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Alínea “d”: validade de lei local contestada em face de le

No documento Repercussão geral no Supremo Tribunal Federal (páginas 145-148)

1 CONTROLE E UNIFICAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO DAS

2.3 A REPÚBLICA E A CONSTITUIÇÃO 1891 101

2.8.1 Hipóteses de cabimento do recurso extraordinário: artigo 102,

2.8.1.4 Alínea “d”: validade de lei local contestada em face de le

A letra “d” do inciso III do artigo 102 da CF foi incluída pela EC n. 45 de 2004. A partir de então, cabe recurso extraordinário contra decisão que “julgar válida lei local contestada em face de lei federal”. É importante mencionar que, ao passo que a referida emenda procedeu à inclusão dessa hipótese, alterou a redação do artigo 105, III, “b”, da CF, prevendo o cabimento do recurso especial quando o acórdão impugnado “julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal”.

No caso da alínea “d”, do artigo 102, III, da CF, a controvérsia não gira em torno do plano da legislação infraconstitucional. Na verdade, aqui se está diante de um conflito sobre à distribuição de competência para legislar determinada por ordem constitucional. Ora, quando a lei local é contestada em face da lei federal, significa dizer que tratou de matéria que deveria ter sido disciplinada pelo legislador federal em razão de divisão de competência constitucional.

Para afastar possíveis dúvidas, cumpre esclarecer que a hipótese da alínea “b” do inciso III do artigo 105 da CF, por sua vez, diz respeito ao cabimento do recurso especial no caso da decisão impugnada considerar válido o ato de governo local em face da lei federal. O ato de governo legal deve ser considerado como “ato público infralegal”,

distingue-se, desse modo, de lei local.153

                                                                                                               

151

MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da repercussão geral... 2013, p. 125-126.

152

“Súmula n. 280: Por ofensa a direito local não cabe recurso extraordinário”.

153 MEDINA, José Miguel Garcia. Prequestionamento e repercussão geral...

2009, p. 91. Coaduna com o entendimento: “A alínea d foi incluída, pela Emenda Constitucional 45/2004, no inciso III do art. 102 da Constituição para estabelecer que caberá recurso extraordinário - e não especial - contra acórdão que julgar válida lei local contestada em face de lei federal. É que, nesse caso, a controvérsia que se põe não concerne meramente à legislação infraconstitucional. Em verdade, diz respeito à distribuição constitucional de competência para legislar: se a lei local está sendo contestada em face da lei federal, é porque ela terá tratado de matéria que, por determinação constitucional, haveria de ser disciplinada pelo legislador federal. Já na hipótese

Antes mesmo da EC n. 45 de 2004, em um dos primeiros trabalhos sobre a nova CF, José Carlos Moreira Alves criticava a hipótese de interposição do recurso especial, quando a decisão recorrida julgasse válida lei ou ato de governo local contestado em face de lei federal. Veja-se que as possibilidades estavam unificadas conforme a redação originária da Constituição de 1988. Mas o doutrinador, compreendendo parcialmente a questão, criticou o antigo texto: “Ora, as questões de validade de lei ou de ato normativo de governo local em face de lei federal não são questões de natureza legal, mas sim, constitucional, pois se resolvem pelo exame da existência, ou não, de

invasão de competência da União, ou, se for o caso, do Estado”.154 Para

ele, portanto, caberia o julgamento da questão pelo STF.

Pode-se observar que o autor não procedeu à adequada distinção de lei local e ato de governo local, mas o raciocínio desenvolvido, à época, já demonstrava racionalidade sobre a matéria.

A previsão no tocante à possibilidade de cabimento do recurso extraordinário em análise impõe, primeiramente, que a lei local tenha sido declarada válida, ou seja, possua aplicabilidade no caso concreto. Além do mais, exige a “contestação” da lei local em face da lei federal. Esses são os pressupostos para preenchimento do requisito imposto na alínea “d”. Assim, caso a decisão recorrida julgue válida a lei federal em face da lei local, essa hipótese não serve de fundamento para a

propositura da via extraordinária.155

Em síntese, a questão é de cunho constitucional. Não existindo hierarquia entre normas estaduais e federais, o ponto será dirimido pela

                                                                                                                                                                                                                                         

da alínea b do inciso III do art. 105 (também na redação dada pela Emenda Constitucional 45/2004), trata-se de cabimento de recurso especial contra o acórdão que reputa válido ato do governo (i.e., ato público infralegal) em face de lei federal. Nesse caso, o problema é de mera legalidade: trata-se de saber se ato infralegal respeitou a lei federal”. (ARRUDA ALVIM WAMBIER, Teresa; DANTAS, Bruno. Recurso especial, recurso extraordinário e a nova função

dos Tribunais Superiores no Direito brasileiro... 2016, p. 328).

