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A unicidade da vida na multiplicidade exterior

4.2 Os rastros da vida lógica: o percurso mediante o qual a idéia se põe e se repõe

4.2.2 A unicidade da vida na multiplicidade exterior

Hegel assinala, na Filosofia do Espírito Subjetivo, que a alma é “a imaterialidade universal da natureza” (E III, § 389) e que “nesta determinação ainda abstrata ela [a alma] é

apenas o sono (Schlaf) do espírito; - o Nous passivo de Aristóteles, o qual é a possibilidade de

tudo” (Idem, ibid.). Mas, mesmo sendo o espírito adormecido, a alma não corresponde à atividade do espírito. Por isso, Hegel salienta a diferença entre a vida lógica, que trata do conceito como a alma universal que constitui o ser-vivo, e o conhecimento, que trata do conceito como

136 Hegel retoma, na Idéia do Conhecer, todos os aspectos desenvolvidos na Filosofia do Espírito Subjetivo. Analisaremos isto posteriormente no capítulo 5.

espírito em sua atividade de se dar a objetividade, ainda que finita. Na vida lógica a alma contém a possibilidade de tudo, é o conceito que é tanto a forma ou a alma da vida quanto a sua substância ou matéria. Portanto, a vida lógica é um todo conceitual que não tem realidade material e, assim, o conceito está difundido nesta totalidade que é a pura materialidade ideal ou a multiplicidade. Em tudo o que podemos compreender como vida o conceito está presente, “ele é a

alma onipresente, que permanece relação simples a si mesmo e una (eins) na multiplicidade, que

compete ao ser objetivo” (WdL II, p. 272; SL III, p. 286).

A alma faz com que a multiplicidade indiferente ganhe uma unidade, permitindo que o

todo uno, apesar da mudança, permaneça em sua unidade137. Do ponto de vista da Lógica, quem

unifica o todo é o conceito, por ter alcançado, na idéia da vida, a exterioridade que lhe corresponde.

Caso Hegel estivesse tratando da natureza, essa multiplicidade seria a objetividade exterior e teria um subsistir totalmente indiferente. Seria, como afirma, “o espaço e o tempo, se estes já pudessem ser evocados aqui” (Wdl II, p. 472; SL III, p. 286). Mas observa, também, que

estes temas não podem ser tratados na Ciência da Lógica. Espaço e tempo, ao contrário do que

afirmava Kant, não são formas a priori do sujeito cognoscente e, como tais, objetos da filosofia

teórica, mas são condições objetivas da exterioridade e constituem, por isso, a primeira parte da Filosofia da Natureza, a mecânica. O espaço e o tempo são “o totalmente abstrato

fora-um-do-outro (Aussereinander)” (Cf. E II, § 253), e a eles “não corresponde a diferença da objetividade e

de uma consciência subjetiva frente a ela” (E II, § 258 A). O espaço e o tempo são as condições da existência da matéria e da vida na natureza, ao passo que as determinações do conceito, por um lado o conceito subjetivo e, por outro, o conceito objetivo, são as condições da vida lógica na idéia, ou seja, são as condições especulativo-epistemológicas do conhecimento do todo verdadeiro. Portanto, a idéia imediata não pode ter como condição da sua realidade conceitual as formas da exterioridade da natureza, embora ela também tenha uma multiplicidade exterior subsistente: a objetividade posta e compenetrada pelo conceito, como simples determinação sua.

Cabe salientar que, na natureza, “a vida é a idéia que chegou à existência” (E II, § 337), é uma totalidade composta de lados opostos, a unidade da multiplicidade, a forma infinita como

137 André Doz afirma que Hegel aborda, ao longo de toda a Lógica, a problemática da onipresença do simples, e que esta mesma problemática está presente na grande tradição filosófica, especialmente na ontologia, visto que o ser é o universal. Cita Plotino e o tratado da presença do Um no múltiplo, e Aristóteles que considera a alma como a essência/substância do corpo animado. Em Hegel o simples é a unidade da alma e do corpo (DOZ, 1987, p. 283).

alma de cada indivíduo (Cf. E II, § 336 Z). Porém, estabelece-se uma contradição entre a infinitude da forma e a limitação do indivíduo e, quando a forma é aprisionada pela figura da individualidade, a vida deixa de ser infinita e, por isso, rebela-se, de modo a fazer com que as potências químicas atuem para dar o bote e a vida individual retorne à universalidade da espécie com a morte do indivíduo. Deste modo, a vida natural é a transitoriedade e finitude do indivíduo na infinitude da espécie. O organismo natural é a existência imediata do conceito, e “a forma infinita é o conceito que chega à sua [própria] realidade” (E II, § 336 Z).

