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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.4 TRANSVERSALIDADE, INTERDISCIPLINARIDADE E

2.4.1 A Transversalidade e a interdisciplinaridade no contexto da

Pensar em uma prática pedagógica para a Educação Ambiental significa defender uma ação educativa crítica, reflexiva e emancipadora. Sendo assim, se faz necessária uma prática que tenha foco na análise e discussão das problemáticas ambientais do mundo atual da perspectiva transversal e interdisciplinar. O tema meio ambiente foi inserido nos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL/MEC, 1997) fortalecendo os debates sobre a importância de novos olhares para o ambiente em que vivemos e para as relações que com ele estabelecemos, contribuindo para uma reflexão que propicie a formação de um indivíduo capaz de mudar suas atitudes para a permanência da vida no planeta. Esses debates chegaram às escolas,ambientes propícios para a reflexão sobre as temáticas ambientais. Cabe salientar que muitos educadores entendem esse documento como um processo impositivo, mas não foi essa intenção, o intuito foi nortear a educação conforme a LDB de 1996.

No campo pedagógico são muito comuns as discussões do ponto de vista conceitual da transversalidade abordando sua relação com a concepção de interdisciplinaridade. Mas, antes de se discutir sobre as relações existentes entre esses dois campos,foiestabelecida uma breve discussão conceitual sobre as disciplinas escolares.

Segundo Souza Junior e Galvão (2005) o conceito do termo disciplina vincula-se à ideia de hierarquização e estratificação, e a nossa escola está estruturada em classes (baseadas em faixas etárias) resultante da forma mais pedagógica da

organização das escolas do século XVIII. No Brasil, o ensino seriado só foi implantado no período republicano a partir da criação dos grupos escolares.

É após a Primeira Guerra Mundial que o termo disciplina vai tornar-se uma rubrica que classifica as matérias de ensino, dando um caráter aos conteúdos, como sendo próprios do ambiente escolar, mas não se desvinculando por completo de seu sentido de exercitação intelectual, já que é acompanhado por métodos e regras para abordar os diferentes domínios do pensamento, do conhecimento e da arte (SOUZA JUNIOR; GALVÃO, 2005, p. 395).

Goodson (1995, p. 131) elucida que as matérias (disciplinas) escolares passam por várias etapas. Inicialmente foram marginalizadas ocupando um status inferior no currículo, passaram por uma segunda etapa utilitária, e em uma última etapa foram definidas como disciplinas, que se configurariam a partir de um conjunto exato e rigoroso de conhecimento. Neste contexto o autor evidencia que a aplicação explicitamente instrumental de conjuntos de conhecimentos diminui em relação inversa à seriedade e ao êxito das tentativas dos profissionais de melhorar as suas condições materiais.

Segundo Fazenda (2009) o conceito de interdisciplinaridade encontra-se diretamente ligado ao conceito de disciplina, em que a interpenetração ocorre sem a destruição básica às ciências conferidas. Não se pode de forma alguma negar a evolução do conhecimento ignorando sua história.

As disciplinas escolares são temas frequentes nas discussões acadêmicas atuais. Entendemos que as mesmas não devem se estabelecer em uma relação de passividade nas organizações curriculares, mas buscar superar as relações conflituosas com as teorizações acadêmicas e a recomendações oficiais na construção de um saber pedagógico mais crítico. Neste trabalho buscamos a partir da temática ambiental trabalhar a disciplina de Geografia em consonância com as disciplinas de História e Ciências em uma perspectiva interdisciplinar por meio da temática transversal meio ambiente.

A transversalidade é entendida como uma forma de organizar o trabalho didático-pedagógico em que temas, eixos temáticos são integrados às disciplinas, às áreas ditas convencionais deforma a estarem presentes em todas elas. A transversalidade difere-se da interdisciplinaridade e complementam-se; ambas rejeitam a concepção de conhecimento que toma

a realidade como algo estável, pronto e acabado. A primeira se refere à dimensão didático-pedagógica e a segunda, à abordagem epistemológica dos objetos de conhecimento (DCN‘s, 2013, p.31).

