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O ponto de partida 

No documento Filamentos metropolitanos (páginas 40-57)

O  século  XX  poderia  ser  denominado  como  a  época  das  metrópoles,  em  que  o  processo  de  urbanização  adquiriu  um  ritmo  acelerado  de  desenvolvimento,  com  o  aumento  da  população  mundial,  a  sua  deslocação  em  massa  para  as  cidades  e  a  consequente  criação  de  aglomerados  urbanos de grande escala (mega‐cidades, conurbações urbanas, territórios metropolitanos, paisagens 

urbanizadas, etc.). 

As  metrópoles  de  hoje  são  o  reflexo  de  diferentes  formas  de  apropriação  do  espaço,  lógicas  de  crescimento  urbano  e  estilos  de  vida  contemporâneos,  que  se  formalizam  na  construção  de  um  território em constante transformação, vasto e onde convergem milhões de habitantes. Atualmente,  a  maioria  da  população  mundial  vive  em  espaços  urbanos,  justificando  a  insistência  no  estudo  das  especificidades  destes  grandes  territórios  metropolitanos  e  dos  seus  processos  de  transformação,  através  da  análise  dos  diferentes  estados  de  desenvolvimento,  das  configurações  urbanas  que  lhe  estão associadas e da desmontagem dos factores que as determinaram. 

A contemporaneidade veio assumir‐se como um cenário de constantes e imediatas mudanças, que  se  desenrolam  a  velocidades  que  tornam  difícil  a  sua  análise  e conceptualização,  operadas  por  um  conjunto de alterações demográficas, económicas, de mobilidade e conectividade. A vida urbana de  hoje desafia os paradigmas clássicos e coloca novas questões às metrópoles: o desenvolvimento de  novas  práticas  sociais  e  económicas,  assim  como  as  mudanças  nos  valores  estéticos  e  culturais,  alteraram a cidade no seu aspecto e escala, contribuindo para a perda dos seus limites físicos e para  a  progressiva  constituição  de  uma  cidade  alargada,  dispersa  sobre  o  território  e  heterogénea  (MANGIN,  2004,  SECCHI,  2005[2009]).  Esta  nova  entidade  contemporânea  caracteriza‐se  pela  extensão  das  formas  urbanas  e  a  dissipação  programática,  pela  dispersão  residencial  a  grandes  distâncias do centro, polarização de funções anteriormente centrais em nós de grande acessibilidade  metropolitana,  grandes  transformações  internas  na  cidade  consolidada,  perda  de  centralidade,  aumento  dos  perímetros  suburbanos  e  congestionamento  das  infraestruturas  (FONT,  A.,  2007).  O  produto e a construção desta mobilidade física e virtual concretizam‐se, então, na vasta urbanização  do território (a expressão mais visível da metrópole) e a sua paisagem real, transversal à realidade  urbana mundial independentemente da sua escala ou localização geográfica.         4  Tal como propõe MORGADO, S.‐ Protagonismo de la ausencia: interpretácion urbanística de la formación metropolitana  de Lisboa desde lo desocupado. Barcelona: Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona, Universidad Politecnica  de Catalunya,  2005. Tese de Doutoramento. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 7  A  estrutura  do  território  metropolitano  pode  ser  encarada  como  a  expressão  da  cultura  contemporânea  (INDOVINA,  2004),  em  que  as  modificações  na  forma  de  viver  e  habitar  a  cidade  provocaram  uma  fragmentação  do  tecido  urbano,  e  em  que  a  mobilidade  veio  moldar  a  atual  configuração,  com  especial  importância  desde  a  introdução  da  utilização  do  automóvel  no  quotidiano das cidades, aliado ao aumento do número de habitantes e à necessidade de resposta às  rápidas modificações de escala e usos. Como consequência emergiram novas formas de habitar e de  socializar, novas lógicas de mercado e novos processos de urbanização marcados por uma extensão  urbana  que  abandonou  a  continuidade  física  para  seguir  a  lógica  da  conectividade  promovida  pela  rede infraestrutural e pela disponibilidade de áreas por edificar, por novos processos de distribuição  dos produtos e da informação, por novas formas de trabalho e pela alteração das estruturas sociais e  do cenário económico. 

