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Os contornos da seca

2.2. Matizes da lida e do manejo

2.2.7. Fazenda como paraíso

Toda essa discussão estritamente teórica apresentada anteriormente tem por finalidade considerar que as habilidades retóricas e os métodos inventivos aqui tratados nos levam de volta à relação construída por Luiz Cordeiro, no início deste subcapítulo, entre propriedade e paraíso. A liberdade da qual se orgulha o vaqueiro compõe os traços singulares de sua pessoa e parece ser, também, o resultado de um potente encontro: fazer do paraíso a fonte de sua subsistência (e de suas necessidades) e, não menos, o espaço onde percorre munido de criatividade e de paixão. Em vias de contornar a seca, deixar os frutos do prestígio aos seus descendentes e, quem sabe, investi-los na memória florestana, Luiz construiu para si uma verdade e nos deu com suas próprias cores o desenho do agenciamento criador-criatividade-criatório.

Eloquente à percepção de que talvez seja mais eficiente e prazeroso conjugar

laboro e inventividade, trabalho e lazer (ou, como formula Vasques [2016], entre laboro e “entrestimento”), meu amigo sertanejo deu abreviados contornos, neste caso, do que significa ser o seu próprio vaqueiro e o seu próprio patrão, sem se restringir à ideia de que o vaqueiro só pode ser vaqueiro mediante uma relação com o gado brabo ou sendo funcionário de alguém. O protagonismo do bode (e não do gado bovino) e a locomoção da moto (e não do cavalo) modificaram a posição de ser vaqueiro e trouxeram resultados positivos ao prestígio que aos interlocutores desta etnografia são tão caros.

Sou o patrão, porque sou o dono da fazenda. Sou o vaqueiro, porque sou eu quem maneja tudo. Eu ganho o salário de professor, mas é pouco. Minha mulher também ganha o dela. Mas quando você soma tudo, falta. Daí, quem paga? Os bodes. Agora, as cabras fazem uma falta enorme: quinze delas que eu vendo são no mínimo quinze cabrito que deixei de assinar. Mas eu dou graças a Deus, porque se precisar ainda tenho até as cabras pra vender. Assim, não tem dívida aí que eu não possa pagar.

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No entanto, se o que importa para Luiz Cordeiro é então a lida e o manejo, a “nostalgia estrutural” (Herzfeld, 2008 [1997]) tão presente entre os florestanos não ganhou espaço nas narrativas do vaqueiro-professor. Mas muitas camadas nostálgicas estão vivas na reflexividade dos que fazem da vida do campo uma particularidade histórica. Os pontos de vista de Luiz acabam por se diferenciar, por exemplo, das perspectivas de Cláudio Correia, assim como dos pontos de vista de Genézio de Nato,

vaqueiro véio de 83 anos.

Para estes dois últimos, “a vida no Sertão não está nem um pouco boa”, como havia concluído o professor. Embora Claudio amasse a vida no campo, para ele se trata, ao contrário de Luiz Cordeiro, de uma “vida de doido e sem futuro”. Em suas próprias palavras: “Se depender de mim, filho meu não vai aprender nem a abrir uma cancela”. De certa forma, sua conclusão é também partilhada pelo vaqueiro Genézio de Nato, para quem “a vida no campo é rojão e sem futuro nenhum”. Todavia, para os dois, o passado condensa as histórias e as palavras, e as memórias são caminhos legítimos de entendimento da vida do vaqueiro como era antigamente. No caso de Genézio, em particular, a sua posição como vaqueiro-agricultor e a sua relação com os roçados não lhe permitiram, sob as condições de estiagem, contornar a seca, tal como o fez o vaqueiro- professor. Se não houve soluções nesse sentido, restam agora as seguintes questões: quais foram os contornos traçados por esse vaqueiro véio? O que nos diz as suas lembranças e o que significa ter sido um vaqueiro catingueiro?

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2.3. “Lembrando o tempo quando bom vaqueiro foi”

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Imagem 19. Genézio de Nato, vaqueiro véio na varanda

Até agora, tentei seguir rastros que me levassem à compreensão da arte dos vaqueiros de criar o rebanho e de zelar a propriedade. Caminhos à “arte do pastoreio” caso pensássemos aqui pelo termo cunhado por Evans-Pritchard (1999 [1940]) em referência às atividades pastoris da sociedade Nuer. Porém, nesta seção, abrirei caminhos e seguirei rastros em direção à arte dos vaqueiros de criar e zelar não só os seus rebanhos e o seu patrimônio, mas também de criar e zelar as suas reflexões e as suas avaliações de si mesmos, de criar as suas imagens e as suas verdades de si. Permitindo aqui tal analogia criativa, minha intenção é compreender, desta vez, a arte dos vaqueiros de atualizar as suas lembranças quando a elas recorriam para se posicionarem no mundo. No mundo do passado que se revelou ora ou outra extensivo ao do presente, e deste, portanto, sua continuação, mas que por vezes também se revelou completamente distinto do atual,

39 Esse título faz referência a uma canção de Luiz Gonzaga chamada “Vaqueiro Véio”, que diz assim em

um de seus versos: “Vaqueiro véio sentado na varanda da morada. Estrupiado, já não tange mais boiada.

Fica chorando quando passa outro aboiando. Êêê boi, lembrando o tempo quando bom vaqueiro foi...”.

