uais são os tempos de uma praxis? Para a isso responder devemos recuperar que o ato na praxis, que concerne tanto ao campo da ética quanto ao da política na Grécia antiga, apresenta uma configuração bem diferente do ato presente na natureza (phisis) e na arte (poiesis). Só para se ater à dimensão do tempo, o ato na phisis se desdobra em um tempo de desenvolvimento necessário de uma ordenação do logos, na passagem determinada da potência ao ato; e na poiesis o tempo se coloca no intervalo entre o agente e o produto, onde a techne acha seu lugar. Por seu lado, na praxis, devido ao fato de que não há distinção entre agente, produto e finalidade no ato (ou seja, o ato, na praxis, é o agente, o produto e finalidade), o tempo é indexado de forma diferente. Ele é marcado tanto pelo instante do ato, por exemplo, de um ato justo, como também traz em si a extensão histórica de seu agente, por exemplo, um homem notadamente injusto. Por essa razão, o tempo do ato na praxis pode ser tanto um tempo de repetição, quanto pode ser um tempo de reordenação, de irrupção do novo.
Essa marca do ato penetra toda a praxis na medida em que a ética não é um campo do singular. