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AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 2007002014506-

No documento 181rdj088 (páginas 54-59)

Agravante - Albatroz Comércio e Importação Ltda.

Agravado - Flex Bar e Restaurante Ltda. Epp (Nome de Fantasia Macadâmia) Relator - Des. Sérgio Rocha

Segunda Turma Cível

EMENTA

AGRAVO DE INSTRUMENTO - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA - EMPRESA NÃO LO- CALIZADA NO ENDEREÇO REGISTRADO NA JUNTA COMERCIAL - DISSOLUÇÃO IRREGULAR - VIOLAÇÃO À LEI - RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL DOS SÓ- CIOS.

1. A dissolução irregular da sociedade por quotas de responsa- bilidade limitada enseja a desconsideração de sua personalidade jurídica, por fraude à lei e aos credores, possibilitando a respon- sabilização patrimonial dos seus sócios pelas dívidas.

2. Deu-se provimento ao agravo para deferir o pedido de descon- sideração da personalidade jurídica da empresa executada.

ACÓRDÃO

Acordam os Senhores Desembargadores da 2ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Sérgio Rocha - Relator, J.J. Costa Carvalho - Vogal, Luciano Vasconcellos - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador J.J. Costa Carvalho em proferir a seguinte decisão: dar provimento, unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.

Brasília (DF), 8 de outubro de 2008.

RELATÓRIO

DOS FATOS

Em 12/09/2006, Albatroz Comércio e Importação Ltda. ajuizou ação monitória contra Flex Bar e Restaurante Ltda. EPP (nome fantasia: Macadâmia), objetivando o recebimento de R$ 569,09, com base em cobranças bancárias (fls. 06/07).

Devidamente citada, a ré não efetuou o pagamento nem apresentou embargos à monitória, razão pela qual o juiz de primeiro grau converteu o mandado inicial em mandado executivo (fls. 19/20).

No ato da intimação da ré para que a mesma efetuasse o pagamento da quantia executada, o seu representante legal, Eduardo Cezar Araújo Giovannetti, declarou ao oficial de justiça que a empresa foi extinta e que não possui bens (certidão de fl. 23).

DO PEDIDO (fl. 24/28)

Em razão disso, a exeqüente, Albatroz Comércio e Importação Ltda., requereu a desconsideração da personalidade jurídica da executada, Flex Bar e Restaurante Ltda. EPP, tendo em vista o encerramento irregular de suas atividades, fundamentando seu pedido no artigo 501 do Código Civil.

DA DECISÃO AGRAVADA (fl. 29)

O MM. Juiz de primeiro grau, Dr. Ricardo Faustini Baglioli, indeferiu o pedido nos seguintes termos:

“É inconteste que vige em nosso ordenamento o princípio da autonomia das pessoas jurídicas, em relação às pessoas dos sócios que a compõe. Contudo, tal regra não é absoluta e permite em determinados casos a penetração no escudo da autonomia, a fim de alcançar o patrimônio dos sócios.

Em que pesem os argumentos de fls. 61/62, o pedido formulado pela exeqüente pressupõe a desconsideração da personalidade jurídica. Ocorre que a norma erige como pressupostos autorizativos a presença do elemento fraude ou do abuso da personalidade e o evento danoso, devendo o magistrado sempre se pautar no zelo e cautela, em face da excepcionalidade que a medida se reveste (AGI 2000.00.2.004508-9, Relator: Hermenegildo Gonçalves).

Não configura fundamento suficiente para a decretação de tal medida a dificuldade encontrada pelo exeqüente para reaver o seu crédito. Portanto, enquanto não houver a demonstração do preenchimento dos requisitos necessários para a desconsideração, não há como ser alcançado patrimônio dos sócios.

Ante o exposto, indefiro o pedido. Intime-se.”

AGRAVO DE INSTRUMENTO DA EXEQÜENTE - Albatroz Comércio e Importação (fls. 02/05)

Inconformada, a exeqüente, Albatroz Comércio e Importação Ltda., interpôs agravo de instrumento, pleiteando o deferimento do pedido

de desconsideração da personalidade jurídica da executada. Sustentou que:

1) o representante legal da executada declarou que a mesma foi extinta e que

não possui bens, presumindo-se que não aufere rendimentos, pois não está funcionando; 2) não se trata de dificuldade em encontrar bens da executada, mas de completa impossibilidade de buscá-los, tendo em vista o encerramento irregular de suas atividades; 3) não foi observado o processo regular de apuração de haveres e a liquidação do ativo, o que infringiu o artigo 512 do Código Civil;

4) em razão da extinção ilegal da empresa, não foram encontrados bens, sendo

negativa a perspectiva de penhora do patrimônio social, fato que causou prejuízos aos credores e criou injusta vantagem em favor da executada.

Em sede liminar, a agravante/exeqüente requereu a suspensão do curso do processo principal até decisão final no presente agravo, para evitar a extinção da execução em razão de sua inércia.

Às fls. 34/38, deferi o efeito suspensivo pleiteado e determinei a intimação da agravada, por meio de seus representantes legais, para apresentar contra-razões.

