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4.1 O mapa conceitual do mundo

4.1.1 A totalidade em desenvolvimento

A idéia é uma totalidade em desenvolvimento de auto-explicitar-se e de auto-entender-se (Cf. WdL II, p. 550; SL III, p. 369) que tem a forma imediata da sua existência na singularidade do ser-vivo, como um todo uno e completo. Pinkard (1987, p. 94) entende que “a idéia pode ser

ela como o ‘mapa ideal do mundo’, no sentido de que, em tal mapa, encontra-se o arcabouço do todo, ou seja, deve conter o esboço das propriedades gerais de todos os sistemas conceituais que

permitem um tal mapeamento a priori do mundo, que serão expressos mediante a Vida e o

Conhecimento. A vida como a estrutura do organismo privado de conhecimento, mas com um

desenvolvimento intencional desprovido de consciência (o que Hegel chama de impulso, Trieb),

e o conhecimento teórico e prático; o primeiro como uma consciência cognitiva e uma descrição teórica do mundo, e o segundo como uma consciência cognitiva prática que transforma o mundo.

Para compreendermos o significado da idéia e da afirmação de que a sua forma imediata é o ser-vivo lógico, precisamos retomar alguns aspectos desse conceito, que são importantes para

a sua definição em Hegel. Começaremos por citar Aristóteles (1981) que, em sua Metafísica, nos

apresenta a origem da concepção platônica da Idéia como tributária de Heráclito125, para quem

todos os objetos sensíveis estão em constante devir, o que impossibilita qualquer ciência dos mesmos. Herdeiro de Sócrates - o primeiro filósofo a se preocupar com definições - e partidário da compreensão da constante mudança das coisas sensíveis, Platão acreditou que suas definições

deveriam recair sobre outros seres de caráter perene, aos quais chamou de Idéias, acrescentando,

ainda, que os objetos sensíveis apenas participam das idéias, estando fora delas. Se para Platão a

Idéia (eidos) ou Forma é uma entidade ideal, com existência plena, universal e distinta das coisas

que a imitam ou dela participam, para Aristóteles a idéia (eidos) está mais próxima do universal

ou da Forma imanente que se realiza nos particulares, é muito mais inerente do que transcendente às coisas. Apesar de seu apreço por Platão, Hegel rejeita a concepção de dois mundos, um dos quais abrigaria as Idéias perenes e o outro as coisas mutáveis. Neste sentido, inclina-se para a concepção aristotélica da imanência das idéias (Forma) nas coisas, pois não a considera como uma entidade e nem como transcendente e separada dos particulares: “Quando se fala de idéia, com isso não se deve representar algo distante e além. Muito pelo contrário, a idéia é o absolutamente presente [...]” (E I, § 213 Z).

125 Aristóteles, Livro I, 6; e Livro XIII, 4, refaz o percurso da filosofia grega, assinalando que Platão herdou a concepção do movimento constante das coisas sensíveis, por intermédio do seu primeiro mestre, Crátilo, esse sim discípulo direto de Heráclito.

Tal acepção distancia-se também da posição kantiana, de cunho platônico renovado126, para quem a idéia é um conceito de razão e não do entendimento, e, por isso, não pode ser encontrada em parte alguma da experiência, sendo incapaz de relacionar-se ao dado da percepção

sensível: “Os conceitos da razão servem para conceber, assim como os do entendimento para

entender (as percepções)” (KrV A 311). Embora Kant não aderisse totalmente a Platão e tentasse retirar o “caráter místico” da dedução das idéias e os “exageros que as hipostasiou”, reconhecia a transcendência das mesmas, procurando estabelecer, contudo, uma nítida distinção entre idéia e conceito: “Um conceito extraído de noções e que transcende a possibilidade da experiência é a idéia ou conceito da razão” (KrV B 377), ao passo que os conceitos puros do entendimento têm a tarefa de relacionar-se com os possíveis objetos da experiência. Por este motivo, é interditada à idéia qualquer validade epistemológica, posto que ela, como conceito da razão e não do entendimento, não pode relacionar-se com os objetos da experiência, aos quais transcende. Mas, nem por isso, é destituída de valor: as idéias transcendentais, como conceitos puros da razão, são necessárias como ideal regulador, para conduzir o entendimento, segundo princípios, ao máximo do seu uso possível no conjunto total da experiência. Porém, aos conceitos puros do entendimento não é permitido ultrapassar os limites da experiência, por isso eles são imanentes e restritos a si mesmos. Todavia, ao mesmo tempo em que lhes está interditada a passagem para além da experiência, também interditam o alcance da razão, limitando o seu território. Como Hegel (E I, § 52 Z) observa: “Kant, na verdade, apreendeu a razão como a faculdade do incondicionado; entretanto, se ela, simplesmente, é reduzida à identidade abstrata, isso implica, igualmente, o abdicar de sua incondicionalidade, e então a razão, de fato, não é outra coisa que entendimento vazio”.

