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A questão das comissões de conciliação prévia

Capítulo III. D OS PRINCÍPIOS DO DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO

3. Princípios específicos do direito processual do trabalho

3.3 Conciliação

3.3.1 A questão das comissões de conciliação prévia

As comissões de conciliação prévia são órgãos criados no âmbito dos sindicatos ou das empresas, com a finalidade de resolução do conflito individual trabalhista por meio da autocomposição. Trata-se de um meio alternativo, extrajudicial, de solução do conflito que tem por finalidade propiciar maior celeridade à resolução da lide, sem a burocracia do poder judiciário trabalhista.

Diante da presença de conciliadores, empregados e empregadores poderão, consensualmente, colocar fim ao conflito.

A criação das comissões de conciliação prévia é facultativa, e estas podem ser criadas no âmbito das empresas ou dos sindicatos, e terão o mesmo número de representantes dos empregados e dos empregadores, conforme disciplina o art. 625-A da CLT.

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Assevera o art. 625-D da CLT: “Qualquer demanda de natureza trabalhista será submetida à Comissão de Conciliação Prévia se, na localidade da prestação de serviços, houver sido instituída a comissão no âmbito da empresa ou do sindicato da categoria”.

Diante do referido dispositivo legal, há entendimentos na doutrina e jurisprudência de que a passagem do conflito individual trabalhista pela Comissão de Conciliação Prévia é um pressuposto processual ou uma condição da ação que devem ser preenchidos quando do ajuizamento da ação trabalhista, vale dizer: se não houver a tentativa de conciliação perante a Comissão de Conciliação Prévia, deverá o juiz do trabalho a requerimento, ou ex officio, extinguir o processo, sem resolução de mérito, nos termos do art. 267 do CPC.

Argumentam, ainda, os defensores das Comissões de Conciliação Prévia, que a tentativa de conciliação extrajudicial como condição de ingresso da reclamação trabalhista tem por objetivo estimular a conciliação, desafogar o judiciário trabalhista e ainda melhorar a prestação jurisdicional da justiça do trabalho, o que somente será possível se se entender obrigatória a tentativa de conciliação extrajudicial.

Embora a lei diga que qualquer demanda “será submetida à comissão”, não apresenta qualquer penalidade para o descumprimento. Se não há penalidade, não se pode concluir que há obrigatoriedade.

Além disso, a conciliação pode ser tentada na audiência trabalhista pelo juiz do trabalho. As tentativas conciliatórias do juiz do trabalho suprem eventual necessidade de conciliação extrajudicial. Não nos parece ser justo e razoável o juiz do trabalho, após tentar a conciliação e não obtê-la, extinguir o processo em razão da falta de passagem do litígio pela Comissão de Conciliação Prévia. Tal extinção estaria negando os princípios constitucionais da duração razoável do processo, da efetividade processual e do acesso à justiça. Questiona-se: se o acordo não surgiu diante das partes, dos advogados e do juiz do trabalho, ele acontecerá na Comissão de Conciliação Prévia? Pensamos que não.

De outro lado, é da essência da justiça do trabalho facilitar o acesso do trabalhador à justiça do trabalho e a finalidade essencial do processo trabalhista é dirimir, com justiça, o conflito trabalhista. De outro lado, a vocação conciliatória da justiça do trabalho é histórica, inclusive por mandamento legal (art. 764 da CLT). Por isso, não há como a justiça do trabalho furtar-se a apreciar uma demanda em razão de falta de conciliação prévia, quando é dever do magistrado buscá-la em juízo.

O Supremo Tribunal Federal, recentemente, em controle concentrado de constitucionalidade, fixou entendimento no sentido de não ser obrigatória a submissão do

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litígio trabalhista à Comissão de Conciliação Prévia como condição de ingresso na justiça do trabalho, conforme notícia publicada no site do Supremo Tribunal Federal em 13.05.2009, conforme segue:

“Comissões de Conciliação Prévia. Liminar em ação direta de inconstitucionalidade. Ministro Marco Aurélio. Quarta-feira, 13 de maio de 2009. Trabalhador pode ingressar na justiça mesmo sem tentar conciliação prévia. Por maioria de votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou nesta quarta-feira (13) que demandas trabalhistas podem ser submetidas ao poder judiciário antes que tenham sido analisadas por uma Comissão de Conciliação Prévia. Para os ministros, esse entendimento preserva o direito universal dos cidadãos de acesso à justiça. A decisão é liminar e vale até o julgamento final da matéria, contestada em duas ações diretas de inconstitucionalidade (ADIn 2.139 e 2.160) ajuizadas por quatro partidos políticos e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comércio (CNTC). Tanto a confederação quanto o PCdoB, o PSB, o PT e o PDT argumentaram que a regra da Consolidação das Leis do Trabalho representava um limite à liberdade de escolha da via mais conveniente para submeter eventuais demandas trabalhistas. Sete ministros deferiram o pedido de liminar feito nas ações para dar interpretação conforme a Constituição Federal ao art. 625-D da CLT, que obrigava o trabalhador a primeiro procurar a conciliação no caso de a demanda trabalhista ocorrer em local que conte com uma comissão de conciliação, seja na empresa ou no sindicato da categoria. Com isso, o empregado pode escolher entre a conciliação e ingressar com reclamação trabalhista no judiciário. Divergência: Quando o julgamento dos pedidos de liminar nas ações começou, em janeiro de 2000, o ministro Marco Aurélio foi o primeiro a divergir do relator, ministro Octavio Gallotti, no sentido de deferir em parte a cautelar para dar interpretação conforme ao art. 625-D da CLT. Em agosto de 2007, foi a vez de os ministros Sepúlveda Pertence, Cármen Lúcia Antunes Rocha, Ricardo Lewandowski e Eros Grau unirem-se a Marco Aurélio. Nesta tarde, o entendimento foi sacramentado com os votos dos ministros Joaquim Barbosa e Carlos Ayres Britto. Segundo Barbosa, manter a regra do art. 625-D da CLT sem interpretação conforme a constituição representaria uma “séria restrição do direito de acesso à justiça para os trabalhadores”. Para Ayres Britto, a solução dada pelo plenário “estimula a conciliação e mantém uma tradição da justiça trabalhista de tentar a conciliação, sem sacrificar o direito universal de acesso à jurisdição [pelos cidadãos]”. Ele lembrou o voto do ministro Marco Aurélio no sentido de que, quando a constituição quer excluir uma demanda do campo de apreciação do judiciário, ela o faz de forma expressa, como ocorre, por exemplo, na área desportiva. Nesse caso, o ingresso no judiciário somente pode ocorrer após se esgotarem as instâncias da justiça desportiva (§ 1º do art. 217). Contramão da

história: Último a se pronunciar sobre a matéria, o ministro Cezar Peluso disse que a decisão do Supremo está na “contramão da história”. Segundo ele, o dispositivo da

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Consolidação das Leis do Trabalho não representa bloqueio, impedimento ou exclusão do recurso à universalidade da jurisdição. “Eu acho que, com o devido respeito, a postura da Corte, restringindo a possibilidade da tentativa obrigatória de conciliação, está na contramão da história, porque em vários outros países hoje há obrigatoriedade do recurso às chamadas vias alternativas de resolução de conflitos, até porque o poder judiciário não tem dado conta suficiente da carga de processos”, afirmou o ministro. Para ele, a regra da Consolidação das Leis do Trabalho representa “simplesmente uma tentativa preliminar de conciliar e de resolver pacificamente o conflito, com a vantagem de uma solução não ser imposta autoritariamente. As soluções consensuais são, em todas as medidas, as melhores do ponto de vista social”, concluiu. Outros dispositivos: As ações questionavam ainda outros dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho. No caso do art. 625-E da CLT o pedido não foi conhecido, ou seja, analisado. Esse artigo determina que o acordo lavrado na comissão de conciliação será título executivo extrajudicial. Nesse ponto, o ministro Marco Aurélio ficou vencido. O pedido de liminar contra o inc. II do art. 852-B da CLT foi negado. O dispositivo fixa que não se fará citação por edital no procedimento sumaríssimo. As decisões quanto a esses dispositivos foram tomadas quando o julgamento dos pedidos de liminar nas ações começou, em 2000.”22

Pelo exposto, pensamos que a passagem do conflito trabalhista pela Comissão de Conciliação Prévia é facultativa. Se a parte preferir, pode procurar diretamente a justiça do trabalho.