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Os contornos da seca

2.2. Matizes da lida e do manejo

2.3.3. Tempo e esperança

Doravante, a tautologia de Damião implica uma decisão importante. Ela demonstra que a fé, mesmo sob determinadas condições, deve se manter inabalável, não deixando o sofrimento e os problemas tomarem conta dos pensamentos. Não fazer de Deus a justificativa pelo tempo ruim levou o amigo do vaqueiro a uma resposta baseada, inclusive, em situações históricas de estiagem e de migrações da população nordestina. “A vida do nordestino é assim mesmo, Genézio. O povo sempre sofreu com a seca, foi embora muitas vezes daqui e continua indo embora”, disse seu amigo. Ao mesmo tempo, a ideia de que “é assim mesmo” foi contrariada. A visão do vaqueiro demonstrou, nesse sentido, os limites da tautologia de Damião. Este que já não se mostrou tão convencido assim de seus argumentos, momentos depois daquele diálogo.

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Na mesma ocasião, Damião destacou outros fatores além da crença e da exatidão histórica relativa à vida do sertanejo. Disse que há pelo menos quinze anos a seca vem afetando a vida do produtor rural por motivos variados: a falta de investimentos dos

governantes, a situação econômica do país e as mudanças do tempo. Questões que, segundo ele, dificultavam a criação do rebanho e os investimentos na agricultura. A partir disso, tornara-se comum entre os moradores a percepção de que “as coisas não vão pra frente, só vão pra trás”. Em síntese, o que estava em jogo eram os esforços e os resultados não positivados.

Nesse processo, eles evocaram uma noção de tempo linear diretamente ligada às contingências históricas (“A vida do nordestino é assim mesmo”), mas sobretudo à relação entre tempo, chuva e produção (“Na seca, as coisas não vão pra frente, só vão pra trás”). Um dilema produtivo que concebe ao tempo uma linearidade que atrasa ou avança conforme os resultados obtidos e as imprevisões pluviométricas. Uma temporalidade que retrocede e procede diante das intempéries que podem ser contornadas, vencidas ou completamente insuperáveis (aqui, cabe o exemplo de quando os nordestinos migram). Se a seca é retrógrada e atrasa a vida no campo, a chuva, em contrapartida, é positiva. Ela faz com que tudo avance e floresça.

Visando não sobrepor à percepção dos moradores uma lógica binária do tempo (entre presente e futuro, por exemplo), o que proponho é que, em certos casos, a relação dos sertanejos com a irregularidade temporal impunha dúvidas quanto à perpetuação de sua linearidade que, teoricamente, deveria se manter dividida entre o período de inverno (tempo de chuva/tempo bom) e o período de verão (tempo da seca/tempo ruim)40.

Percebe-se que as estiagens impõem um movimento a-pendular ou desbalanceado, fazendo com que cotidianamente o tempo não avance como desejado e que os desequilíbrios façam da esperança a fórmula compartilhada pelos moradores. Pois, diante das perdas e dos prejuízos, eles buscavam recorrentemente, nas palavras de seus pares, as

mais variadas verdades e, em certas práticas, as mais distintas resoluções. É dessa forma que a esperança dá contorno a algumas relações de trabalho e de

convívio. Curiosamente, é na interrupção de um suposto equilíbrio temporal que o trabalho se reafirma mesmo diante do quadro assertivo de que a chuva só viria por

milagre. Embora o tempo que não se positiva seja o tempo que “não vai pra frente”, o

tempo parece não se negativar por completo, porque a esperança direciona os moradores

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a novos afazeres, a novas investidas, a novos movimentos. Mesmo depois dos roçados perdidos, da colheita predada, há ainda o esforço de não deixar que as negativações se aprofundem.

