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Os contornos da seca

2.2. Matizes da lida e do manejo

2.2.3. Vaqueiro de moto

No dia seguinte à minha visita, às oito horas da manhã, Luiz e eu partimos rumo à Fazenda Macambira. Nos primeiros segundos de nossa trajetória, Luiz brincou, dizendo: “Tá vendo? Agora, sou vaqueiro de moto!”. Era a segunda vez que eu ouvia essa expressão. Anteriormente, foi Nilda quem se dirigiu com esta terminologia ao vaqueiro de sua propriedade que um dia lhe fizera uma breve visita.

Em sua casa, o vaqueiro chegou justamente de moto, entregou alguns documentos e rapidamente foi embora. Assim feito, minutos depois minha amiga avaliou que em sua fazenda talvez não fosse o lugar certo para pesquisar. Primeiramente, Cosme, seu funcionário, segundo ela, era um vaqueiro de bode. Além disso, este provou a Nilda, naquela mesma hora, ser também um vaqueiro de moto ao se locomover sem um cavalo. Embora minha amiga estivesse me ajudando a encontrar alguém que fosse realmente vaqueiro, ela acabou descartando por completo a ideia de que eu pudesse ficar em sua propriedade. Para ela, ter sublinhado ironicamente que o vaqueiro andava de moto não foi de sua parte uma reprimenda. Foi uma observação sutil e imediata que suscitava uma hipótese: a de que o vaqueiro com quem eu rapidamente tinha conversado não seria, enfim, a melhor opção. Para ela, o vaqueiro a ser pesquisado tinha de ser o tradicional: o vaqueiro montado em seu cavalo.

Ora, tal era a importância de se imaginar a simbologia do homem do campo com determinadas características, vestes e comportamentos e se relacionando com certos animais, que a menção irônica de um vaqueiro de moto transformou o seu funcionário em uma impossibilidade analítica. Foi com a mesma ironia, suponho, que Luiz justificou não estar montado em um cavalo, em vista de avaliações e de opiniões possíveis. Ali, nos primeiros segundos de nossa viagem, o que estava em jogo era, portanto, a necessidade de justificar que o vaqueiro hoje em dia pode ser outra coisa que não o cavaleiro de outrora. Ou melhor, poder ser mais alguma coisa além do que se imagina e do que realmente dizem ser o vaqueiro.

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Sendo também um motoqueiro, Luiz refuta a estanque perspectiva da tradição e, nesse sentido, modula no presente outras relações, outras possibilidades, utilizando novas ferramentas de trabalho para aprimorar e inovar a sua lida e a sua posição. Foi tendo em mente essas diferenças que, ao chegarmos em sua propriedade, lhe fiz uma pergunta e, com ela, estabelecemos o seguinte diálogo:

– E o senhor de vez em quando pega gado brabo na caatinga, ou parou de vez? – Algo que, desde o começo, causava-me dúvidas, é claro, uma vez que Luiz era conhecido como vaqueiro de bode e criador mais do que vaqueiro de gado. Logo, eu queria saber um pouco mais a respeito das diferenças e nuances entre uma coisa e outra, e se havia disparidades pertinentes entre elas desde a sua própria perspectiva. – Eis que me respondeu:

– Pego gado, sim. Se precisar, eu pego. Agora, como eu digo, o meu cavalo, por exemplo, morreu tá com quatro anos, e eu não comprei outro, porque hoje o gado tá muito manso.

