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EXPERIÊNCIAS DE “CUIDADO”: CIRCULAÇÃO E DEVIR “Vais encontrar o mundo, disse-me o meu pai, à

2.2 VIRGÍNIA: “INDO E VOLTANDO”

A Virgínia mora no bairro Frei Damião na Pa lhoça, lugar que, segundo o relato da Clarissa, apareceu na mídia em 2010 por conta dos treinamentos do exército para a missão no Haiti. O local foi escolhido em função das suas semelhanças com o país antes e depois do terremoto. Na ocasião, os moradores mais engajados deram depoimentos acerca do descaso com que eram tratados pelo poder público. Eles relatavam que, mesmo pagando impostos como todos os outros cidadãos, não tinham saneamento, iluminação, fora os graves estados de alagamento com que a comunidade convive frequentemente. E foi num desses dias de chuva forte e de ruas alagadas que eu e a Clarissa fomos ao encontro da Virgínia: uma verdadeira saga por um labirinto de pequenas ruelas que pareciam a cada esquina se estreitar mais ainda. A Clarissa para o carro uma, duas, três vezes, andamos pela chuva e nada da casa da Virgínia. Esta era tão difícil de localizar que a própria Virgínia não conseguia explicar onde morava: a única indicação era o bar da Paraguaia. No caminho, a Clarissa me contou que a situação da Virgínia era “bem precária”, uma vez que ela estava com quatro filhos e raramente saía de casa. Com o barulho dos carros, as crianças vieram para o avarandado nos receber. Em volta da casa de madeira, havia muita água. As ruas todas de areia ficavam ainda mais indef inidas em função da chuva que insistia em cair cada vez mais forte. Nós nos equilibramos sobre uns pedaços de madeira até chegar na casa. Não eram quatro filhos, eram seis; e mais um já estava a caminho, nos conta a Virgínia sorrindo. A Clarissa ainda disse: “E eu que pensei que tu tivesse quatro”.

A jovem tem 30 anos e teve o primeiro filho com 17. No total são oito filhos: sete dela com o seu companheiro e um dele, o mais velho, fruto de uma relação anterior à união com a Virgínia. Ela me conta que não fez a cirurgia de ligadura de trompas porque “tem medo dessas coisas” e que “não toma comprimido” (anticoncepcional) porque “tem problema no coração”. O número de filhos não se constitui como um problema para a jovem, pois, segundo ela, é bem fácil cuidar de sete filhos, o difícil mesmo é a hora do parto, de que ela diz ter medo. Além disso, o fato de ter muitos filhos, como explica a jovem sorrindo, deve ter uma explicação genética, pois a sua mãe e as suas irmãs seguiram o mesmo caminho: o de não ter dificuldade alguma para ter filhos. A mãe teve 10 filhos e a irmã oito.

A Virgínia é uma jovem magra, branca, de estatura mediana, com os cabelos negros compridos, que cobrem boa parte das suas costas. No rosto, uma expressão desgastada pelo tempo insiste em denunciar uma

situação de abandono em relação a si mesma. Ela não trabalha fora de casa e não tem qualquer perspectiva nesse sentido. Se existem projetos para o futuro, estes se concentram totalmente na criação dos filhos. O único emprego formal que ela teve foi interrompido na sua primeira gestação, há mais de 10 anos. Ela passa todos os dias em casa na companhia dos filhos. A única visita que recebe é da mãe e, muito raramente, vai até a casa da irmã. “Não vou na casa de ninguém e ninguém vem na minha casa. A única que vem volta e meia na minha casa é uma comadre minha”, ela me explica, revelando um misto de decisão e resignação acerca da sua rotina; afinal de contas, isso não a entristece, pois, como ela mesma diz sorrindo: “os filhos me alegram”. Ela passa os dias envolvida com os afazeres da casa. Acorda cedo, antes mesmo das sete da manhã para fazer café para os dois filhos menores, os maiores acordam e vão direto para o Projeto62, onde fazem suas refeições. Ela limpa a casa, lava as roupas, e já deixa a janta preparada, pois o marido leva comida para o serviço todos os dias. Ao meio-dia, os filhos raramente estão em casa para almoçar, exceto os dois menores. Para eles, faz uma sopa e ela mesma raramente almoça, sobretudo no contexto da última gestação, pois tem se sentido muito enjoada. Enquanto ouvia seus relatos e a observava, eu não deixava de pensar no quanto a vida pode ser frágil e chegar ao seu limite, mas, ao mesmo tempo, como é possível enxergar nessa mesma fragilidade a potência. Ali não se tratava mais de uma “egressa” de uma instituição de acolhimento, era uma mulher, uma mãe como tantas outras nas redondezas.

