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Agentes mediadores e interpostas implicações: militantes do MST

A entrada de militantes do MST pode ser considerada como um período de rearranjo para os antigos funcionários da usina, visto que uma tomada de decisão era fundamental para a manutenção econômica de suas famílias: “aderir ou não ao acampamento organizado por militantes do movimento social?”. Esta questão, aparentemente simples, visto que não havia alternativas plausíveis para novas colocações no mercado de trabalho regional, uma vez que o sistema sucroalcooleiro passava por forte crise e o número de usinas em funcionamento era limitado, o que, como consequência, era praticamente impossível a inserção nas atividades nas lavouras de cana.

Entretanto, a questão não foi tomada pela óptica economicista, pelo ganho monetário e uma nova colocação de emprego. O reordenamento que os trabalhadores levaram em consideração, está centrado em algo que está para além do valor econômico. Funda-se em escolhas que perpassam as relações de ordem moral e de costume entre eles (os antigos funcionários da usina) e o antigo patrão (o usineiro).

Desta forma, torna-se relevante apresentar as justificativas com relação em fazer parte, ou não, do acampamento que deu origem aos assentamentos Ilha Grande e Che Guevara, em que esta tomada de decisão está fortemente centrada no que eles próprios qualificam como sendo uma justificativa baseada pela honra.

As justificativas para a adesão ou não adesão ao acampamento por parte dos antigos funcionários da usina são diversas. Desta forma, neste tópico, apresento as posições dos que aderiram ao acampamento e, consequentemente, hoje estão assentados; e aqueles que decidiram não participar e precisaram, com isso, de outras alternativas para permanência no local. É preciso destacar a importância dada à figura do usineiro e aos direitos trabalhistas que muitos dos trabalhadores perderam após a falência da usina.

a) Os que optaram pelo Projeto de Reforma Agrária

O ser reconhecido como sem-terra, carrega consigo inúmeros estigmas. Os sem-terra, além de outros constrangimentos enfrentaram a rejeição coletiva dos antigos funcionários da usina. Os trabalhadores do Complexo Agroindustrial se sentiram ameaçados com a presença de pessoas estranhas. Esta ameaça se consolidava pelo não reconhecimento por parte dos antigos funcionários, bem como pelas imagens negativas que recebiam, via TV, sobre integrantes do MST. Refletindo tempos depois e comentando após convivência entre eles, um entrevistado, não-assentado, assim se expressou: “[...] não era medo, mas não acreditava nisso, nunca tinha visto isso, na verdade só na televisão, mas sempre acabava mal [...]”20.

Este descrédito, também estava associado a uma percepção de negação das atitudes dos participantes do movimento que ali se instalaram. Além disso, a desqualificação se fundamentava em outras referências: integrar-se ao acampamento necessitava algumas renúncias, como “[...] ficar acampado, em barraca de pano, embaixo de chuva, sol, vento...

não dá! Como trabalhar também? Quem tinha filho novo (jovem e solteiro) era mais fácil, agora quem não tinha? [...]” (antigo funcionário, não-assentado)21.

20 Esta fala ocorreu em contexto de “não-entrevista”, em um momento em que eu estava, em 2009, em uma mercearia em Marrecas, para realizar algumas compras de mantimentos. No momento em que cheguei ao local e, ao perceber que haviam muitas pessoas interessadas em saber o que estava fazendo no assentamento, resolvi explicar as minhas intenções de pesquisa e, imediatamente, uma série de comentários foram feitas, por parte de ex-funcionários da usina, em sua maioria, hoje aposentados.

21 Esta fala também ocorreu, por outro antigo funcionário da usina, no mesmo contexto da anterior. É importante ressaltar que, em todos os momentos em que os não-assentados puderam se manifestar, sempre tinham como linha central a seguinte questão: aderir aos assentamentos era, em primeiro lugar, negar a autoridade investida na figura do usineiro. Além disso, também marcavam a desqualificação em serem reconhecidos, depois de tantos anos de dedicação ao trabalho agrícola, como um sem-terra. Esses dois pilares são centrais para a compreensão, como procuro apresentar neste tópico, daqueles que não aceitaram ingressar no Projeto de Reforma Agrária.

