Agravantes - Antônio Caraballo Barreira e outros Agravado - Paulo de Paiva Fonseca
Relator - Des. Cruz Macedo Quarta Turma Cível
EMENTA
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO. BLOQUEIO DE VALORES DEPOSITADOS EM CONTAS BANCÁRIAS. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. EX-SÓCIOS DE EMPRESA DIVERSA DA EXECUTADA. CONFUSÃO PATRIMONIAL. NÃO-CONFIGURAÇÃO.
1. A desconsideração da personalidade jurídica é medida que deve ser aplicada com extrema cautela, excepcionalmente e quando atendidos os requisitos legais que a disciplinam.
2. Ausente a comprovação segura no sentido de que a empresa de que eram sócios os agravantes, diversa da empresa devedora, teria se envolvido em episódio configurador de abuso da personalidade jurídica, por desvio de finalidade ou confusão patrimonial, nos termos do que exige o Art. 50 do Código Civil, incabível a des- consideração da personalidade jurídica operada pelo juízo a quo, devendo cessar os efeitos patrimoniais impostos aos recorrentes, com o bloqueio de valores depositados em contas bancárias de que são titulares.
3. Recurso provido.
ACÓRDÃO
Acordam os Senhores Desembargadores da 4ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Cruz Macedo - Relator, Arlindo Mares - Vogal, Sérgio Bittencourt - Vogal, sob a presidência do Senhor Desembargador Sérgio Bittencourt em proferir a seguinte decisão: dar provimento ao recurso, unânime, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.
RELATÓRIO
Cuida-se de agravo de instrumento, com pedido de efeito suspensivo ativo, interposto por ANTÔNIO CARABALLO BARRERA e outros contra decisão lavrada pelo Juízo da Nona Vara Cível de Brasília (fls. 613/614) que, nos autos da execução de sentença promovida por PAULO DE PAIVA FONSECA contra RESTAURANTE LAKES BABY BEEF LTDA. (2001.01.1.071624-0), indeferiu o pedido de desbloqueio dos valores depositados em contas bancárias de titularidade do primeiro agravante, pelo sistema BACEN-JUD, cuja indisponibilidade decorreu de decisão anterior que desconstituiu a personalidade jurídica da empresa executada e de RESTAURANTE E ADEGA PÁTIO BRASIL LTDA. (LAKES STEAK & BAR), LAKES CAFÉ LTDA. e EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP (LAKES RESTAURANTE) (fls. 414/416 e 589).
Aduzem os agravantes que devem ser excluídos do alcance da decisão agravada, porquanto jamais foram sócios da empresa executada (RESTAURANTE LAKES BABY BEEF LTDA.) nem dos sócios desta (ZELI RIBEIRO DA COSTA e ÂNGELA CONCEIÇÃO MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA).
Noticiam ainda que uma filha dos referidos sócios (GISELLE MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA) ingressou na EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP (LAKES RESTAURANTE), de que são sócios os recorrentes, apenas em outubro de 2003, a partir de quando se adotou o nome- fantasia LAKES RESTAURANTE (o anterior era FRANCISCO PARTINOPEA), muito depois da época da constituição da dívida em execução, referente a encargos locatícios de 21/05/2001 a 03/04/2003.
Informam também os recorrentes que se retiraram da sociedade em janeiro de 2006, passando a pertencer apenas às sócias GISELE MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA e ANDRÉA MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA, filhas dos sócios (ZELI RIBEIRO DA COSTA e ÂNGELA CONCEIÇÃO MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA) da empresa devedora (RESTAURANTE LAKES BABY BEEF LTDA.).
Questionam a aplicação do disposto nos artigos 1.023 e 1.032 do CCB/2002, salientando que se admite a sua incidência em relação aos ex-sócios da devedora, mas não aos ex-sócios de empresa diversa (EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP - LAKES RESTAURANTE), e contestam o entendimento do juízo singular no sentido do “esgotamento patrimonial da pessoa jurídica”, sem oferecê-la o exercício do contraditório.
Pedem então o provimento do recurso a fim de que sejam liberados os valores indevidamente bloqueados em nome dos agravantes.
Pela decisão de fls. 630/631, DEFERI o efeito suspensivo ativo reclamado.
As informações judiciais vieram às fls. 638/645.
Contra-razões do agravado às fls. 646/655, nas quais pugna pelo não- provimento do recurso, restaurando-se o bloqueio dos numerários.
Preparo regular (fl. 625). É o relatório.
VOTOS
Des. Cruz Macedo (Relator) - Presentes os pressupostos de
admissibilidade, conheço do recurso.
O agravo comporta provimento, na medida em que, conforme já consignado por ocasião do exame do pedido liminar, de fato “apresenta-
se excessivamente gravosa a desconsideração da personalidade jurídica da EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP (LAKES RESTAURANTE), atingindo o patrimônio de seus sócios sem a cabal demonstração da confusão patrimonial que a teria justificado em relação a outras empresas, já que a execução não foi manejada contra essa pessoa jurídica” (fls. 630).
É que, compulsando os autos, as circunstâncias trazidas a lume no presente caso não reúnem, com a devida vênia, estofo suficientemente seguro para promover-se a desconsideração operada pelo juízo singular, sobretudo sob o enfoque da cautela que deve pautar as hipóteses em que a autonomia patrimonial da pessoa jurídica é dissipada com a aplicação do instituto atualmente disciplinado no Art. 50 do CCB/2002, nos seguintes termos: “Em caso de abuso da personalidade
jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”.
