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Andréa Brunetto

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 121-124)

o mundo moderno, capitalista, que tem pressa e que o tempo é dinheiro – algo a ser valorizado, um investimento – esperar é uma vergonha. Vergonha que recai sobre aquele que espera. Zygmunt Bauman, em “Vidas desperdiçadas” escreve: “correr atrás das coisas e capturá-las em pleno vôo, ainda frescas e cheirosas – isso é in. Adiar, escolher o que já está lá, é out.

É esse ritmo vertiginoso, em que tempo é dinheiro, que faz com que a cada dia a avidez dos sujeitos – que é humana, demasiada humana, já que nenhum objeto pode tamponar a falta – seja diuturnamente reavivada por novos objetos que prometem o impossível.

Então, esse trabalho une o tema do tempo com um pequeno extrato clinico em que mostra a entrada em análise de um sujeito obsessivo que “não pode esperar”.

Por isso esse trabalho tem este título: frase da música de Chico Buarque de Holanda: “Está provado, quem espera nunca alcança. Faça como eu digo, faça como eu faço: aja duas vezes antes de pensar”.

O obsessivo fica meio perdido nesse tempo atual em que tudo é rápido. A façanha é ser rápido, como na música de Chico, não adiar, não procrastinar. E ele tem necessidade de um grande tempo de compreender.

Lacan alega que é necessário entender o Eu dos sujeitos histéricos e obsessivos para saber através de quem e a quem ele formula sua pergunta e, assim, reconhecer seu desejo. Afirma que o

obsessivo “arrasta para a jaula de seu narcisismo os objetos em que sua questão se propaga, no álibi multiplicado de imagens mortais e, domando-lhes as acrobacias, dirige sua ambígua homenagem ao camarote em que ele mesmo se instala, o do mestre/senhor que não se pode ver”. E continua, afirmando que nesse espectador invisível do palco está a figura da morte.

A relação entre a preocupação com seu desempenho e a morte já estava apontada por Freud desde o Homem dos Ratos, sustenta Quinet em Zwang und Trieb “quando se exibia tarde da noite, ao espectro paterno, quando se preparava para uma prova e abria a porta para seu falecido pai e, logo em seguida, contemplava seu pênis em espelho”.

Tomando um recorte da minha clínica, esse sujeito obsessivo é um profissional eficiente e bem sucedido que sabe fazer a ‘boa hora’. É uma análise que se inicia (tem menos de um ano) e desde a primeira sessão, ele reclama por eu não respeitar exatamente os horários marcados e ele fica tendo que esperar, esperar. Faz sempre a apologia de que gosta de tudo certo, nos dias e horários certos.

Além da meticulosidade própria do obsessivo, não poder esperar é um dos lemas do capitalismo. Consuma e goze agora! E “o inconsciente não é anticapitalista, pelo contrário, ele trabalha incessantemente para produzir gozo” (Soler, A confusão dos discursos).

Um dia é ele que tem de sair da rotina e mudar o horário de sua sessão e chegar depois das 20hs. Espera fora do consultório alguns minutos, sem saber se eu estava atendendo (a secretária já tinha ido embora). Então, abro a porta, um

N

paciente sai e ele entra. Ao final da sessão, já em pé, me diz que achou que eu tinha esquecido ele lá fora. Digo que de forma alguma esqueci dele, o que esqueci foi de avisá-lo que nesse horário a secretária já teria ido embora e ele talvez tivesse que esperar alguns minutos.

É isso que constitui sua entrada em análise, enlaçando o sintoma, a fantasia e a intervenção da analista. Na sessão seguinte, vem a lembrança infantil: quando criança, a mãe sofreu um acidente, ele era pequeno e não pode entrar no hospital. Ficou esperando do lado de fora, torcendo para a mãe não morrer. Demorou muito e achou que a mãe tivesse esquecido dele ou morrido. Não relaciona de forma nenhuma a história com a espera do lado de fora do consultório.

Em “O seminário, livro 5: as formações do inconsciente”, Lacan afirma que é preciso que para o obsessivo haja alguém que registre e testemunhe suas proezas. “Não se pratica uma proeza sozinho”, alega Lacan. O Outro é diante de quem tudo isso se passa, o lugar onde se registra a façanha. Novamente afirma um lugar de testemunha invisível para o Outro. E como espectador, a morte.