A percepção criada com relação ao MST, principalmente resistência ao movimento, por parte dos antigos funcionários da usina, pode estar centrada no fato de que, a partir do momento que os até então trabalhadores do corte de cana participassem ativamente do acampamento, tornando-se, de fato, sem-terra, estes estariam compactuando com as ações empregadas pelos militantes e, consequentemente, carregando a mesma identidade social. Isto pode ser explicitado pela definição de Cefai (2007, 2009, 2011) como uma ação coletiva, em que, segundo o autor, pode ser compreendida por “envolver uma tentativa de constituição de um coletivo, mais ou menos formalizado e institucionalizado, pautam de indivíduos que procuram um objetivo comum, em contexto de cooperação” (2007: 08). A cooperação traria, a priori, uma espécie de unidade entre os envolvidos (os acampados), o que, em contexto de trabalho de campo, não era a imagem que os antigos funcionários da usina queriam passar.

Além disso, as tensões entre antigos funcionários da usina e acampados consolidaram outros princípios de diferenciação entre os assentados: os antigos funcionários que não acamparam e os que resolveram acampar, junto com os demais (os sem-terra). Segundo eles, houve, na ocasião, boatos que disseminavam a ideia de que só teriam direitos aos lotes quem estivesse acampado. Tal pressuposto tem fundamento não na legislação, que determina que os beneficiários da Reforma Agrária, em ordem de prioridade, sejam: em primeiro lugar, o proprietário do imóvel (desde que venha explorá-lo); em segundo lugar, os que trabalharem na terra (seja como posseiro, assalariado...); após estas exigências, outros podem reivindicar a posse da terra (Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, artigo 25)22. Além deste motivo para inserção dos trabalhadores no Projeto de Reforma Agrária, muitos ingressaram, por não terem recebido os direitos trabalhistas da usina. Assim, conceberam tal ato como uma possibilidade de justiça pelos anos dedicados ao trabalho no corte de cana.

Esta situação trouxe à tona a dominação e respeito exercido pela figura do usineiro.

Ele é concebido como correspondente a um tipo de dominação descrito por Weber (1979), que, ao demonstrar os três tipos puros de dominação, o autor põe em destaque a dominação tradicional, referente à “virtude da crença na santidade das ordenações e dos poderes senhoriais de há muito existentes [...]” (: 131). Esta virtude, quando mantida pelo usineiro, é exercida através de uma legitimidade nutrida pela autoridade exercida: a de patrão, mesmo falido, mas ainda portador de tal poder. Mesmo aqueles que se engajaram ao Projeto de Reforma Agrária (adesão ao acampamento) mantinham respeito pela sua posição. Uma assentada, ao comentar as atitudes do patrão, no período do acampamento, acentua: “[...] O

22 Desenvolverei melhor esta idéia na Parte II desta tese.

Cubano23 passava de carro pelo acampamento, ameaçando o povo. Eu dizia: - ‘[...] Gente, uma pessoa só não pode matar todo mundo, ele não é Deus.” (viúva de ex-funcionário da usina e atualmente assentada). A dominação exercida só ocorre, como explica Weber (1979), quando há crença na legitimidade do poder entre os envolvidos: dominador/dominado.

Outra forma de dominação exercida no momento da constituição do acampamento pode ser expressa pela pressuposição de perda dos direitos trabalhistas. Como visto, alguns trabalhadores optaram pelo acampamento, por boatos surgidos em torno dos possíveis privilegiados beneficiários da Reforma Agrária. Além disso, também surgiam boatos, circulados por parte dos aliados do usineiro, anunciando que, em breve, ele retomaria a posse da terra. Como consequência, os trabalhadores que estivessem acampados sofreriam punições, como a não contratação no corte de cana.

Em pesquisa realizada no Assentamento Novo Horizonte/Campos, Neves (1997) constatou estratégia semelhante, onde a pressuposta (oni)presença do dono das terras foi determinante para a participação ou não dos antigos trabalhadores no projeto de reforma agrária.