A explicação da distinção entre as diversas áreas da cidade e a sua organização relativa, através da  leitura  do  espaço  urbano  como  não  homogéneo,  diferenciado  e  organizado  pelo  sistema  de  comunicações e mobilidades, permite entender a sua disposição espacial como estrutura e sistema  de relação entre os elementos que constituem o suporte físico de distribuição localizada de serviços,  usos  e  atividades  (SOLÀ‐MORALES,  1993).  O  objectivo  de  descongestionamento  do  tráfego  automóvel, a necessidade de grandes áreas de implantação e a existência de espaços desocupados,  com  valores  fundiários  mais  acessíveis  localizados  na  proximidade  da  rede  de  mobilidade  regional/nacional, vieram determinar a deslocação de empresas de serviços, do centro das cidades  consolidadas  para  a  sua  periferia.  Desta  forma,  a  rede  assume‐se  como  suporte  e  motor  para  o  aparecimento  de  novas  configurações  urbanas  (filamentos  metropolitanos),  caracterizadas  pela  ocupação de áreas periféricas em localizações estratégicas na rede de mobilidade grande velocidade,  que ocupam as parcelas distribuídas ao longo das vias de ligação aos nós das autoestradas e com um  elevado grau de especialização funcional5. Estas novas zonas especializadas (Parque industrial, Área 

logística,  Parque  empresarial,  Parque  de  Ciência,  Business  Park,  etc.)  são  implantadas  em  espaços 

desocupados,  de  carácter  rústico  ou  em  áreas  industriais  obsoletas,  operando  transformações  apoiadas num marketing urbano que promove a proximidade e acesso ao centro consolidado, ou a  eficaz capacidade de ligação à rede rodo‐ferroviária nacional/transnacional ou ao aeroporto. 

O  recurso  à  decomposição  do  território  nos  seus  elementos  base,  com  vista  à  sua  interpretação  como  um  conjunto  estratificado  de  camadas  (CORBOZ,  2001)  permitiu  a  identificação  desta  nova  forma de ocupação do espaço urbano, cuja leitura alargada no tempo permite a sua desmontagem  como  fruto  de  processos  de  transformação  territorial.  Ou  seja,  a  identificação  do  conjunto  dos  principais  factores  determinantes  (de  natureza  biofísica,  antrópica  ou  de  governança)  que  contribuíram  para  moldar  e  transformar  as  áreas  especializadas,  permite  identificar  este  processo  como  distinto  do  tradicional  crescimento  urbano  por  justaposição  ou  de  processos  formais  de  planeamento urbano. Este processo distancia‐se, então, das características dos centros consolidados         5  Com programas ligados na sua origem à indústria transformadora, que foram gradualmente sendo complementados por  atividades terciárias e quaternárias ligadas à armazenagem, processamento, distribuição, comércio, serviços e investigação  & desenvolvimento. 

8 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  e  concentra  características  específicas  e  inovadoras  ao  longo  do  tempo,  na  sua  relação  com  o  suporte biofísico, com a rede de infraestruturas e com a sua envolvente.  

As  áreas  especializadas  emergentes  constituem‐se  como  a  resposta  privada  às  necessidades  metropolitanas,  tendo  sido  geradas  muitas  vezes  de  forma  espontânea6  e  alheia  ao  tradicional  crescimento  urbano  e,  na  sua  generalidade,  desenvolvidas  paralelamente  (ou  anteriormente)  aos  instrumentos de planeamento. O processo distancia‐se das lógicas formais e funcionais tradicionais,  dando origem a uma imagem espontânea, que revela a falta de integração entre as várias partes – as  vias,  os  novos  elementos  construídos  e  o  contexto  físico  envolvente  (biofísico  e  antrópico).  A 

espessura da estrada (SECCHI, 1989), entendida como a relação entre o traçado viário, o crescimento 

e o contexto físico envolvente, encontra‐se, então, dependente de operações individuais, alheias ao  processo  de  planeamento,  que  não  se  constituem  como  um  projeto  integrado  dos  seus  três  elementos‐base, mas como resultado de uma falta de entendimento das lógicas e da incapacidade  generalizada de reconhecimento e leitura da estrutura espacial que suporta os ambientes criados.   Uma visão mais atenta sobre o território, tanto através do recurso a cartografia como a um percurso  pela sua rede viária, revela, entre as múltiplas transformações que se verificam, o aparecimento de  áreas que concentram atividades logísticas, industriais, terciárias e de produção de conhecimento em 

