• Nenhum resultado encontrado

ALICE: “A VONTADE DE PENSAR QUE A VIDA PODE SER DIFERENTE”

EXPERIÊNCIAS DE “CUIDADO”: CIRCULAÇÃO E DEVIR “Vais encontrar o mundo, disse-me o meu pai, à

2.3 ALICE: “A VONTADE DE PENSAR QUE A VIDA PODE SER DIFERENTE”

percebido que as jovens eram vizinhas. O fato de as jovens serem vizinhas é um elemento importante na reflexão acerca da categoria “egresso” problematizada no Capítulo 1. Embora estejam morando próximas e sejam egressas da mesma casa-lar, elas não estabeleciam nenhum tipo de relação, até então, e, portanto, não se configuravam como um “grupo”, como se poderia pressupor. Se existia algum vínculo entre elas, por conta da experiência de acolhimento, este não se atualizava no presente.

2.3 ALICE: “A VONTADE DE PENSAR QUE A VIDA PODE SER DIFERENTE”

me passou o contato dela foi a Isabelle (que será apresentada na sequência), outra jovem que havia sido acolhida na Casa-Lar Nossa Senhora do Carmo no mesmo período. A Alice mora sozinha em uma casa de madeira, que comprou com parte da herança que a mãe deixou para a jovem e seu irmão gêmeo. Ela não tem f ilhos, mas está sempre rodeada de crianças, seja nos empregos, na família ou na vizinhança. Ela diz gostar muito de criança e acalenta o sonho de ser mãe há bastante tempo. Mas, recentemente, ela descobriu que tem um problema nos ovários e a possibilidade de engravidar no futuro depende do sucesso do tratamento a ser feito. Depois de algumas tentativas frustradas de nos encontrarmos (muito em função do tratamento de saúde e do trabalho da jovem), chegou o dia em que finalmente pude conhecer a Alice: uma negra simpática, de abraço afetuoso e olhar distante, cuja história foi marcada por muito sofrimento, perdas, abuso, solidão e carência de família.

No dia do nosso encontro, ela foi me buscar na parada do ônibus. Da parada até a casa da jovem são três ou quatro quadras, ao longo de uma rua de terra, ladeada por casas e pequenos comércios. Em um desses, funciona um pequeno bar (aos olhos daqueles que, como eu, não conhecem o bairro) que é também um dos pontos de tráfico de drogas do bairro. Mas isso eu só fui saber depois. Quando chegamos na frente na casa da Alice, ela pede para eu não reparar, pois a “casa é simples”. E completa: “moça solteira, sabe como é...”, não tem ajuda para fazer os serviços mais pesados, como capinar a volta da casa e limpar por debaixo desta. Trata-se de uma casa de madeira, em sua cor natural, ou melhor : na cor que o tempo lhe foi imprimindo. Sobre pilares de concreto, ela fica suspensa do chão, o que de certa forma a protege nas situações de enchente, que um tempo atrás assustaram a moradora. Nós entramos pela cozinha e ela me conduz até a sala. Do sofá, onde me sento, é possível observar uma pequena mesa de canto, na qual a jovem tem um porta-retrato, com as fotos das pessoas mais importantes da sua vida: uma foto maior do seu irmão gêmeo (que é loiro como o pai), uma foto um pouco menor do seu afilhado e uma outra, a menor de todas em preto e branco (mas se fosse pela importância talvez fosse a maior) da sua falecida mãe, que foi retirada com cuidado da antiga carteira de trabalho desta. Essa é a única lembrança (palpável) que ela tem da mãe. A mulher que adotou63 a Alice e seu irmão, quando do falecimento da

63

A Alice diz ter sido adotada formalmente pelo casal de vizinhos, através do Juizado da Infância. Não tenho outras informações a não ser seu próprio relato sobre essa experiência, logo, talvez esse processo não tenha se dado de maneira

mãe, “deu fim” (queimou) todas as lembranças que os gêmeos poderiam ter da sua família biológica, como lembra a jovem. “Fotos, na casa tinha bastante, que a gente tava com um coelhinho na frente sabe? Ela queimou. Eu tinha uma, meu irmão tinha outra, ela queimou dos dois. Se usava aqueles retratos de escola, queimou tudo, não sei como uma pessoa pode ser tão má assim! Queimou na nossa frente..”.

O pai nunca assumiu os filhos e a mãe, segundo os relatos da Alice, era uma batalhadora que trabalhou por muitos anos no departamento de serviços gerais da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Ela tinha uma casa e algumas economias quando faleceu. Na ocasião do seu falecimento, como os filhos tinham três anos, um casal de vizinhos os adotou. Contudo, segundo a Alice e também a Clarissa, que conheceu a história da jovem, o interesse deles não era em cuidar e proteger as crianças, mas ficar com o dinheiro (sobretudo a pensão) que a mãe da Alice havia economizado. “Pô, e a gente não pediu para ir com eles, por que eles quiseram? Só para quê? Por causa do dinheiro? O que eles gastaram do dinheiro da gente, assim, que era da minha mãe, que ela trabalhou 15 anos na Epagri, então, ela tinha um dinheiro bom. Ela tinha pensão do meu pai. Daí eles gastaram um monte de dinheiro, venderam tudo o que a minha mãe tinha dentro de casa, os móveis tudo e eram tudo móveis novos, o povo fala, né...”, relembra Alice. Triste e com lágrimas nos olhos, ela segura o porta-retrato nas mãos, e desabafa: “Daí, eu digo assim, tá, pegar duas crianças só por quê, né, para quê? Para judiar ainda. A gente não pediu para tá indo lá, a minha vó teve aqui e o juiz não deixou com a minha vó, porque ela tava velhinha, assim já de idade”. Na ocasião, a avó da Alice morava em Minas Gerais e quando soube do falecimento da filha veio até Santa Catarina para pedir a guarda das crianças, mas, como explica a Alice, na avaliação do Conselho Tutelar, a avó já era idosa para assumir tal responsabilidade e, portanto, a tutela acabou ficando com o casal que, algum tempo depois, começaria a ser denunciado pela vizinhança e pela escola em função dos maus-tratos às duas crianças, mas em especial à Alice, segundo ela, por ser negra.

Mesmo sofrendo maus-tratos, a jovem não pensava em deixar a

formal, ou seja, oficializado como adoção. Mas a questão mais importante não está em saber se foi ou não uma adoção, mas sim qual o peso dessa expressão para a jovem. Ou seja, por que a palavra “adoção” é empregada tanto pela Alice como também por outras jovens que participaram da pesquisa em situações por vezes diferentes que vou problematizar ao longo desse capítulo.

casa do casal e, se isso acontecesse, ela imaginava levar o irmão junto com ela; afinal, “ele também tava sofrendo, ele também apanhava”. No entanto, o desfecho da história foi bem diferente daquele que ela ousaria sonhar. Numa quarta-feira, o homem que adotou os irmãos saiu para trabalhar à noite na Marina no Morro da Lagoa e, em casa, permaneceu apenas a mulher com as crianças. Só que nesse dia, lembra Alice, o homem havia dado 50 centavos para os gêmeos e a filha biológica do casal viu e foi imediatamente contar para a mãe. “Daí ela na varanda assim e ela com a vara e dava: 'cadê esse dinheiro! Cadê esse dinheiro!” Os irmãos, com medo e sentindo dor, só conseguiam dizer que ele não havia dado dinheiro algum. Depois disso, a Alice disse para o irmão que tinha tomado uma decisão: ia fugir daquela casa. A fuga, naquele momento, não significava apenas o não enfrentamento da situação de maus-tratos, tratava-se mais de encontrar elementos que a permitissem, num outro momento, buscar outras possibilidades de vida, de achar uma “saída” ali onde não parecia ser possível. Ela se investiu de potência e assumiu o risco de abandonar a casa daquela família, mas o fez pensando numa volta para uma outra vida junto com o irmão que para ela era a própria família. A fuga nos diz mais sobre o devir, devir - liberdade, liberdade essa que não se faria apenas na imaginação, não era um sonho. Aquela exper iência, ao contrário de intimidá-la, ampliava sua potência de agir. O irmão teve medo de que a mulher fosse pegá-los e recuou. Mas a Alice não: “Eu vou fugir, não queres ir não vai, mas eu vou fugir”. Fugiu sem destino, toda machucada, à procura de socorro: “Fui, corria, subi um pedaço do morro da Lagoa ali não sei nem como, pelo mato, descalça e subindo, pisei em cima de espinho. Com a cara, com os braços, toda inchada. Eu cheguei no vizinho lá em cima, ele me socorreu, me botou para dentro de casa. Me deram banho. Daí botaram meu braço na salmoura, para aliviar assim um pouco do inchaço”. Nesse meio tempo, a mulher foi até a casa desse vizinho em busca da Alice. Os vizinhos negaram que a menina estivesse lá, mas a mulher espiando para dentro da casa insistia: “Eu sei que ela tá aí, se vocês não me derem ela eu vou chamar a polícia”. Mas os vizinhos, que sabiam dos maus-tratos recorrentes, já tinham feito denúncia ao Conselho Tutelar e enfrentaram a mulher: “Chama! Chama! Daí mesmo é que tu não vai levar essa criança daqui”.