A Virgínia deixou a casa da mãe, em Chapecó, e veio para Florianópolis com 11 anos de idade. E desse momento em diante, sua vida foi sempre assim: “indo e voltando” (modo nativo de fazer referência à prática de circulação infantil). Veio para Florianópolis para morar na casa da tia, no bairro Itacorubi. A princípio, ela iria para a casa da tia para voltar a estudar, mas isso nunca aconteceu. Além de a tia nunca deixar ela ir para a aula, ela era obrigada a fazer todo o serviço da casa e cuidar da filha pequena da tia, como ela mesma relata. “Ah, eu não vou ficar, deu! Não vou cuidar dos filhos dos outros, eu vou cuidar dos meus o dia que eu tiver. O pai dela e a mãe dela, que fizeram, que cuidem, mas só que os dois trabalhavam. Ah não! Vou embora, e ela que fique aí, deixei ela sozinha e fugi”. Foi na tentativa de fugir da casa da tia, que “era muito ruim”, que aos 14 anos ela foi parar na Casa de Passagem, sem saber exatamente como. “Só sei que eu tava andando e

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uma mulher lá me levou numa firma e começaram a brigar porque ela queria que eu fosse morar com ela. Eu não conhecia ninguém e para a minha tia eu não queria vo ltar. Daí um homem lá falou que ele era da polícia e que eu tinha que ir lá para a Casa de Passagem até arrumar para onde ir”. Foi na Casa de Passagem, ou “albergue” como chamam as jovens, que a Virgínia e a Clar issa se conheceram e estabeleceram uma relação de amizade antes mesmo da experiência na Casa-Lar Nossa Senhora do Carmo.

A Virgínia foi transferida para a casa-lar antes da Clarissa. Segundo os relatos das duas, a conselheira tutelar não desejava que elas ficassem juntas, porque elas “aprontavam muito”. Quando a Clarissa estava para ser transferida, ela chegou a pedir para a conselheira para ficar junto com a Virgínia, uma vez que elas já tinham feito amizade lá na Casa de Passagem. Mas a conselheira respondeu que não cuidava do caso da Virgínia e que, portanto, não sabia para onde ela havia ido e, além disso, a Clarissa não poderia ficar escolhendo “orfanato”: “Era só o que me faltava agora! Eu te arrumei uma casa-lar muito boa, se tu não parar nesse lugar, tu não vai mais parar em lugar nenhum”, lembra a jovem das palavras da conselheira. Depois de um tempo, a Virgínia já estava instalada na casa-lar havia duas semanas quando a Clarissa chegou. O reencontro foi marcado por muita alegr ia e surpresa, uma vez que elas não imaginavam que voltar iam a f ic ar juntas. “E foi certinho. Cheguei lá de manhã, conheci o pessoal, conheci as crianças e ela [a Virgínia] já estava estudando nesse meio tempo, porque a primeira coisa que eles fazem é colocar na escola. Daí não vi ela. Ah, quando ela chegou, ao meio-dia, pensa... foi aquele abraço, aquela conversa. Eu acho que ela já foi um dos pontos para eu me adaptar mais fácil, para eu ficar na casa”, lembra a Clarissa com carinho do primeiro dia na casa- lar.

