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VI.1 Apropriação do lote e produtividade entre os assentados

2) Mão de obra contratada

A ausência de familiares no lote adquirido ou pela saída dos filhos para outras atividades ou pelos filhos nunca terem participado mais ativamente das atividades agrícolas faz com que seja de extrema valia a contratação de uma pessoa, geralmente rapaz jovem, para auxiliar os assentados nas lavouras, como também com as criações.

Esses jovens, em média com vinte anos de idade, muitas vezes são filhos de assentados que, por não conseguirem trabalhar no lote dos pais – por desavenças ou quando a família é muito extensa e o espaço do lote não suporta todos os membros realizando as mesmas atividades, ou quando a renda obtida com a produção não supre as necessidades básicas da família – encontram como possibilidade para ganharem dinheiro, a função como diarista. Nesta função, esses trabalhadores não possuem qualquer tipo de contrato ou estabilidade. O pagamento é feito pelo dia de trabalho. Naqueles assentamentos, os valores variam entre R$20,00 – R$25,00 o dia de trabalho. Todavia, não é sempre que conseguem algum trabalho. A demanda é mais acentuada nos períodos de colheita de quiabo, principalmente, pois a quantidade encomendada pelos atravessadores é considerada grande e o tempo para a colheita é muito curto.

A contração de uma pessoa para trabalhar como diarista é feita, na maioria das vezes, para atividades voltadas ou para a criação de gado ou na lavoura de cana, em momentos específicos, como em períodos em que se precisam limpar os canteiros. São esses os cultivos que os assentados que não contam com mão de obra familiar mais praticam, pois não requerem cuidados diários.

Os que mais necessitam dessa mão de obra são os assentados aposentados, pois estes não possuem mais condições físicas para a realização de atividades nos lotes e também seus filhos, muitos não residindo nos assentamentos, já possuindo família e já estão empregados em outras funções, muitas dessas em área urbana.

D. Edith, assentada do P.A. Che Guevara, configura um caso exemplar de assentada que sempre recorre à diária para manutenção do lote. Por ser uma senhora idosa, trabalhar a maior parte da semana fora do assentamento e o seu único filho não morar com ela, é necessário a contratação de algum jovem para cuidar da lavoura de cana e, principalmente, da criação de gado que ela mantém em seu lote. Esse pagamento só é possível, segundo ela, não

pelos ganhos obtidos com a produção do lote, mas sim pelo trabalho como cuidadora de idosos que realiza três vezes por semana. Sem esse trabalho e também sem a contratação de uma pessoa para auxiliá-la, não seria possível manter o lote produtivo.

Pelo até aqui exposto, é possível afirmar que o sistema produtivo adotado nos assentamentos está configurado em conformidade às características encontradas em cada região do país. Pode-se observar não só a relação com o mercado consumidor, ou em outras palavras, a vocação econômica local, como também o tamanho dos lotes, a qualidade do solo, a mão de obra presente nas atividades agrícolas, entre outros. Esses fatores são determinantes para qualificar os usos dados ao espaço que as famílias assentadas recebem ao ingressarem no PNRA.

Na região de Campos dos Goytacazes, como apresentei anteriormente, é comum, entre os assentados rurais, a produção de dois tipos de lavouras: cana e quiabo. Entretanto, o uso dado à primeira lavoura citada passou por transformações nos últimos anos, em decorrência do processo falimentar ocorrido com o sistema usina da região. O destino dado à cana passou a não ser mais às usinas. Por isso, iniciaram o encaminhamento da matéria prima para outros fins: comercialização via atravessadores, para produção de caldo de cana e também como alimento para animais, em especial gado.

Em outras regiões, como em Araraquara, ainda há presença de parque industrial sucroalcooleiro, presença que, inevitavelmente, reflete na produção nos dos assentamentos daquele local. Isso ocorre como descrito por diversos autores (CAMPOIL, FERRANTE:

2006; STETTER: 2004; FERRANTE, BARONE, DUVAL: 2008), por investidas não só dos usineiros em expandir a produção de cana de açúcar, como também por incentivos do poder público, configurado nas figuras de políticos da região, que criam estratégias para adesão desses assentados à produção de monocultura da cana.

Uma forma encontrada para aumentar a produtividade na região é caracterizada como uma espécie de parceria entre as usinas e os assentados, quando os produtores agrícolas destinariam parte de seus lotes para a produção de cana. Em troca, as usinas garantiriam a compra de toda a produção. Além disso, como esses assentamentos são espaços tutelados pelos poder público, no caso de Araraquara, tanto pelo INCRA como pelo ITESP, também havia necessidade de autorização, por parte desses órgãos, para concretização dessa parceria, entre usinas e assentados. Como descrevem Ferrante, Barone e Duval (2008: 29-30), esse acordo tornou-se possível graças, primeiro lugar, à aceitação, por parte do ITESP, desse tipo de negociação e, em segundo lugar, a omissão por parte de funcionário do INCRA, que num

primeiro momento não tentaram reverter às investidas dos empresários sobre os pequenos produtores.

Regulamentada em setembro de 2002, a portaria 75 do Itesp permitiu as parcerias entre agroindústrias e assentados. Com ela, ocorreu uma explosão de contratos para o plantio de cana agroindustrial no assentamento Monte Alegre. Desde então, o número de assentados que tem aderido à parceria vem aumentando rapidamente. O formato do contrato estipula que a cana poderá ser plantada em, no máximo, metade do lote durante cinco anos (aproximadamente 7 hectares) com direito na primeira safra, durante a formação do canavial, a algumas horas de trabalho do trator da usina para destocar eucaliptos que ainda estão no solo, arar a terra e abrir os sulcos para plantar cana, aplicação de “mata-mato”, cupinicida, veneno para formigas e ainda as mudas. O transporte e pesagem também são a cargo da usina. Os serviços de formação do canavial são disponibilizados apenas na primeira safra (de 18 meses) e descontados em tonelagem, 50% na primeira colheita, 30% na segunda e 20% na terceira, porém, nessas duas últimas e demais safras, os assentados já não puderam contar com esses serviços feitos pela usina. Eles tiveram que financiar os custos da produção com o dinheiro ganho nas safras anteriores sem o apoio que receberam da usina na primeira, a chamada “produção facilitada”. diversificação produtiva não mais estava presente, principalmente entre aqueles assentados que aderiram à parceria, pois parte dos lotes estava destinada à produção de cana. Houve, como observam os autores citados, entre aqueles que iniciaram tal contrato de produção, redução de outros tipos de lavouras. Além disso, também passou a marcar essa relação contratual, uma mudança com relação à mão de obra local, já que estavam estabelecidos mutirões entre os assentados participantes que, no período de safra deveriam participar do corte da cana de outros assentados também participantes da parceria.

Este é um cenário muito diferente do encontrado na região de Campos dos Goytacazes, pois não há a presença de grandes usinas no local. Assim, as organizações valorizadas pelos assentados, com relação aos seus lotes, não estão centradas, como apresentei neste tópico, aos interesses de usineiros, por exemplo. Entretanto, eles também estão submetidos ao mercado consumidor, que, naquela região, como nos casos dos assentamentos Ilha Grande e Che Guevara, está mediado pela figura do atravessador. São as demandas apresentadas pelos atravessadores que norteiam os assentados nas decisões quanto às produções agrícolas.