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1.3 Da problemática ao problema

1.3.2 A sociedade em rede

A sociedade contemporânea muito se assemelha a um tecido interdependente de interações e passa a constituir uma nova morfologia social. Sua difusão modifica a operação e os resultados dos processos produtivos, das experiências individuais, do poder e da cultura, como salienta Castells (2003). Apesar de reconhecer que isso não é novo, este autor argumenta que a novidade está na existência de uma base material para sua expansão na estrutura social. Fica evidente para nós que essa lógica de redes tem de presumir flexibilidade. Portanto, não apenas os processos devem ser reversíveis, mas também as organizações devem ser concebidas como passíveis de serem modificadas de forma superficial ou radical dependendo do nível de reorganização de seus componentes (indivíduos interagentes).

Uma característica considerada relevante da sociedade contemporânea é o deslocamento espacial e temporal, como salientam Castells (2003) e Harvey (2003). Estes autores consideram esta qualidade distintiva da sociedade contemporânea e, portanto, dos ambientes de negócios, de grande significância pela sua influência na formação dos mercados e dos arranjos produtivos. O deslocamento espacial da produção, por exemplo, permite que organizações procurem as melhores condições de produção, tanto em relação à abundância de materiais e insumos em geral, quanto à existência de mão-de-obra mais barata e demais insumos associados aos saberes e competências. O temporal está relacionado, primordialmente, à aceleração dos processos produtivos, cada vez mais desconectados dos espaços do tempo cronológico e mensurável. Assim, ambos os deslocamentos são favorecidos pela permeabilidade da tecnologia da informação, doravante TI. Através das redes de transporte e comunicação que viabiliza, a TI fornece subsídios para processos de tomada de decisões que tendem a acontecer, simultaneamente, nos mais diversos espaços e nos mais diversos tempos (CASTELLS, 2003; VIRILIO, 1997).

A partir das argumentações de Harvey (2003) e Lyotard (2002), podemos inferir que tanto a aceleração do processo produtivo iniciado no final do século passado, como o planejamento espacial, estão relacionados a esta compressão espaço-tempo, típica da condição do modo de produção prevalente na atualidade. O tempo de produção, associado ao tempo de circulação da troca, forma um conceito de tempo de giro de capital, ou seja, quanto mais rápida a recuperação do capital posto em circulação, tanto maior o lucro obtido (HARVEY, 2003).

A busca pelo retorno do investimento no menor espaço de tempo possível é um conceito bem aceito e seguido pelas organizações atuais. Como efeitos imediatos desta compressão espaço-tempo, Harvey (2003) destaca a urgência e a rapidez como as decisões são tomadas pelo ator organizacional, o que tende a provocar movimentos bruscos e desastrosos no longo prazo.

Aspecto claramente abordado por aqueles que defendem o relacionamento entre organizações são as dificuldades de combinar uma abordagem relacional com a busca do lucro de curto prazo (FORD, 2004; FORD, GADDE, HÅKANSSON et al., 2003; HÅKANSSON e

LIND, 2004; HOLMLUND, 2004). Olhar para este curto prazo muito se associa à predominância de valores e virtudes do imediatismo e da descartabilidade, que acentuam a volatilidade e efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção, processos de trabalho, idéias e ideologias, valores e práticas estabelecidas (MCCRACKEN, 2003; SLATER, 2002). “A dinâmica

de uma sociedade do descarte, como a apelidaram escritores como Alvin Toffler, começou a ficar evidente durante os anos 60” (HARVEY, 2003, p.258).

Percebemos que os ambientes de negócios se apresentam cada vez mais estruturado em uma oposição entre a “rede” e o “ser” (CASTELLS,2003). Ademais, estão cada vez mais interligados com base em um espaço de fluxos intemporais (VIRILIO, 1997). Neste contexto,

os lugares (ambientes externos à organização) se tornam cada vez mais entrelaçados pelas influências distantes (fisicamente) deles.

Esta separação entre o tempo e o espaço parece ser fundamental para entendermos as dinâmicas dos ambientes de negócios atuais, não só pelo desencaixe das organizações que passam a depender de coordenação de tempo e espaço, mas também pelos mecanismos que permitem a possibilidade de se conectar o local com o global e pela possibilidade de recombinação histórico-mundial que as insere no tempo e no espaço (GIDDENS, 2002). Ao que

nos parece, o ator organizacional busca criar padrões (opções) que venham a minimizar espaços de incertezas, buscando criar caminhos mais seguros (GIDDENS, 1991), numa lógica

baseada no princípio de que, ao serem repetidos, certos padrões criam uma percepção de tranqüilidade pelo aparente estado de controle (BERGER e LUCKMANN, 2002). Para Giddens (1991), isso acontece como conseqüência da diminuição de ansiedades, na medida em que existe uma expectativa de que os comportamentos dos outros irão seguir ditames previamente estabelecidos, ou seja, institucionalizados.

Com o surgimento das redes interativas mediadas pelas mais diversas tecnologias da informação, novas formas e canais de comunicação são criados ou adaptados aos mais diversos ambientes, ou seja, alguns utilizando fibra ótica, outros tecnologias intermediárias (e.g., telefone, fax). Independente da tecnologia utilizada, esses canais mutantes passaram a nortear as ações e atividades do ator organizacional (CASTELLS, 2001).

Assim, o modo de desenvolvimento característico da atual fase do capitalismo é estruturado em torno de realidades que têm o poder de conectar e desconectar o ator organizacional de acordo com sua pertinência na realização dos objetivos processados por ele em sua própria rede. Neste contexto, a identidade passa a ser o ponto de confluência de interesses e de construção de iniciativas capazes de fazer frente aos desafios da ordem global. Neste ponto, o poder da identidade se expressa na construção de alternativas ao sistema por

via de movimentos sociais articulados a partir de identidades específicas (CASTELLS, 2001), mais especificamente na constituição de um ethos que, em nosso caso, é representado por um cluster de empresas de base tecnológica.

Nesta sucessão de acontecimentos relacionados à construção de identidades em redes de interações, acontece a produção de indivíduos capazes de criar uma história pessoal, de atribuir significado ao conjunto de experiências da vida individual (CASTELLS, 2001; MORIN, 2002; WEICK, 1995). O indivíduo (ator organizacional) passa a ser capaz de se auto-organizar

e de estabelecer relações com um outro, transformando-se continuamente. É nessa relação de alteridade que ele encontra a autotranscendência, superando-se, interferindo e modificando o seu meio a partir de sua dimensão ética, que não é imposta cultural ou universalmente a cada indivíduo, mas reflete escolhas, percepções, valores e ideais (MORIN,2002).

A cultura se torna uma importante variável na gênese desse novo ambiente de negócios (CASTELLS, 2001). Em outras palavras, quanto mais um indivíduo, ou grupo de indivíduos, estiver arraigado às instituições e às regras da sociedade industrial ou das sociedades pré-industriais, mais lento e difícil é o processo de transformação (adaptação). Na medida em que estes indivíduos também desempenham papéis organizacionais, esta premissa se faz presente nos processos de formação de parcerias de negócios (HENING-THURAU e

HANSEN, 2000; HOLMLUND-RYTKÖNEN e STRANDVIK, 2005; JOHNSON, 1999; MORGER, 2000).

No ambiente em que o ator organizacional opera, a racionalidade instrumental, manufaturável, disponível e contabilizável, isto é, sistematizada e estruturada, típica do modelo industrial, começa a perder sua eficiência no que se refere ao controle de situações e eventos do cotidiano de negócios (GUERREIRO RAMOS, 1989). Em seu lugar, deveria haver um processo contínuo de [des]construção de certezas, fazendo emergir conflitos e antagonismos ideológicos, culturais, econômicos e políticos (CASTELLS,2002). Estes, por sua vez, tenderiam

a se agruparem em torno da dicotomia seguro/inseguro, o que provavelmente criaria situações nas quais as incertezas e desordens passariam a sofrer oposição, segundo padrão do controle racional e instrumental.

Neste contexto, Baumam (1999) acredita ser importante repensar e desenvolver uma nova maneira de agir, que aceite e afirme a ambivalência da sociedade contemporânea. Apesar disso, a busca pelo entendimento da maneira pela qual as parcerias de negócios são constituídas ainda se fundam em pressupostos intrínsecos ao modelo industrial. Ademais, os estudos das análises de configurações e arranjos produtivos têm primordialmente olhado para as grandes corporações em detrimento daquelas de micro, pequeno e médio porte.

Não seria relevante resgatar o ator organizacional enquanto indivíduo interagente que reflete sobre suas ações, sua consciência e seu potencial de autonomia? (SCHÖN, 1983). Acreditamos que a valorização deste personagem organizacional poderia complementar o conhecimento gerado a partir de estudos fundamentados em pressupostos da racionalidade técnica/instrumental, pois aproximaria o homem de sua condição humana e facilitaria as múltiplas leituras da realidade a partir da consciência e da forma como os indivíduos intencionam o mundo em que vivem. Em outras palavras, como eles geram e apreendem o sentido se suas ações (WEICK, 1995).

Ao apresentar a sua visão do sensemaking, Weick (1995) argumenta que a geração e apreensão de sentido fazem parte de um processo que, apesar de ser individual, leva em consideração o ambiente ao qual o processo acontece. O sentido, portanto, deve ser entendido como a percepção de um ator organizacional em relação as suas ações, bem como a apreensão e compreensão das ações e atitudes dos demais atores com os quais interage. Assim, no momento em que duas partes vêem coerência e lógica em realizar esforços para empreender ações compartilhadas, a díade passa a fazer sentido às partes e, dessa forma, encontrarão motivos para interagirem.