clusters  especializados,  cuja  existência  não  passa  desapercebida,  tanto  pela  sua  escala  como  pela 

imagem  produzida.  Embora  num  primeiro  contacto  a  sua  localização  não  seja  óbvia  em  relação  ao  centro  consolidado  da  cidade,  tendem  a  associar‐se  a  elementos  de  grande  força  e  presença  territorial:  as  infraestruturas  rodo‐ferroviárias.  Desta  forma,  estrategicamente  localizados  na  rede,  tiram partido da conectividade territorial, que lhes permite uma maior proximidade entre os vários  pontos, em termos temporais.   Da relação de proximidade e dependência com a via de circulação surgiram, assim, as configurações  filamentares, que num contexto metropolitano e da rede de alta velocidade assumiram a designação  de filamentos metropolitanos, reflectida no título da investigação, que revela a intenção de produção  de uma leitura destas emergentes áreas do território metropolitano. Intimamente ligadas à via, estas  formações urbanísticas são caracterizadas espacialmente por formas filamentares – que estabelecem  uma analogia com a formação filiforme existente em estruturas minerais – e quando lidas à escala  metropolitana,  formam  manchas  que  se  desenvolvem  como  cordões  lineares  ao  longo  das  infraestruturas de mobilidade.  

Assim, fruto das transformações aceleradas dos últimos anos, iniciou‐se um processo observável na  paisagem  metropolitana  contemporânea,  com  o  aparecimento  e  consolidação  de  formações  urbanísticas especializadas, os filamentos metropolitanos, estrategicamente localizadas na estrutura        

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  Segundo  B.  Secchi,  por  espontânea  consideram‐se  “…  uma  sucessão  de  iniciativas  por  meio  das  quais  se  procurou  responder a um conjunto disperso de exigências contingentes, que se modificavam ao longo do tempo…”, por oposição às  iniciativas que “… são o resultado de um projeto que procurou descrever antecipadamente um possível estado de coisas  futuras …”. In SECCHI, B.‐ Prima lezione di urbanistica ‐ Primeira lição de urbanismo (tradução de BARDA, M.; SALES, P.).  São Paulo: Perspectiva, 2006[2000]. ISBN 8527307731. P.17. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 9  urbana,  associadas  à  concentração  de  atividades  económicas  (na  sua  maioria  ligadas  aos  sectores  terciário e quaternário7, que assumiram um peso dominante na economia a partir da década de 90).  A identificação dos principais motores das transformações que levaram ao aparecimento das áreas  em  estudo,  abre  portas  para  uma  discussão  multidisciplinar  que  abrange  temáticas  variadas  e  interdependentes, mas o estudo proposto centra‐se em três eixos principais: a) análise dos processos  dos sistemas urbanos e no seu funcionamento; b) das alterações nas atividades económicas ao longo  dos últimos cinquenta anos; e c) nas vivências urbanas, fruto do contexto social, económico e político  do momento em que ocorrem. 