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) a transversalidade diz respeito à possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender na realidade e da realidade, de conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender a realidade), e as questões da vida real (aprender na realidade e da realidade) (BRASIL, 1997, p. 31).

Já nas Diretrizes Curriculares Nacionais (Parecer CNE/CEB,nº 5/2011), a transversalidade é compreendida como forma de organizar o trabalho didático- pedagógico em que temas, eixos temáticos são integrados às disciplinas, às áreas ditas convencionais, de forma a estarem presentes em todas elas (CNE/CEB, nº 5/2011, p. 44).

Os PCNs ao discutirem sobre a interdisciplinaridade dizem que:

A interdisciplinaridade questiona a segmentação entre os diferentes campos de conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a inter-relação e a influência entre eles — questiona a visão compartimentada (disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como é conhecida, historicamente se constituiu. Refere-se, portanto, a uma relação entre disciplinas (BRASIL, 1997, p. 31).

Na prática escolar, a interdisciplinaridade se propõe atender a três aspectos: um trabalho contextualizado e solidário; um trabalho conjunto entre disciplinas que se dispõem a compreender um determinado objeto de estudo; um diálogo que pode ser marcado por questionamentos (RODRIGUES, 2008, p.51).

Carvalho (2012, p. 121), por sua vez, ao conceituar a interdisciplinaridade aponta que:

A interdisciplinaridade, não pretende a unificação dos saberes, mas deseja a abertura de um espaço de mediação entre conhecimentos e articulação de saberes, no qual as disciplinas estejam em situação mutua coordenação e cooperação, construindo um marco conceitual e metodológico comum para a compreensão das realidades complexas. A meta não e unificar as disciplinas, mas estabelecer conexões entre elas, na construção de novos referenciais conceituais metodológicos consensuais, promovendo a troca entre os conhecimentos disciplinares e o diálogo dos saberes especializados com saberes não científicos.

Refletindo sobre a metodologia interdisciplinar, Fazenda (1994, p. 69-70) nos diz que:

A interdisciplinaridade requer uma atitude especial ante o conhecimento, que se evidencia no reconhecimento das competências, incompetências, possibilidades e limites da própria disciplina e de seus agentes, no conhecimento e na valorização suficientes das demais disciplinas e dos que a sustentam. A metodologia interdisciplinar parte de uma liberdade científica, alicerça-se no diálogo e na colaboração, funda-se no desejo de inovar, de criar, de ir além e suscita-se na arte de pesquisar, não objetivando apenas a valorização técnico-produtiva ou material, mas sobretudo, possibilitando um acesso humano, no qual desenvolve a capacidade criativa de transformar a concreta realidade mundana e histórica numa aquisição maior de educação em seu sentido lato, humanizado e libertador do próprio ser humano.

Fazenda (2009), ao tratar da Interdisciplinaridade, torna-a como uma relação de reciprocidade, implicando uma atitude diferente em face do problema de conhecimento. Seria a substituição de uma concepção fragmentária para unitária. Vai mais longe, ainda, ao assegurar que o diálogo é a base da interdisciplinaridade.

Corroborando com essas ideias Hass (2011), destaca que a interdisciplinaridade é uma oportunidade concreta para a revisão das relações com o conhecimento, provocando a tessitura de um ambiente interativo, entrelaçando os saberes e as pessoas, ampliando, na prática, o conceito da construção coletiva. O trabalho pedagógico interdisciplinar areja e revitaliza as relações interpessoais e de aprendizagem, alcançando as Instituições, pois equipes surgem nas quais outras formas de aprender e ensinar são descobertas.