Com efeito, a execução não se voltou sequer contra a empresa de que faziam parte os ora agravantes (EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP - LAKES RESTAURANTE), mas veio a alcançá- la, ainda assim, em razão de indícios de que havia várias empresas pertencentes à mesma família dos sócios da devedora, inclusive com base em informação jornalística (fls. 308/309).
Por outro lado, consta que os sócios da empresa executada (RESTAURANTE LAKES BABY BEEF LTDA.), ZELI RIBEIRO DA COSTA e ÂNGELA CONCEIÇÃO MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA, de fato jamais integraram a EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA.
EPP (LAKES RESTAURANTE), conforme se deduz da documentação que retrata as diversas alterações contratuais das referidas sociedades, apenas se podendo constatar que inicialmente uma (GISELE MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA, em outubro de 2003) e depois outra (ANDRÉA MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA, em janeiro de 2006) filha dos sócios da devedora passaram a integrar a empresa de que então eram sócios os ora agravantes - vale anotar que nessa última alteração contratual (janeiro de 2006) os recorrentes se retiraram da sociedade, que passou a compor-se apenas das irmãs GISELE e ANDRÉA MUNHOZ RIBEIRO DA COSTA (fls. 498/502).
Nessas condições, não se mostra razoável, ao menos nesta esfera processual, compactuar com a responsabilização pessoal dos ex-sócios da EMPRESA ÍTALO BRASILEIRA DE ALIMENTAÇÃO LTDA. EPP (LAKES RESTAURANTE), por meio da desconsideração da personalidade jurídica da sociedade de que participavam.
Confira-se a jurisprudência deste egrégio Tribunal acerca do tema:
“CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMEN- TO. EXECUÇÃO. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALI- DADE. PESSOA JURÍDICA. HIPÓTESES AUTORIZADORAS NÃO DEMONSTRADAS. REJEIÇÃO. 1. A desconsideração da personalidade jurídica é medida que deve ser aplicada com extrema cautela, apenas em casos excepcionais e desde que atendidos os requi- sitos previstos na Lei. 2. Para que seja desconsiderada a personalidade de uma pessoa jurídica, faz-se necessária a demonstração da ocorrência de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de fina- lidade. 3. À falta de prova robusta quanto à ocorrência das hipóteses autorizadoras da desconsideração da personalidade jurídica, resta inviabilizado o acolhimento do pedido neste sentido. 4. Agravo de ins- trumento conhecido e não provido.” (20070020088319AGI, Relator NÍDIA CORRÊA LIMA, 3ª Turma Cível, julgado em 12/03/2008, DJ 27/03/2008 p. 18)
“DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. BENS DOS SÓCIOS. REQUISITOS. Não é possível descon- siderar a personalidade jurídica e atingir os bens dos sócios, se o exeqüente não demonstra ter esgotado as tentativas de localizar bens em nome da pessoa jurídica, e nem apresenta evidências de fraude ou exercício abusivo de direito por parte da sociedade empresária. Agravo não provido.” (20080020115215AGI, Re-
lator JAIR SOARES, 6ª Turma Cível, julgado em 24/09/2008, DJ 01/10/2008 p. 113)
Nesse último precedente, bem asseverou o eminente Desembargador JAIR SOARES que “a desconsideração não pode ser levada a efeito com a mera
demonstração de insolvência da pessoa jurídica no cumprimento de suas obrigações. Exige-se, além da prova de insolvência, demonstração de que ocorreu desvio de finalidade (teoria subjetiva da desconsideração), ou que houve confusão patrimonial (teoria objetiva da desconsideração)”, e ainda que “não é possível aplicar a teoria da desconsideração da personalidade jurídica se o exeqüente não demonstra ter esgotado as tentativas de localizar bens da pessoa jurídica”, além do que “a circunstância de não terem sido encontrados bens penhoráveis, por si só, não evidencia prática de fraude ou de exercício abusivo de direito por parte da sociedade empresária, o que é indispensável para se tomar a medida”.
Por último, atento às contra-razões da parte agravada, não se verifica ofensa ao devido processo legal pelo fato de não terem os agravantes deduzido sua pretensão por meio de embargos de terceiro, eis que, conforme já decidiu este egrégio Tribunal, “a decisão que promove a desconsideração da personalidade jurídica
da sociedade empresária executada faz os sócios assumirem a qualidade de devedores e partes no processo de execução, razão pela qual não têm legitimidade ativa para opor embargos de terceiros” (20080020004918AGI, Relator HECTOR VALVERDE SANTANA, 4ª Turma Cível, julgado em 11/06/2008, DJ 20/08/2008 p. 265).
DISPOSITIVO
Com essas considerações, DOU PROVIMENTO ao recurso para, confirmando a liminar, determinar a liberação dos valores depositados nas contas bancárias de titularidade dos ora recorrentes.
É como voto.
Des. Arlindo Mares (Vogal) - Com o Relator. Des. Sérgio Bittencourt (Vogal) - Com o Relator.
DECISÃO
Dar provimento ao recurso, unânime.