A objetividade torna-se o passo seguinte e necessário para a abordagem do conhecimento absoluto, passo que só se revelará em sua totalidade com a Idéia Absoluta. Como isso se dá ou se constitui? Na verdade, se pensarmos do ponto de vista da consciência, o objeto se coloca também como um absoluto frente ao sujeito, um outro totalmente distinto. Todavia, a
passagem da Subjetividade à Objetividade pretende mostrar que este objeto, ao invés de se colocar como uma existência independente do conceito é, pelo contrário, algo constituído pelo próprio conceito. Vem daí a relação da Objetividade com a prova ontológica, pois a existência só
tem o caráter da sua verdade enquanto constituída pelo conceito: “o efetivo é racional, was
wirklich ist, das ist vernünftig” (PhR, p. 24). A Objetividade, então, vem a ser o momento de demonstração da constituição da realidade enquanto conceito, como um propósito deste. O
conceito é o que se põe a si mesmo na existência: “o fim é o conceito sendo para si, entrando na
existência livre, mediante a negação da objetividade imediata” (E I, § 204)43.
1.3.1 Conceito e objetividade
Para tratarmos do âmbito do real, na Ciência da Lógica, temos de ter claro que se trata
apenas do sentido especulativo do real, e não da realidade tal qual será desenvolvida na Filosofia
da Natureza e na Filosofia do Espírito. Como a Lógica Objetiva constitui-se na gênese lógica do conceito, este aparece como um resultado do processo cuja anterioridade última era a totalidade
substancial abstrata do absoluto espinozista44. O conceito formal deverá percorrer as etapas de
sua auto-exposição através das partes constituintes da Doutrina do Conceito: Subjetividade, Objetividade e Idéia. Todavia, somente a primeira parte é destinada ao tratamento do que comumente chamamos de conceito, a Subjetividade, onde são apresentadas as suas determinações formais: conceito; juízo e silogismo.
O conceito é, de início, formal e imediato (Cf. WdL II, p. 272; SL III, p.65). Em seu acabamento, será contraposto à Objetividade e, posteriormente, à completude da Idéia. A
imediatidade da forma do conceito subjetivo é o resultado da suspensão (Aufhebung) da mediação
das esferas anteriores, cuja forma conceitual ocorre segundo o formalismo lógico e caracteriza o que Hegel anteriormente designara como “conceito do conceito”, para diferenciar do “conceito posto como conceito” – que se põe como o outro de si-mesmo – e só pode ser provado por dedução imanente (Cf. WdL II, p. 252; SL III, p. 43, nota 21). Como totalidade formal, o
43 Der Zweck ist der in freie Existenz getretene, für-sich-seiende Begriff, vermittels der Negation der unmittelbaren Ojektivität” (E I, § 204).
44 Hegel classificada o sistema de Espinoza como um acosmismo, ou, pelo menos, como uma filosofia que não pode ser acusada de ateísmo ou panteísmo, pois antes de confundir Deus com a natureza, ou afirmar que o mundo finito é Deus, Espinoza afirma que “apenas Deus é, ou que Deus é a unidade do pensar e da extensão” (E I, § 50 A).
conceito deve explicitar-se por intermédio da mediação da forma ou negatividade absoluta (WdL II, p. 272; SL III, p. 65), cuja articulação interna advém dos seus momentos diferenciados como totalidades: a universalidade, a particularidade e a singularidade. O conceito é uma unidade
negativa consigo mesmo e, por sua mediação interna, se efetua (wirken), ou melhor, “a unidade
do conceito é pura e simplesmente o efetuante (Wirkende)” (E I, § 163 A), ao contrário da
unidade da essência e da existência, que é o efetivo. Hegel pretende salientar que o conceito não é alguma coisa que aparece ou se torna efetivo, mas é a própria atividade da efetivação das coisas, o que também não pode ser confundido com o sentido de causa, pois o conceito não é uma causa que produz uma outra coisa, mas é algo que produz a si mesmo.