Existe uma relação mútua entre a interdisciplinaridade e a transversalidade, pois as abordagens das temáticas transversais expõem as inter-relações entre os objetos de conhecimento, impossibilitando a elaboração de atividades pautadas na transversalidade em uma perspectiva disciplinar rígida (BRASIL, 1997). Sendo assim, as abordagens interdisciplinares facilitam abordagens transversais, possibilitando a construção de um saber mais próximo da realidade do indivíduo, negando qualquer tentativa de aplicação de práticas educativas prontas e acabadas.

O professor tem um papel importante na efetivação de práticas interdisciplinares ao romper com as barreiras das grades disciplinares. Não podemos conceber uma

educação em que cada professor se sinta responsável a se envolver apenas nos conhecimentos pertinentes à sua disciplina, como se o mesmo estivesse isolado das demais áreas do conhecimento. Para Carvalho (2012), esse momento exige disponibilidade para construir as mediações necessárias entre o modelo pedagógico disciplinar, já instituído, e as ambições de mudança.

Carvalho (2012) aponta a EA crítica como aquela capaz de transitar entre os diversos saberes: científicos, populares e tradicionais, sem estabelecer uma hierarquia entre os mesmos. Com isso, ao perpassar por esses diversos campos do conhecimento, a Educação Ambiental possibilita uma renovação no sistema de ensino, na organização dos conteúdos escolares, propiciando uma revisão da instituição e do cotidiano escolar; com o objetivo de vencer as barreiras disciplinares, promovendo uma articulação entre elas, dando-lhes vitalidade e fecundidade (MORIN, 2009)

Os Parâmetros Curriculares Nacionais Brasil (1997) evidenciam as práticas de Educação Ambiental em uma perspectiva transversal e interdisciplinar, mas as estruturas educacionais e seus currículos rígidos acabam por favorecer uma fragmentação do ensino e da aprendizagem, impossibilitando a prática de uma educação ambiental crítica, por meio de uma integração entre as diversas áreas do conhecimento.

No que consiste à esfera municipal, o documento que direciona as atividades curriculares desde 2008 é o ―Orientações Curriculares de Educação infantil e Ensino Fundamental‖. De uma perspectiva transversal e interdisciplinar, o referido documento evidencia a necessidade de uma articulação entre as disciplinas buscando a construção de um ensino menos compartimentado.

Ainda hoje há uma tendência em considerar a Educação Ambiental como conteúdo específico somente da área de Ciências Naturais. Talvez o meio ambiente tenha de fato uma relação mais estreita com a área das Ciências Naturais, o que não exime outras disciplinas da grande responsabilidade, perante as conseqüências iminentes dos problemas ambientais do mundo contemporâneo (SERRA, 2008, p. 98).

O referido documento elucida a importância do enfrentamento das grandes questões da nossa sociedade contemporânea no que tange às dimensões sociais e ambientais como forma de minimização dos impactos do homem à natureza, destacando, Serra (2008) a importância de uma reflexão sobre o que entendemos por ciência, tecnologia, natureza e meio ambiente, já que o ensino de Ciências Naturais tem como marca a inserção do jovem no mundo da ciência e como objeto de estudo a natureza, com o enfoque cultural e ambiental.

Segundo a coordenadora do Ensino Fundamental do município da Serra Ana Márcia, o município utiliza o documento de Orientação Curricular como um de seus norteadores das práticas educativas. Na prática, as ações do município suprem as ausências e ou falhas do documento em relação a um projeto mais integrador para efetivação da transversalidade e interdisciplinaridade das ações Educação Ambiental. Desde 2013, uma lei municipal (Lei 243/2013) estabeleceu um projeto permanente intitulado ―Projeto de Valores Humanos‖ que estabelecem ações municipais que visam a desenvolver projetos na comunidade escolar atendendo às demandas sociais e ambientais destas regiões.

Trabalhar na perspectiva da transversalidade possibilita a abordagem de temáticas de abrangência social relevantes, propiciando à escola e aos atores sociais da educação construírem, através da coletividade, um fazer educativo mais crítico. Sendo assim, é imprescindível um olhar interdisciplinar capaz de aproximar as disciplinas para o enfrentamento de uma sociedade complexa.