Façanha, acrobacia, proeza são palavras que Lacan usa para dizer desse espetáculo que o obsessivo trava com a morte. Como dizia outro obsessivo que atendo: quando sinto que a morte me ronda, penso em Epicuro ‘se eu estou aqui, a morte não está; se ela está é porque já fui’.

Com suas façanhas apresenta uma heroicidade cada vez mais inútil – estou usando uma frase de Carmem Gallano para designar a solidão paranóica, mas creio que cabe aqui – em um mundo em que não há mais ordem que a do mercado capitalista, o da produção extensiva da falta-a-gozar.

Esse tempo de compreender tão longo, que a clínica evidencia, pode ser entendido como parte do espetáculo

mortífero, visando a manutenção do Outro. Assim, o obsessivo se envolve com seus pensamentos e adia o ato. E com isso o momento de concluir fica distante, unindo-se o infinito do tempo com o impossível em desejar. Procastinar, fingindo-se de morto para enganar a morte, é sua forma de manter o Outro sem falta. O ‘bom conselho’ da música de Chico Buarque é um convite ao ato.

A proeza de meu paciente em ‘fazer a boa hora’ em seu trabalho é para negociar com a morte. É por isso que ele sabe fazer a “boa hora”.

Com a interpretação ‘não esqueci de você’ a analista é enlaçada no sintoma do sujeito e, para além de seu lugar de Outro, passa a ser objeto a. No Seminário 11, Lacan diz que a presença do analista é ela própria uma manifestação do inconsciente. E que o inconsciente está do lado de fora, porém pela boca do analista esta porta pode ser aberta.

O que tem acontecido recentemente é que ele tem chegado bem antes de seu horário e fica esperando na sala de espera. E não diz que chegou antes, não fala sobre isso durante a sessão. Esta espera por vezes de cerca de uma hora não o incomoda.

No argumento deste trabalho coloquei uma questão: qual o efeito dessa análise sobre esse sintoma da espera? Entre a escrita do argumento e esta, agora, ele deixou de seu trabalho. Está investindo em outro que envolve a recente e famosa indústria da estética.

Isto significa uma mudança? Seu tempo de compreender é rápido? Acabei de afirmar que o obsessivo prolonga o tempo, não concluindo. Minha resposta é não. Ele continua o ‘bom proletário’ que entende as necessidades do mercado e busca o bom desempenho. Essa é sua nova versão de ‘fazer a boa hora’ com sua verdadeira proeza que é a manutenção do Outro. Alega que agora está na profissão do

futuro, que atrasa a velhice: agora não é mais um tempo para velhos.

Ele continua na repetição, do lado de fora do hospital à espera de ser chamado, à espera da morte do outro ou da dele, o que dá no mesmo. E esta espera da morte é uma possibilidade certeira, insuperável e indeterminada do sujeito, como afirma Lacan citando Heidegger em “Função e campo...”.

Retomando a música de Chico Buarque, ele ainda diz “Corro atrás do tempo. Vim de não sei onde. Devagar é que não se vai longe”. Assim, Chico inverte o ‘quem espera sempre alcança’ para ‘quem espera nunca alcança’. Mas o analista espera, porque se não espera é o pior, espera nas avenidas da fala para abrir o postigo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005

FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909). In: ESB. RJ: Imago Editora, 1976.

GALLANO, Carmem. “Não sou paranóico”, in: O sintoma-charlatão. RJ: JZEditor,

GAZZOLA, Luiz Renato. Estratégias na neurose obsessiva. RJ: JZEditor, 2002.

LACAN, Jacques. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

LACAN, Jaques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

LACAN, Jaques. O seminário, livro 11: os conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

QUINET, Antonio. Zwang und Trieb, in: Destinos da pulsão. RJ: Contracapa, 1997.

SALINAS-ROSÉS, Joan. Psicanálise. Psicoterapia. Desejo do analista? In: Stylus 16. Revista da Associação dos Fóruns do Campo Lacaniano-Brasil. No prelo.

SOLER, Colette. A Confusão dos discursos, in: O tempo da psicanálise. Heteridade 3, 2004.

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 121-124)