Fonte: Comissão Pastoral da Terra - http://www.cptnacional.org.br/. Acesso em 03/02/2017.
Mapa organizado pelo autor.
É neste contexto social que se insere o processo falimentar e de transferência de terra da Usina Santo Amaro, pertencente ao Complexo Agrícola Baixa Grande, localizado no distrito de Santo Amaro16, em Campos dos Goytacazes. Esta empresa, cuja falência ocorreu em meados da década de 1990, possuía diversas fazendas, entre elas as fazendas Ilha Grande e Marreca, ambas transferidas para o Estado como sendo área de distribuição de terra dentro do PNRA e, como conseqüência, transformadas em assentamentos rurais. Na área da primeira fazenda, foi criado o Projeto de Assentamento Ilha Grande e na segunda, o Projeto de Assentamento Che Guevara17. Esses dois assentamentos são bem próximos um do outro, não havendo qualquer marcação física para identificar os limites geográficos entre os dois.
II.1- Falência do Complexo Agrícola Baixa Grande e nova organização social
16 A população do distrito de Santo Amaro, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, é de 7.953 habitantes.
17 Os militantes do MST, segundo os próprios assentados, decidiram “batizar” o assentamento em homenagem a Ernesto Che Guevara, como uma “provocação”, como eles mesmos definem, à família do antigo usineiro, dono do complexo agrícola. Isto porque, na década de 1960, a família fugiu de Cuba (seu país de origem) no momento da Revolução Cubana, liderada por Che Guevara e Fidel Castro. Assim, como os próprios entrevistados atribuem a atitude na escolha do nome do assentamento, simbolicamente representa uma dupla fuga que a família do usineiro precisou realizar: “fugiram do Che Guevara em Cuba e agora fugiram mais uma vez!”, como relata o Presidente da Associação dos Moradores do Assentamento Che Guevara.
No período anterior à falência do Complexo Agrícola Baixa Grande, trabalhavam cerca de 150 funcionários fichados nas duas fazendas (Ilha Grande e Marrecas), como relatam antigos funcionários da usina. O regime de trabalho, narrado por eles próprios em entrevistas realizadas durante a pesquisa, possibilitava a adesão de membros da família nas atividades laborais nas lavouras de cana de açúcar. Assim, não só o chefe da unidade familiar poderia compor o quadro de funcionários, como também outros membros da família. Esses arranjos, muitas vezes realizados por relações de proximidades entre os trabalhadores rurais e os administradores das fazendas, possibilitavam a entrada dos filhos desses trabalhadores ainda jovens em atividades nas lavouras. Esta possibilidade, conseguir algum tipo de função para os filhos, que mantinha não só a reprodução familiar dos trabalhadores como também servia para produção dos quadros de funcionários da própria Usina.
Os trabalhadores rurais da Usina Santo Amaro estavam identificados, como apresentado por Neves (1989) por termos indicativos da diferenciação de vínculos, de uso generalizado nessa região sucroalcooleira. Nesse contexto, os trabalhadores se diferenciavam em: trabalhadores efetivos e trabalhadores contratados. Estes, por sua vez, se distinguiam em trabalhadores de contrato direto e de contrato cortado. Alguns destes trabalhadores, em especial os mais antigos e seus filhos, residiam nas propriedades do Complexo Agroindustrial Baixa Grande. Como descrito por Crzbowski [et. al.] em pesquisa realizada, também em Campos dos Goytacazes, no início da década de 1980.