Não pretendo com esta última descrição sugerir que a linearidade e a desregulação do tempo promovem desequilíbrios sociais supostamente superados por meio de ulteriores coesões, como se, no contexto de uma comunidade rural, entre as intempéries e as transformações, tudo se auto regularia a partir de normas e de ações intrínsecas a uma coletividade estrutural e prévia. Em vez disso, prefiro pensar a relação paradoxal entre esperança e desequilíbrio a partir do modo como os interlocutores curiosamente a formulavam através do tempo. Do tempo que não avançava, mas não se negativa por completo. Para dar conta desse paradoxo, proponho conduzir uma análise a partir do que Bateson (2008 [1959]) formulou, por exemplo, a respeito da coesão social da perspectiva da sociedade Iatmul, principalmente quanto às definições do autor de “cismogênse simétrica” e “cismogênese complementar”, já evocadas nesta etnografia (cf. 1.2.2) em paralelo à dialética de Roy Wagner a favor de um saber “não-sintético” (Wagner, 2010 [1975]: 360).

Várias vezes evoquei nesta etnografia (vide supra capítulo I, principalmente seção 1.2.2) a ideia de que, diante das transformações, a relação convenção/diferenciação não promulgaria, segundo Roy Wagner, uma resolução única, mas uma multiplicidade de invenções controladas por sujeitos que, em meio a ambiguidades e a paradoxos, refazem suas realidades a despeito de uma abstrata ordem social. Longe de pensar que o tempo reflete periodicidades ou blocos históricos concernentes a uma totalidade passível de estruturações, minha intenção com a cismogênese batesoniana é analisar as relações entre esperança e desequilíbrio, entre tempo ruim e tempo bom, verão e inverno, avanços e retrocessos, como um paradoxo funcional dos afazeres diários, visto que ele próprio – o paradoxo enquanto oposição que ora organiza e intensifica relações, ora as secciona e as desmancha – traz novas práticas, novos referenciais e novas tonalidade à vida no campo. Por isso, me dedicarei a seguir aos referidos conceitos de Gregory Bateson.

Na obra Naven (Bateson, 2008 [1958]), as “cismogêneses” (“complementar” e “simétrica”) carregam consigo uma lógica específica: a cisão como um elemento nitidamente intrínseco à organização sociocultural. As contradições, as ambiguidades e os paradoxos da vida social Iatmual, por exemplo, compõem o pano de fundo comum pelo qual o autor busca compreender os arranjos morais e éticos dessa sociedade. Nesse sentido, sua compreensão do ritual Naven à luz do conceito-chave de “cismogênese” parte

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da problemática da organização social, de forma que o conceito o leve à diferenciação das “normas de comportamento” e de suas transformações cotidianas como parte do modo de vida de seus interlocutores melanésios. Como mesmo destaca, “é necessário pensar a ‘cismogênese’ não como um processo que avança inexoravelmente, mas como um processo de mudança que, em alguns casos, é ou controlado ou continuamente contrabalançado por processos inversos” (2008 [1958]: 234). Mas o que significa dizer que a “cismogênese” é controlada e contrabalançada por processos inversos? E quais os seus efeitos na minha etnografia? Avancemos um pouco mais nas formulações do autor.

Bateson afirma que é preciso ressaltar as relações de reversibilidade entre grupos e indivíduos e delas percebermos alguns “padrões de comportamento” significativos à contraditoriedade da vida cotidiana. Para tanto, o autor elabora, primeiramente, o conceito de “cismogênese complementar ou assimétrica”. Trata-se de uma situação em que um indivíduo ou grupo A, por exemplo, coloca-se numa posição de asserção versus um indivíduo ou grupo B, que por sua vez se coloca na posição de submissão em relação à A. Por essa lógica, as diferenciações de comportamento podem tanto se equilibrar ou cessar. Aqui, tem-se a reação de A diferentemente da reação de B. Portanto, uma mudança de natureza das ações. Em segundo lugar, tem-se o conceito de “cismogênese simétrica” que, à guisa de exemplo, traz a seguinte situação: um indivíduo ou grupo A se coloca dessa vez numa posição equivalente à de um indivíduo ou grupo B, o qual em correspondência se condiciona à mesma situação, e o que se tem, afinal de contas, é a reação de A igual à de B. Portanto, uma relação diferencial dos graus de intensidade das ações de mesma natureza. Desse quadro, o autor conclui que na simetria ainda restam traços de desequilíbrios e de cisões, pois não existem relações puramente complementares ou puramente simétricas. Na complementaridade assimétrica, por sua vez, existem também simetrias, ao mesmo tempo em que as simetrias se compõem de relações complementares e antitéticas. Nos graus de intensidade de único tipo, imbricam-se também naturezas relacionais de tipos distintos, que ora vêm para unificar os coletivos, ora para seccioná-los. É por isso que, segundo Bateson, à coesão social são somados os processos e os comportamentos de desintegração e de transformação, um mecanismo de retroalimentação em que as relações antagônicas são também relações de complementaridade, a partir das quais uma suposta ruptura não significaria necessariamente o fim de um corpo social. Em uma determinada sociedade, as relações se atualizam e funcionam pela troca de informações e pelo jogo de forças entre indivíduos

