• Nenhum resultado encontrado

Finalidade subjetiva: o trabalho humano

2.2 Finalidade e mecanismo

2.2.3 Finalidade subjetiva: o trabalho humano

A elucidação da teleologia externa aparece depois do mecanismo e do quimismo para fechar a seção Objetividade. Na teleologia nós temos a exposição do processo subjetivo do conceito, cuja melhor explicitação ocorre através do trabalho humano sobre os materiais da natureza, fazendo com que estes atuem a favor do homem, ou seja, o homem utiliza as potencialidades naturais contra a própria natureza, em benefício próprio. Com esta atuação,

caracterizada por Hegel como “astúcia da razão”80, temos a definição e o acabamento da

teleologia externa e a transição para a Idéia, que no entender de Hegel é a teleologia interna. Deste modo, o conceito subjetivo conclui a sua transposição para a objetividade exterior, ganhando maior concreção conceitual até seu acabamento como vida lógica ou idéia imediata.

O conceito subjetivo, ou fim subjetivo, refere-se, portanto, a atividade humana e à intencionalidade posta nas coisas por meio desta atividade. Assim, o objeto produzido, fruto da técnica humana, terá sempre uma finalidade que não é originalmente a sua, mas que pertence ao

79

Todo este capítulo segue, em linhas gerais, este instigante artigo de Jacques D’Hont, principalmente às análises que se seguem, referentes à teleologia externa.

80 Hegel utiliza esta expressão na Enciclopédia, § 209, ao tratar do fim subjetivo. Na Ciência da Lógica, referindo-se também ao fim subjetivo, o autor mostra que a astúcia da razão refere-se ao fim que entraria no mecanismo e no quimismo, se expondo ao objeto como meio. Assim, “o deixa desgastar-se trabalhando exteriormente em seu lugar, o abandona ao atrito/fricção e se conserva por detrás dele, frente a violência mecânica” (WdL, p. 452-453).

seu executor, à causa eficiente. O homem, como produtor de artefatos e com a capacidade de transformar a natureza em seu próprio benefício, introduz a sua finalidade na natureza e lhe dá uma feição antropologizada. O trabalho humano transforma a natureza em um produto cultural (o domínio do espírito), com todas as conseqüências benéficas e adversas que tal atividade pode acarretar.

Em Kant, o paradigma da relação finalista no domínio da ação humana ocorre com a determinação meramente formal da lei moral pela autonomia da vontade, ou seja, a vontade dá a si mesma um fim que não está inscrito na natureza. Todo homem deve ser tomado enquanto vontade livre como fim em si-mesmo, e nunca simplesmente como meio. Deste modo o homem,

como agente moral, é, ao mesmo tempo, fim e meio da moralidade81. Em Hegel este paradigma

se encontrará na transformação material da natureza por intermédio do trabalho humano que introduz na natureza uma finalidade que lhe é exterior.

Na Ciência da Lógica e na lógica da Enciclopédia, o capítulo referente à teleologia é ocupado com a forma menos verdadeira da finalidade, a finalidade externa. A realização do fim por ele mesmo, ou finalidade interna, aparecerá apenas na vida lógica, que é momento da insuficiência da teleologia e passagem para a Idéia. Neste capítulo, Hegel dedica-se à forma verdadeira da finalidade, a teleologia interna.

O tratamento da teleologia externa se dará na forma de um silogismo da ação, como a própria divisão do capítulo já o indica: A. O Fim Subjetivo; B. O Meio; C. O Fim Realizado. O

homem age perseguindo seus fins, a sua práxis está inserida em uma natureza e em um mundo

social que compreende ambas as partes numa relação de ação recíproca. A ação humana também é atingida e modificada pela resistência da natureza e dos outros indivíduos, ou seja, o homem, ao agir, também sofre a ação do objeto e do mundo que transforma.

Para Hegel, numa nítida oposição ao posicionamento kantiano, “a relação de finalidade (Zweckbeziehung) é mais que um juízo, ela é o silogismo do conceito autônomo e livre que se encadeia consigo mesmo por intermédio da objetividade” (WdL II, p. 444; SL III, p. 253-254).

81 Kant afirma: “A natureza racional existe como fim em si. É assim que o homem se representa necessariamane a sua própria existência; e, neste sentido, este princípio é um princípio subjetivo das ações humanas. Mas é também assim que qualquer outro ser racional se representa a sua existência, em virtude exatamente do mesmo princípio racional que é válido também para mim; é portanto simultaneamente um princípio objetivo, do qual como princípio prático supremo se tem de poder derivar todas as leis da vontade. O imperativo prático será pois o seguinte: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio” - Kant, I., Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1980, segunda seção, p. 135.

