2.1 Finalismo e unidade da filosofia em Kant e Hegel
2.1.1 O problema da causalidade em Kant e Hegel
Como vimos anteriormente, a reflexão teleológica surgiu como um modo explicativo da estrutura causal dos fenômenos naturais, dos objetos produzidos e da ação em geral. Sendo assim, faremos uma breve incursão sobre o conceito de causalidade tanto em Kant quanto em Hegel para verificarmos o tratamento dado por ambos os autores a tal conceito e a relação do mesmo com a teleologia. Devemos salientar que o foco de análise é a relação da causalidade com o finalismo e, por isso, não nos deteremos em uma explicitação exaustiva da causalidade.
Em relação a Kant, uma das conclusões que podemos tirar da leitura dos Prolegômenos
e da Crítica da Razão Pura é a impossibilidade de derivar a articulação causal dos fenômenos de
sua sucessão temporal, dado que só poderemos determinar o ordenamento objetivo de uma determinada cadeia de percepções mediante a aplicação do conceito de causalidade aos seus elementos dados no tempo.
Poder-se-ia pensar em se desembaraçar da fadiga destas investigações dizendo: a experiência oferece incessantes exemplos de uma regularidade dos fenômenos tal que dão suficiente motivo para abstrair daí o conceito de causa e mediante tal comprovar ao mesmo tempo a validade objetiva de um tal conceito; neste caso não se nota que deste modo o conceito de causa não pode absolutamente surgir, mas que tem que estar fundado inteiramente a priori no entendimento ou ser completamente abandonado como simples quimera. Com efeito, este conceito exige de modo absoluto que algo A seja de
67 “Das Lebendige, so wie Hegel es deutet, ist die Darstellung des Grundbegriffs seiner spekulativen Philosophie” (ILTING, 1987, p. 351).
espécie tal que alguma outra coisa B resulte disso necessariamente e segundo uma regra absolutamente universal. Os fenômenos oferecem casos a partir dos quais é possível uma regra segundo a qual alguma coisa acontece habitualmente, mas sendo o resultado jamais necessário: em vista disso, à síntese de causa e efeito inere uma dignidade que não pode absolutamente se expressar empiricamente, a saber, que o efeito não é apenas acrescido à causa, mas é posto por ela e dela resulta. A universalidade rigorosa da regra também não é absolutamente uma propriedade de regras empíricas, as quais não podem obter pela indução senão uma universalidade comparativa, isto é, uma utilidade alargada. (KrV B 124)
Ao contrário do que supunha Hume68, o conceito de causa não pode ser derivado da
experiência, visto que só percebemos a sucessão dos fenômenos e a relação de um com o outro,
que chamamos de relação causal, porque o princípio de causalidade é um princípio a priori no
nosso entendimento e condição de possibilidade de apreensão dos acontecimentos e objetos em sua sucessão temporal. Deste modo, nenhum domínio particular da natureza, que acontece no tempo e é apreendido pela experiência, pode ficar de fora da validade universal do princípio de causalidade.
