Agravante - Romeu Rodrigues dos Anjos Júnior Agravado - Distrito Federal
Relator - Des. Mário-Zam Belmiro Terceira Turma Cível
EMENTA
DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRU- MENTO. EXCEÇÃO DE INCOMPETêNCIA. REMESSA DOS AUTOS À AUDITORIA MILITAR. IMPOSSIBILI- DADE.
1. O art. 125, § 4º da Constituição Federal, com a redação dada pela emenda constitucional nº 45, dispõe que à Justiça Militar estadual compete julgar os militares nos crimes militares descri- tos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares. Todavia, não consta do referido dispositivo que compete à Justiça Militar o julgamento de ações que visam à declaração de nulidade de ato de exclusão de militar em razão de suposta incompetência da autoridade que o editou.
2. Em razão da competência residual, cabe ao Juízo Fazendário o processamento e julgamento da ação em que se objetiva a declaração de invalidade do ato de licenciamento em virtude do alegado vício dele constante.
3. Recurso provido.
ACÓRDÃO
Acordam os Senhores Desembargadores da 3ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Mário-Zam Belmiro - Relator, Nídia Corrêa Lima - Vogal, Humberto Adjuto Ulhôa - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador Humberto Adjuto Ulhôa em proferir a seguinte decisão: conhecer. Dar provimento ao recurso. Unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
RELATÓRIO
O relatório é, em parte, o confeccionado por ocasião da decisão que apreciou o pedido de antecipação dos efeitos da tutela recursal, que ora transcrevo (fls. 45/47):
“Cuida-se de agravo de instrumento, interposto por ROMEU RODRI- GUES DOS ANJOS JÚNIOR contra DISTRITO FEDERAL, em face da r. decisão do MM. Juiz de Direito da Terceira Vara de Fazenda Pública do Distrito Federal que, nos autos da ação de conhecimento, subordinada ao rito ordinário, declinou da competência em favor do Juízo da Auditoria Militar de Brasília.
Eis o teor da decisão agravada (fls. 28/29):
‘ROMEU RODRIGUES DOS SANTOS JÚNIOR ajuíza ação em desfavor de DISTRITO FEDERAL. Contesta o ato que o licenciou dos quadros da Polícia Militar do Distrito Federal a bem da disciplina. Requer a reintegração no cargo publico.
O Juízo é absolutamente incompetente para processar e julgar a de- manda. Plenamente aplicável o disposto no artigo 125 da Constituição Federal, com a redação alterada pela emenda Constitucional nº 45 que assim preceitua:
‘Art.125...
§4º Compete à Justiça Militar estadual processar e julgar os militares dos Estados nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil, cabendo ao tribunal competente decidir sobre a perda do posto e da patente dos oficiais e da graduação das praças.
§5º Compete aos juízes de direito do juízo militar processar e julgar, singularmente, os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, cabendo ao Conselho de Justiça, sob a presidência de juiz de direito, processar e julgar os demais crimes militares.’
Impõe-se o reconhecimento, de ofício, da incompetência absoluta deste Juízo para o processamento da presente demanda, sob pena de nulidade dos atos decisórios proferidos por este Juízo.
Ante o exposto, declino da competência para o Juízo da Auditoria Militar de Brasília. Remetam-se os autos com as nossas homenagens, após as anotações, comunicações e intimações de estilo.’
Inconformado com a decisão, sustenta o agravante que o douto Ma- gistrado teria laborado em equívoco, haja vista que o objeto da ação proposta é a suposta nulidade do ato de licenciamento em face de incompetência do Comandante Geral da Polícia Militar do DF e não a existência de possível crime militar ou transgressão disciplinar que, segundo alega, não incide no caso dos autos.
Desse modo, requer o agravante efeito suspensivo ativo ao recurso para obstar a remessa dos autos ao Juízo da Auditoria Militar.
Pugna, ao final, pelo provimento do recurso, reformando-se o aludido decisum para declarar competente o douto Juízo da 3ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal para processar e julgar a lide.”
Acrescento que o pedido de antecipação dos efeitos da tutela recursal foi deferido (fls. 45/47).
A nobre magistrada da causa prestou as informações solicitadas, oportunidade em que noticiou o cumprimento do disposto no art. 526 do Código de Processo Civil (fl. 50).
Contra-razões da agravada (fls. 56/57), pugnando pelo desprovimento do recurso.
É o relatório.
VOTOS
Des. Mário-Zam Belmiro (Relator) - Conheço do agravo, presentes os
pressupostos que autorizam a sua admissibilidade.
Na oportunidade da análise do pedido de antecipação dos efeitos da tutela recursal, assim me pronunciei (fls. 45/47):
“Tenho entendido, em situações similares, que a remessa dos autos a outro juízo, enquanto pendente recurso para a determinação da competência, pode ocasionar à parte recorrente prejuízos, isso porque pode acontecer que após o envio dos autos haja, em conseqüência do julgamento, possível ordem de retorno. Assim, não só a parte experimentaria prejuízos, como também a ida e vinda dos autos poderia constituir-se em desserviço, em afronta aos princípios da economia e celeridade processuais.