Diante desse episódio, as duas crianças foram levadas para o Juizado para participar de uma audiência. Os dois foram atendidos por psicólogas, só que em salas separadas. Indagados sobre a vontade de deixar a casa do casal, os irmãos deram respostas diferentes: ela desejava sair, mas ele disse que poderia ficar. Ao saber que sua resposta

havia contribuído para a separação dos dois (uma vez que somente ela seria levada para a casa-lar), ela desejou voltar e tentou de todas as maneiras convencer a psicóloga de que tudo aquilo não passava de uma invenção de criança: “Não, não vou, não quero, era mentira, eu nunca apanhei. Daí, só que já era tarde, nessas horas é que a gente vê que contar sempre a verdade nunca é bom. Eu não me interessava se eu ia apanhar, sofrer maus-tratos, passar fome, passar frio, sede...eu queria saber de estar com o meu irmão. Ficar com ele, também era a única família que eu tinha, que eu sabia que eu tinha”.

As imagens do dia da audiência permanecem muito vivas na lembrança da Alice; ela relembra tudo em detalhes, desde a arquitetura do prédio do fórum, até o carro que levou os dois irmãos para este lugar. Antes de ser levada para a Casa-Lar Nossa Senhora do Carmo, a psicóloga tentou convencê-la de que ela ir ia para um lugar melhor, onde ela seria acolhida, cuidada, bem tratada e que ela teria muitas meninas para poder conversar. Mas para ela, o difícil não era aceitar a vida no abrigo, mas sim a vida longe do irmão: “[...] o restante eram coisas que... eu também era criança, só de eu estar bem acolhida ali, estar bem cuidada, eu já ficava bem”. Durante o período em que ela esteve na casa-lar, o casal (no caso, o marido da mulher) só levou o irmão para visitar a Alice uma única vez. Foram sete anos separada do irmão, separação essa que não foi capaz de desfazer os laços, mas os reconfigurou num contexto de desinstitucionalização. Até hoje, a Alice é crítica em relação à intervenção do Conselho Tutelar, que, segundo ela, contribuiu para esse distanciamento entre os irmãos: “Eu tenho raiva de lembrar do Conselho Tutelar, se eles sabiam que tavam fazendo as coisas não era de hoje, sabiam que era com os dois, então, por que não tirar os dois? É claro, é só pensar, se ele tava dizendo que não, é porque alguma coisa há, tá sofrendo alguma coisa assim. Eu tinha medo, imagina ele”.

Interessante observar como o Conselho Tutelar, enquanto dispositivo, aparece reiteradamente nos relatos das jovens, se configurando como a figura central da intervenção. O Conselho Tutelar, para quase todas as jovens, é a própria concretude da intervenção e da rede de proteção à infância e à adolescência. Nesta figura são depositadas, por vezes, suas expectativas e anseios de uma mudança de vida, como no caso da Clarissa e da Virgínia, e por outras, as frustrações e revoltas devido às alterações nas relações e nos laços familiares. Ora esse dispositivo se empenha em produzir sujeitos, ora tem suas funções subvertidas a partir das ações e dos usos que as jovem fazem dele. Ainda que, hoje, as intervenções só possam ser feitas via decisão judicial, é o

dispositivo presente no momento da intervenção, o Conselho Tutelar, que será o protagonista das ações estatais nos relatos das jovens. De certa maneira, é possível pensar que, para as jovens, são as próprias políticas públicas de proteção que estão investidas nesse dispositivo.