Portanto, só enquanto subordinamos a sucessão dos fenômenos e, portanto, toda a mudança à lei da causalidade, é possível a experiência, isto é, o conhecimento empírico dos fenômenos; por isso, enquanto objetos da experiência estes só são possíveis segundo precisamente aquela lei. (KrV B 234)
Conseqüentemente, se a explicação objetiva dos fenômenos na natureza depende necessariamente da possibilidade de estabelecer conexões entre eles conforme as leis mecânico-causais, a conclusão advinda deste raciocínio é que existe apenas um ideal de explicação da natureza, aquele que se determina segundo o modelo físico-matemático a partir da determinação mecânico-causal: “por isso, o princípio da relação causal na sucessão dos fenômenos vale
68 Na dedução transcendental das categorias, Kant critica Locke por ter derivado da experiência os conceitos puros do entendimento, produzindo com isso “extravagâncias e fantasias”. Ao mesmo tempo, mostra que Hume reconheceu a necessidade da origem, a priori, dos conceitos do entendimento. No entanto, os derivou da experiência e com isso rendeu-se ao ceticismo, pois supôs ter descoberto uma ilusão aceita por todos (KrV B 128). Kant (B 788) afirma, ainda: “O famoso David Hume foi um destes geógrafos da razão humana que julgou ter dado suficientemente conta de todas aquelas questões ao remetê-las para fora do horizonte da razão humana, o qual não pode todavia determinar. Deteve-se precipuamente no princípio de causalidade, e a seu respeito observou assaz corretamente que a sua verdade (e nem mesmo a validade objetiva do conceito de uma causa eficiente em geral) não repousa sobre qualquer visão, isto é, conhecimento a priori; em decorrência disto, toda a autoridade desta lei não é de modo algum constituída por sua necessidade, mas sim por sua simples utilidade em geral no decurso da experiência e conseqüentemente por uma necessidade subjetiva daí originária e que ele chama de costume. A partir da incapacidade que a nossa razão possui de usar este princípio para além de toda a experiência, Hume inferiu a nulidade de todas as pretensões da razão em geral que visam ultrapassar o empírico”.
também antes de todos os objetos da experiência (sob as condições da sucessão), pois ele mesmo é o fundamento da possibilidade de uma tal experiência” (KrV B 247).
Na Crítica da Faculdade do Juízo encontramos a conclusão acima indicada como um pressuposto, mesmo quando Kant coloca o problema de um possível acordo entre a legislação do entendimento para a natureza, que explica a relação causal entre os fenômenos, e a legislação da razão para a liberdade, que apresenta a liberdade como a possibilidade do início de uma nova série causal. Se o determinismo causal é suficiente para explicar os fenômenos da natureza, ele é insuficiente para justificar a liberdade moral e, por isso, é necessária uma outra hipótese racional que, mesmo sem ser provada, serve para garantir a liberdade humana. Todavia, o próprio Kant reconhecerá a existência de um tipo de fenômeno que ultrapassa a representação mecânico-causal da natureza e demanda um outro tipo de representação, para a qual se faz necessário o recurso a uma causalidade segundo fins. Esse tipo de fenômeno que não se limita à representação
mecânico-causal resume-se ao conceito de vida 69 e consiste no que Kant apresentou como
conformidade a fins interna ou teleologia interna.
Na Ciência da Lógica70 e na lógica da Enciclopédia, Hegel desenvolve o conceito de causalidade a partir do conceito de substância. A causa é uma coisa ou matéria original (Ursache)71 que passa para os seus acidentes e, assim, produz um efeito (Wirkung) que, porém, não é um efeito distinto do que ela é, mas um outro modo seu de ser. Implicitamente, causa e efeito são idênticos, pois nada há na causa que não passe também para o efeito e, inversamente, nada há no efeito que já não estivesse posto na causa. Deste modo, a causa é efeito de uma outra causa e, ao contrário, o efeito é também causa de um outro efeito. O que temos aqui, portanto, é a passagem da substância singular produzindo seus acidentes ao processo infinito da seriação causal, sem esquecer, no entanto, que a causa forma uma unidade com o efeito ou desaparece nele.
Devemos salientar que Hegel começa o tratamento da causalidade a partir da abordagem
da ‘Necessidade Absoluta’na terceira seção da doutrina da essência: A Efetividade. Na verdade,
Hegel pretende negar o uso do conceito de causa como algo separado do efeito, visão que é própria do nosso entendimento classificador, mas não representa o que de fato ocorre com as