Os relatos das duas jovens sobre a experiência do acolhimento por vezes se cruzam. E a primeira personagem a figurar nas suas histórias é a educadora Esther, ambígua na sua maneira de cuidar das crianças, e na sua forma de estabelecer laços, alimentando uma relação de amor e ódio, como lembra a Clarissa. “É porque na verdade, assim ó, uma pessoa que me ensinou bastante coisa. Ela era uma pessoa que tinha educação, tinha uma classe, uma educação, uma boa formação, mas não nasceu para ser mãe. Não conseguiu educar as dela, não era a dos outros que ela ia educar”. E as impressões da Virgínia sobre a Esther iam no mesmo sentido das da Clarissa: “Ela xingava nós, né? Acho que ela não gostava”. E é nessa ambiguidade da educadora que emerge a relação entre proteção e autoridade, ou seja, proteger é também decidir quem

tem autoridade sobre. E isso aparece de forma bem marcada na avaliação que a Clarissa faz da Esther, sobretudo no uso que ela fazia dessa autoridade. “Porque o tipo de agressão que ela tinha pelas crianças, sabe aquela coisa de autoridade? Só que a autoridade dela se não fosse cumprida na hora que ela quisesse, ela batia. Poucas vezes ela botava de castigo, geralmente ela batia”. E o uso dessa autoridade vem acompanhado de gradações, do que seria tolerável, como é o caso do castigo, ao intolerável: bater. E na conjugação da autor idade com a proteção, há também uma espécie de gradação, de quem precisa ser mais protegido. Esse era o caso da Bruna, uma das meninas da Casa-lar que tinha deficiência auditiva.

A gente era muito ligada mesmo. Então, teve duas vezes que ela foi bater na Bruna, que a Bruna foi tomar banho e reinou porque não tinha xampu, não tinha o pente que ela queria e daí ela gritou para alguém levar e ninguém foi levar. Daí a Esther gritava para ela lá da cozinha: “Cala a boca, senão eu vou te meter a mão, cala a boca senão...”. E aquilo ali foi me irritando. Quando ela saiu para bater na menina, eu pulei na frente da porta: “A senhora não vai bater nela! Sai da frente. Quando ela botou a mão em mim, eu já agarrei nela e disse: Não, a senhora não vai bater nela. Aí ela viu que eu tava falando sério, eu ia falar para a tia Cecília. Mas já tinha acontecido dela bater na Bruna várias vezes. Ela tirava o chinelo e batia. Contudo, esse modo de agir, pautado pela autoridade, descrito pelas jovens não correspondia à imagem que a Esther havia construído na casa-lar: de alguém que tinha boa educação, boa índole e que carregava uma experiência adquir ida nos outros lares em que já havia passado. Modo este que, talvez, estivesse orientado pelo registro da convenção, numa lógica que prima pela “socialização” ou “reintegração” social dos sujeitos. Mas para as jovens, num registro da “invenção” havia um outro tipo de vínculo que esperavam estabelecer com as educadoras e que era praticado na relação com outra profiss ional que só trabalhava três dias por semana na casa-lar. “Mas é assim, ela tinha uma relação de amor e carinho. Tudo o que ela fazia. Se ela fazia um bolo, ela chamava todo mundo que quisesse ajudar. E tu sabe que, para criança, meu deus! Elas não têm esse contato, elas não têm esse carinho, não têm esse amor. Então, assim, tu tinha um contato, não era só aquela coisa de regra, só de leis, tinha realmente um contato”, lembra

a Clarissa. A proteção, para elas, passava por um outro lugar: o do afeto e de uma socialidade e não pela autor idade, sobretudo em termos de um investimento para dar aos sujeitos uma forma acabada.