a) Fichados/Efetivos: trabalhadores com contrato assinado sem tempo determinado, com direito à estabilidade e garantia, do ponto de vista legal, de todos os “direitos” de trabalhador rural. Recebem o salário mínimo com base na diária de 8 horas, “chova ou faça sol”;18
b) Clandestinos: trabalhadores sem contrato de trabalho formalizado. Não tem trabalho garantido e não tem respaldo jurídico. A remuneração é estabelecida tendo por base a produção (a tonelagem ou a metragem no corte), de 8 horas (na preparação da terra e plantio). “Ganham variado” e quando “acham serviço”;
c) Contratados/Contratistas: trabalhadores com carteira assinada por tempo determinado (um ou mais meses, normalmente na moagem), têm garantia de trabalho e, juridicamente, tem os “direitos” durante a vigência do contrato. Para os trabalhadores conta, sobretudo, o
“direito ao INPS”. Têm uma remuneração calculada à base de diária de produção ou tarefa. (GRZYBOWSKI et. all, 1981, p. 106).
A partir da consolidação de leis trabalhistas, muitos dos trabalhadores que estavam empregados na usina, construíram residências em povoados próximos as fazendas, como em
18 A estabilidade era garantida apenas aos que tinham ingressado antes de 1966.
Marrecas e Babosa19 (distância entre os dois povoados de apenas 7 Km). Isso permitiu maior mobilidade entre os trabalhadores, afinal, linhas de ônibus foram estabelecidas, ligando a localidade até o centro comercial de Campos dos Goytacazes, bem como serviços públicos:
correios, escolas, postos de saúde. Além disso, estabelecimentos comerciais foram estabelecidos, atendendo às necessidades básicas dos moradores e movimentando a economia local.
Mapa 2. Localização de Babosa e Marrecas. Disponível em: HTTP://3.blogspor.com/BSJB-Campos.jpg. Acesso em: 05/08/2017.
Esses estabelecimentos colaboraram assim para construção ou expansão dos povoados circunvizinhos às áreas de terra das fazendas. Com a ligação desses povoados à cidade de Campos dos Goytacazes por linhas regulares de ônibus e a ampliação da rede escolar municipal e estadual, os trabalhadores agrícolas alcançaram outros vínculos institucionais. Por tais conquistas, colocavam-se mais livres para estabelecer mecanismos de pressão junto a políticos partidários e obter a extensão de determinados serviços como luz elétrica e melhorar
19 Esses dois povoados são fundamentais, atualmente, para a manutenção das famílias assentadas nos assentamentos. São neles que estão localizados serviços básicos, tais como: escolas, postos de saúde, farmácias, mercados, entre outros. É importante também destacar, que os assentados do P.A. Ilha Grande recorrem a Babosa para suprirem suas necessidades, enquanto os assentados do P.A. Che Guevara, por estarem mais próximos de Marrecas, optam por este povoado.
as condições sociais de vida de suas famílias. Entretanto, alguns permaneceram residindo em território do domínio do patrão (NEVES, 1989).
Os serviços situados contíguos às fazendas, igualmente, estavam intimamente relacionados às atividades do Complexo Agroindustrial, afinal, os principais clientes consistiam em assalariados, que subordinadamente compravam armazém no local. Isto permitia uma possível manutenção do comércio e certa dependência dos comerciantes pelo regime de trabalho até então vigente, mas também a liberação relativa dos trabalhadores frente ao fornecimento da usina.
Porém, devido às crises de reprodução enfrentadas no setor açucareiro, o Complexo Agroindustrial Baixa Grande enfrentou diminuição e paralisação da produção. No ano de 1998, técnicos do INCRA realizaram vistorias na área e constataram a improdutividade das fazendas, perdendo com isso sua função social. No mesmo ano, meses antes, dirigentes do MST montaram acampamento em torno da Fazenda Ilha Grande, onde permaneceram por cerca de dois anos (PEIXOTO, 2001).
Os acampados, em sua maioria recrutada por lideranças do MST, eram de outras regiões, inclusive de outros estados. Pelas entrevistas com assentados que acompanharam todo o processo de formação do assentamento, muitos afirmaram a presença de famílias da Bahia, Espírito Santo, além de municípios em torno de Campos dos Goytacazes, como São João da Barra e principalmente São Fidélis.