As alterações operadas a nível do suporte físico e do funcionamento dos sistemas urbanos surgiram  como  resposta  às  solicitações  económicas  e  sociais,  associadas  à  extensão  da  urbanização  pelo  território e à necessidade de deslocação eficientes. De forma a suportar estes movimentos, foi criada  uma  rede  rodo‐ferroviária  articulada  ligando  pontos  distantes  e  permitindo  deslocações  rápidas  e  eficazes entre os mesmos, assim como se assistiu à generalização da utilização do automóvel como  meio  de  transporte  individual  e  ao  aumento  dos  movimentos  de  transporte  de  mercadorias.  Esta  leitura e hierarquização do território em relação às infraestruturas de mobilidade (GRAHAM, [et al.],  2001) permitiu a deslocação de determinados programas urbanos para áreas de boa conectividade  em  relação  à  rede,  independentes  do  centro  consolidado,  o  que  abriu  portas  a  uma  dispersão  urbana.  Simultaneamente,  a  expansão  da  urbanização,  que  alargou  os  limites  da  cidade  à  área  metropolitana, veio introduzir a necessidade de infraestruturas de suporte e de integração na rede e  nos  sistemas  urbanos.  Ou  seja,  se  por  um  lado,  a  construção  das  infraestruturas  impulsionou  e  permitiu  o  crescimento  urbano  para  além  dos  limites  da  cidade,  foi  também  resultado  da  necessidade de infraestruturação que os novos aglomerados urbanos periféricos introduziram.  O  automóvel,  como  o  adaptador  territorial  universal  (DUPUY,  2008  [1991]),  contribuiu  de  forma  estruturante  para  a  recomposição  de  um  vasto  número  de  territórios,  permitindo  um  movimento  individual e quebrando a hierarquia das estruturas organizativas do espaço urbano – o primeiro nível  definido pela rede viária, pela rede de transportes públicos e pela rede de comunicações; o segundo  nível definido pela rede de produção, pela rede de consumo e pela rede doméstica; e, finalmente, o  terceiro nível definido pela rede/território residencial urbano (DUPUY, 2008 [1991]). A consequência  mais  visível  no  território  metropolitano  consiste  numa  maior  conexão  entre  os  diversos  pontos  ligados  pela  rede,  mas  por  outro  lado,  também  uma  maior  desconexão  e  fragmentação  do  tecido  urbano,  com  o  aparecimento  de  novas  áreas  de  crescimento  da  cidade,  com  lógicas  distantes  da  tradicional contiguidade, mas em que as distâncias são medidas em tempo de deslocação. A criação  da  rede  infraestrutural  permitiu,  então,  uma  extensão  urbana  ilimitada  suportada  pela  conectividade, mas também esteve na base do aparecimento de antigas áreas industriais obsoletas  (substituídas  por  cadeias  produtivas  distintas,  apoiadas  na  distribuição),  áreas  de  vazio  entre 

      

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  Sector  quaternário,  ou  terciário  superior,  da  economia  é  uma  expansão  dos  três  sectores  tradicionais,  que  classifica  as  atividades  relacionadas  com  serviços  intelectuais,  especificamente,  com  a  geração  e  difusão  de  conhecimento:  cultura,  educação, tecnologias de informação, investigação e desenvolvimento. 

10 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  ocupações urbanas, expectantes pela infraestruturação planeada ou simplesmente desinteressantes  sob a óptica de deslocação metropolitana. 

Por outro lado, as alterações no campo económico, relacionadas com os avanços tecnológicos e dos  transportes,  assumiram  uma  grande  importância  para  a  viragem  da  economia  centrada  no  sector  produtivo,  para  uma  economia  apoiada  nos  transportes  e  nos  serviços.  Assim,  do  modelo  de  produção  industrial,  de  concentração  em  áreas  de  grande  presença  territorial,  passou‐se  a  um  modelo pós‐fordista centrado nos serviços e caracterizado pela segmentação dos ciclos produtivos e  sua consequente deslocação para localizações distantes, impulsionando o crescimento das atividades  de processamento e distribuição dos bens.  

Por  outro  lado,  a  transformação  de  uma  economia  local  para  uma  economia  global  foi  suportada  pela melhoria da capacidade de transportes de mercadorias, mas também pelas inovações no campo  das telecomunicações (CASTELLS, 2009 [1999], SASSEN, 2001), que permitiram o contacto a grandes  distâncias  e  a  criação  de  uma  vasta  rede  de  transações  económicas  e  produtivas,  estabelecendo  ligações  virtuais  entre  pontos  distantes  do  globo,  sem  a  necessidade  de  presença  física  entre  os  diferentes  intervenientes  no  processo.  As  principais  consequências  territoriais  nos  países  desindustrializados  formalizaram‐se  no  abando  das  vastas  áreas  industriais  obsoletas  e  na  viragem  para áreas de concentração periférica de pequenas e médias empresas, que procuram tirar o melhor  partido  das  sinergias  entre  as  diferentes  atividade.  Distanciam‐se,  então,  das  anteriores  áreas  industriais  a  nível  programático  pela  mistura  funcional  entre  atividades  de  investigação,  desenvolvimento e produção, assim como de produção, distribuição e comércio.  

