Os contornos da seca
2.1.4. Saudade e liberdade
Do recorte imagético em que o vaqueiro é levado pela destreza de seu cavalo, ambos atrás de um boi, meus interlocutores – muitos deles vaqueiros de verdade – apelaram para o sentido sentimental de suas atividades. Em síntese, remetiam-se à liberdade e à paixão de desbravar os campos atrás de uma rês (ato nesta etnografia nomeado de campear). Mas outros sentimentos vão além disso. Na verdade, como o vaqueiro é também um cavaleiro, valoriza-se a figura de um companheiro (outro vaqueiro com o qual divide a empreitada) e de um bom cavalo (também companheiro). Assim, os vaqueiros ao mesmo tempo em que reificam os campos e as corridas, dizem que o ato de
campear não se encerra na imaginada liberdade, uma vez compromissados com as atividades em currais e mangas, espaços cercados onde se domina o gado resgatado para abatê-lo, para torná-lo gado leiteiro ou para nele botar um chocalho (objeto que se pendura no pescoço do animal para melhor localizá-lo territorialmente). Atividades que, somadas ao ato de campear, formam a atuação do vaqueiro na lida da fazenda. A esse respeito, seguem algumas linhas.
Atividades que dizem respeito aos campos e aos cercados, diretamente em relação com os animais, são chamadas de manejo. Elas são referenciadas não só na lida do gado (outro contexto da lida da fazenda), mas também na relação com as criações de bode, por
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exemplo. Assim, as tarefas nos campos e nos cercados podem ser realizadas por um único vaqueiro. Isto é, o mesmo pode campear atrás de um boi ou de um rebanho de bode, como também pode manejar um rebanho de qualquer espécie em qualquer lugar, sejam currais,
chiqueiros ou mangas. Contudo, é no contexto do campear que se dá o desejo máximo
do vaqueiro de verdade pela vida no campo. É nesse contexto que ocorrem as investidas sobre o gado brabo. É com ele que a fama ou a habilidade de um vaqueiro é despertada. É nesse contexto, portanto, que se dá a verdade histórica.
Inúmeras são as tarefas executadas pelos vaqueiros. Muitos são os sentimentos. Eles criam ao longo do tempo uma espécie de paixão pela vida no campo. Sentimentos como paixão e amor resultam às vezes na saudade que os fazem retornar à lida. No sertão de Pernambuco, o trabalho de Vasques (2016), por exemplo, percebeu, para o caso de
criadores de bode no modo de criação na solta, uma relação entre trabalho e lazer. Em termos nativos, entre “laboro” e “entrestimento” (idem, 37). Segundo a autora, é somente a partir dessa conexão entre trabalho/laboro e seu exato oposto, lazer/entrestimento, que a uma certa noção de labuta entre os criadores pode ser apreendida etnograficamente. Mas trabalho e lazer, vai dizer Vasques (2016), não são o efeito de uma atividade compensatória, como se poderia pensar a partir dos sentidos clássicos da noção de trabalho. Para ela, “o entrestimento no laboro não é decorrente de uma modificação na própria atividade que resultaria em algo gratificante ao criador, o entrestimento é constituinte do laboro e este não pode ser pensado sem essa parcela de alegria” (idem, 41).
Portanto, na região onde fizemos pesquisa de campo, trabalho e lazer são faces opostas e complementares. Para além dos compromissos, das responsabilidades e das compensações, existem também noções como tradição, amor, paixão, zelo. Uma série de sentimentos que guiam e atualizam a memória, assim como o seu modo de “saber criar” (Vasques, 2016). Um modo de vida do qual poucos desistem e que, no caso desta etnografia, faz do desejo pelo boi o elemento central de conexão do vaqueiro com a verdade. Isto é, a sua manifestação no campear ou no manejo só acontece quando atravessada por uma série de sentimentos – como a loucura e a coragem, o amor, a paixão e a saudade – resultantes do ato correr na caatinga. Assim, a lida da fazenda é um conjunto de elementos que, somados os sentimentos, os manejos domésticos e os manejos do campear, formam uma realidade maior: o laboro. Este é o nome que se dá a uma totalidade de serviços e práticas da qual se destaca outro referencial mais específico, o
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A lida, por fim, é o contexto no qual se vive. É o modo de existência caracterizado pelo
laboro da vida no campo.
Ora, é preciso bem definir as diferenças entre as atividades e os contextos de atuação dos vaqueiros. Pois o que comumente chamam de lida da fazenda, além de envolver as atividades de manutenção da propriedade (terras e rebanhos), é também, claramente, um modo de vida que integra outras existências (a lida do gado [relação direta com o gado bovino], a vida no campo [aglutinador do conjunto de afazeres e responsabilidades dos que vivem ou trabalham na área rural: criadores, vaqueiros e agricultores] e a vida do vaqueiro [modo de vida particular dos que lidam com o gado
brabo]). Assim, tratando-se de laboro com o gado bovino, o nome que se dá aos exercícios e aos compromissos com esses animais é: lida do gado. A lida da fazenda e a
lida do gado, portanto, caracterizam-se pelo laboro, se definido como um conjunto de afazeres que vão desde a manutenção de cercados e da vegetação até a relação com o Estado e a burocracia, desde a relação com funcionários e trabalhadores até as atividades concernentes ao manejo e às diversas relações que vaqueiros e criadores estabelecem estritamente com os animais, entre elas: campear, rebanhar e tanger, assinar e ferrar, alimentar, zelar, apartar, vender e abater.
