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O conceito como o Eu: a identidade manifesta

1.2 O esforço tenso do conceito

1.2.5 O conceito como o Eu: a identidade manifesta

Para Hegel, o conceito, ou a lógica subjetiva, nada mais é do que ‘a essência que suspendeu sua relação com o ser, ou sua aparência’ (Cf. WdL I, p. 62; CdL I, p. 83-84). Conseqüentemente, esta essência, que é o ser superado, é o conceito subjetivo, livre e independente, que a si mesmo se determina. Este conceito é o sujeito ou, como afirma Hegel, “é o

Eu, o puro conceito mesmo, que como conceito veio a ser-aí” (WdL II, p. 253; SL III, p. 44).

Contudo, Hegel não deixa de reconhecer que o mérito desta formulação pertence a Kant, por ter sido o primeiro a superar a relação de exterioridade estabelecida entre o entendimento e o Eu. Antes de Kant, observa Hegel, a representação comum colocava o entendimento como uma propriedade ou faculdade qualquer do Eu, de modo que afirmar ‘eu tenho calças’ tinha o mesmo sentido de afirmar ‘eu tenho conceitos’, como se o conceito fosse uma propriedade exterior pendurado ao Eu, que seria o seu substrato.

Kant foi além desta relação exterior do entendimento como a faculdade dos conceitos e do conceito mesmo e foi em direção do Eu. Pertence a uma das visões (Einsichten) mais profundas e mais ricas que encontramos em sua Crítica da Razão, que a unidade, que constitui a essência do conceito, é conhecida como a unidade originariamente sintética

da apercepção, como a unidade do “Eu penso”, ou da autoconsciência. (WdL II, p. 254; SL III, p. 45)

Deste modo, a verdadeira ‘revolução copernicana’41, para Hegel, estaria no fato de Kant

ter substituído a concepção representativa das categorias pela concepção especulativa, na qual elas se transformam em formas do pensamento. Por isso, Hegel reconhece como um grande salto da filosofia a compreensão do conceito como o Eu, pois [o Eu] expressa a identidade originária da unidade do sujeito-objeto. Deste modo, ele reconhece que podemos perceber em Kant o projeto de uma lógica da subjetividade pensante que é, ao mesmo tempo, objetiva, o que

caracterizaria a modernidade filosófica alemã, como está exposto na introdução da Ciência da

Lógica.

Quero recordar que, neste trabalho, refiro-me freqüentemente à filosofia de Kant (o que a muitos poderia parecer supérfluo), porque ela [...] constitui o fundamento e o ponto de partida da mais moderna filosofia alemã e, por isso, as objeções que se lhe pode fazer não alteram em nada o seu mérito. (WdL I, p. 59, nota; CdL I, p. 80)

Todavia, os elogios dirigidos à filosofia kantiana não o impedem de apontar seus limites, o que não se constitui em demérito, pois julga que a filosofia produzida depois de Kant permaneceu no interior da mesma, não logrando qualquer êxito na tentativa de ultrapassá-la. Conseqüentemente, o propósito de Hegel é superar este momento filosófico sem negá-lo, mas incorporando-o ao momento mais elevado do pensamento especulativo. Portanto, o grande salto que a apercepção transcendental representa precisa ser completado, pois ficou no ar, sem ter alcançado a outra margem que vislumbrava atingir e, ainda, corre o risco de precipitar-se do abismo. Poderíamos dizer que, em uma margem, temos o entendimento e os fenômenos, na outra, a razão e a coisa-em-si, e no abismo intransponível que os separa encontra-se o pensamento especulativo de Hegel que pretende unir, dialeticamente, estes dois momentos separados por Kant e, assim, integrar especulativamente os dois lados do abismo. Deste modo, Hegel concorda com a diferença apontada entre entendimento e razão, mas pretende uma unificação dos mesmos, não como iguais, mas como oposição dialética que o pensamento especulativo unifica.

Podemos encontrar o sentido preciso do que Hegel entende como momentos imanentes

do pensamento puro que caracterizam a ‘filosofia especulativa’, na Enciclopédia, na exposição

41 Stanguennec (1985, p. 75) mostra os momentos que Hegel privilegia na análise que faz da dedução das categorias, apontando o que ele considera como a verdadeira revolução copernicana, o apreço da unidade sujeito-objeto, em detrimento da função metodológica da dedução.

dos parágrafos iniciais da divisão da Lógica (§§ 79-82): “O lógico tem, segundo a forma, três lados: a) o lado abstrato, ou do entendimento; b) o dialético ou negativamente racional; c) o especulativo ou positivamente racional” (E I, § 79). Estes três lados constituem os momentos de todo e qualquer verdadeiro pensamento lógico-real, o que torna cada um deles imperfeito, se tomados isoladamente, pois a apreensão verdadeira do mundo ocorre por intermédio do momento especulativo que unifica os dois lados anteriores, por ser o momento absolutamente universal.

O lado abstrato do entendimento é o momento analítico que apreende o concreto em suas diferenças determinadas e os fixa em seu isolamento. Embora sendo um momento importante e necessário, o âmbito do entendimento é finito e, se levado até o seu extremo, converte-se no seu contrário (Cf. E I, § 80 Z). O momento dialético ou negativamente racional é uma conseqüência do anterior, pois fluidifica tanto estas determinações fixas, finitas e unilaterais do entendimento quanto a tendência das mesmas em passar para as determinações opostas. Nesta suspensão da oposição e da limitação, a dialética se converte no princípio motor de todo o movimento do pensamento. A terceira forma do lógico é o momento especulativo ou positivamente racional que apreende a unidade destas determinações diferentes em sua oposição. O momento especulativo constitui-se na unificação da unidade - fixa e unilateral do entendimento - e da diferença - oriunda do momento dialético e negativamente racional e, como identidade na diferença, é o momento positivamente racional, já que o caráter do racional é ser um incondicionado e, por isso, contém em si mesmo a sua determinidade (Cf. E I, § 82 Z).

Ao referir-se à razão como o plano do incondicionado, Hegel nos remete ao § 45 da Enciclopédia, no qual trata da diferença entre entendimento e razão, que foi evidenciada pela filosofia kantiana, com o intuito de mostrar que o objeto da razão é o incondicionado ou infinito, que nada mais é do que o “igual a si mesmo” que é a “identidade originária do Eu no pensar” (E

I, § 45). Com isso, voltamos ao nosso ponto de partida, a unidade originária do Eu penso. Porém,

ao limitar a autoconsciência transcendental às condições da subjetividade, Kant veda qualquer possibilidade de conhecimento do incondicionado, reduzindo-o à identidade abstrata consigo que exclui toda diferença (Cf. E I, § 45 Z). Ainda que Hegel concorde com a demarcação precisa entre entendimento e razão evidenciada por Kant, na qual o entendimento é a faculdade ligada ao conhecimento, que tem por objeto o finito e o condicionado, ao passo que a razão tem por objeto o infinito e incondicionado, o problema permanece, pois a razão torna-se, apenas, o ato de ultrapassar o finito das determinações do entendimento, tornando-se, também ela, finita, posto

que exclui de si a diferença, enquanto o verdadeiro infinito e incondicionado engloba a diferença, e não a exclui. Hegel não discorda do fato de que os fenômenos referem-se às coisas que conhecemos imediatamente, contudo, discorda que estas coisas sejam fenômenos apenas para nós, segundo o modo da nossa consciência, conforme afirma este idealismo subjetivo que torna o em si das coisas inacessível para nós. Ele se distancia deste pensamento por considerar que a verdadeira compreensão é “que as coisas sobre as quais sabemos imediatamente são simples

fenômenos, não apenas para nós, mas em si” (E I, § 45 Z), porque sendo finitas, elas não tem o

seu fundamento nelas mesmas, mas na idéia universal que as engloba. Tal é a compreensão do idealismo absoluto, que não se restringe à filosofia, mas também é partilhado pela religião.