Finalmente,  a  nível  individual,  são  múltiplas  as  causas  que  sustentam  a  fragmentação  do  território  metropolitano, porque se por um lado, as novas tecnologias permitiram um maior grau de liberdade  e de deslocação espacial, por outro lado vieram colocar a questão da necessidade de existência de  espaço físico para o contacto social e exercício de cidadania, em alternativa aos tradicionais espaços  públicos, uma vez que cada indivíduo poderá criar a sua própria rede de interação a partir do acesso  à  tecnologia  (VIEIRA,  2008).  O  acesso  e  utilização  generalizada  das  novas  tecnologias  de  telecomunicação e o automóvel privado permitiram maior mobilidade territorial que impulsionou a  visão  fragmentada  e  o  uso  alargado  do  território  metropolitano,  sustentando  o  aparecimento  de  deslocações variadas e distantes dos movimentos pendulares de trabalho‐casa e para a construção  de  uma  realidade  urbana  individual  (ASCHER,  2010  [2001]).  Para  este  fenómeno  contribuíram,  igualmente  as  novas  formas  de  socialização,  os  locais  físicos  (ou  virtuais)  onde  decorre,  os  novos  padrões familiares e a multiplicidade de solicitações e ofertas de práticas urbanas associadas ao lazer  e consumo. O habitante do espaço mosaico territorial (LLOP, 2008), o cidadão cyborg (GRAHAM, [et 

al.],  2001,  SARAIVA,  2008),  move‐se  e  habita  em  cidades  dispersas,  com  peças  ligadas  por 

infraestruturas de mobilidade de alta velocidade, percorridas com recurso ao automóvel e de forma  fragmentada, por oposição ao flâneur do século XIX que percorria as avenidas contínuas e densas, o  que origina diferentes formas de socialização, de apropriação do espaço físico (e virtual) e cidadania. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 11  Da  postura  analítica  face  a  este  conjunto  de  transformações  recentes  surgiu  a  identificação  da  crescente  tendência  para  a  especialização  das  áreas  periféricas  de  concentração  de  atividades  económicas,  embora  nem  sempre  acompanhadas  por  um  planeamento  e  desenho  adequado  dos  espaços urbanos. O resultado evidencia a segregação dos novos núcleos urbanos especializados em  relação aos tecidos envolventes, constituindo formações por justaposição ao longo de linhas de força  associadas  às  infraestruturas  viárias  de  grande  velocidade,  que  integram  a  rede  metropolitana  e  permitem  um  alto  grau  de  conectividade,  em  pontos  estratégicos.  Esta  segregação  espacial  apresenta‐se  como  um  dos  problema  que  se  pretende  abordar  através  da  desmontagem  dos  processos  e  das  lógicas  subjacentes  à  formação  de  áreas  especializadas,  com  vista  a  revelar  e  demonstrar  o  potencial  do  plano/desenho/funcionamento  do  conjunto  formado  pelas  infraestruturas,  núcleos  emergentes  e  a  sua  envolvente,  de  forma  a  gerar  melhorias  na  qualidade  destes espaços e na vida dos seus habitantes. 

O desafio coloca‐se, então, na leitura e descodificação da paisagem metropolitana contemporânea, a  partir deste conjunto de espaços que apresentam grande dinamismo e adaptação. O principal motor  da investigação foi a vontade de entender as lógicas que sustentam os processos de transformação  urbana ao longo do tempo, as configurações urbanas resultantes e os elementos que as determinam,  focando  o  contexto  específico  do  território  metropolitano  de  Lisboa.  No  entanto,  ao  longo  do  período  de  desenvolvimento  do  presente  trabalho,  verificaram‐se  múltiplas  transformações  na  realidade metropolitana, que vieram introduzir novas visões e a necessidade de ajustes ao rumo da  investigação no sentido de uma abordagem multidisciplinar gradualmente mais alargada, como está  presente ao longo deste documento. 

