Parte I – os principais aspectos abordados:
3.1.3. A Revolução e a Democracia
O período entre 1974 e 1994 foi pontuado por acontecimentos de grande relevância no panorama social e político, que contribuíram para moldar tanto o modo de vida da população, como a economia da região ou a organização territorial de Lisboa. Após 40 anos de um regime com pouca abertura ao exterior, e no final de uma década muito positiva para a economia portuguesa, o processo de revolução, contrarrevolução e normalização democrática, teve profundos efeitos sobre os comportamentos, acompanhados por um enquadramento internacional instável, com consequências sobre a economia nacional.
A queda do regime político do Estado Novo com a Revolução dos Cravos (1974), a constituição de um regime democrático e parlamentar (1975) e o período de normalização democrática com a candidatura (1977) e, mais tarde, a adesão à UE (1986) vieram criar uma alteração do contexto social e político, que foi acompanhada por um aumento significativo da população proveniente das ex‐ colónias e pelo consequente agravar da dispersão da urbanização, acentuando a ocupação periférica, cujo processo se tinha iniciado no período anterior. No entanto, embora seja passível de caracterização como um período de ruptura, este foi também um período de transição em variados aspectos, permitindo que as transformações sociais e culturais iniciadas nos anos 60, motivadas pela abertura ao exterior e inflamadas pela guerra colonial e pelas desigualdades sociais, culminassem na alteração dos modos de pensar e na transição para um regime democrático de abertura e integração Europeia (BARRETO, 1996).
As variações demográficas em Portugal assumiram maior expressão em Lisboa, enquanto capital e destino de um grande número de portugueses e de emigrantes provenientes das ex‐colónias na sequência da descolonização. Deu‐se, simultaneamente, uma inversão no movimento da população, com uma redução do surto de emigração portuguesa para a Europa, espelhando as alterações na situação económica internacional associada à recessão e à crise petrolífera de 1973, assim como a
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 131 entrada de população proveniente do Brasil e de África (BARRETO, [et al.], 2000). O impacte desta dupla entrada de população resultou num brutal aumento populacional da região de Lisboa durante os anos 70138, cujo crescimento se atenuou na década seguinte – o êxodo rural estabilizou, deixando de ser a fonte do crescimento demográfico, sendo substituído gradualmente por migrações de estrangeiros. No que respeita a movimentos internos metropolitanos, a cidade de Lisboa continuou a ser o epicentro da região, embora tenha sofrido um decréscimo de população residente, deslocada para os municípios periféricos, como consequência da especulação imobiliária e do aumento dos valores dos terrenos (cuja tendência se viria a acentuar no período seguinte).
Se este foi um período de profundas transformações políticas, sociais e demográficas, foi igualmente, um período de transformações económicas, marcadas por rápidos ciclos de crescimento e crise, moldados pelas políticas nacionais e pelo enquadramento externo, com reflexos sobre o território e sobre as atividades económicas. A partir de 1974, a economia entrou num novo ciclo, afastando‐se dos anos dourados da década de 60, e caracterizando‐se por um crescimento económico lento e com problemas de equilíbrio externo. Mas apesar deste panorama, foi lentamente acompanhado por uma melhoria generalizada das condições de vida da população, e pelo aumento dos salários e do consumo. A terciarização das atividades económicas foi rápida, com a redução drástica do sector primário, a estabilização da população industrial e com os serviços a constituírem‐se como o principal empregador, com a expansão dos sectores de educação, comércio, restauração, hotelaria e do sistema bancário e de telecomunicações. Alterou‐se, igualmente, a estrutura empresarial, deixando de ser composta por um número reduzido e homogéneo de grandes investidores, para passar a compor‐se por um conjunto mais diversificado de investidores estrangeiros e nacionais, com a emergência de empresas de média e pequena dimensão, com base no acesso ao crédito bancário. Este ciclo de crise iniciado com a revolução e com a queda do regime, foi marcado por uma forte influência de factores externos, como a crise do petróleo de 1973‐74, que afectou transversalmente a Europa industrializada, com consequências sobre a dificuldade de equilíbrio na balança de pagamentos, na perda do valor aquisitivo dos produtos nacionais e na queda dos termos de troca. Aliados aos factores externos, a redução do número de emigrantes e da entrada das suas remessas monetárias, a descolonização e as mudanças revolucionárias, vieram contribuir para acentuar a crise económica e a instabilidade social. Como resposta, foi tomado um conjunto de medidas económicas de forma a incentivar ao investimento privado e ao aumento da produção, mas criando uma situação de inflação e de crédito internacional, que culminou com o primeiro resgate do Fundo Monetário internacional (FMI), em 1978. As políticas económicas de contenção acordadas tiveram impactes sociais graves, mas resultaram numa recuperação económica rápida, com o aumento de exportações associado à desvalorização da moeda (LOPES, 1996). No entanto, a segunda crise do petróleo, em 1979, inverteu novamente a balança de exportações, refletindo‐se negativamente sobre a economia
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Estima‐se que a entrada de população em Portugal proveniente da emigração colonial e da emigração continental seja na ordem das 600 000 pessoas (entre 1974 e 1975) e de 500 000 pessoas (até 1985). In BARRETO, A., [et al.]‐ Portugal na
Europa, 1960‐1996 ‐ Uma leitura política de convergência económica: A situação social em Portugal, 1960‐1999. Indicadores sociais em Portugal e na União Europeia. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa,
132 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa nacional, para a qual se adoptou uma postura expansionista de estímulo ao consumo, contrária ao resto da Europa (LOBO, 2000), com recurso a níveis de endividamento externo extremo, que justificaram o recurso ao segundo resgate do FMI, em 1983.
