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1. A RELAÇÃO ENTRE A LINGUAGEM, O CONHECIMENTO, A VERDADE E A

1.5 A Verdade

1.5.2 A Verdade e a Teoria das Provas no Direito Tributário

A realidade jurídica é constituída por intermédio da linguagem competente, sendo que no âmbito do sistema jurídico positivo, a linguagem competente apta a constituir a realidade é a linguagem das provas.

No Direito, a verdade é alcançada mediante as provas, bem como com a contraposição das provas, sendo, então, indispensáveis ao ordenamento jurídico. Nesse sentido, afirma Maria Rita Ferragut que “ao direito somente é possível conhecer a verdade por meio das

provas”.71

A prova, bem como a contraprova72, tem o condão de demonstrar a verdade ou a falsidade do significado de um determinado enunciado, de modo que toda verdade deve resistir à sua refutação.

Desse modo, o aplicador do Direito somente irá reconhecer um fato ou um mero evento quando encontrarem-se descritos na linguagem jurídica, que seja reconhecida pelo próprio sistema jurídico como a linguagem competente para tal reconhecimento. Tal relato em

70 CARVALHO, P. de B. Curso de Direito Tributário..., 2004. p. 357. 71 FERRAGUT, M. R. Presunções no Direito Tributário..., 2005. p. 51.

72 Ressalta Maria Rita Ferragut: “Por contraposição entende-se a comparação do dado que se quer provar com

outros que confirmem ou infirmem sua exatidão. A prova resultará da confirmação ou da concordância dos dados confrontados”. (Ibidem., p. 78)

linguagem competente, no âmbito do sistema jurídico positivo, deve ser produzido e documentado por intermédio das provas jurídicas.73

Nas palavras de Maria do Rosário Esteves, a prova dos fatos jurídicos permite que o direito crie a sua própria realidade:

Desse modo, as ocorrências do mundo fenomênico, em concreto, para serem conhecidas juridicamente, devem ser provadas e, por sua vez, realizada a subsunção do fato jurídico à norma. O aplicador do direito realiza a incidência da norma levando em consideração se o fato está juridicamente provado, de acordo com a forma específica exigida pelo ordenamento.

Nessa linha de raciocínio, a verdade do fato para o direito é única, ou seja, é aquela que for constituída segundo o ordenamento jurídico e conhecida pelo menos por ele estatuídos. A verdade dos fatos será reconhecida pelo direito somente se demonstrada mediante a prova realizada de acordo com as normas jurídicas postas pelo sistema.

Já dissemos o direito constrói a sua própria realidade, ou seja, o Direito constrói a sua própria verdade por meio das provas dos fatos jurídicos elaboradas conforme as estipulações do sistema jurídico.74

O fato jurídico é aquele, e somente aquele que puder ser expresso em linguagem competente, em conformidade às normas do direito positivo, e logo, mediante a linguagem das provas.

Extraímos, assim, a relação existente entre a verdade e a teoria das provas no direito tributário.

Conforme premissas firmadas anteriormente, a realidade somente passa a possuir relevância a partir do momento em que é constituída pela linguagem. Antes mesmo que a realidade seja vertida em linguagem, o fato não existe, mas sim meros eventos, já que dele não podemos possuir conhecimento.

Não basta que, simplesmente, o fato descrito hipoteticamente no antecedente da regra- matriz de incidência tributária venha a ocorrer no mundo concreto, mas, entendemos que

73 Leciona, ainda, Maria do Rosário Esteves acerca da prova do fato jurídico: “Desse modo, reconhecemos que

se o direito estabelece o que deve ser provado e como pode ser provado um fato, Ito é, de forma é possível a produção e apresentação das provas, o próprio direito estabelece os limites do que será por ele conhecido. O fato social ou evento será ‘conhecido’ pelo aplicador do direito na extensão delimitada pelo conjunto de normas jurídicas válidas do pais. Nesse sentido, é o próprio direito que estabelece a verdade do fato jurídico”.(ESTEVES, M. do R. A prova do fato jurídico no processo administrativo tributário..., 2005. p. 47)

também se perfaz necessário que tal ocorrência do evento descrito no fato seja descrita por intermédio da linguagem própria, bem como que seja comprovada mediante a utilização de provas admitidas pelo Direito, pois, somente desse modo será possível conhecermos a verdade dos fatos.

É o que leciona Maria Rita Ferragut, ao tratar da necessidade de comprovação da verdadeira concretização do fato jurídico tributário:

Ao referir-se a fatos, a prova deverá evidenciar a correspondência entre a proposição e a manifestação do evento. Por isso, não necessita corresponder aos eventos fenomênicos em si, mas à linguagem que se tem sobre eles. Atingir o evento, que é passado, é impossível, bastando para o mundo jurídico construí-lo de forma a provar sua existência ou inexistência.

Quando se afirma que a realidade descrita no fato não necessita corresponder à realidade social efetivamente ocorrida, isso não significa que o objetivo máximo da prova não seja a de uma perfeita correspondência entre essas duas realidades. Considerando tudo o que foi dito até aqui, o que se afirma é que como o evento não é apreensível, a averiguação e a comprovação de sua versão é o fim último da prova.75

É por intermédio das provas que é possível afirmar a veracidade sobre algo, bem como certificar a exatidão jurídica sobre algo. No contexto ora analisado, é por intermédio das provas, e em conformidade às regras existentes no sistema, que se é possível construir, manter e atestar a veracidade dos enunciados declaratórios do fato jurídico, que traduz a manifestação do evento.76

Nesse mesmo sentido, é a posição de Eurico Marcos Diniz de Santi, ao afirmar acerca da verdade no Direito e sua relação com a teoria das provas, afirmando que “toda verdade no

direito é uma ficção jurídica. O Direito reconstrói a verdade através de sua forma de conhecimento que é a prova. O Direito não incide sobre fatos, incide sobre a prova dos fatos, ou dizendo de outra forma: fato jurídico é fato juridicamente provado”.77

75 FERRAGUT, M. R. Presunções no Direito Tributário..., 2005. pp. 51-52. 77 SANTI, E. M. D. de. Prescrição e Decadência..., 2000. pp. 42-43.

As ocorrências do mundo fenomênico, para serem reconhecidas de forma jurídica, deve ser realizada a subsunção do fato jurídico à norma, bem como, ser demonstrada a prova, pois o aplicador do Direito somente realizará a incidência da norma se o fato encontrar-se juridicamente provado. Nessa linha de raciocínio, concordamos, por todas as premissas firmadas anteriormente, que “a verdade do fato para o direito é única, ou seja, é aquela que

for constituída segundo o ordenamento jurídico e conhecida pelos meios por ele estatuídos. A verdade dos fatos será reconhecida pelo direito somente se demonstrada mediante a prova realizada de acordo com as normas jurídicas postas pelo sistema. (...) O direito constrói a sua própria realidade, ou seja, o Direito constrói a sua própria verdade por meio das provas dos fatos jurídicos elaboradas conforme as estipulações do sistema jurídico”.78

Essa comprovação assume fundamental importância no contexto do direito tributário, tendo em vista a necessidade de certificação de que a concretização fenomênica do evento que encontra-se descrita no fato jurídico é, de fato, verdadeira, para, somente assim, realizar a imputação devida das consequências legais.