A existência da possibilidade de que aconteça geração/apreensão de sentido, pressupõe que a realidade é permeada por descontinuidades e ambigüidades que geram lacunas (DERVIN,

1998). Para preenchê-las, são necessárias informações que não existem independente e externamente ao ator organizacional (indivíduo interagente), mas sim a partir de sua observação e interação com o ambiente. Essa interação é o que cria uma ponte para preencher lacunas oriundas da complexidade dos problemas (WEICK, 1995). Nessa dinâmica, a agência política assume papel importante na combinação, interpretação e articulação dos processos baseados em múltiplas fontes que passam a ser uma condição necessária para a solução de problemas complexos como é o caso do desenvolvimento de novas tecnologias (QUINN, 1985,

2000).

Nesta mesma linha de pensamento, Berger e Luckmann (2004) nos lembram que a percepção ou consciência de forma absoluta não existe. Necessariamente, tem de haver sempre algo, ou seja, existe apenas se orientada a um objeto, para um objetivo. Para eles, o sentido nada mais é do que uma forma complexa de consciência que não existe em si, mas sempre possui um objeto de referência, é a consciência de que existe uma relação entre as experiências vividas. A partir desta alegação, inferimos que para ser possível a existência de uma interação entre dois atores organizacionais, faz-se necessário que esta seja objetivada como importante e sua constituição algo como sendo almejado pelas partes (BATT e PURCHASE, 2004; HÅKANSSON e SNEHOTA, 2000; TURNBULL, FORD e CUNNINGHAM, 1996).

Parece haver, porém, uma tendência para que as atitudes e ações dos atores organizacionais não estejam em conformidade com processos de longo prazo como os relacionamentos. Em vez disso, quase sempre olham mais para o curto prazo e realizam ações voltadas primordialmente à diminuição dos custos e gastos operacionais (FORD, 2002; HÅKANSSON e SHARMA, 1996; WILLIAMSON, 1996). As interações são idealizadas a partir da

Neste sentido, as “parcerias” são construídas com a intenção de acessar atores que possam realizar outras atividades que, apesar de serem necessárias à realização de uma atividade maior, não são consideradas estratégicas para o projeto como um todo. Nestes casos, apesar da independência para agir, as operações destes “parceiros” são subordinadas por coordenação àquele que tem poder para isso (HUTT e SPEH, 2002) evidenciando assimetrias de

recursos e um ponto focal na interação (MINTZBERG, 2003). Na perspectiva deste estudo, mesmo considerando assimetrias nas interações, acreditamos haver uma alternância contínua entre “subordinados” da comunicação, isto é, uma alternância entre aqueles que são emissores com outros que são receptores, de indivíduos ativos e passivos na intricada e complexa relação entre parceiros em uma díade, mesmo que esta alternância aconteça em momentos e tempos distintos. Em outras palavras, ao que nos parece, é relevante que as partes interagentes percebam, ao longo das interações, a existência de eqüidade na relação.

Levamos em consideração os achados de Holmlund (2000, 2001) no que se refere à constituição de um relacionamento de negócios. Para ela, uma díade não está baseada apenas na maneira como os atores organizacionais se vêem ou nas atitudes mútuas, mas, primordialmente, na forma pela qual institucionalizam a relação através de uma seqüência de interações e de comportamentos condicionados ao longo do tempo. A produção de sentido cria o que antes não existia (GIOIA e CHITTIPEDDI, 1991; WEICK, 1993; WEICK, SUTCLIFFE e OBSTFELD, 2005). Assim, a geração e apreensão de sentido parecem ser as fontes que

alimentam um processo de constante construção de harmonias, frente aos conflitos tão presentes nos processos relacionais.

Inferimos que o ator organizacional (indivíduo interagente) ao perceber que sua organização não controla todos os recursos necessários para oferecer resposta satisfatória às demandas do mercado em que atua, ou seja, que dependente de outras, ele sente a necessidade de olhar para fora de suas fronteiras. Com isso, os limites entre as atividades e os recursos de

responsabilidade pertencentes a cada ator individualmente tornam-se tênues. Quando o ator percebe que a potencialização de um passa a ser a potencialização da rede, acreditamos que as interações de negócios passam a fazer sentido para ele e, assim, tende a ser natural a sua busca pela constituição de parcerias e conseqüente construção de relacionamentos de negócios.

