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Os contornos da seca

2.2. Matizes da lida e do manejo

2.3.2. A seca é o castigo de Deus

Sabe-se que há tempos a chamada antropologia rural vem se dedicando a diversas abordagens do campesinato em contextos empíricos variados, tanto no Brasil (Heredia, 1979; Velho, 1982; Almeida, 1986, 2007; Palmeira, 1989; Woortmann, 1990; Godoi, Menezes e Marin, 2009a, 2009b) quanto fora do país (Wolf, 1955; Bourdieu, 1962; Redfield, 1967; Delbos, 1982). Contudo, minha etnografia, como pretendi até agora expor, não tomará rumos (mesmo reconhecendo a importância dessa literatura nas circunstâncias etnográficas do mundo rural) junto às discussões de populações camponesas, concernentes, por exemplo, às célebres noções de campesinato ou ruralidade, a partir das quais as relações tradicionais de trabalho poderiam ser compreendidas pelas transformações do Mercado, em diálogo ou resistindo a ele, ou, então, por meio dos problemas relativos à desapropriação de terras em diversos domínios políticos (Godoi, 1999). Mesmo porque, não pretendo analisar o vaqueiro nordestino, por exemplo, como um agente social que, por ser parte de uma coletividade, estaria sob os arranjos de uma ordem moral, de uma ética específica, tal como a “campesinidade” (Woortmann, 1990). O meu desvio em relação a algumas dessas abordagens tem o intuito, por sua vez, de ir a favor da temática específica do pastoreio (Ingold, 1980; Teixeira e Ayube, 2016) pelo viés da inventividade (como já abordei anteriormente), bem como dialogar com alguns trabalhos realizados no sertão de Pernambuco que tratam de temas como bodes e criadores (Vasques, 2016), violência e política (Villela, 2004) ou vinganças de família (Marques, 2002).

Diante dessa justificativa, pretendo a partir das páginas seguintes contrastar a vida

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consideração as formas como ambos criativamente compunham suas realidades, administravam seus problemas diários e a eles resistiam.

Como havia dito, no tempo em que estive com o vaqueiro véio, diferentemente do tempo que passei com o vaqueiro-professor, conheci muitas pessoas que eram agricultores. Em sua maioria, eram vizinhos e amigos que reclamavam permanentemente do prejuízo causado pela seca. Em geral, todos esperavam que a chuva do início daquele ano continuasse ainda por alguns meses. Porém, ela veio em janeiro, pouco em fevereiro e se encerrou em março. Muitos perderam o que tinham plantado. Além da estiagem, os problemas eram também as pestes, principalmente o purgão e a lagarta. Muitos plantaram feijão de corda e milho, mas já vinham perdendo os roçados antes mesmo da colheita. Ao gado, ainda era possível, segundo diziam, segurar o pasto, caso os rumos determinados pelo tempo não exigissem que, em breve, a palma, a macambira ou o

mandacaru fossem dadas de comer aos bichos. O pasto estava se exaurindo, e a esperança também.

É nesse sentido que gostaria agora de apresentar alguns acontecimentos que pude compartilhar na morada do vaqueiro, principalmente no que diz respeito à questão da

seca, do tempo e da esperança. Em grande medida, os trarei a seguir para contrastar os arranjos práticos e reflexivos de Luiz e Genézio, inclusive para ressaltar as diferenças e as semelhanças entre duas pessoas que, sob o mesmo céu, buscavam contornar a seca, o

tempo ruim, enfim, os problemas trazidos pela vida no campo.

Dentre os/as que passavam diariamente pela sua casa, Genézio falou a um deles que, se não chovesse nos próximos dez dias, todos iriam perder o que plantaram. Genézio ressaltou, em uma conversa travada por ele, sua esposa e Damião (marido de sua funcionária), que a seca e os roçados perdidos eram castigos de Deus. Todos ficaram inconformados e rebateram arduamente a posição do vaqueiro.

– Oxe homi, tá ficando doido é, falar uma coisa dessa? – Indagou-se Damião, com a aprovação de sua esposa e de Dona Luzia, a mulher de Genézio. O vaqueiro, por sua vez, reafirmou novamente sua convicta posição sem pestanejar.

– Ué, mas não é castigo, não? Se não é castigo, o que é? Desde sei lá quando uma seca dessa? Isso não existe, homi!

Todos discordaram, dizendo que só de pronunciar tais palavras ou apenas cogitá- las já era pecado. Na visão de Damião, a despeito da perda do plantio e de todo o dinheiro investido, a resposta para os acontecimentos era bem clara. No limite, era uma justificativa tautológica totalmente insatisfatória para o vaqueiro.

152 – Essa é a vida do Nordestino, Genézio. Ela é assim mesmo. A vida do sertanejo é essa, sempre foi assim! – Disse Damião.

– Não, mas desse jeito nunca foi. Isso não existe. – Ainda convicto, Genézio reafirmara a todos que se tratava certamente de castigo. O que vinha acontecendo era uma provação de Deus, pois a seca de atualmente em nada se comparava com as outras.

Sua casa, como muitas da área rural, mesclava em suas paredes imagens de fé e fotografias de familiares. Santos e santas, crucifixos e terços promoviam, por um lado, uma estética da fé, e, por outro, inúmeros porta-retratos do casal com seus filhos e filhas, pais e avós, davam o valor da genealogia no seio da família sertaneja (Meneghelo, 2012, 2015). No entanto, naquele momento, trabalho, fé e família pareciam enfraquecidos. Muitos apostaram que o tempo seria bom. Mas o tempo não possibilitou colheitas, e o trabalho não se concretizou. Tempo e trabalho, portanto, tornaram-se objetos de conversas diárias entre moradores e familiares. Naquela ocasião, pensamentos como “se não choveu de novo, é porque não chove mais” davam de imediato que a seca veio para testar a fé do sertanejo. “Tantos esforços, tanto sofrimento, em troco de nada?”. Este era o principal dilema de várias pessoas no início daquele mês. Mas, para Genézio, tratava- se não só de uma inexatidão ou de uma simples insatisfação. Era um castigo divino. Se só a Deus cabe a decisão, se choverá ou não, para o vaqueiro, portanto, tratava-se de infortúnio e de provação. A sua falta de fé entristeceu seus conhecidos. E a tautologia de Damião, dizendo que “a vida do sertanejo é assim mesmo”, cuja exatidão está na conclusão de que tudo sempre foi e continua sendo da mesma maneira, ia de frente com as conclusões de Genézio.