No processo de efetuação de si, o conceito se divide e se põe como o outro de si mesmo; sua divisão interna e originária anuncia a forma das exterioridades autônomas de seus dois
momentos: sujeito e objeto/predicado, ou seja, a forma do juízo: “O juízo (Das Urteil) contém,
bem, a unidade do conceito [que está] perdido em seus momentos autônomos, mas ela não está posta” (WdL II, p. 272, SL III, p. 66). Somente no silogismo o conceito será capaz de pôr para si as suas diferenças e reuni-las como unidade posta. Todavia, no âmbito do juízo, a divisão originária do conceito aparece como relação externa entre estes dois momentos cuja identidade dos mesmos é indicado pela cópula. O juízo deve unir estes dois momentos, aparentemente externos um ao outro, e Hegel salienta este aspecto a partir da etimologia da palavra juízo, em alemão, que, segundo o autor, contém a unidade de uma separação originária:
A significação etimológica do juízo, em nosso idioma, é mais profunda e exprime a unidade do conceito como o [que é] primeiro, e sua diferenciação como a divisão
originária, o que o juízo é em verdade [Urteil = ursprünglich Teilung]. (E I, § 166 A). “O juízo é esse pôr dos conceitos determinados pelo próprio conceito” (WdL II, p. 301; SL III, p. 99), de fato, ele é a primeira determinação do conceito, posto que pelo processo interno de negar-se, o conceito divide-se e determina-se na forma da atribuição de predicados ou qualidades. A cópula (S é P) seria o índice da unidade originária do conceito que, em virtude de sua partição interna e originária, está dividido em sujeito e predicado. No processo de interiorização destas diferenças do conceito, elas se relacionam como extremos independentes, e a cópula indica a identidade apenas abstrata do sujeito e do predicado. Porém, em virtude da identidade dos termos, o sujeito tem de pôr-se como determinação do predicado, assim como o predicado também recebe a determinação do sujeito (Cf. E I, § 171), fazendo com que a cópula se
encha de conteúdo, o que a transforma no termo médio do silogismo: “Por intermédio desse preenchimento (Erfüllung) da cópula, o juízo transforma-se em silogismo” (WdL II, p. 351; SL
III, p. 151). Hegel denomina este processo de determinação progressiva (Fortbestimmung) do
juízo, por intermédio da qual o conceito preenche o ‘é’ vazio da cópula. O conceito ‘cheio’, ou completamente posto, é o silogismo resultante do movimento dialético do juízo, que une as exterioridades autônomas por intermédio da unidade diferenciada. Hegel considera o silogismo como a unidade e a verdade do conceito e do juízo, ou seja, é a explicitação completa do conceito que, ao cumprir-se como tal em toda sua racionalidade, passa para a esfera do seu ser-outro, a Objetividade. Portanto, o conceito, primeiramente, é como um fim interno, algo que existe apenas em si ou, numa linguagem aristotélica, poderíamos dizer que é a potência que deve existir concretamente, ou objetivar-se. Enquanto é pura potência, o conceito está em si mesmo, mas, na atividade de sua diferenciação interna, vai ganhando determinações até que passa para a Objetividade, atualizando parte de sua potência como conceito para si. O conceito plenamente atualizado, ou o conceito em si e para si, é a Idéia.
Hegel refere-se à Objetividade como ‘esse ser que é uma coisa que é em si e para si’ (Cf.
WdL II, p. 401; SL III, p. 205), é uma nova imediatidade oriunda da suspensão (Aufhebung) total
da mediação operada pelo silogismo, como resultado da esfera da Subjetividade. Na Doutrina do Ser tínhamos o ser imediato e vazio, agora, temos o ser do conceito como resultado do processo que lhe antecede. Por isso, a Objetividade é, novamente, um imediato, mas que pressupõe os momentos que foram ultrapassados como momentos de ampliação da explicitação do conceito e, portanto, ocupa um lugar mais elevado em relação à Subjetividade, e um lugar inferior em relação à Idéia. É a esfera intermediária da Doutrina do Conceito, e, como tal, é idêntica com a mediação, ou seja, o ser da Objetividade é um tal ser imediato que é a pura mediação (Cf. WdL II, p. 401; SL III, p. 205). É, também, o momento da auto-posição do conceito como esfera especulativa do objeto e, deste modo, é o conceito que se põe como ser ou, poderíamos afirmar, é o ser do conceito e, dessa forma, o local privilegiado de explicitação do argumento ontológico.
Segundo Ilting (1987, p. 356), sob o conceito de Objetividade, “Hegel entende cada modo da existência na qual o conceito não está mais como algo interno, mas como objeto”. Todavia, a Objetividade não é a existência completa, mas o é apenas de modo imediato e, por isso, Hegel afirma que Deus só pode ser compreendido na Idéia, que mostra a verdade como conceito adequado. Na Objetividade, a unidade do sujeito e do objeto é apenas pressuposta,
constituindo-se em uma identidade abstrata que logo tem diante de si a diferença, pois o conceito está como algo externo a si mesmo, na forma do objeto.