A aceitação das insinuações está relacionada às perdas trabalhistas sofridas pelos cortadores de cana. A possibilidade de criação do Assentamento (confirmação da falência do patrão) foi comparativamente avaliada pelas perdas relativas de direitos trabalhistas, até então vigente, tal como avaliaram os efeitos da falta de pagamento dos direitos adquiridos pelos anos dedicados ao trabalho. A ruptura na posição de trabalhadores assalariados foi então condenada: “[...] antigamente tinha dois salários no mês, a gente tinha tudo que precisava, não era tão difícil assim.” (“antigo funcionário”, assentado).

b) Os que não optaram pelo Projeto de Reforma Agrária

A não adesão aos projetos de assentamentos foi determinante para a não participação, de uma forma direta, no processo de reforma agrária. Isto ocorreu, pois ao tomarem conhecimento que os principais organizadores do acampamento montado em torno da fazenda Ilha Grande faziam parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, desconfianças surgiram por parte dos antigos funcionários da usina, pois as únicas notícias que tinham do movimento eram oriundas da imprensa, como matérias jornalísticas, em geral, com enfoque

23 Dono do Complexo Agroindustrial Baixa Grande. É assim conhecido, pois seu pai fugiu de Cuba, devido a Revolução Cubana, se instalando na Flórida, Estados Unidos, onde montou uma usina de açúcar. Não permaneceu por lá por muito tempo, pois se endividou. Veio para o Brasil na década de 1960, construindo o Complexo Agroindustrial em Campos dos Goytacazes.

na criminalização dos seus participantes. Este, sem dúvida, foi um dos grandes motivos para a não participação destes na constituição do acampamento.

Outro agravante está caracterizado pela forma com que os acampados eram apresentados. Estar acampado significava passar dias e noites morando em barracas de lona, o que pode caracterizar um ato de submissão aos sem-terra. Esta atitude condenaria a identidade de “estabelecidos”, o que significaria uma redução do prestígio social para o grupo.

É importante salientar que este prestígio pode ser simbolizado não só pela história no local, como também nas conquistas advindas pelo tempo de permanência, como construções de casas próprias no entorno das fazendas Ilha Grande e Marreca, aposentadorias pelos anos de dedicação ao trabalho na Usina e, principalmente, reputações conquistadas pelas amizades e afinidades surgidas não no período de trabalho na lavoura de cana-de-açúcar.

O espaço formado pelo acampamento sugere ambiente em que as identidades pessoais são únicas, formando uma categoria, a de acampado, da qual os antigos trabalhadores da usina não estavam interessados em carregar. Como sugere Martins (2003) à identidade relacionada ao MST pode estar caracterizada pela ruptura, muitas vezes destruição, do passado. Entretanto, este passado, marcado não só pelas conquistas já mencionadas, como também pela dominação exercida por parte do usineiro, fez com que muitos desistissem e condenassem a reforma agrária e suas consequências.

Outro fator importante de desistência pode estar caracterizado pela importância, na vida dessas pessoas, do Complexo Agroindustrial Baixa Grande. Durante trabalho de campo, no momento em que fui conhecer o prédio da usina falida, encontrei, caminhando pela rua, um senhor, antigo cortador de cana das fazendas do Complexo, que ao perceber meu interesse pelo prédio, logo disse:

“Tá interessado em coisa velha? Isso não funciona mais, mas já deu muita riqueza para esse lugar...”.

A riqueza a que se refere está caracterizada pelos salários que faziam circular a economia, bem como atrativos existentes no entorno das fazendas no distrito de Baixa Grande.

Essa resistência criada por alguns antigos funcionários da usina no apoio e permanência no acampamento organizado pelo MST pode estar configurada por uma possível negação ao desenraizamento proposto pelo Projeto de Reforma Agrária:

[...] a indissociação de terra para trabalhar e casa para morar, base do sossego, isto é, da supressão do risco do desenraizamento em consequência de vontades pessoais e fatores impessoais. Esse é um dos aspectos do conservadorismo de orientação do agir de acampados e assentados. De fato, a luta não é primariamente pela terra e sim luta contra a desagregação das relações sociais tradicionais, que resulta na incerteza do desenraizamento, na perda de um lugar de referência. (Martins, 2003: 61)

O que Martins denomina “agir dos acampados”, princípio norteador das ações, como esta possível ruptura com as relações sociais tradicionais, não estava presente no universo dos antigos trabalhadores da usina. Afinal, a consequência da entrada do MST na região (consolidação da Reforma Agrária) era o desenraizamento com o Complexo Agroindustrial Baixa Grande, a “perda de um lugar de referência” não só como constituinte das histórias pessoais, como também mantenedor da economia local, o que dava sentido não só para a região, como também para as relações sociais até então existentes.