Como explicação da concepção hegeliana, usemos o exemplo de uma casa que o homem constrói para proteger-se das intempéries, dos animais e, também, de outros homens. O que caracteriza uma atividade como essa é o recurso à própria natureza como material (objeto) que o homem transforma em função do fim que pretende alcançar. Esta característica é o que permite colocar a finalidade no seio do mecanismo da natureza, como abordamos anteriormente. A natureza segue o seu mecanismo cego, é ameaçadora e adversa ao homem. Todavia, este se utiliza desse mecanismo para domá-la e torná-la mais amistosa, trabalhando para ele. A estrutura silogística desta relação teleológica é a mesma da divisão do capítulo, que foi referida acima: o Conceito,

como o fim subjetivo; a Atividade, como o meio e o Objeto, como o fim realizado. O ponto de

partida é o fim subjetivo representado pelo entendimento humano enquanto Conceito que

estabelece o plano da obra; a atividade é o meio entre o conceito do objeto e sua existência; o

resultado da atividade é o fim objetivamente realizado. Esta estrutura silogística caracteriza a

finalidade externa.

A relação teleológica, enquanto imediata, é antes de tudo a finalidade exterior; e o conceito se contrapõe ao objeto como a um objeto pressuposto. O fim é, portanto, finito: de uma parte, segundo o conteúdo; de outra parte, porque tem uma condição exterior em um objeto a ser encontrado enquanto material de sua realização; sua autodeterminação é, nessa medida, apenas formal. (E I, § 205)

A atividade do conceito subjetivo é a tendência e o impulso do fim em se objetivar, em se pôr na exterioridade. O fim é, antes mesmo de realizar-se, a forma do conceito subjetivo, embora tenha, ao mesmo tempo, apenas a modalidade do “apenas subjetivo”. Porém, para o conceito, este traço aparece como uma carência, uma falta e o fim e, por isso, é o impulso a realizar-se, a negar-se como puramente subjetivo e a passar para a objetividade. Este impulso é já a atividade do fim. Assim, o fim é ação, pois a atividade é o meio através do qual o fim passa de

subjetivo a objetivo. O meio (Mittel), para Hegel, é o que podemos designar como o

“meio-instrumento”, ao mesmo tempo em que é também considerado como o termo-médio de um

silogismo, mas o termo-médio completo (die ganze Mitte) comporta ambos, a atividade e o

meio-instrumento (E I, § 204).

A relação teleológica é o silogismo em que o fim subjetivo se encadeia com a objetividade, que lhe é exterior, através de um termo-médio que é a unidade dos dois, como a atividade conforme-ao-fim, e como a objetividade posta imediatamente sob o fim, é o meio. (E I, § 206)

Em relação ao trabalho humano, o termo-médio (a atividade) que une o fim concebido, enquanto conceito, e o fim realizado, enquanto objeto, deve ser algo exterior aos extremos, e não a autodeterminação mesma do conceito de fim, em vista da finitude deste: “na finalidade finita, o

termo-médio é este [ser] partido (Gebrochene) nesses dois momentos exteriores um ao outro: a

atividade, e o objeto que serve de meio” (E I, § 208 A).

O fim subjetivo tem uma estrutura cindida porque é, ao mesmo tempo, reflexão em si e reflexão para fora de si, o que revela uma oposição entre o fim e o mundo objetivo que aparece exteriormente como um material para a sua realização. Deste modo, podemos perceber que a atividade é apenas o termo-médio entre ambos, aquilo que é aplicado a esse material dado para modificá-lo.

Todavia, o mundo objetivo não é apenas um material passivo onde a atividade atua, mas também impõe a sua resistência e “age”, de algum modo, no próprio fim. Assim, o mundo

objetivo é também o meio (Mittel) que a atividade emprega para modificar o material. Deste

modo, o mundo objetivo desdobra-se no processo do trabalho e, com isso, temos a introdução de

um novo elemento colocado no meio, ou no termo-médio (Mitte) entre o fim subjetivo (conceito)

e o fim realizado (objeto exterior), um novo objeto com o qual a atividade imediatamente relaciona-se para produzir um fim. Este novo objeto é o instrumento. Hegel caracteriza esta relação como uma violência, porque o homem utiliza-se do objeto como um meio para produzir um fim que impõe às coisas e não tem relação alguma com o instrumento. Ele cria um meio que sirva de meio para o seu fim, e faz com que o objeto que criou, o instrumento, trabalhe por ele para o fim que é dele.

Que o fim se refira imediatamente a um objeto e o converta em meio, como também, que ele determine, por meio deste [meio], a outro [objeto], pode ser considerado como

violência, porquanto o fim aparece como de natureza totalmente diversa do objeto e ambos objetos são, igualmente, totalidades autônomas uma frente a outra. Porém, que o fim se ponha na relação mediada com o objeto, e interponha um outro objeto entre si e aquele [objeto], pode ser considerado como a astúcia da razão. Como se observou, a finitude da racionalidade tem este aspecto [Seite], a saber, que o fim se relaciona com a pressuposição, quer dizer, com a exterioridade do objeto. Na relação imediata com este mesmo [objeto], ele [o fim] mesmo entraria no mecanismo ou quimismo e seria, por isso, submetido à contingência e ao ocaso (Untergange) de sua determinação, para ser o conceito sendo em si e para si. Mas assim ele dispõe de um objeto como meio, deixa-o extenuar-se exteriormente no seu lugar, abandona-o a seu uso (gibt es der Aufreibung preis) e mantém-se atrás dele contra à violência mecânica. (WdL, II, p. 452-453; SL III, p. 262-263)

Aqui vemos a atuação da astúcia da razão, que nada mais é do que a utilização que faz o homem da natureza, criando instrumentos que tornem a vida mais confortável e segura. Ainda que a natureza, deixada a si mesma, seja regida por uma necessidade cega, o homem a observa e a utiliza para seus fins. Com o instrumento e através dele, o homem nega o mecanismo cego da natureza, fazendo com que se volte contra si mesmo. Este é o modo, por exemplo, como o homem utiliza a água e os ventos para produzir fins muitos distintos do que aqueles inscritos na natureza.

Sejam quais forem as forças que a Natureza desenvolva e desencadeie contra o homem, frio, animais selvagens, água, fogo – ele conhece meios contra elas, e, na verdade, ele retira esses meios dela [a natureza], utiliza-os contra eles mesmos; e a astúcia de sua razão permite que ele [o homem] jogue contra as potências naturais outras coisas da natureza, entrega estas àquelas para serem aniquiladas e atrás [delas] se protege e conserva. (E II, § 245 Z)

Destas afirmações podemos tirar várias conseqüências, sendo a primeira a recusa hegeliana da teologia física, visto considerar o uso de objetos para produzir os fins humanos como uma violência, pois a natureza adversa e perigosa deve ser domada contra si mesma: ‘pode considerar-se como uma violência, o recurso a um objeto enquanto útil, visto que o fim se manifesta de uma natureza completamente diversa do objeto’ (Cf. WdL, p. 452; SL III, p. 262), ao passo que a teologia física via a natureza como a expressão da bondade divina que tinha produzido uma natureza amistosa e útil, para servir de meio aos fins da existência humana. Ao invés de pensar uma natureza amistosa e criada para a fruição do homem, Hegel a pensa como

indiferente aos fins humanos. Desta forma, pode acrescentar maior brilhantismo e, sobretudo,

liberdade às ações.

O finalismo baseado na teleologia externa, do qual partilha a teologia física, priva as ações humanas de justificação e liberdade, pois defende que a criação foi previamente pensada pelo arquiteto do mundo, em sua perfeição, para facilitar a vida humana. Para que seja possível a

ação livre do homem, deve ser este, e não Deus, quem determina os fins à natureza e, para isso, é

preciso que ela seja indiferente e obedeça ao seu mecanismo cego, ou seja, às suas próprias leis. Desta forma, a “visão” que esta pode obter é dada pelo homem que a domina por conta própria, e

A consideração teleológica, outrora tão apreciada, colocou nos fundamentos a relação ao espírito, mas somente se restringiu à finalidade externa e tomou o espírito no sentido do finito e preocupado com fins naturais; por causa da insipidez de tais fins finitos, para os quais ela mostrava as coisas naturais como úteis, ela [a consideração teleológica] perdeu seu crédito para mostrar a sabedoria de Deus. Porém, o conceito de fim (Zweckbegriff)

não é apenas externo à natureza, como quando digo: “A lã dos cordeiros existe somente para que eu me possa vestir”; brotam daí muitas parvoíces, por exemplo, ao admirar-se a sabedoria de Deus, como se diz nos Xênios, porque ele faz brotar sobreiros [da cortiça] para rolhas de garrafas, couves e ervas para estômagos enfermos, zinabre para cosméticos. (EII, § 245 Z)

O que a razão humana faz, diante do mecanismo da natureza, é colocá-lo a serviço da realização dos seus fins, utilizando-o como instrumento de trabalho. É essa a atitude prática, que brota das nossas carências que procuramos suprir, usando as coisas naturais como meios. Porém, a maneira correta de entender a natureza está calcada no princípio da teleologia interna, “a verdadeira consideração teleológica – e esta é a mais sublime – consiste pois em considerar a

natureza como livre em sua vitalidade própria” (EII, § 245 Z).