A exper iência da Alice e do seu irmão gêmeo é inegavelmente marcada por dificuldades, sofrimentos, maus-tratos e talvez até mesmo uma precariedade de condições de vida; no entanto, ela é também reveladora de ações e posturas de enfrentamento, superação, união entre os irmãos, como na história de João e Maria (escrita pelos irmãos Grimm) retomada por Rifiotis em sua reflexão sobre os sujeitos dos direitos. Os relatos das experiências da Alice e do seu irmão inicialmente apontam para uma situação- limite, de precariedade, falta de alternativas e, sobretudo, para soluções emergenciais, como foi o caso da institucionalização. No entanto, no desenrolar dos acontecimentos, é possível perceber um “enfrentamento das adversidades”, em especial por parte da Alice, que foge de casa e na sequência dá o seu depoimento acerca dos maus-tratos à psicóloga do Conselho Tutelar e, por fim, a conquista da desejada liberdade. Ainda que a liberdade se realize, de certa forma, sob a forma da institucionalização, é possível perceber a “mudança na condição de vida” dos irmãos. A Alice pode não ter retirado o irmão da tutela do casal e também não ter conseguido que eles fossem morar juntos, mas ela o libertou da condição de maus-tratos, mesmo que para isso ela tenha precipitado a sua institucionalização e a separação dos dois. Trata-se de uma experiência de superação (em nome da união dos irmãos, em nome da preservação daquilo que para a jovem seria sua família e da sua autonomia) que, embora não tenha culminado com a retomada de uma vida juntos por parte dos irmãos, marca uma mudança fundamental em relação à maneira pela qual a jovem pôde se construir como sujeito, ao reconhecer e investir na sua capacidade de agir e na mudança no curso da sua vida, que até aquele momento parecia imutável e dependente da vontade do casal que havia adotado os gêmeos (RIFIOTIS, 2007, p.233-234).

Durante o longo período de acolhimento (de outubro de 97 a novembro de 2004), a Alice foi consultada sobre a possibilidade de ser adotada novamente. A adoção não f igurou como oportunidade apenas para ela, como será possível observar ao longo deste capítulo: outras jovens, em algum momento da sua experiência de acolhimento, tiveram que decidir sobre a opção de terem uma “nova família”. Independentemente de uma formalização dessa “oportunidade”, é importante ressaltar, em diálogo com Andrea Cardarello (2009), que a adoção tem um grande prestígio entre muitos agentes da área da

assistência à infância. “Seja nacional ou internacional, a adoção é geralmente vista como um processo tranquilo, constituindo-se na garantia para a criança „ter raízes‟, ser amada e beneficiar-se com todas as condições materiais necessárias para o seu bom desenvolvimento” (CARDARELLO, 2009, p.195). Mas, de outro lado, ainda seguindo o argumento de Cardarello, estão os valores manifestos entre as próprias crianças, os quais nem sempre coincidem com aqueles que orientam as políticas oficiais de adoção. E, para a Alice, a adoção significava, naquele momento, a separação definitiva do irmão gêmeo, com o qual ela alimentava esperanças de conviver tão logo deixasse a casa-lar. É importante esclarecer que é um dado importante o fato da Alice e também das outras jovens, num contexto no qual as políticas são orientadas por uma lógica “familista” (centrada na família), não fazer a opção pela adoção. No entanto, ao não optar pela adoção, não significa, como se poderia suspeitar, uma opção pelo abrigo ou pelo acolhimento. Trata-se muito mais, em alguns casos, de uma maneira de alimentar algumas expectativas quanto ao restabelecimento dos laços com a família biológica ou ainda do receio de uma nova experiência de maus- tratos e/ou abandono. E, nesse sentido, a instituição se configuraria como uma espécie de “território neutro”, no qual se pode permanecer aguardando os possíveis desfechos do desacolhimento tardio.