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e grupos que produziriam, simultaneamente, os meios eficazes para transmitir, apreender e padronizar um conjunto particular de comportamentos.

Todavia, apesar dos esclarecimentos acerca desses conceitos, não proponho entender como os interlocutores desta pesquisa mobilizam suas reflexões e suas práticas frente ao ordenamento comportamental, estrutural ou cultural. Em vez disso, as formulações do autor servem para dar rentabilidade analítica das situações aporéticas em que os sertanejos concebiam suas investidas na esperança por um tempo impreciso, indefinido, inseguro, reforçando a perspectiva de que a assimetria e a complementaridade da linearidade temporal são catalizadores de relações, de práticas e de saberes que agem no contexto da seca e os ajudam na gerência e nas decisões do que se pode realizar ou não nos roçados, o que ainda se pode reverter diante da falta de água ou o que se intensificará ou seccionará quando não restar mais nada. Quando ao rebanho não existir pasto. Quando não houver colheita. Logo, a favor dessa percepção, destacarei a seguir outro acontecimento.

No dia seguinte à conversa entre o vaqueiro, a sua espoa e Damião, tive a oportunidade de conhecer a roça de Genézio. Muito entristecido, meu amigo apontava para as plantações mortas. Ele havia plantado no mês anterior. Mas sem a chuva esperada, ou que se supunha vir, as plantações não tardaram em morrer, definitivamente. Apenas algumas ramas de milho e de feijão resistiram. Mas a pequena quantia que restou era inviável de ser vendida nas feiras e nos comércios de Floresta. Passando por essa paisagem, Genézio desabafou: “Dá vontade de chorar. Isso aqui quando chove é a coisa mais linda do mundo. Mas a chuva é temerosa, demora, demora. Não vem mais, eu acho. A vida no sertão é vida pra doido. Só tem perda... tem mais lucro, não”.

A noção de que “o sertão é vida pra doido” é muito referenciada pelos homens quando falam de suas plantações, dos investimentos perdidos e, não menos, das histórias passadas. Estas que, em contrapartida, às vezes, celebram o tempo em que a agricultura e o criatório davam lucro. Ou, no mínimo, quando o produtor rural vivia sem tanto pelejar. Essa vida pra doido, vida sofrida, sem lucros, sem resultados e somente de perdas está diretamente associada ao “tempo que não anda, que não vai pra frente”. Porém, como vimos, sob o tempo que retrocede, deve-se sempre avançar, tentar superá-lo e recomeçar os trabalhos. Pois, a despeito das intempéries, o tempo e o sofrimento fazem do sertanejo um aprendiz. Nesse sentido, o prestígio é conjugado ao sofrimento, porque na linha do inesperado uns ainda se sobressaem em relação a outros.

