quatro tipos de discurso (interactivo, teórico, narração e relato interactivo), cuja identificação é possível a partir das unidades linguísticas que neles ocorrem. A configuração das unidades conforma “tipos linguísticos” específicos para cada língua natural, que semiotizam quatro “mundos discursivos”. Estes mundos surgem da relação que se estabelece na produção textual entre as coordenadas que organizam o conteúdo temático mobilizado no texto e as coordenadas do mundo ordinário (relativo à situação de acção). Essa relação sintetiza-se no seguinte quadro:
Coordenadas gerais dos mundos
Conjunção
EXPOR Disjunção NARRAR Implicação Discurso interactivo Relato interactivo Relação ao
acto de
produção Autonomia Discurso teórico Narração
Traduzido de BRONCKART 1997: 159
103 “Les types de discours sont des formes d’organisation linguistique, en nombre limité, dont sont composés, selon des modalités diverses, tous les genres textuels”, BRONCKART,1997:254.
104 Para além do papel fundamental deste artigo de Simonin-Grumbach, a problemática dos tipos de discurso no ISD é também herdeira dos trabalhos de Benveniste, Weinrich e Genette.
A identificação e a caracterização dos tipos de discurso surgiram, como o próprio autor explicita (cf. Bronckart, 1997: 77-83), na sequência de uma análise quantitativa e qualitativa de textos empíricos de géneros variados, produzidos em francês contemporâneo. Neste sentido, convém levar em consideração os comentários do autor acerca da constituição do corpus:
Malgré ce souci d’exhaustivité et de contrôle, (...) notre corpus ne peut prétendre fournir une représentation équilibrée de l’ensemble des sortes de textes du français contemporain. Il nous faut admettre que les textes oraux y restent assez minoritaires (pour les raisons techniques bien connues de lourdeur de leurs conditions de recueil et de transcription), et que les textes écrits relevant des genres conventionnels y demeurent vraisemblablement sur-représentés. La portée des propositions d’analyse qui seront formulées plus loin, en particulier dans les chapitres 5 à 9, doit donc être évaluée en tenant compte de ce déséquilibre vraisemblable de notre corpus en faveur des textes écrits normés. BRONCKART 1997 :82
Esta observação do autor introduz uma ressalva importante, na medida em que atribui ao género dos textos analisados um papel central. O facto de terem sido analisados textos de alguns géneros (romance, conto, autobiografia, editorial, carta, conferência, entrevista e conversa, entre outros) não compromete o trabalho, mas limitará necessariamente, como o autor reconhece, o alcance dos resultados obtidos. Longe de ser um obstáculo, a aceitação destas ‘limitações’ permite, ainda, abrir novos rumos de pesquisa: que novas especificidades poderiam ser encontradas se fossem observados exemplares de outros géneros ‘menos convencionais’?
Um pouco no mesmo sentido, repare-se que a identificação de unidades linguísticas associadas a cada tipo de discurso foi realizada primeiramente sobre textos produzidos em francês. É verdade que já existem trabalhos sobre textos produzidos em outras línguas (português, espanhol, basco, etc.) e que a própria tradução da obra de 1997 para o português e para o espanhol, por exemplo, exigiu um trabalho de ‘adaptação’ às especificidades dos sistemas dessas línguas. Contudo, este não deixa de ser um aspecto que teria toda a vantagem em ser ainda aprofundado.
Levando em consideração estas observações, vale a pena apontar a configuração de unidades linguísticas que está associada a cada tipo de discurso. Na tabela da página seguinte, apresento uma síntese elaborada a partir da caracterização proposta por Bronckart (1997: 169-181).
DISCURSO INTERACTIVO
Pode ser dialogado ou monologado, oral ou escrito. Alternância de turnos de fala nas formas dialogadas.
Presença de unidades que remetem à interacção verbal (real ou encenada).
Presença de frases não declarativas (interrogativas e imperativas).
Exploração do subsistema de verbos do plano do discurso (Benveniste): presente, pretérito perfeito e futuro perifrástico; geralmente, com valor deíctico.
Presença de unidades que remetem: a objectos acessíveis (ostensivos), ao espaço (deícticos espaciais) e ao tempo (deícticos temporais).
Presença de nomes próprios, verbos, pronomes e adjectivos de primeira e segunda pessoa do singular ou do plural, que remetem aos protagonistas da interacção verbal (valor exofórico).
Presença do pronome indefinido “on”, com valor de primeira pessoa do singular ou do plural.
Presença de anáforas pronominais.
Presença de auxiliares de modo (poder, dever, querer, ser preciso, etc.).
Densidade verbal elevada. Densidade sintagmática baixa.
RELATO INTERACTIVO
Geralmente monologado.