Com a “chegada dos estranhos”, (acampados organizados por lideranças do MST) e a desapropriação das fazendas, há um sinalizador de mudança, mudança esta não desejada, porém interposta no momento da constituição dos assentamentos Ilha Grande e Che Guevara, o que determina rompimento com o sistema de trabalho até então em ato: assalariamento agrícola. Diante deste cenário, aos antigos funcionários que não foram assentados só restavam como alternativa econômica, encontrar outro meio de sobrevivência familiar, muitas vezes não relacionado diretamente com lavoura de cana.

II.3 - Relações dos não-assentados e assentados

O processo de constituição dos assentamentos foi marcado por uma série de acusações por parte dos que não participaram diretamente do projeto. Estas acusações são marcadas pela negação da Reforma Agrária advindas dos antigos trabalhadores da usina. Esta negação está pautada pela “chegada do estranho”, momento em que novos sujeitos entram em cena e reconstroem o espaço no qual até então predominava a monocultura de cana e domínio do usineiro, como mantenedor das relações existentes.

Estas acusações estão pautadas no sentimento de pertencimento existente por parte dos que já se encontravam no local, antes do inicio da construção do assentamento, manifestando o que Bourdieu (1989) denomina como “identidade ‘regional’ ou ‘étnica’” (: 112). Esta identidade determina as relações existentes entre os assentados e os não-assentados e, consequentemente:

[...] funcionam como sinais, emblemas ou estigmas, logo que são percebidas e apreciadas como são na prática. Porque assim é e porque não há sujeito social que

possa ignorá-lo praticamente, as propriedades (objetivamente) simbólicas, mesmo as mais negativas, podem ser utilizadas estrategicamente em função dos interesses materiais e também simbólicos do seu portador (: 112).

Estes sinais e emblemas, como descritos por Bourdieu (1989), são determinantes para a compreensão das identidades de antigo funcionário da usina. São signos manifestos quando se referem aos sem-terra, demonstrando uma não aceitação à entrada dos estranhos no cotidiano local, pois afirmam que para uma reforma agrária justa quem deveria receber lotes nos assentamentos não são os sem-terra e sim aqueles que sempre se dedicaram nas atividades locais. Esta diferenciação sempre é ressaltada, como demonstra fala de um não-assentado: “[...] depois que os sem-terra chegaram, tudo piorou [...]” (antigo trabalhador da usina, não-assentado, morador em Marrecas).

As rupturas ocorridas com o projeto de reforma agrária manifestam desenraizamentos, afinal de um lado estão aqueles que entraram na luta via MST, para explorarem um universo inédito, para alguns, momento em que a ruptura com o passado torna-se necessária; na outra via, existem os antigos trabalhadores que perderam o espaço do Complexo Agroindustrial como mantenedor das ações possíveis no local, como a possibilidade de aposentadoria, carteira assinada e benefícios que este instrumento legal pode possibilitar. Neste sentido, ressaltar as vantagens até então existentes são recorrentes entre os não-assentados:

“[...] na época do Cubano Velho não era assim, tinha cinco médicos diferentes, um para cada tipo de doença; farmácia; açougue [...]” (fala do último administrador de uma das fazendas, não-assentado).

A tentativa de se referenciar pelos princípios que organizavam a vida passada, por parte dos que não aderiram, muitas vezes de forma involuntária, a reforma agrária, pode ser manifesta como tentativa de legitimação dos direitos sobre a terra sobre a qual dedicaram anos de trabalho árduo. Estas manifestações ocorrem em um estágio de acusação e repugnância das ações de alguns sem-terra com relação ao patrimônio que por direito, segundo eles, deveria pertencer a quem de fato sempre foi do local. Tais acusações são sempre manifestas quando falam das mudanças ocorridas nos últimos anos:

“[...] esses dias fui ao assentamento, não tem mais nada. A casa que eu morei acabou, não cuidaram [...]” (último administrador de uma das fazendas).