Por outro lado, os elementos dos autos indicam que a pretensão do recorrente é a nulidade do ato que o licenciou das fileiras da Polícia Militar, ao argumento de incompetência absoluta da autoridade militar que o editou, e não a apuração do acerto ou desacerto das decisões
pertinentes a transgressões militares, o que, por si só, rende ensejo ao raciocínio de que reside em prol do agravante a fumaça do bom direito em relação à questão narrada no presente agravo.
Desse modo, a solução que melhor se alvitra, na espécie, é a concessão da liminar vindicada, suspendendo-se, até ulterior decisão, o envio dos autos ao Juízo da Auditoria Militar de Brasília.
Por tais fundamentos, defiro a liminar para suspender a ordem de remessa dos autos para outro juízo.”
Pois bem, Consoante explicitado na r. decisão supra, se o que o autor pretende é a nulidade do ato de licenciamento, por suposto vício de incompetência da autoridade que o editou, compete ao juízo fazendário a apreciação da questão.
De fato, caso o autor venha a lograr êxito na demanda, terá ele o direito de ser reintegrado, e/ou ressarcido dos prejuízos que, possivelmente, teriam advindo do ato de exclusão. Esta, por certo, é a finalidade da ação intentada.
Daí, comparece certo que o juízo militar não teria competência para a apreciação de tais questões, as quais, a toda evidência, não se encontram disciplinadas no art. 125 da Constituição Federal, a justificar o envio dos autos àquela justiça.
Aliás, em data recente esta egrégia 3ª Turma apreciou questões similares, assim tendo se pronunciado:
“DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRU- MENTO. EXCEÇÃO DE INCOMPETÊNCIA. REMESSA DOS AUTOS À AUDITORIA MILITAR. IMPOSSIBILIDADE. 1. O art. 125, § 4º da Constituição Federal, com a redação dada pela emenda constitucional nº 45, dispõe que à Justiça Militar estadual compete julgar os militares nos crimes militares descritos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares. Todavia, não consta do referido dispositivo que compete à Justiça Militar o julgamento de ações que visam à declaração de nulidade de ato de exclusão de militar em razão de suposta incompetência da autoridade que o editou. 2. Em razão da competência residual, cabe ao Juízo Fazendário o processa- mento e julgamento da ação em que se objetiva a declaração de invalidade do ato de licenciamento em virtude do alegado vício dele constante. 3. Recurso provido.1
“AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO ORDINÁRIA - PO- LICIAL MILITAR DO DISTRITO FEDERAL - EXONERAÇÃO
- ANULAÇÃO DO ATO ADMINISTRATIVO EMANADO PELO COMANDANTE DA POLÍCIA MILITAR DO DF - PODER DISCRICIONÁRIO - COMPETÊNCIA - JUSTIÇA COMUM - DECISÃO REFORMADA.
1. Não se pode confundir ato de licenciamento, a pedido ou não, com o ato de demissão de caráter punitivo, passível de apreciação pela Justiça Militar.
2. Decorrendo a exoneração do servidor policial militar do Distrito Federal do juízo de conveniência e oportunidade da Administração Militar, ou seja, de sua atuação discricionária, e não de punição ad- ministrativa, a competência para processar e julgar ação objetivando a anulação do ato administrativo emanado pelo Comandante da Polícia Militar do DF é da Justiça Comum.
2. Agravo de Instrumento conhecido e provido.”2
Nessa mesma linha de compreensão segue a jurisprudência do colendo Superior Tribunal de Justiça, conforme se verifica da ementa abaixo transcrita:
“Justiça Militar estadual (competência). Ato administrativo (exoneração). Reintegração (pedido).
1. O que compete à Justiça Militar estadual é processar e julgar as ações judiciais contra atos disciplinares militares (EC nº 45/04).
2. Não lhe compete, em conseqüência, ação contra ato administrativo, na qual se alega achar-se a exoneração em estágio probatório viciada por ilegalidade e abusividade, e na qual, também em conseqüência, pleiteia-se reintegração.
3. Conflito conhecido, declarada a competência do suscitado.3
Por tais fundamentos, torno subsistente a liminar e dou provimento ao recurso.
É como voto.
Desa. Nídia Corrêa Lima (Vogal) - Com o Relator. Des. Humberto Adjuto Ulhôa (Vogal) - Com o Relator.
DECISÃO
Notas
1
20080020085411AGI, Relator MÁRIO-ZAM BELMIRO, 3ª Turma Cível, julg. 3/9/2008, DJ 29/9/2008 p. 58
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2
20080020100919AGI, Relator HUMBERTO ADJUTO ULHÔA, 3ª Turma Cível, julgado em 24/09/2008, DJ 02/10/2008 p. 50
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3
Conflito de competência 2005/01489543.Rel. Ministro Nilson Naves. S3. julg. 26/10/2005. Publ. DJ6/2/2006 p. 196
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