12 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa 

FILAMENT Fig. 2  Fig. 4  Fig. 6  Fig. 8  TOS METROPOLLITANOS. A emeergência de moorfologias espec      Fig. 3      Fig. 5       Fig. 7       Fig. 9 cializadas no te   rritório metroppolitano de Lisb   boa  | 13         

14 |  FILAM Fig. 10  Fig. 12                Fig. 2: Foto Fig. 3: Foto Fig. 4: Foto Fig. 5: Foto Fig. 6: Foto Fig. 7: Foto Fig. 8: Foto Fig. 9: Foto Fig. 10: Fo Fig. 11: Fo Fig. 12: Fo Fig. 13: Fo MENTOS METR ografia (1) Fábr ografia (2) Cent ografia (3) Plata ografia (4) Port ografia (5) Arm ografia (6) Arm ografia (7) Arqu ografia (8) Lago otografia (9) Mo otografia (10) Ce otografia (11) Es otografia (12) Es OPOLITANOS. A   rica Solvay, Póv tral de tratame aforma logística to de Setúbal, M azéns logísticos azéns DHL, Par uiparque, Linda oas Park, Porto  ontijo retail par entro comercia spaço onde ope spaço onde ope A emergência d voa de S. Iria – V nto e recolha d a do Sobralinho Mitrena – Setúb s, Alverca do Ri rque industrial d ‐a‐Velha – Oeir Salvo – Oeiras rk, Montijo. 201 l Beloura, Sintr erava a Siderurg erava a CUF, Lav de morfologias       Fig. 1      Fig. 13 V.F.Xira. 2013. de resíduos Valo o, S. João da Ta bal. 2013.  ibatejo – V.F.Xi do Passil – Alco ras. 2013.  . 2013.  13.  a. 2012.  gia Nacional, P vradio – Barrei especializadas  1  3  or Sul, S. João d lha – Loures. 20 ra. 2013.  ochete. 2013.  aio Pires – Seix ro. 2013. no território m daTalha – Loure 013.  al. 2013.  metropolitano d es. 2013.  e Lisboa       

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 15 

 O contexto específico de Lisboa 

A  presente  investigação  centra‐se  nas  alterações  ocorridas  nos  últimos  cinquenta  anos,  no  seu  significado,  causas  e  efeitos,  definindo  como  objecto  de  estudo  as  alterações  na  estrutura  e  a  emergência  de  áreas  periféricas  especializadas  no  território  metropolitano  de  Lisboa.  Embora  a  temática  incida  sobre  uma  região  já  abordada  por  variados  autores,  a  investigação  foca  o  aspecto  específico relacionado com a configuração urbana destas áreas e estabelece uma leitura alargada do  território,  estruturada  pelas  transformações  operadas  pelos  espaços  destinados  às  atividades  económicas que ocuparam a periferia de Lisboa, desde a segunda metade do século XX.  

A  relação  entre  os  filamentos  metropolitanos,  as  dinâmicas  económicas,  sociais  e  políticas  e  a  configuração  metropolitana  é  uma  questão  de  fundo,  para  a  qual  se  procuram  respostas  na  interpretação  destas  formações  urbanísticas  emergentes,  como  parte  integrante  do  conjunto  que  necessita de estabelecer um diálogo com os tecidos envolventes. Desta forma, é considerado como  área de observação o território metropolitano de Lisboa – entendido como o limite administrativo da  Área  Metropolitana  de  Lisboa,  com  os  seus  18  municípios8,  em  conjunto  com  o  município  de  Benavente  –  por  se  tratar  do  território  em  que  a  estrutura  metropolitana  tem  mais  impacto  na 

ocorrência de fenómenos de alteração de ocupação de usos de solo cujo estudo se propõe, através de  uma  leitura  independente  dos  seus  limites  administrativos  (MORGADO,  2005).  Lisboa  é  assim 

entendida como uma laboratório metropolitano, assente numa perspectiva alargada e mais próxima  das  reais  dinâmicas  de  funcionamento  da  região  –  esta  abordagem  tem  vindo  a  guiar  variadas  investigações9  que  partem  da  vontade  de  conhecer,  caracterizar  e  descodificar  esta  realidade  metropolitana  para  poder  depois  operacionalizar  e  propor  estratégias  para  um  melhor  funcionamento e melhorias na qualidade de vida dos seus habitantes. 

A par com a construção da rede de mobilidade, a constituição de áreas de especialização funcional  ligadas às atividades económicas no território metropolitano de Lisboa foi fruto de um processo. A 

No documento Filamentos metropolitanos (páginas 40-57)