É nesse sentido que Medrado (2012) posicionou o vaqueiro como uma categoria “bilíngue” (idem, 127-128). Em suma, compreendendo-o como um sujeito que mantém domínios, saberes e glórias desde o mundo dos trabalhadores até o seu convívio com os fazendeiros. Contudo, é no próprio contexto da lida do gado que outras coisas significativas aparecem, tais como a liberdade e a criatividade (2012: 182)36. Seguindo a
prerrogativa da autora, a conclusão é que a liberdade é construída não apenas pelo vaqueiro, mas pela sua relação com os animais. No limite, trata-se de uma liberdade relativa. O humano pode alcançar, na sua relação com o gado brabo, o seu prestígio, necessário para se destacar frente a terceiros. Mas isso só ocorre à medida que a liberdade da rês acaba quando capturada. Quando não, bois e vacas sempre continuarão soltos nos
campos, enquanto o vaqueiro reinvestirá sobre eles as suas habilidades, os seus desejos e a sua coragem.
36 Em Cascudo (1956) aparece uma noção de liberdade e de criatividade propriamente humana. Segundo o
folclorista: “A criação nos campos indivisos, solta a gadaria nos plainos e tabuleiros sem fim, deu ao homem um sentimento de liberdade de ação, e a ausência de todo um sistema fiscalizador diretivo: feitores, mestres, apontadores do ciclo da cana-de-açúcar, o que era para o vaqueiro um convite à iniciativa e às forças vivas da imaginação e da inventiva pessoal” (idem, 07).
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Assim, é da liberdade temporária de um boi que ocorre a singularização do
vaqueiro de verdade. Mais ainda, é da natureza do animal bravio (e de sua liberdade) que se extrai a autenticidade humana do vaqueiro. Ligando animalidade e humanidade, alguns sertanejos tratavam de discutir algo único no passado: o tempo de antigamente quando o gado era brabo e criado solto na caatinga, sem cercados e sem entrecortes espaciais, em um regime espaço/temporal marcado pela coragem de homens que, diante da valentia de um boi, se destacavam de outros por meio do conhecimento e da experiência com os animais.
O que se pode observar nas reflexões temporais dos sertanejos é uma espécie de “nostalgia estrutural” que, semelhante aos gregos estudados por Herzfeld (2005 [1997]), só funciona por meio de métodos de essencialização da verdade, esta como medida exclusiva para todas as coisas presentes e que faz do passado um tempo moralmente mais confortável que o atual. A “nostalgia estrutural” de Michael Herzfeld é um conceito que o permitiu compreender, entre os aldeões de Glendi (nome fictício dado pelo antropólogo), na ilha de Creta, certos aspectos imutáveis, difíceis de serem transformados e que, além de tudo, resignificam “a convicção que cada época tem de que as coisas já não são o que eram” (2008 [1997]: 85). O que não muda é a própria percepção de que as coisas mudaram e, a despeito das transformações reais, o passado é sempre evidenciado como moralmente melhor. É o aspecto nostálgico das percepções morais que faz desse conceito algo que permite, no contexto sertanejo, analisar como alguns interlocutores refletem o tempo de antigamente em contraste com o presente, e por que positivam o primeiro em detrimento do segundo.
Dessa forma, os vaqueiros mais velhos sempre avaliarão a posição dos vaqueiros
mais novos (geralmente vaqueiros de festa), e dificilmente os posicionarão como melhores ou mais experientes. Primeiro, aos mais novos não existe a mesma situação ecológica e moral que antes houvera aos mais velhos, condições que lhes possibilitava um engajamento prático específico. Segundo, para ser vaqueiro de verdade importa o tipo de animal com o qual se relaciona, válido tanto para o cavalo quanto para o boi. E, como vimos, além de propriamente vaqueiro, este é um cavaleiro, e os domínios que se têm com o cavalo ajudam-no a conquistar a posição de bom vaqueiro.
Mas o boi, diferentemente do cavalo, é o animal que ganhou nos últimos tempos uma nova natureza. Ele esteve um dia na condição de bicho bruto, brabo, criado distante, sozinho e à mercê de suas escolhas e vontades. Logo, se a própria natureza do boi não é mais a de bicho bruto, mas a de gado manso, criado mais perto e mais preso, dificilmente
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eu encontraria vaqueiros de verdade como um dia foi possível encontrar. Mais ainda, seria raro que dentre os mais novos eu conhecesse alguém que fosse vaqueiro, vaqueiro
mesmo, uma vez que, sem a natureza bravia dos animais, a posição de ser vaqueiro era, mais do que uma verdade, um dilema: algo a ser debatido, julgado e avaliado. Mas o que exatamente fizera com que a natureza do gado brabo se transformasse?