É deste modo que Hegel encaminha a estrutura do saber enquanto totalidade sem resto, uma vez que, na Objetividade, teremos o tratamento da ‘coisa’ como momento posto pelo conceito e não como algo independente que se colocaria frente ao sujeito para ser conhecido. Deste modo, poderíamos interpretar toda a Doutrina do Conceito como uma epistemologia em que a Objetividade figuraria como a gênese do objeto do conhecimento, e este objeto pressuposto tem que ser reposto pelo próprio conceito: “O conceito que, antes de tudo, é apenas subjetivo, vem a objetivar-se em virtude de sua atividade própria, sem precisar para isso de um material ou matéria exterior” (E I, § 194 Z). É por isso que sujeito e objeto não são esferas antagônicas e intransponíveis, mas compreendem uma oposição dialética como diferentes momentos de um mesmo todo.
Conseqüentemente, a passagem para a Objetividade é a pressuposição do conceito formal que se põe como coisa; ele se torna uma coisa autônoma, um ser-aí existente em si e para si mesmo, oriunda do processo interno da subjetividade e da sua determinação.
Por meio de sua necessária determinação progressiva o conceito formal se faz a si mesmo coisa e perde, por isso, a relação da subjetividade e exterioridade em face desta. Ou, inversamente, a objetividade é o conceito real que saiu de sua interioridade e passou ao aí. Nesta identidade com a coisa ele [o conceito] tem, com isso, [um] ser-aí próprio e livre. Mas esta é ainda uma liberdade imediata, que ainda não é negativa. Um com a coisa, o conceito está submerso nela; suas diferenças são existências objetivas, nas quais ele mesmo é novamente o interior. (WdL II, p. 271; SL III, p. 63). Como Hegel afirma, “o conceito se faz a si mesmo coisa”, é “um com a coisa”, mas nessa identidade inicial, sem a atividade do negativo de pôr as determinações, tem apenas uma liberdade imediata e, por isso, está submerso na ‘coisa’, de modo que é apenas ‘novamente o
interior’. Na Enciclopédia Hegel também afirma: “a objetividade, desse modo, é como se fosse
um invólucro, sob o qual o conceito está oculto” (E I, § 212 Z). A coisa (objetividade) deve ser entendida como o conceito que se faz coisa e que, por isso, não pode ser confundido com a consciência e a sua relação com o mundo exterior que lhe faz face. O conceito sai de sua interioridade e submerge na objetividade, no sentido de ter completado as categorias ao nível do conceito mesmo - na Subjetividade, ou no seu lado interior - e daí ter passado a um nível diferente de determinação - o da Objetividade, ou do seu lado exterior. Ao mesmo tempo, a
Objetividade não só é o resultado da imediação do conceito subjetivo que se põe sob uma forma diferente, como também é o resultado do processo da Lógica Objetiva (o Ser e a Essência constituem a gênese lógica do conceito). Ao surgir sob esta forma do objeto especulativo, o conceito não permanece como uma pessoa que mergulha no mar e dele sai sem nenhuma modificação importante, embora saia molhada e com um pouco de sal; mas é como um punhado de sal ou de água que lançados ao mar nele se misturam de tal modo que as diferenças não mais aparecem. O sal e a água lançados ao mar incorporam-se completamente a este, tornando-se também mar. Somente por um processo de decantação poderemos novamente separar a água e o sal daquilo que é mar, mas jamais teremos novamente a mesma água e o mesmo sal. Do mesmo modo, o conceito permanece na coisa especulativa por ele constituída, como uma diferença interior, uma vez que o ser-aí e a existência já foram suspensos (integrados) pelo conceito, e a objetividade vem a ser a reposição das mesmas numa esfera superior: “Agora, em relação ao
conceito, foi mostrado que ele se determina em objetividade” (WdL II, p. 402, SL III, p. 207).
Com esta submersão que é a determinação da coisa mesma, o conceito também se modifica e a resultante deste processo não será mais o conceito como tal, mas a Idéia, a unidade do conceito e da objetividade, cujo momento imediato é a vida lógica. Deste modo, a objetividade é apenas um momento do percurso de concreção do conceito que ainda não chega à sua meta final, pois o conceito como universal concreto ocorrerá apenas na Idéia Absoluta.