Podemos ver o quanto a natureza do gado manso transforma a atividade de

campear. Pois, se o gado está manso, é só criá-lo mais perto e mais preso para que a trabalhosa busca do animal pelos campos se torne um dilema, algo a ser mensurado, calculado, debatido. Se maior será o controle do proprietário se o seu animal estiver mais

preso, e se menos trabalho ele terá se o animal estiver mais perto, é a própria mansidão do gado que possibilita a inutilidade temporária do cavalo. Então, se o agenciamento vaqueiro-cavalo é desmanchado como condição produtiva da lida de Luiz, é porque torna- se mais viável investir nos animais que exigem menos custo. Assim, o que se pode criar, segundo o criador, é exatamente o animal que tem maior utilidade produtiva. Mesmo que de forma contraditória à relação historicamente valorizada e que serve de referencial à verdade. Veridicção, agora, que não passa pelo crivo da racionalidade econômica do professor. Ao preferir, temporariamente, inutilizar-se do cavalo, desde o momento que o seu último falecera, Luiz teve uma atitude bastante distinta das de muitos outros vaqueiros que conheci. Vaqueiros que, pelo contrário, fazem de tudo para, mesmo na seca e sob certas condições econômicas, possuírem um bom cavalo, correrem com ele em uma pega

de boi ou desfilarem em uma Missa do Vaqueiro – questão será discutida com mais detalhe no capítulo III.

Por ora, é importante notar que as razões para a independência de Luiz em relação ao animal (em itálico, desta vez, porque se trata do termo que se dá precisamente a cavalos e éguas) são o resultado do tempo que lhe obrigou a não criar gado porque a água se tornara pouca. A seca que se acentuou em 2010 fez com que ele vendesse todo o seu

criatório, restando, no ano seguinte, apenas ovelhas e bodes como propriedade. Só em 2012 que começou a criar gado novamente. Mas desde então vem se acostumando com a posição de não correr atrás de bois e vacas. Ao excluir a necessidade do cavalo, o

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professor afirmou que o seu manejo é muito diferente do que já foi um dia. Mesmo porque, na sua visão, “a moto hoje facilita muito”. Vejamos, agora, o que constitui a atividade de campear de moto.

Com o automóvel, o vaqueiro vai campear apenas as criações, acionando outro tipo de movimento, outra relação temporal, em outra condição produtiva e com outros animais que não o gado bovino. Se comparada com a clássica atividade de campear a cavalo (atrás de um boi), campear de moto, então, dá novos tons à lida. Segundo Luiz,

campear de moto consiste, na prática, em ir até certo ponto do campo, isto é, no espaço em que se divide o rebanho com os de outros proprietários. Ali, procura-se pelos bichos que estão mais próximos. Caso os encontre, os ouça, os sinta, o vaqueiro desce da moto. Eis quando o automóvel se torna inutilizável. Mesmo assim, o vaqueiro chama os animais, ativa as vocalizações, as táticas de aproximação, os meios de coletivizá-los e os arranjos para iniciar um movimento conjunto. Ora, eis então o aspecto que se diferencia da montaria. Nesta, o cavaleiro permanece sempre montado. Para rebanhar e tanger, pelo menos, as coisas acontecem em pleno movimento, na corrida, com a ajuda e a destreza de seu animal. Agora, em algum momento a moto será estacionada. E o vaqueiro, disse- me Luiz Cordeiro, só ganhará movimento novamente se “tanger os animais a pé”. Da mesma forma que a cavalo, ele busca gerenciar pequenas porções (malocas) a fim de obter, no final, um único e só rebanho, a soma suficiente às exigências do dia, do cliente. Assim feito, o vaqueiro não galopa, mas caminha. Sem executar os galopes do cavaleiro e sem radicalizar sua posição de motoqueiro, o vaqueiro a pé conduz, pastoreia e direciona os animais do campo às mangas, do campo aos chiqueiros. Depois de soltá-los nos cercados, ele retornará para buscar sua moto. Para tanto, é necessário memorizar exatamente onde a havia deixado.