Para além dos “atritos” com as educadoras e mesmo com as regras estabelecidas pela casa-lar, tanto a Clarissa como a Virgínia ressaltam que a experiência do acolhimento foi marcada por muitos aprendizados, que vão desde as tarefas domésticas (cozinhar, lavar, arrumar) e escolares até o cuidado de si (hábitos de higiene, de cuidado com o corpo) e também dos outros (preocupação com a colega que tinha deficiência auditiva, levar os menores para a escola, cuidar das monitoras em situação de doença, etc). Tanto que a Clarissa faz questão de dizer que sempre viu a sua experiência de acolhimento na casa-lar do mesmo jeito, desde o princípio de maneira positiva. Mesmo que discordasse e tivesse atritos com uma das monitoras, ela sempre viu o acolhimento como uma experiência de aprendizagem. “Eu entrei em outubro de 97 e saí em dezembro de 98. Mas foi um período muito bom, eu tive alguns atritos com uma monitora, mas que na verdade nós se brigava, mas nós se gostava no fundo”. E os relatos da Virgínia seguem no mesmo sentido dos da Clarissa. “Eu para mim, acho que eu aprendi tudo lá, desde comida até tudo. Porque daí, na verdade, a mãe não me cuidou, porque ela sempre teve, um tempo ela ficou louca, né, porque meu pai morreu, nós era pequena ainda e aí depois ela não mandou mais em nós, nós ia na aula se nós queria, se não queria nós não ia. Agora, que ela tem um pouco de juízo”. Para a jovem, ser governado passa a ser uma convenção, a ponto de ela sentir falta dessa “condução” em relação ao seu modo de agir, de se comportar, de estabelecer valores, de maneira que toda e qualquer ação passa a depender sempre da supervisão do outro. Esse “ser governado” não remete somente à disciplina, como poderia parecer num primeiro momento, mas ao cuidado. Cuidado este, a partir do qual ela pode se constituir enquanto sujeito.

Como a mãe da Virgínia não conseguia mais “governar” os filhos, tanto a experiência de acolhimento como também a dos outros lares (por onde a jovem passou depois que saiu da casa da mãe) são vistas como fundamentais nesse restabelecimento daquilo que para ela havia se tornado convenção, ou seja, ser governado. “E daí a gente sempre se governou [na casa da mãe] e lá [casa-lar] tinha alguém que mandava na gente. Em todos os lugares que eu ia, tinha alguém que me mandava. Daí aprendi a fazer comida, tudo lá; às vezes, até limpar a casa. Lá elas faziam a gente limpar tudo bem limpinho. Aprendi um monte de coisa, até o colégio que eu aprendi foi lá”, lembra a Virgínia. Então ser governado, ser cuidado, passa a ser, nessa perspectiva, a condição para a

aprendizagem. De maneira que, para a Virgínia, a casa-lar ficou associada como o lugar de estudo, tanto que, depois do desacolhimento, ela nunca mais retornou para a escola. “Eu estudei na casa-lar quando eu fiquei ali, estudei quase um ano, na sexta, e daí depois eu não estudei nunca mais. Nunca mais fui na aula. Porque depois eu fui para Chapecó e daí tava tudo diferente lá, daí eu não fui mais”. E é também recorrente nas narrativas das jovens, a possibilidade de essas aprendizagens se presentificarem nas suas experiências familiares atuais : na maneira como educam os filhos, como demarcam o certo e o errado, na maneira como ressaltam a importância dos estudos e do trabalho. No entanto, ao contrário do que se poderia pressupor, não se trata de uma simples transposição de tais experiências de um contexto para outro, tampouco da incorporação de certos modelos morais. Tais aprendizagens, ou experiências de acolhimento, acabam por se mesclar a outras tantas (para além da institucionalização), conformando o devir-mãe dessas jovens, ou seja, aquilo que elas desejam “vir a ser” como mães, sobretudo no que diz respeito às concepções de cuidado.