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tratando-se é claro de um mesmo mundo, só que moralmente negativo ao que fora antes. Diante disso, é preciso extrair imagens e perspectivas a partir das palavras de vaqueiros

véios que me reportaram tempos passados, o que neles conquistaram e o que deles trouxeram em benefício próprio.

Se Gabriel Tarde (2007 [1895]) ressalta que o “ser é o haver” (idem, 113), ao desviar-se da ideia do ser como “entidade” em direção à de “propriedade”, por que não considerar, a partir das linhas se se seguem, que ser vaqueiro passa por um feixe de relações em que se acumulam qualidades, temporalidades e propriedades? Para tanto, é preciso considerar que os seus atributos sejam tão-só “infinitesimais” à medida que os caracteres transitórios dos vaqueiros se desdobrem “um diante do outro, um no outro, um pelo outro” (idem, 118). Se, para Tarde, “todo fenômeno não é senão uma nebulosa decomponível em ações emanadas de uma infinidade de agentes que são outros tantos pequenos deuses invisíveis e inumeráveis” (idem, 78), é possível, afinal de contas, considerar que as multiplicidades abertas em campo, nalgum lugar e com alguém, levaram-me a estender os conhecimentos de alguns vaqueiros até as palavras de outros tão verdadeiros quanto? Pelo menos é assim que venho procurando fazê-lo ao contrastar analiticamente uns com os outros desde o início desta etnografia. E é nesse caminho que pretendo continuar nas linhas posteriores. Neste momento, dando voz às reflexões de um vaqueiro que me levou a considerar não só a contemporaneidade da vida no campo, mas também a riqueza das histórias e de suas relações com o corpo e a memória.

Falar de um vaqueiro significava às vezes passar por outros igualmente importantes, a depender dos pontos de vistas e da dinâmica do gradiente qualificativo e conceitual. Não era incomum um vaqueiro me indicar outros com quem eu deveria conversar, sempre os reverenciando como amigos, companheiros de campo (parceiros com quem se ia campear) ou conhecidos que realmente foram vaqueiros bons. Nesse sentido, a “arte do pastoreio” (Evans-Pritchard, 1999 [1940]) foi somente um dentre vários outros elementos capazes de singularizar sujeitos de renome, fama e prestígio. Neste caso, podemos nos aproximar até certo ponto do que a clássica etnografia sobre os Nuer discute acerca da reputação de indivíduos e grupos que se diferenciam em clãs e linhagens à medida que pastos e rebanhos são gerenciados e negociados. Mas só até certo ponto. Porque, na perspectiva de Evans-Pritchard, os indivíduos e grupos angariam prestígio por intermédio de instituições políticas resultantes de uma relação dialética entre meio ambiente e estrutura social (idem, 8). Todavia, no caso aqui analisado, cada pessoa e cada enunciação apresentavam quase sempre dois recortes de atuação que não eram

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opostos, dialéticos ou simplesmente complementares entre si. Eles eram o efeito um do outro. A temporalidade contínua entre um e outro, às vezes semelhantes, às vezes dissidentes, era o que os conectavam à verdade histórica do passado referencial e às imprecisões do presente (cf. 2.1.1). De um lado, tem-se a vida no campo por meio da qual o vaqueiro cuida do rebanho e zela a propriedade. De outro, têm-se os momentos por meio dos quais os sujeitos narram as pegas de boi e refletem sobre si mesmos e sobre o “tempo quando bom vaqueiro foi” – diria Luiz Gonzaga –, ao articularem corpo e memória. No mínimo, os interlocutores sugeriram esses recortes como dois momentos etnográficos distintos, mas também como importantes entrelaçamentos que nos levam às caracterizações do vaqueiro de verdade. Com isso, os vaqueiros existem nesta etnografia em sua miríade de relações com o atual e o virtual, seja nas suas relações com o território e os animais, com seus pares e as instituições, seja na sua relação com as lembranças, com o corpo e com as histórias que até hoje lhes proporcionam prestígio.

À luz dos movimentos de Luiz Cordeiro, vimos que as práticas de conhecimento do mundo se desenhavam concomitantemente às relações do vaqueiro com as caatingas e os animais. Com Genézio, entretanto, o tempo foi outro, muito distinto do que compartilhei com o vaqueiro-professor. Mas, tanto em um caso quanto no outro, as formas de se relacionarem com os seus pares, com os animais e com o território estavam muito além de ser o resultado de uma estrutura social conectada a uma “mentalidade pastoril”, como quer Evans-Pritchard (idem, 26), ou então, o mero efeito de “engajamentos práticos” (Ingold, 2000a) que se constituiriam, em plena imanência, a partir de várias intencionalidades, movimentos, habilidades e saberes. Adiante, veremos, então, que o tempo que passei com o vaqueiro véio deu-me outros quadros reflexivos.

No saudosismo de cada olhar ou nas várias paisagens visitadas, estavam não só os rastros e os campos, os animais e as serras, mas também as lembranças e as histórias. O tempo de antigamente me guiava em direção às recordações, e, sabiamente, o vaqueiro

véio desenhava o passado. Antes de analisá-lo, gostaria de passar por alguns acontecimentos que, por sua natureza, nos levará transitivamente da vida no campo até a nostalgia e a memória.