Ora, como vimos, campear de moto só serve para pastorear criações, entre bodes e cabras, carneiros e ovelhas, justamente por se tratar de uma prática inviável para capturar, rebanhar, juntar e coletivizar bois e vacas – animais, por sua vez, que exigem do cavaleiro a destreza. Nesse sentido, aqui reside um ponto importante a ser destacado. Certamente, campear tem como finalidade não apenas encontrar os animais no campo. Como demonstrei antes, ao ato de campear somam-se os de rebanhar e de tanger – atividades costumeiras no processo de manobrar, conduzir e guiar os animais. Contudo, se com a moto é possível apenas percorrer os campos, à procura do rebanho, a favor do tempo e com maior velocidade, é porque rebanhar e tanger (após percorrido os espaços e encontrados os bichos) se fortificam de duas maneiras, a escolher: ou na habilidade do

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cavalo (na posição de cavaleiro) ou no caminhar do criador (hoje, quem sabe, na posição de motoqueiro). Então, cavalo e homem são os mais capacitados para exercer domínios sobre o rebanho, enquanto o automóvel, por outro lado, apesar de otimizar o tempo, favorecer as economias e a circulação pelo espaço, limitam as relações interespecíficas e interrompem o pastoreio.

Por exemplo, você está numa fazenda dessa como a minha, e o gado vai a uma distância de 6 km ou 10 km, ou 20 km. Pra você ir atrás desse bicho no mato, aí tem que ser a cavalo, por causa da distância. Pro gado, a moto não ajuda. Mas os bicho em geral andam no máximo 6 ou 8 km na minha propriedade, e quando é à tardinha eles vêm bem mais pra perto. Aqui, à tardinha, eu não ando mais do que 3 km pra achar meus bicho pra rebanhar. Você vai em fazenda por aí que o cabra pra ir atrás dos bicho precisa primeiro ir atrás do cavalo, selar, montar, pra depois manejar. “Ah, vou vaquejar”, os cabra pensa, e, quando você menos espera, chegam com aquela maloca. Mas não são muitas as fazendas que têm isso hoje. A maioria do povo tá lidando mais ou menos como eu tô lidando, com mais facilidade e menos despesa. O tempo que você fica indo atrás do cavalo é o tempo, às vezes, de você ir atrás das cabras e dos bodes, não sabe?

Vê-se que a funcionalidade da moto se finda, mas os homens reiniciam os seus próprios movimentos. Com cavalo ou sem, Luiz Cordeiro não se frustra. Ele é capaz de conquistar, de fortalecer e de reinventar o que os vaqueiros mais antigos legitimam pelas práticas consideradas mais verdadeiras. Do pouco de gado que lhe resta, Luiz é quem a pé busca por ele. Os bois e as vacas de sua propriedade não vão para longe. Pois são animais criados mansos. No entanto, caso vivessem distantes, Luiz assevera a precisão e a eficiência de um bom cavalo. De alguns bons quilômetros até o curral, só o cavaleiro é capaz de tanger um boi ou uma vaca. Nas palavras do vaqueiro, o cavalo é uma escolha, e a sua inutilidade, por enquanto, é apenas temporária. Nessa substituição do animal pelo automóvel, trata-se de reduzir os custos e o tempo. Primeiro, os custos de manter o cavalo saudável para o campo. E, segundo, a demora que leva para deixá-lo devidamente

arriado, selado, preparado para campear.

Para Luiz, “a moto facilita muito”. Contudo, também o ajudam no manejo dois outros importantes aspectos: a disposição física e a distribuição dos cercados. Disposição arquitetônica e ecológica que, somados os vários investimentos, têm o objetivo de tornar o manejo do professor uma atividade plenamente autônoma, com base na prerrogativa de ser o patrão e o vaqueiro de si mesmo. É a partir dessas condições que Luiz afirma ter alcançado o paraíso. O seu manejo autônomo e a sua lida, ambos reinventados com a perda do gado e com a seca de 2010, fez com que tudo se renovasse e florescesse anos

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depois. Essa definição de propriedade como paraíso é importante. Quanto a ela, gostaria de alertar o/a leitor/a que a guarde consigo até o momento conclusivo desta seção. O meu intuito será relacioná-la, mais à frente (cf. 2.2.7), com a noção de liberdade. Por ora, proponho demonstrar o que significou ter uma prévia do manejo, da lida e da vida no

campo ao lado do vaqueiro-professor.