69 No capítulo terceiro trataremos especificamente deste tema.
70 Hegel aborda o problema da causalidade na Ciência da Lógica, no terceiro capítulo da terceira parte da Lógica da Essência: Efetividade, A relação Absoluta, B. A relação de causalidade (WdL II, p. 222; SL II, p. 275) e na
Enciclopédia, § 153. 71
coisas. A causa e o efeito constituem-se em uma unidade que nós podemos apresentar na sucessão temporal como algo que surgiu primeiro: a causa; que é a origem do que vem depois: o efeito. No entanto, classificar faz parte do modo que temos de situar as coisas no tempo e no espaço, mas, se olharmos mais detidamente, poderemos observar que um efeito será causa de outro efeito e que a causa já foi um efeito de outra causa. Sendo assim, ou caímos em uma má infinitude ou percebemos que causa e efeito são a mesma coisa e que sua diferença é apenas uma diferença-de-forma (E I, § 153 Z), a diferença do pôr e do ser-posto. Se, porventura, quisermos remontar a uma causa primeira, estaremos incorrendo em uma busca imprópria, o que foi objeto de investigação da antiga metafísica que, entre outras coisas, supunha captar pelo pensamento o Em si das coisas (E I, § 26-36). Mesmo criticando esta posição abstrata como metafísica do entendimento, Hegel retomará a questão da causalidade dentro da temática de análise da substância e seus acidentes, como podemos observar em sua abordagem da relação-de-causalidade.
Segundo o momento em que a substância como potência absoluta é a potência que se refere a si como possibilidade apenas interior, e com isso, se determinando como acidentalidade, em que dela é distinta a exterioridade assim posta, ela é, propriamente,
relação, como ela é substância na primeira forma da necessidade, - relação-de-causalidade. (E I, § 152)
A substância, como possibilidade interior, é uma potência que tem por ato ela mesma, porém tal potencialidade realiza-se apenas na interioridade, pois na exterioridade, posta como tal, é a acidentalidade. Assim, o acidente é o lado exterior da realização da potência da substância em ser ela mesma, e cujo lado interior é ela mesma. Segundo Hegel, isso vem a mostrar que a substância é relação. A primeira forma da necessidade é a relação-de-causalidade, e, nesse caso, a substância passa a ser causa. Com esse processo, Hegel pretende mostrar que a causa, e, talvez, o próprio sentido da causalidade, nada mais é do que a relação da substância e seus acidentes. Além disso, pretende mostrar que mesmo esta relação trata apenas da relação da substância a si mesma, passando para a acidentalidade. Supera a reflexão sobre si, ou a potencialidade, e se põe como alguma coisa que, ao ser posta, é diferente desta enquanto substância e que, por isso, é o negativo dela mesma, mas referida a ela vem a ser o efeito, nada mais do que o negativo da relação da
I, § 153), que só pode ser efetivvada no efeito, como o momento da sua confirmação, no qual a causa não desaparece.
De fato, a causa é suspensa no efeito, no qual se põe e permanece como ser-posto. Com
isso, Hegel conclui que a relação-de-causalidade é a causa sui que Espinoza identificava à
substância única e originária: “pois esse ser-posto é suspenso imediatamente, ou melhor, ele é a reflexão da causa em si mesma, sua originariedade; só no efeito a causa é efetiva e é causa.
Conseqüentemente, a causa é em si e para si causa sui” (E I, § 153 A). Mesmo nas coisas finitas
há uma relação analítica na relação de causalidade, visto que o efeito nada mais é do que um modo de ser da causa, numa clara relação aristotélica do movimento ato-potência, como no exemplo da umidade como o efeito da chuva, ‘em que ambos são apenas a mesma água existente’ (E I, § 153 A). No entanto, o objetivo de Hegel, nesta abordagem, é concluir que a causalidade é ação-recíproca, embora esta não seja ainda a verdadeira determinação da causalidade. Mas isto resolve o problema da má infinitude, uma vez que, ao invés de avançar em linha reta na relação causal, propõe uma curvatura, que vem a ser a ação de um sobre o outro, da causa sobre o efeito e
do efeito sobre a causa, alternância que vem a se constituir na necessidade desvelada, ou
necessidade posta (E I, § 157). O processo da substância/causalidade, que culmina na necessidade, é o acabamento da doutrina da essência e passagem para o conceito, que vem a revelar que a verdade da necessidade é a liberdade, e a verdade da substância é o conceito ou sujeito (E I, § 158).