154 MOREIRA ALVES, José Carlos. O Supremo Tribunal em face da nova

Constituição: questões e perspectivas. Arquivos do Ministério da Justiça, v. 41, n. 173, jul./set. 1988, p. 40.

155

BARIONI, Rodrigo. Ação rescisória e recursos para os Tribunais

Superiores... 2013, p. 195. Rodrigo Barioni ainda declara que é incumbência do

recorrente “o ônus de precisar a norma local violadora e a norma federal transgredida. Sem estas indicações, o recurso extraordinário padece de requisito formal, que o conduz à inadmissibilidade”. (BARIONI, Rodrigo. Ação

divisão de competências estabelecidas na CF, em que o STF é o responsável por dar a última palavra. A decisão recorrida, ao conceder prevalência à lei local que conflita com lei federal, indica, implicitamente, a entidade federativa competente para legislar sobre referida matéria. Entretanto, constatada a invasão de competência legislativa entre Estados-membro e União, o ato legal que extrapolou os

limites constitucionais deverá ser reputado inconstitucional.156

Procedida a análise das hipóteses de cabimento do recurso extraordinário previstas pela CF de 1988, não se pode deixar de fazer menção à amplitude de incidência da via extraordinária no atual sistema jurídico.

A Constituição de 1988 foi extremamente “pródiga ao acolher preceitos relativos à ordem econômica e social, além de diversas outras

matérias que tradicionalmente eram tratadas pelo direito ordinário”.157 A

                                                                                                               

156 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da

repercussão geral... 2013, p. 127. Para fins didáticos, Araken de Assis esclarece

a questão com exemplos práticos: “Exemplo de causa subsumida no art. 102, III, d, da CF/1988 é a que versa sobre leis municipais que estabelecem exigências físicas para o atendimento ao público nos estabelecimentos bancários. Decidiu o STF que ‘o Município pode editar legislação própria, com fundamento na autonomia constitucional que lhe é inerente (CF, art. 30, I), com o objetivo de determinar, às instituições financeiras, que instalem, em suas agências, a favor dos usuários bancários (clientes ou não), equipamentos destinados a proporcionar-lhes segurança (tais como portas eletrônicas e câmaras filmadoras) ou a propiciar-lhes conforto, mediante oferecimento de instalações sanitárias, ou fornecimento de cadeiras de espera, ou, ainda, colocação de bebedouros.’ O aresto segue a linha tradicional do direito pátrio. Sempre se reconheceu ao Município competência legislativa para estabelecer o zoneamento de uso, e, assim, impedir a instalação de agência bancária em determinado bairro ou rua, e para exigir, nos imóveis em geral, equipamentos contra incêndio, sem dúvida necessários nesses estabelecimentos. Ao invés, constituiu invasão da competência federal a lei municipal que torna obrigatório o uso de cinto de segurança nos veículos e proíbe o transporte de menores de dez anos no banco dianteiro; e a lei municipal que obrigou os supermercados,

shopping centers e lojas de departamentos a contratar seguro para prevenir o

furto de veículos em estabelecimentos”. (ASSIS, Araken de. Manual dos

recursos... 2015, p. 784).

157 VIEIRA, Oscar Vilhena. Supremo Tribunal Federal... 1994, p. 85-86. Em

sentido semelhante: “Veja-se que, embora se trate de uma Corte majoritariamente constitucional, as questões penais e os pedidos de extradição são julgamentos cuja respectiva matéria não possui natureza eminentemente constitucional, e que poderiam ser direcionados a outros tribunais, como o STJ,

circunstância, todavia, mostra-se justificada diante do histórico brasileiro de desrespeito aos direitos fundamentais. Buscou-se, assim, a proteção constitucional de ampla gama de matérias para fins de não serem infringidas.

O permissivo constitucional previsto na alínea “a” do inciso III do artigo 102, atrelado a essa amplitude de matérias tuteladas pelo texto constitucional, sem dúvida aumentou as possibilidades de cabimento do recurso extraordinário sob o fundamento de ofensa à Constituição.

Desde o início, o modelo delineado ao STF estava destinado ao fracasso, como bem observado nos tópicos anteriores que foram desenvolvidos sobre as Constituições brasileiras. Primeiramente, o Supremo atuou como corte de apelação das sentenças da Justiça Federal, o que só lhe poderia resultar em número incompatível de feitos se relacionadas às funções primárias de uma Corte Constitucional. No mais, a abrangente competência legislativa da União e diversidade de órgãos competentes para aplicação dessas leis não poderia resultar fato diverso do presenciado na realidade, isto é, numeroso índice de recursos no âmbito da Suprema Corte, que até a Constituição de 1988 cuidava,

também, da guarda da lei federal.158

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