No entanto, na vida lógica, como afirmamos anteriormente, o tema da vida serve para tratar da temática do conhecimento, da unidade prévia e indivisa da qual a separação entre sujeito e objeto origina-se, para prover a relação cognitiva e provar a possibilidade do conhecimento absoluto. Na idéia do conhecer é o conceito que se sabe como objetivo em sua subjetividade, que instaura esta cisão interna sobre a base da identidade ou da compenetração da objetividade pela subjetividade formal. Mas este processo inicia-se com a vida lógica que é a idéia em seu conceito. No passo inicial, o conceito é tanto aquele que constitui a objetividade em sua totalidade quanto aquele que unifica a multiplicidade em um todo individual, pois, como vimos, espaço e tempo não podem ser evocados na abordagem da vida lógica, visto que não se trata da realidade exterior e do surgimento da vida natural em seu seio, mas da objetividade posta pela atividade conceitual e da sua unidade com a subjetividade que constitui a idéia imediata. Na idéia lógica da vida, tanto a exterioridade, que é a objetividade atravessada pelo conceito, quanto a interioridade da alma, que é o lado da subjetividade formal, são determinações do conceito, por isso tudo é conceito ou “alma onipresente”, pois ele é a substância da vida.

Deste modo, como assinala Hegel, temos a contradição inserida, também, no seio da idéia lógica da vida porque o conceito, de um lado, é a total compenetração da objetividade e, de outro, mesmo na separação e pluralidade dos indivíduos, permanece uma totalidade igual a si mesmo (Cf. WdL II, p. 472; SL III, p. 286), ou seja, o conceito é tanto a universalidade quanto a particularidade. “A onipresença do simples na exterioridade múltipla é uma contradição absoluta para a reflexão” e, como tal, “um mistério incompreensível” (WdL II, p. 472-473; SL III, p. 287). A vida em sua absoluta universalidade é essa onipresença e mistério que tem, nela mesma, o impulso da particularidade porque, se por um lado, a subjetividade compreende a essência da objetividade e com ela constitui a forma do universal, por outro, por sua negatividade intrínseca, se põe como diferente e se dá o momento da particularidade. Assim, para Hegel, “a simples vida

é não apenas onipresente”, é o subsistir e a substância imanente da sua objetividade, “porém, como substância subjetiva é impulso e precisamente o impulso específico da diferença particular” (WdL II, p. 473, SL III, p. 287). Neste jogo de mediação consigo mesmo, a substância, que é o

lado subjetivo do conceito, se refere negativamente a si e com isso se põe como singularidade138.

A primeira divisão da vida lógica, o indivíduo vivo, representa o começo da separação do conceito subjetivo e da sua objetividade.

Segundo Lecrivain (1987, p. 362), o que falta à reflexão, para superar a contradição e compreender o mistério da vida, é a percepção de que “a vida, enquanto idéia imediata é, imediatamente, constituída de uma cisão judicativa manifestando, paradoxalmente, a identidade e a diferença da universalidade objetiva e da singularidade subjetiva”. Logo, a vida compreende uma totalidade cindida em si mesma, tanto organicamente quanto conceitualmente. Como aqui nos interessa apenas a vida lógica, cabe salientar que a cisão da vida, neste caso, é judicativa e prefigura a cisão posterior entre o sujeito do conhecimento e o objeto a ser conhecido,

pressupondo a atividade subjetiva como atividade cognitiva. Hegel afirma que “o juízo originário

da vida, consiste, por fim, em que ela se separa como sujeito individual frente ao objetivo e,

enquanto ela se constitui como a unidade negativa do conceito, faz a pressuposição de uma

objetividade imediata” (WdL II, p. 473; SL III, p. 287). Deste modo, a vida aparece, inicialmente como indivíduo vivo que, para si mesmo, é uma totalidade subjetiva, um algo individual que se contrapõe a uma objetividade posta e indiferente frente a ele.