A Alice, ao negar a adoção, estava investindo numa concepção de família cuja concretização dependia da convivência com o seu irmão. “Como é que eu vou embora? Vou para uma família, para onde não conheço, uma cidade maior, um outro país... e o meu irmão?”. Para a jovem, a adoção seria como um “pedido de separação” em relação ao irmão, pedido este muito próximo daquele feito quando ela optou por fugir da casa da família que a maltratava. Além disso, ela tinha receio de que uma nova experiência de adoção pudesse ser uma repetição de tudo aquilo que ela tinha vivido antes de ir para a casa-lar. “Na hora lá é tudo muito bonito e também assim quando o juiz saiu da casa lá, onde eu fui adotada, na frente do juiz e da assistente social era uma coisa, a gente sempre tinha sapato bonitinho, arrumadinha. Agora o juiz e assistente social iam embora, já era diferente. Ai que a gente abr isse a boca, ai que a gente falasse alguma coisa de errado. Então, como é que eu ia lutar contra eles?”. É importante ressaltar, a partir dessa reflexão da Alice, como a possibilidade do devir pode emergir justamente em meio a uma teia complexa de controles, de burocracia e das expectativas dos diferentes agentes implicados nesse emaranhado de relações. A possibilidade de “fazer o corte” com todos esses pontos de assujeitamento se realiza como “linha de fuga” em direção àquilo que se

pode desejar ser, ou melhor, vir-a-ser.

Em relação às outras crianças e adolescentes que conheceu na casa-lar, a Alice lembrava praticamente de todas e fez questão de pegar o álbum de fotos para me apresentar uma a uma e também relatar os momentos importantes que viveu durante o acolhimento. Ao abrir o álbum, imediatamente todas aquelas histórias emergem diante dos nossos olhos, a cada página, todas as imagens ganham vida novamente: “Tá meio velhinho [o álbum], mas... essa aqui foi no dia da minha primeira comunhão, nós tava fazendo o bolo. Ah, daí, chegou um pessoal para tirar foto da gente, e eu queria, mas não sabia fazer pose! (risos) Os meninos chegavam, faziam pose, faziam bico e eu não sabia, daí eu comecei a rir e eles tiraram foto de mim. De vez em quando, eu paro, fico olhando, me dá uma saudade! Onde tá esse povo?!”. Assim como a Clarissa, a Alice também lembra da Bruna que tinha deficiência auditiva e inspirou as outras meninas da casa a buscarem outras maneiras de se comunicarem com ela e também com ela aprenderam a deixar de serem cuidadas para poder cuidar. “Agora a gente tá sem convívio, a gente destreina um pouco, mas a gente sabia bastante gestos. Eu, principalmente, sempre levava ela na aula, daí sempre ficava lá e trazia de volta, né. Aprendi alguma coisa bastante assim com os gestos, mas, agora, a gente tá destreinada!”

Mas se são muitas as lembranças, poucas são as notícias sobre aqueles com os quais conviveu o período da infância e da adolescência. Durante o tempo em que esteve na casa-lar, viu muitas meninas e meninos partirem, sem deixar nenhum contato: “Geralmente elas saíam, mas ninguém pensava que ia voltar. Geralmente, saíam meio brigadas, porque a maioria das meninas que saíram de lá, ou fugiram ou queriam ir mesmo para a casa da mãe. E naquela época, era bem difícil a pessoa ter celular”. Das amizades que fez, apenas uma permanece: a Isabelle. A Alice chegou na casa-lar antes da Isabelle e logo de início as duas fizeram amizade. Elas dividiam o mesmo quarto, saíam sempre juntas e a Alice sempre acompanhava as “artes” que a amiga aprontava: “Querendo ou não, a gente sempre morou juntas... somos irmãs, né? Eu gosto dela como uma irmã”. Talvez seja interessante pontuar a partir dessa frase da Alice, o fato de, por vezes, as relações de amizades serem