Nos anos seguintes à revolução, o clima de instabilidade política, social e económica, originaram variadas convulsões sociais e greves, que se fizeram sentir no sector industrial que se ressentiu com estas alterações, assim como com a perda das matérias‐primas provenientes das ex‐colónias após o final da guerra colonial, resultando numa quebra do emprego industrial, num momento em que o fluxo populacional aumentava exponencialmente. Por outro lado, o fenómeno de explosão da
periferia de Lisboa, agravado pela emigração proveniente das ex‐colónias, adquiriu um novo fôlego e
um importante peso na dinâmica económica, explicado pela necessidade de alojamento imediato de um grande número de famílias, acentuando‐se a dispersão territorial ao longo dos eixos de crescimento anteriormente identificados, resultando num conjunto de fragmentos urbanos de rápido crescimento. Esta fase veio contribuir, assim, para um grande desenvolvimento da construção civil, com um impulso para a aquisição de habitação própria permanente ou de fim de semana, consideradas como um investimento sólido face à instabilidade financeira e aos altos níveis de inflação. Associado a este desenvolvimento aumentaram, igualmente, a especulação sobre o solo e os preços da habitação, com a proliferação de situações marginais. No início da década de 80, Lisboa era, então, uma região que apresentava uma dificuldade de resposta à exigência infraestrutural da recentemente adquirida população que só viria a ser solucionada com a entrada e aplicação dos fundos comunitários, a partir de 1986139.
A viragem deu‐se no final de 1985, quando a economia entrou numa nova fase ascendente, com o crescimento do PIB e melhorias significativas no nível de vida da população, enquadrada num clima de equilíbrio externo. Este foi o início do ciclo económico expansionista, com um equilíbrio político estável e com um forte investimento de capitais estrangeiros, que anteciparam as condições favoráveis associadas ao mercado único (AMARAL, 2010).
A adesão à UE esteve na base deste segundo impulso Europeu na economia Portuguesa, com a abertura do mercado e o acesso aos apoios financeiros (através dos fundos estruturais e, a partir de 1993, também dos fundos de coesão), que viriam, nesta primeira fase, contribuir para colmatar os atrasos estruturais em relação à média dos restantes estado‐membros e impulsionar a economia, cujo declínio industrial era já evidente. A nível infraestrutural, este foi o momento de transição para o ciclo urbano que se afirmaria na década seguinte, através da construção das infraestruturas rodoviárias previstas no Plano Diretor da Região de Lisboa de 1964, saneamento, equipamentos e recuperação de bairros degradados, viabilizados pelo acesso aos fundos por parte do governo central, em parcerias com privados. As mudanças económicas suportaram um conjunto de transformações sociais, com um aumento progressivo e generalizado do bem‐estar colectivo e individual. Os primeiros efeitos centraram‐se na melhoria das condições de vida da população,
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A primeira entrada de Fundos estruturais em Portugal compreende o período entre 1986 e 1988, vulgarmente designada por Anterior Regulamento. Posteriormente, seguiram‐se os Quadros Comunitários de Apoio (I, II e III) e QREN.
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 133 através do acesso generalizado à educação, a cuidados de saúde e infraestruturas de água, eletricidade e esgotos. De seguida, o reforço do investimento estrangeiro, catalisado pela abertura das fronteiras, o aumento do rendimento das famílias e a facilidade de acesso ao crédito, tiveram reflexos no crescimento e consolidação da classe média, suportando um segundo ciclo de consumo individual de bens e serviços, ligados ao acesso a telefone, televisão, máquinas domésticas, automóvel e casa própria.
Este novo ciclo no panorama económico de Portugal, iniciado integração na EU e a possibilidade de acesso aos fundos comunitários, iria conduzir o destino do país desde a segunda metade dos anos 80, tanto no que respeita à capacidade económica conduziu as obras de infraestruturação (públicas ou em parcerias com privados) guiadas por inúmeros programas e fundos de apoio, como à integração direta ou indireta de políticas comunitárias, com forte influência sobre diversos campos – políticas macroeconómicas, de transportes, de coesão, etc. Os primeiros impactes económicos começaram a fazer‐se sentir logo nos primeiros anos após a integração, através dos grandes investimentos a nível da infraestruturação, com a intenção de resolução de alguns dos mais graves problemas sociais e a aproximação ao nível de vida da média europeia. No entanto, a materialização destes apoios e as suas transformações territoriais tornaram‐se evidentes a nível nacional após 1994, quando as redes infraestruturais passaram a abranger praticamente todo o território e a toda a população, passando‐ se a uma fase de intensificação e consolidação da rede e oferta de alternativas, assim como uma aposta económica de produção de conhecimento como resposta conjunta da UE à desindustrialização e falta de competitividade industrial no contexto do mundo globalizado.
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