Pesquisadores dos relacionamentos interorganizacionais (EASTON, ARAUJO e LONG,

1995; FORD, GADDE, HÅKANSSON et al., 2003; HÅKANSSON e SNEHOTA, 2000; LEMINEN, 2001) apontam para o fato de o ator organizacional sempre buscar controlar o maior volume de recursos disponíveis em seu ambiente, desde que estes sejam entendidos como essenciais para sua organização se manter ativa, saudável e em crescimento. No que se refere a esses recursos, não estariam as infra-estruturas físicas e as informações necessárias à resolução de um problema organizacional tornando-se commodities, não só em seu conteúdo, mas também no que se refere a sua disponibilidade e acessibilidade? Ainda no que se refere às informações, temos um sentimento de que o problema está muito mais em ter noção, diante da multiplicidade de possibilidades, quais são as informações importantes e essenciais à solução de um determinado problema em questão e em qual o fluxo ou fluxos um ator organizacional (indivíduo interagente) pode encontrá-las.

Neste caso, possivelmente, a solução do problema passaria pela escolha do fluxo de informações e conhecimentos mais adequados, ou seja, que seja considerado pelo ator organizacional mais coerente na construção de um estoque de conhecimentos (SCHÜTZ, 1967).

Este, por sua vez, irá subsidiar a solução de problemas tanto no presente, quanto no futuro, bem como irá auxiliar no entendimento de soluções do passado.

Esta busca por fluxos de informações e conhecimento nos parece que tende a ser mais exitosa quanto maiores forem as capacidades e habilidades do ator organizacional de realizar deslocamentos para os espaços nos quais aconteçam maiores confluências de fluxos de informações e conhecimentos em sua rede de interações. Acreditamos que esta busca pela

centralidade, igualmente à procura por se engajar em parcerias, pressupõe a possibilidade e necessidade de serem realizadas ações e, conseqüentemente, esforços nesta direção.

Weick (1995) nos lembra que a geração de sentido estará, muitas vezes, dissociada do tempo físico. Para ele, as ações de hoje são um reflexo do passado, projetado para o futuro ainda desconhecido, que irá demandar transformações e adaptações. Romper com o determinismo e a simplificação e incorporar o acaso e a incerteza como parâmetros para entender seu ambiente de negócios poderia ser um caminho. Em outras palavras, o ator organizacional talvez precise aprender a conviver com a ambivalência para poder interagir, de forma harmoniosa, com seus parceiros de negócios.

Nesta perspectiva, não deveriam os objetivos do ator organizacional ir além do fato de estarem inseridos em parcerias de negócios, nos quais os fluxos de conhecimento e informações acontecem, visto ser esta uma condição para que possa desenvolver suas atividades? Ou seja, não deveria ele buscar complementaridades de informações, competências, habilidades e outros recursos? Desta forma, o ator organizacional possivelmente iria fortalecer sua posição na rede de interações, potencializando sua organização e, conseqüentemente, as redes de negócios nos quais ele estaria inserido.

Partimos do pressuposto de que, para descrever uma parceria entre duas organizações, primeiramente deveríamos analisar as ações cotidianas dos atores que a constituem, posto que olhamos para os fatos sociais como um contínuo desenrolar destas ações. Referimo-nos às pessoas que constroem e articulam as interações de negócios, aos indivíduos que, em suas atividades comerciais diárias, olham sempre para a construção de parcerias de negócios.

Adentramos no universo relacional destes indivíduos interagentes (ator organizacional), intencionando investigar a geração/apreensão de sentido das ações que empreendem para constituir suas parcerias de negócios. Em outras palavras, buscamos vislumbrar a maneira pela qual essas atividades se tornavam visíveis, racionais e reportáveis

para ele e para seu ambiente de negócios. O caminho que adotamos foi o da tradição qualitativa (DENZIN e LINCOLN, 1994), pois estávamos interessados em investigar como os

atores organizacionais geravam sentido de seus mundos relacionais, bem como as normas que dirigiam seus julgamentos. Isso foi feito, a partir da forma como eles descreviam e explicavam suas ações cotidianas voltadas para a construção de relacionamentos de negócios.

Norteamos nossa investigação a partir de questões relacionadas à natureza da intersubjetividade, da organização do conhecimento dos indivíduos interagentes (ator organizacional) sobre suas atividades ordinárias; sobre seus próprios empreendimentos organizados, nos quais o conhecimento que possuem ou a que têm acesso é tratado como parte do mesmo ambiente que eles também organizam (GARFINKEL, 1967). Neste contexto,

alguns aspectos foram preponderantes, como, por exemplo, os processos que levam à integração, ao consenso, à solidariedade, à parceria. Em suma, investigamos os métodos que esse ator organizacional utiliza em seu cotidiano para realizar atividades de construção de relacionamentos de negócios, quando estes são voltados para o desenvolvimento de produtos e processos que [re]criem, a todo instante, ofertas inovadoras disponibilizadas por suas organizações aos seus mercados.