Ausência de frases não declarativas.
Exploração do subsistema de verbos do plano da história (Benveniste) ou dos tempos narrativos (Weinrich): pretérito perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito, futuro simples e condicional.
Presença de organizadores temporais (advérbios, sintagmas preposicionais, coordenativos, subordinativos, etc.).
Presença de pronomes e adjectivos de primeira e segunda pessoa do singular e do plural, que remetem aos protagonistas da interacção verbal.
Presença dominante de anáforas pronominais, às vezes associadas a anáforas nominais (repetição fiel do antecedente). Densidade verbal elevada.
Densidade sintagmática baixa.
DISCURSO TEÓRICO
Geralmente monologado e escrito. Ausência de frases não declarativas
Exploração do subsistema de verbos do plano do discurso (Benveniste), mas com uma clara dominância das formas do presente e do pretérito perfeito composto com valor genérico. Ausência de unidades que remetam aos interactantes ou ao espaço-tempo da produção.
Possibilidade de ocorrência da segunda pessoa do plural ou da forma “on”, quando não remetem aos participantes da interacção em curso.
Presença de organizadores com valor lógico-argumentativo. Presença de modalizações lógicas e do auxiliar “poder”.
Exploração de procedimentos de focalização (metatextuais, intratextuais, intertextuais).
Presença de frases passivas.
Presença de anáforas pronominais, anáforas nominais e procedimentos de referenciação deíctica intratextual.
Densidade verbal baixa.
Densidade sintagmática elevada.
NARRAÇÃO
Geralmente escrito e sempre monologado. Presença exclusiva de frases declarativas.
Exploração do subsistema de verbos do plano da história (Benveniste) ou dos tempos narrativos (Weinrich), sendo o pretérito perfeito e o imperfeito os tempos dominantes.
Presença de organizadores temporais (advérbios, sintagmas preposicionais, coordenativos, subordinativos, etc.).
Ausência de pronomes e adjectivos de primeira e segunda pessoa do singular e do plural, que remetem aos protagonistas da interacção verbal.
Presença conjunta de anáforas pronominais e anáforas nominais (geralmente, retomada do sintagma antecedente com substituição lexical).
Densidade verbal média. Densidade sintagmática média.
Note-se que a homogeneidade dos critérios de classificação permite estabelecer, de facto, uma tipologia, que respeita largamente os requisitos de qualquer tipologização, tal como identificados por Isenberg ([1983] 1987) e comentados na secção II.2.1. do presente trabalho. No entanto, esta tipologia não foge do problema da confrontação com segmentos de textos empíricos que podem pôr em causa a rigidez dos limites. Esta questão exige uma conceptualização dos tipos de discurso que integre a problemática das fronteiras, das variantes e das fusões possíveis, o que constitui um aspecto que o próprio autor não deixa de introduzir e desenvolver (Bronckart, 1997: 189-211).
Para a presente investigação, é relevante observar como se relacionam os tipos de discurso e os géneros. Segundo Bronckart (2006), a estruturação geral dos géneros depende das actividades humanas a que eles se associam (dimensão praxiológica), enquanto que a estruturação dos tipos de discurso está ligada às formas em que se podem desdobrar as operações do pensamento humano (dimensão gnoseológica ou epistémica). Um dado tipo de discurso pode integrar-se a (ou fazer parte de) diferentes géneros. Além disso, todo o texto comporta necessariamente pelo menos um tipo de discurso. Na sequência disto, podemos dizer, com Anna Rachel Machado, que: “parece
ser lógico afirmar que, se admitimos que os tipos de discurso estão presentes em qualquer texto e que todo o texto se baseia em determinado gênero, eles também são uma das características dos gêneros” (Machado, 2005: 245).
Mas a questão que se coloca é até que ponto a relação entre tipos de discurso e géneros apresenta alguma regularidade. Por outras palavras, os diferentes géneros seleccionam sempre os mesmos tipos de discurso? E, mais: a ocorrência de um determinado tipo de discurso pode ser um indício para a identificação de um género textual? Sem dúvida, estas questões não podem encontrar uma resposta definitiva no quadro da presente investigação, já que seria preciso desenvolver estudos específicos sobre a relação entre géneros e tipos de discurso. Apesar disso, podemos apontar algumas breves observações.
Na obra (teórico-metodológica) de 1997, Bronckart não discute especificamente esta relação. Todavia, na caracterização dos tipos de discurso, o autor não deixa de indicar o género em que se inscrevem os exemplos apresentados, a saber:
Discurso interactivo → conversa (numa livraria); romance Discurso teórico → monografia científica; dicionário Relato interactivo → intervenção política oral; romance Narração → romance
Da mesma forma, são indicados os géneros em que se podem encontrar casos de