Ainda que a natureza em si mesma seja livre, os fins que nós lhe assinalamos são os nossos. Por isso, Hegel entende que é necessária uma mediação dialética entre mecanismo e teleologia, para que o fim se realize como negação de uma oposição que a atividade humana introduz no âmago do mecanismo da natureza.

A construção de uma casa é, antes de tudo, um fim e propósito interno. A ele contrapõem-se, enquanto meios, os elementos particulares, como o material, o ferro, a madeira e a pedra. Os elementos são empregados para trabalhar os metais: o fogo para fundir o ferro, o ar para atiçar o fogo, a água para pôr em movimento as rodas, cortar a madeira, etc. O resultado é que o ar, que cooperou, é retido pela casa, bem como as águas da chuva e a perniciosidade do fogo, na medida em que a casa é incombustível. As pedras e as vigas obedecem à gravidade, propendem a mergulhar na profundidade, e por meio delas erigem-se altas paredes. Os elementos são, pois, usados segundo a sua natureza e cooperam num produto pelo qual são limitados. (PGh, p. 42)82

O ponto central da análise hegeliana acima exposta é o da oposição imediata entre o fim subjetivo (que vem a ser os fins humanos e a proteção do homem) e o objeto, colocado como a natureza indiferente e hostil frente ao homem. O trabalho é o terceiro termo deste silogismo que soluciona a oposição entre os dois extremos (o fim subjetivo e a natureza como objeto) utilizando-se do mecanismo da natureza como um meio de produção de um objeto/artefato. Por exemplo: o homem, através do trabalho utiliza o fogo para fundir o ferro, que vem a ser o uso do

82

mecanismo da natureza contra ela mesma. O ferro será usado como um meio para a construção de uma casa, que serve para proteger o homem contra uma natureza adversa, os animais selvagens, a chuva, o frio e o próprio fogo advindo de raios, etc. Deste modo a tecnologia, ou seja, o trabalho material, aparece como o uso racional do mecanismo da natureza, como um meio para a satisfação dos fins humanos, contra a própria natureza que lhe é hostil. O produto do trabalho humano se revela como negação da natureza por intermédio da própria natureza. Conseqüentemente, quando o homem emprega os elementos naturais como meios para produzir seus fins, não se limita a compreender a natureza e a enquadrar harmonicamente o mecanismo natural aos seus planos intencionais, pelo contrário, o homem exerce uma violência sobre a natureza e a nega enquanto objeto.

Uma casa, um relógio podem aparecer como fins diante dos instrumentos utilizados para produzi-los; mas as pedras, as vigas, as rodas, os machados, etc..., que constituem a efetividade do fim, o realizam apenas pela pressão que eles sofrem, através dos processos químicos aos quais estão expostos ao absorver o ar, a água e a luz que eles retiram do homem por meio do seu atrito, etc... Eles realizam então sua determinação apenas por intermédio do seu uso e desgaste e correspondem ao que eles devem ser, apenas por intermédio de sua negação. Eles não estão unidos positivamente com o fim porque têm sua autodeterminação apenas exterior a eles e são apenas fins relativos, ou essencialmente também, apenas meios. (WdL II, p. 457; SL III, p. 267)

Esta é a violência que faz com que o fim apareça de um modo totalmente distinto do objeto inicial (Cf. WdL II, p. 452; SL III, p. 262) e que ambos, o fim e o objeto, permaneçam como totalidades autônomas. Com isto, Hegel faz uma advertência velada, demonstrando claramente que a transformação tecnológica da natureza, que serve para satisfazer os fins humanos, pode acabar por destruir a própria natureza com o uso desmedido dos seus recursos.

No entanto, o mais importante desta análise é que Hegel demonstra a inserção da finalidade humana (o fim externo) no seio do mecanismo, mediante a negação do objeto natural

na sua forma imediata (objeto inicial), transformando-o em um instrumento (Werkzeug) que irá

produzir um fim exterior e totalmente distinto dele. O instrumento representa os materiais de trabalho, como o arado, a enxada, etc., que são criados, a partir da natureza, para produzir fins humanos e distintos desta mesma natureza. Além disso, os instrumentos tem um valor superior aos fins que produzem, como o arado, que é algo mais importante que a preparação da terra que é consumida em si mesma pela plantação e submetida ao processo do seu próprio acabamento ao

produzir os alimentos que o homem nela plantou (Cf. WdL II, p. 453; SL III, p. 263), como veremos a seguir.

2.2.4 A inserção da finalidade no mecanismo: o instrumento, o desejo e o trabalho e a astúcia da