A exper iência de reunir a Clarissa e a Virgínia nas minhas visitas se tornou produtiva, tanto para elas como para a pesquisa propriamente dita. Para as duas, a pesquisa promoveu o seu reencontro, depois do longo tempo que as separou da experiência do acolhimento. É sempre interessante observar, no encontro das jovens, o lugar que cada uma ocupa na relação, ou melhor, a maneira como cada uma pode se construir como sujeito. A Clar issa sempre procura assumir a posição de quem entende de políticas públicas, de quem corre atrás dos seus direitos, de quem não deixa o tempo passar. Ela busca aproveitar a melhor oportunidade no tempo. Essa posição vai sendo construída na medida em que a Virgínia, aparentemente, não deseja marcar posição alguma, a não ser a daquela pessoa que não sabe muito bem como funcionam as coisas, porque dificilmente sai de casa. Inclusive o próprio fato de não sair de casa, em função dos filhos, é usado como esse marcador de posição: de quem não tem obrigação de saber, pois não está exposto às mudanças que acontecem para além da esfera da casa e do cuidado com os filhos. Ao contrário da Clar issa, a Virgínia não faz projeções, a não ser a de que, se existe um problema, alguma possibilidade de solucioná- lo irá aparecer ou de que alguém vai lhe ajudar e tudo vai se resolver de alguma forma, independentemente do seu grau de esforço. Nesse ponto, é importante pontuar que tal posição, embora possa, num primeiro momento, apontar para o que se poderia chamar de uma ausência de “projeto de vida”, na verdade, é reveladora de uma maneira de conceber o tempo, na qual as decisões e as escolhas

vão sendo tomadas à medida que as situações vão sendo apresentadas ao sujeito. E isso nos fornece pistas sobre um estilo de vida que vai sendo conformado a partir de uma temporalidade específica que rompe com uma apreensão mais cronológica do tempo (chronos).

Além disso, é importante mencionar o meu próprio lugar nessa reaproximação das duas jovens – ora me vejo como mediadora, ora me vejo compondo a relação e ocupando um outro lugar: talvez de amiga, talvez da assistente social (como por vezes a Virgínia me apresentava aos outros), ou mesmo a de alguém com quem podem contar. Tanto que, assim que ficou sabendo da data provável para a chegada do bebê, ela me telefonou para me comunicar a notícia: seria para o início de agosto. Perguntei se estava tudo bem, ela me disse que sim e que só queria mesmo me dar a notícia. Duas questões me chamaram atenção nessa ligação da Virgínia: a primeira é que ela parecia ver em mim alguém em quem ela podia confiar e talvez com quem contar, sobretudo quando estivesse no hospital para ganhar o bebê. A possibilidade de ser cuidada e de ter alguém que se importe com ela. A segunda questão é que ela estaria vendo em mim justamente a possibilidade da ampliação de uma rede de contatos, por onde ela poderia circular e se sentir mais segura. E mesmo, seria possível pensar que ela estaria evidenciando o seu potencial de agência, à medida que estaria ampliando sua possibilidade de inserção numa rede de assistência social. Por mais que eu tivesse lhe explicado sobre a pesquisa e sobre quem eu era, penso que, para ela, clara mesmo era a possibilidade de encontrar alguém com quem contar e até mesmo se manter próxima da Clar issa. Se a invenção não é uma exclusividade dos antropólogos, como alerta Wagner (2010), os sujeitos da pesquisa também podem inventar o mundo e os próprios antropólogos, nos seus próprios termos, de maneira a ter para si posições e papéis em relação aos outros que lhes façam sentido.

A Clarissa e a Virgínia deixaram a casa-lar praticamente na mesma época. A Clar issa foi desacolhida em 1998, quando tinha 15 anos, em função da gestação da sua primeira filha. Segundo o relato da jovem, embora não fosse uma norma da casa-lar, havia uma espécie de acordo tácito de que preferencialmente as adolescentes grávidas não permanecessem morando na instituição. A jovem já estava grávida fazia um tempinho, quando resolveu fazer escondida o teste de gravidez e o resultado deste lhe foi entregue pela tia durante sua festa de 15 anos. “Então, assim, eu tinha a metade das minhas fotos de 15 anos rindo, brincando, fazendo festa e a outra metade com a cara inchada de choro”. Na ocasião, ela ainda morava na casa-lar, mas a festa foi realizada no centro da Capital, em uma associação. A festa havia sido toda

organizada e paga pela jovem, a partir de uma rifa que ela havia feito. “Eu sempre fui meia trambiqueira, a veia já vem desde cedo. Então, a minha festa foi tudo eu que fiz, comida, bebida, tudo, do princípio ao