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Da relação entre luta e sofrimento como meios de legitimação e de pertencimento, Loera (2006), por exemplo, destaca em sua etnografia de acampamentos e de assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) o papel central do sofrimento por parte dos que, diante de seus pares e da organização camponesa, destacam-se como mais legítimos do que outros para receber uma porção de terra e serem membros do “movimento” 41. Parece que, para os sertanejos com quem convivi naquela

região, o sofrimento também é, como propõem a autora, “legitimação” e “pertencimento”. Se membros do MST “tem que sofrer para legitimar a luta” (Loera, 2006: 96), para alguns florestanos residentes na área rural, sofrimento, perdas e infortúnios, embora negativos, trazem a esperança, o prestígio e o aprendizado. Com o sofrimento, há também positivações, novidades e avanços.

Aos vaqueiros, em geral – como veremos adiante na seção 2.3.6, da relação entre lembrança, corpo e sofrimento – o ato de sofrer está diretamente relacionado, neste caso, à luta do mato e à legitimidade de ser vaqueiro. No limite, quanto mais sofrido e

estragado de mato, mais catingueiro será o cavaleiro. Mas tais questões, como disse, serão abordadas mais à frente, em particular no capítulo III. Por ora, darei continuidade à relação entre tempo e esperança, sofrimento e aprendizado.

Para Luiz Cordeiro, por exemplo, a seca de 2010 fez com que o sertanejo aprendesse novas técnicas. Semelhante à sua percepção, está a de Vicente, funcionário de Genézio. Ele afirmou que “o sertanejo é um aprendiz, porque é alguém que está sempre aprendendo com o dia-a-dia: um dia é um garrote que adoece, é uma lagarta que aparece nas plantações, é um funcionário que não aparece para terminar o serviço que começou, é a palma comprada que não presta”. Dessa forma, o tempo retrocede, mas as tarefas e as esperas nunca se encerram. Coexistente à estagnação, à imobilidade e ao desequilíbrio, está a dinâmica de se reposicionar e se reinventar na vida no campo (em retrocesso ou em progresso) de forma esperançosa, resistindo às quebras e às cisões proporcionadas pela

seca.

Foi da esperança e do aprendizado diário que em Genézio de Nato floresceu, nos dias seguintes, a suposição de que a chuva viria. Ele havia deixado de pensar na provação

divina e, doravante, não era incomum me perguntar, após olhar o céu que não raro

41 A questão do sofrimento ligado à ideia de luta no contexto rural brasileiro abrange outros autores como

Teixeira (2014), por exemplo, no contexto do sertão do Ceará. Noutros casos, Comerford (2003) trabalha com as noções de sofrimento e de luta da perspectiva dos movimentos sociais de camponeses, contendo em sua análise uma interligação entre prestígio social, luta e sofrimento. No que concerne a essa relação entre reputação e sofrimento no nordeste brasileiro: cf. também Mayblin (2013a).

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nublava: “Será que hoje chove, garoto? Será que vai chover? Chuva temerosa!?”. A própria noção de chuva temerosa reflete, neste caso, a contradição suscitada pela seca. Não no sentido de que a chuva impunha medo e temor aos meus colegas sertanejos. Muito pelo contrário. Nas estiagens, a chuva é temerosa devido ao receio dos homens quanto à sua ausência, à sua atemporalidade. Os moradores da região desconfiavam da chuva, pois a sua natureza virtual, reflexiva, desejada como acontecimento, os faziam pensar nos benefícios e nos resultados mais esperados, mais fortuitos. Todavia, ao julgar o tempo e ao supor a chuva, o vaqueiro tinha a esperança de que os sertanejos voltassem a depositar no solo as suas habilidades, os seus sentimentos e os seus conhecimentos.

Às vezes nublava, mas caía uma chuva de poucos milímetros. Algumas vinham com mais intensidade noutro lugar, porém sempre ineficientes. Quando o tempo fechava, era sinal de tempo bom, “tempo bonito pra chover”. O trabalho não cessava e o tempo não apenas retrocedia. O tempo, na verdade, continuava se positivando. Se restava uma várzea, à beira de um açude, há de se plantar alguma coisa. Com esperança, os moradores e moradoras insistiam no que seria possível colher futuramente. Porém, a decepção não tardava em acontecer.