Ambiente Atmosfera
2.1.2.2.25 O Processo de Interação
O processo de interação é o meio pelo qual as trocas entre os parceiros acontecem. Três são os pilares do pensamento do IMP-Group apresentados por Ford (2002). A teoria de custos de transação, a teoria de dependência de recursos e a teoria de redes. O processo de interação é entendido pelo grupo nórdico como uma forma de sobreviver, posto que não há como se controlarem, diretamente, todos os recursos de que se necessita (teoria de dependência de recursos). Assim, por meio dos relacionamentos, uma rede de interações é formada (teoria de redes) para que seja possível controlar recursos que outros atores possuem. Os relacionamentos, por sua vez, são necessários e interessantes na medida em que reduzem os custos de transação entre os parceiros.
Apesar de muitos dos pesquisadores do IMP-Group buscarem diretamente em Williamson (1975) alguns dos subsídios de que necessitam para a construção de suas argumentações sobre as trocas (FORD, 2002), em nosso estudo, fomos auxiliados por Coleman (1990)e sua teoria da ação coletiva (interação entre indivíduos) para tentar explicar como se dá o surgimento de normas, regras ou, em sentido mais amplo, instituições. Assim, este autor nos forneceu uma explicitação dos fundamentos desta vertente teórica, posto que seu trabalho também se fundamenta na teoria de custos de transação.
A partir de Coleman (1990), olhamos para uma teoria social que procura explicar as interações entre indivíduos de forma a gerar ações coletivas, e como estas relações
estabelecidas entre os indivíduos criam um sistema de comportamentos que volta a lhes influenciar, formando a estrutura social. Destacamos, em Coleman (1990), a busca da explicação da interação social. Neste sentido, ele procura fornecer um instrumental teórico para compreender o surgimento das instituições a partir do comportamento dos indivíduos. Assim, o trabalho deste autor procura criar uma teoria que não apenas fornece explicações para as ações no plano individual e econômico, mas também nas demais esferas das relações sociais, como a política, a sociologia, o direito, etc.
Ele inicia sua teoria apresentando os elementos básicos da análise. Dois deles são os atores e os recursos. Os outros dois estão associados às relações entre os elementos e àquelas entre os atores e os recursos. Assim, tem-se: o controle, que é a relação do ator com seu próprio recurso, e o interesse, que é a relação do ator sobre recursos de outros atores. Coleman (1990) toma como pressuposto que a ação só existe no nível individual e que o nível do sistema surge como propriedades emergentes da interação entre as ações individuais.
Para ele, a interação existe porque os atores não têm controle sobre todos os recursos sobre os quais têm interesse. Apesar de atores serem levados, em um primeiro momento, a pensar em termos econômicos (custos mais baixo), Coleman (1990) dá um sentido mais geral, pois afirma que os atores são muito mais que agentes econômicos, são indivíduos que mantêm relações em suas vidas sociais (e.g., políticas, econômicas, sociológicas, jurídicas, culturais). Quanto aos recursos, ele alega que é ingênuo considerá-los como sendo apenas bens públicos ou privados, mas também incluem, por exemplo, o controle da ação de outros atores. Nesse sentido, colocar como recurso o controle sobre a ação dos outros e, assim, a possibilidade da alienação do direito do controle de ação, claramente remete à esfera política, por se tratar de uma forma genérica de falar de relações de transferência ou delegação de poder.
A relação de controle é uma generalização do conceito de propriedade para além da esfera econômica (e jurídica). O desejo de alienação do controle é uma generalização do
conceito de oferta e a relação de interesse pode ser considerada uma generalização do conceito de demanda. O conceito fundamental que se deriva dos elementos anteriores é o de ação que surge nas relações entre os atores, controladores de recursos que buscam satisfazer seus interesses.