Informações da MM. Juíza de primeiro grau à fl. 43.

À fl. 46, determinei a intimação pessoal dos representantes legais da agravada, os quais, todavia, não foram localizados (fls. 50/51 e 59).

Devidamente intimada, pessoalmente, através de seu sócio Eduardo Cezar Araújo Giovannetti (fl. 56), a agravada/executada, Flex Bar e Restaurante Ltda. EPP, quedou-se inerte (certidão de fl. 60).

É o relatório.

VOTOS

Des. Sérgio Rocha (Relator) - Presentes os pressupostos de

admissibilidade, conheço do agravo de instrumento interposto pela exeqüente. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DE FLEX BAR E RESTAURANTE LTDA.

Os argumentos da agravante/exeqüente, Albatroz Comércio e Importação Ltda., merecem prosperar.

Do que consta nos autos, a empresa executada, Flex Bar e Restaurante Ltda., foi dissolvida irregularmente, tendo em vista que, além de não ter sido encontrada para citação no endereço previsto no contrato social3 e na certidão da Junta Comercial do DF (fl. 28) (certidão do oficial de justiça de fl. 16), houve afirmação de seu próprio representante legal de que a sociedade foi extinta e que não possui bens (certidão do oficial de justiça de fl. 234).

Consoante a jurisprudência do TJDFT, a dissolução irregular de sociedade por quotas de responsabilidade limitada enseja a desconsideração

da personalidade jurídica, por violação à lei, possibilitando a responsabilização patrimonial dos seus sócios pela dívida. Confira-se:

“(...) 1. O encerramento irregular da sociedade por quotas de respon- sabilidade limitada constitui infringência à lei e autoriza a aplicação da Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica para atingir os bens dos sócios. (...)” (20060020131001AGI, Relator SAN-

DRA DE SANTIS, 6ª Turma Cível, julgado em 07/02/2007, DJ 20/03/2007 p. 121)

“(...) Dissolvida a sociedade por cotas de responsabilidade limitada de forma irregular, admite-se a desconsideração da personalidade jurídica, para alcançar os bens particulares dos sócios, os quais responderão pela dívida.” (20070020041658AGI, Relator CARMELITA BRASIL,

2ª Turma Cível, julgado em 26/09/2007, DJ 02/10/2007 p. 110) No caso em tela, tenho que há prova suficiente de que os sócios da executada (Eduardo Cezar Araújo Giovannetti e Paloma Rufino de Carvalho - fl. 12) fraudaram a lei e os credores, pois dissolveram irregularmente a pessoa jurídica, deixando de promover a fase de liquidação da sociedade (apuração dos créditos e quitação dos débitos - CC 51)5 e de averbar a dissolução (CC 51 §1°)6.

Deste modo, deve ser aplicado o disposto no art. 10 do Decreto 3.708/19, que trata das Sociedades por Quotas de Responsabilidade Limitada, in verbis:

“Art. 10. Os sócios gerentes ou que derem o nome à firma não respon- dem pessoalmente pelas obrigações contraídas em nome da sociedade, mas respondem para com esta e para com terceiros solidária e ilimita- damente pelo excesso de mandato e pelos atos praticados com violação do contrato ou da lei.”

Ante o exposto, dou provimento ao agravo de instrumento, para reformar a decisão de primeiro grau e deferir o pedido de desconsideração da personalidade jurídica da empresa executada, Flex Bar e Restaurante Ltda. (Nome Fantasia: Macadâmia), devendo a dívida atingir os bens dos sócios.

É como voto.

Des. J.J. Costa Carvalho (Vogal) - Com o Relator. Des. Luciano Vasconcellos (Vogal) - Com a Turma.

DECISÃO

Dar provimento, unânime.

Notas

1

“Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.”

2

“Art. 51. Nos casos de dissolução da pessoa jurídica ou cassada a autorização para seu funcionamento, ela subsistirá para os fins de liquidação, até que esta se conclua.”

3

Fl. 12: “CLÁUSULA PRIMEIRA - A sociedade girará sob a denominação social de FLEX BAR E

RESTAURANTE LTDA. e adotará como nome fantasia a expressão ‘MACADÂMIA’ terá sede e

domicílio no Setor de Clubes Esportivos Sul - Trecho 02 - Conjunto 31/Parte (Bar Varanda Tropical)

ASBAC - CEP 70200-00 - Brasília/DF, (...).”

4

Fl. 23: “(...) Deixei de proceder a penhora ordenada por desconhecer bens da executada, sendo que o Dr. Eduardo declarou que a empresa ré foi extinta e não possui bens.”

5

“Art. 51. Nos casos de dissolução da pessoa jurídica ou cassada a autorização para seu funcionamento, ela subsistirá para os fins de liquidação, até que esta se conclua.”

6

“Art. 51. (...) §1°. Far-se-á, no registro onde a pessoa jurídica estiver inscrita, a averbação de sua dissolução.”

No documento 181rdj088 (páginas 54-59)