Os contornos da seca
2.2. Matizes da lida e do manejo
2.2.1. Vaqueiro-professor
Além de criador e vaqueiro, Luiz é professor. A sua condição de docente lhe confere, na visão de alguns, mais conhecimento e mais criatividade, justamente por saber conjugar as duas profissões ao mesmo tempo e, assim, se destacar, a partir disso, como produtor rural. Além do mais, ser proprietário de uma porção relevante de terra lhe confere ainda mais prestígio, de modo um tanto quanto excepcional, como interpretou a seu respeito Nilda Ferraz. Ela, por exemplo, concordou que Luiz seria um ótimo contato e o caracterizou como uma exceção por ser um vaqueiro diferenciado, sobretudo na posição de professor e proprietário de suas próprias terras. Características que o distinguiam da realidade do vaqueiro que, sustentada por Nilda, era composta por sujeitos
humildes, pobres e sem estudo: “Tudo que existe em maior quantidade é considerado
normal, certo? E o que tem em menor quantidade é anormal, não é? Pois então Luiz Cordeiro é uma exceção: é um vaqueiro com curso superior!”.
Mesmo se distinguindo do homem do campo tradicional e autêntico, como minha amiga gostava de dizer, ela mesma demonstrou ser relevante a excepcionalidade de Luiz, se comparada ao modo de vida original a partir do qual estavam baseadas as suas representações em torno de uma imagem pretérita – por vezes vinculada ao tempo de sua infância, por vezes implícitas em suas atuais percepções acerca do passado. Porém, longe de sugerir nesta análise que Nilda oferecera uma noção distorcida, caso pensássemos que ela o teria desqualificado quando o distinguiu do vaqueiro original ou, então, que suas reflexões fossem apenas uma vertigem ou dúvida temporária, é necessário perceber que a sua sensibilidade analítica demonstra como, de fato, Luiz era uma exceção. Não só da perspectiva dela, como também de sua própria.
Aposentado atualmente da profissão de docente (tendo sido professor de matemática em algumas escolas públicas de Floresta), Luiz agora dedica grande parte do tempo à sua propriedade, a Fazenda Macambira. Localizada na região do Riacho do Navio, a propriedade não fica longe de sua morada na cidade. Uma casa localizada na
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antiga Rua dos Tamarindos, onde reside com sua esposa e seus quatro filhos (todos estudantes de direito). Até ela, Amélia e eu fomos um dia para fazer-lhes uma visita, também para propor que Luiz, se pudesse, me levasse à sua fazenda e, quem sabe, ao conhecimento de alguns vaqueiros que vivessem no tipo de lida que eu gostaria ou fora inspirado a conhecer. Na casa de Luiz, minha amiga Amélia de imediato me chamou a atenção, em primeiro lugar, para o quadro que, pendurado na sala (podendo ser visto do lado fora, através da janela), representava um vaqueiro derrubando um boi com a ajuda de seu estimado cachorro e de seu cavalo. Uma eloquente imagem se considerarmos as reflexões que fazem os florestanos a respeito do vaqueiro de verdade na posição de
homem do campo que se caracteriza, sobretudo, pela lida do gado – portanto, ao tipo de lida que eu mesmo buscava encontrar.
Imagem 15. Quadro na sala de Luiz. Agenciamento histórico entre vaqueiro, cavalo, boi, cachorro e
caatinga.
Desde o início de minha estadia, Amélia sugeria que, com o professor, talvez pudéssemos conhecer vaqueiros que, diferentemente dele, se dedicassem diariamente a isso. Ou que talvez pudéssemos encontrar os que tivessem histórias pra contar. É o caso dos vaqueiros véios. Hábeis em contar histórias de pegas de boi e de arriscadas carreiras
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constituição do prestígio e na veridicção de um afamado e experiente vaqueiro. Portanto, por intermédio de Luiz imaginávamos ser possível ir ao encontro dos que o fossem de
verdade. Mesmo porque, imaginávamos, em contrapartida, que ele próprio não o fosse, ou melhor, que não fosse tão vaqueiro assim.
Mas ele não se apresentou, de forma alguma, como um vaqueiro menos verdadeiro ou menos vaqueiro do que qualquer outro, apenas por ser conhecido como vaqueiro de
bode. Embora o vaqueiro de gado se distinga deste último, ser de um tipo e não de outro, ou se dizer publicamente um e não outro, por conta das diferenças práticas e técnicas e dos conhecimentos aplicados na relação com o gado brabo, não era uma diferença que posicionava Luiz de maneira desprestigiada. Em vez disso, ele afirmou que a sua vida era, de fato, a vida do vaqueiro. Não é à toa que, tempos depois (precisamente quando caminhávamos em sua fazenda), poucas não foram as vezes que reiterou de formas distintas uma mesma percepção:
A vida de vaqueiro é essa aqui, Renan. Isso que eu tô fazendo, tá vendo? Isso tudo que é a vida do vaqueiro! As pessoas acham que o vaqueiro é aquele com terno de couro. Pensam logo naquele vaqueiro encourado. Não, vaqueiro é aquele que cuida do rebanho, como eu cuido. Esse é o vaqueiro: o vaqueiro da lida e do manejo. Agora, o vaqueiro que pega gado, ele tem que, na hora que vai pegar uma rês, vestir a vestimenta própria do vaqueiro pra poder correr na caatinga atrás do boi.
Segundo Luiz, é como se a categoria ser vaqueiro toda vez anunciasse uma imagem primeira, exemplificada no quadro de sua sala. Uma fixidez prévia, um movimento congelado que, por si só, não encerraria o vaqueiro dentro do que lemos nas páginas do saber oficial ou nas interpretações que pudéssemos fazer daquela pintura. As percepções de Luiz sofisticam ainda mais a estabilização imagética do vaqueiro simbólico, ao nos esclarecer que o vaqueiro é, sobretudo, aquele que “cuida do rebanho” da forma como sempre foi feito e da forma como atualmente se faz. O que não significa dizer que as observações de outro interlocutor, como Cláudio Correia, por exemplo, estariam erradas ou fossem mínimas, insuficientes. Ao seu modo, Cláudio também complexificava os sentidos verdadeiros do vaqueiro da lida. Para ele, não basta alguém apenas se encourar, ter um cavalo bom e correr atrás de um boi. É preciso fazê-lo com
conhecimento e habilidade, com sabedoria e experiência, com o animal certo, na hora certa e da forma certa, e, sobretudo, com o propósito de perseguir e derrubar o animal com fins precisamente necessários, condizentes com a lida na qual se vive.
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Então, na visão dos dois vaqueiros, é comum que as pessoas em geral imaginem, à primeira vista, o vaqueiro como um elemento estético (porque é bonito, dizem), como parte de uma tradição (porque é histórico) ou como uma verdade única (porque o vaqueiro é, da perspectiva dominante, o da lida do gado). Mas a imagem composta por esses três elementos não diz o suficiente. Ela é parcial e demonstra apenas o que muitos gostariam de ver através da concepção reificada do vaqueiro tradicional. Parcialidade elicitada (Wagner, 2010 [1975]: 220; 2011 [1991]: 01) por um regime de verdade a partir do qual se produzem essencializações que antecedem avaliações que, por sua vez, fazem do vaqueiro algo muito além do que comumente se pensa.