Assim, são apontados três tipos de ação. A primeira está associada ao exercício de controle sobre recursos próprios (de controle direto). Este tipo não tem interesse para uma teoria da ação coletiva. Na segunda, têm-se as transações, que acontecem quando um ator utiliza os recursos que controla para conseguir o controle dos recursos controlados por outro ator, pelos quais tem interesse. Por fim, encontram-se as transferências unilaterais que tomam forma quando o controle sobre os recursos alheios é obtido pelo ator sem que ele precise utilizar seus recursos próprios. Estas últimas também não têm interesse para uma teoria da ação coletiva na medida em que não envolve relações entre atores, mas a decisão unilateral de um ator para com outro.
As transações são as ações importantes no processo de compreensão da teoria da ação social de Coleman (1990) e podem ser consideradas como uma generalização do conceito de trocas, estendendo a sua lógica para as demais relações sociais. Para isto, o autor usa a expressão trocas sociais. Para ele, as trocas surgem no sentido de diminuir as discrepâncias entre controle e interesse, pois os atores têm controle sobre certos recursos, mas têm interesse em outros que estão sob controle de outros atores organizacionais. As trocas tendem a levar a uma situação de equilíbrio na medida em que os atores as fazem para realizarem seus interesses. Outro conceito relevante para compreender as trocas sociais é o controle constitucional, que é o controle de recursos similar ao conceito de dotação inicial da teoria neoclássica.
Na Abordagem Interacional, a troca de produtos normalmente é a atividade essencial dos episódios de curto prazo, na qual as demais atuam de forma coadjuvante. Dessa forma, as
características intrínsecas e mesmo extrínsecas desses produtos passam a ter importância na intenção de uma das partes em repetir a troca. As demandas do outro interagente devem ser supridas pela oferta de tal forma a satisfazer o outro. Caso alguns pontos demandados por uma das partes não atinjam os pré-requisitos mínimos, isto pode pôr fim a quaisquer tentativas futuras de interações.
As trocas de informações são igualmente importantes. Entre as quais mencionamos aquelas relacionadas aos aspectos técnicos, econômicos ou mesmo organizacionais. Uma característica interessante das trocas de informação é o fato de estas transferências poderem ser realizadas tanto de forma direta como indireta, quer por meios pessoais ou impessoais. A formalização das trocas de informações também deve ser considerada, posto que o nível de formalidade tende a depender dos tipos de atores envolvidos, do contexto ao qual estão inseridos e do estágio de relacionamento entre as partes.
A quantidade, freqüência e volume de recursos financeiros circulantes entre as partes apontam para a importância econômica dos relacionamentos. Muitas vezes, a falta deste recurso pode estar relacionada tanto à escassez, como as dificuldades ao seu acesso, o que tende a inibir ou mesmo impossibilitar a consecução de relacionamentos de negócios entre dois ou mais atores organizacionais no longo prazo.
As trocas sociais, por seu turno, exercem importante função na redução das incertezas entre os dois atores envolvidos em uma parceria de negócios (HÅKANSSON e ÖSTBERG, 1975).
Estas trocas são particularmente significantes quando existem distâncias entre os parceiros, ou, ainda, quando suas experiências são limitadas. Os episódios nos quais acontecem as trocas sociais são igualmente importantes, pois reduzem as dificuldades que, porventura, possam ocorrer no curto prazo, bem como servem para manter o relacionamento ativo entre as transações.
Porém, para Ford (2002) , a principal função das trocas sociais está nos processo de longo prazo, visto que o tempo fornece condições para que as partes aumentem seus níveis de contato, tanto em intensidade quanto em freqüência. Ademais, deve ser contemplada a possibilidade de que alguns acordos operacionalizados entre os parceiros não sejam totalmente formalizados, mas sim como conseqüência da confiança mútua (MACAULY, 1963).
Sendo assim, esta confiança passa a ser fruto de um processo social que demanda tempo e que depende tanto da experiência individual do ator organizacional como da avaliação positiva da execução dos processos de troca dos demais elementos.