As idéias transcendentais são o horizonte de alargamento da experiência, porquanto são puras, transcendentes e incondicionadas. Não obstante, a razão teórica não pode inferir a existência de seres ou objetos transcendentes que corresponderiam às idéias puras, posto que as idéias referem-se à totalidade da experiência, o que ultrapassa o limite do tempo e do entendimento. Entretanto, estas mesmas idéias transcendentais (Deus, Liberdade, Imortalidade da

126 Kant, no livro primeiro da Dialética Transcendental da Crítica da Razão Pura: “Dos conceitos da Razão Pura”, esclarece o uso da palavra idéia (Idee), “retirada das línguas mortas e eruditas” e da tradição filosófica, ao mesmo tempo em que caracteriza o significado preciso que pretende dar ao termo. Elogia Platão como o “sublime filósofo”, para quem as idéias “são arquétipos das próprias coisas e não apenas chaves de experiências possíveis, como as categorias”, que são conceitos do entendimento, ao contrário, as idéias as ultrapassam largamente. Elogia, sobretudo, o uso prático que Platão dá às Idéias, filiando-se a essa compreensão, embora retirando todo o caráter pretensamente místico ou metafísico do mesmo. Ver Kant (KrV A 310-320; B 367-377, especialmente B 370).

alma), do ponto de vista da razão prática, podem ser substanciadas e usadas em um sentido específico.

Hegel elogia Kant por ter definido a idéia como um conceito da razão e por tê-la elevado ao plano do incondicionado (WdL II, p. 462; SL III, p. 273), mas este elogio contém uma ironia, uma vez que tais conceitos do incondicionado são transcendentes em relação aos fenômenos,

servindo apenas como ideal moral a ser alcançado127; ao passo que os conceitos puros do

entendimento, que se relacionam com os objetos, ficam reduzidos à esfera da mera representação. Por isso, no entender de Hegel, a limitação do conhecimento aos fenômenos opera uma desvalorização da esfera cognitiva, visto que rebaixa o conhecimento ao campo condicionado do entendimento e da representação. Contudo, ainda que às idéias da razão caiba a função de referir-se ao incondicionado, elas restringem-referir-se a um papel regulador para a atividade do entendimento, sendo-lhes interditado qualquer papel constitutivo para um conhecimento possível. Por conseguinte, as idéias reguladoras contribuem para orientar o entendimento ao seu máximo, sem ter, entretanto, a pretensão de constituir um objeto ou contribuir diretamente para o conhecimento, dado que não tem objetividade real.

Dessa maneira, a determinidade permanece exterior ao pensar [considerado] em seu píncaro mais alto; ele permanece pura e simplesmente um pensar abstrato que aqui se chama sempre razão. Essa razão – é esse o resultado – nada fornece a não ser a unidade formal para a simplificação e sistematização das experiências; é um cânon, não um

órganon da verdade, não pode fornecer uma doutrina do infinito, mas apenas uma

crítica do conhecimento. Essa crítica consiste, em última análise, na garantia de que em si o pensar é apenas a unidade indeterminada e a atividade dessa unidade indeterminada. (E I, § 52)

Hegel discorda veementemente da conclusão kantiana, pois almeja restituir valor à razão, que não pode ser reduzida a uma mera unidade formal e indeterminada. Muito pelo contrário, Hegel pretende mostrar que a razão e, portanto, a idéia, é o instrumento adequado do conhecimento, ou, numa linguagem kantiana, as idéias possuem um papel constitutivo para o conhecimento das coisas e, por isso mesmo, para a constituição das próprias coisas: “A razão que é a esfera da idéia é a verdade revelada a si mesma na qual o conceito tem a realização simplesmente a ele apropriada, e, portanto, é livre, porquanto ele conhece este mundo objetivo seu em sua subjetividade e esta naquele” (WdL II, p. 271, SL III, p. 64).

127 “Kant reivindicou expressamente para a razão prática o que recusou à razão teórica: a livre autodeterminação” (E I, § 54 Z).

Como unidade do conceito e da objetividade, a idéia é o verdadeiro e, assim, não pode ser compreendida como um fim a ser alcançado algum dia, que funcionaria como um “Bem” almejado que estaria sempre além de nossas possibilidades, ou como um ideal regulador da atividade do entendimento, pois a idéia é o conceito efetivado, e o que é efetivo, só o é porque corresponde a sua idéia e a expressa (Cf. WdL II, p. 464; SL III, p. 275). O verdadeiro é realizado no mundo justamente porque é idéia e se faz objetivo.

O objeto, o mundo objetivo e subjetivo em geral, não deve simplesmente coincidir com a idéia, mas eles mesmos são a congruência do conceito e da realidade; a realidade que não corresponde ao conceito é simples fenômeno, o subjetivo, contingente, arbitrário, que não é a verdade. (WdL II, p. 464; SL III, p. 275-276)

Portanto, o âmbito do verdadeiro pertence à idéia, ao passo que os fenômenos do entendimento são meras representações submetidas ao arbítrio da subjetividade. Quanto às idéias práticas, ainda que Hegel concorde com Kant de que o senso comum não é digno de fornecer o sentido da moral, ou seja, de que o seu significado não poderia ser encontrado nas coisas empíricas, por outro lado, elas não podem ser entendidas como uma meta da qual devemos nos aproximar sem jamais alcançar, pois, visto que a idéia é a totalidade do conceito e da objetividade, é a forma acabada do verdadeiro que já está presente no mundo e não um ideal que devemos realizar.