As acusações referentes ao não saber cuidar dos bens, são recorrentes, principalmente quando se referem a possíveis apropriações, não comprovadas, do patrimônio existente no interior da fazenda:

“[...] roubaram tudo, até tijolo eles venderam. Pegaram das casas e passaram. É pra isso que eles querem terra? Não dá. Além disso, vendem os lotes pra qualquer um, ninguém tem controle de nada. E nós?” (trabalhador não-assentado).

Além disso, os questionamentos das ações dos sem-terra são sempre ressaltados para uma possível mudança, caso fossem eles os assentados. Ou seja, pelas falas, se o projeto atendesse a quem sempre trabalhou nas terras, o destino final da reforma agrária seria outra:

apesar das degradações ocorridas na época da usina, a abundância de produtos cultivados seria maior e de melhor qualidade.

As diferenciações existentes são minimizadas pelas relações pessoais existentes, contudo, são manifestas, quando necessárias, para distinguir a história de cada um inserido no processo em questão, bem como para legitimar o sentimento de posse pelo local. Assim, a identidade de antigo funcionário é ressaltada perante aos sem-terra como forma de separação e diferenciação das identidades inseridas no processo de constituição dos projetos de assentamentos.

II.4 - Honra e costume: formas de resistência e adesão ao MST

Os motivos que levaram os antigos funcionários da usina às tomadas de decisões frente à entrada do MST na região foram diversos. As justificativas elencadas pelos entrevistados perpassam a ordem econômica e estão inseridas em valores como honra, costumes e moralidades. São esses valores que nortearam os caminhos trilhados por eles e, de certa forma, como justificativas para legitimarem suas ações. Para melhor exemplificar, apresento, de forma reduzida, duas entrevistas24 realizadas em situação de trabalho de campo.

A primeira, realizada em agosto de 2009, antigo funcionário da usina, atualmente assentado, relata o período em que trabalhou na usina e por que aceitou fazer parte do acampamento rural e, dois anos depois, torna-se um assentado. Já na outra entrevista, realizada em fevereiro de 2010, antigo funcionário observa, ao ser questionado se não seria mais prudente ter participado do acampamento, que sua escolha foi tomada justamente pela relação que mantinha com o antigo usineiro.

24 No capítulo IV apresentarei outros casos de assentados.

- Entrevista 1 – Antigo funcionário da usina, assentado morando aqui. Depois assinaram minha carteira de novo. Trabalhei mais três anos com carteira, tiraram de novo e, foi por contrato, de seis em seis meses”. Nesse período chegou a cortar, com ajuda de um companheiro, duas carretas de cana por dia. Com a falência da usina, o Cubano (dono do Complexo Agropecuário) manteve os trabalhadores nas casas, “porque das casas a gente tinha muito tempo e não podia tirar. Aí a gente se juntou aí. Teve muita gente que não apanhou terra com medo do homem (do patrão), gente que trabalhou não sei quantos anos. Uns ficaram com medo, achou que não era verdadeiro. Eu insisti até o fim”. Porém, justifica que no passado era mais fácil viver da terra, principalmente por ser, na época, assalariado: “Antigamente o salário saia de quinze em quinze dias. No início do mês saia o primeiro e no final saia o restante. Aqui não dá, dinheiro tá muito difícil”. Essas dificuldades são agravadas pela necessidade em investimentos internos, como tombar25 a terra ou mesmo “chamar uma pessoa para ajudar” no eito. Como consequência do tempo de serviço prestado à Usina, tem hoje um grave desvio na coluna vertebral, o que dificulta atividades na lavoura, principalmente de quiabo, pois “não aguenta ficar abaixado”.

- Entrevista 2 – Antigo funcionário da usina, não-assentado

Marcos Pinto nasceu na Fazenda Marreca. Seu pai, Heitor Pinto, era balancista da Usina Baixa Grande. Trabalhou na lavoura de cana (cortador) e como encarregado na Usina. Em 1991, ficou desempregado. Quatro anos depois retornou à usina, mas desta vez como encarregado da caldeira. Sempre trabalhou com carteira assinada. Hoje é aposentado, mas continua na ativa, fazendo

“biscate” como eletricista. Ao ser questionado sobre os motivos que o levaram a não acampar junto com alguns de seus colegas, respondeu:

“Invadir o que é dos outros não é certo, principalmente no que era do

“Invadir o que é dos outros não é certo, principalmente no que era do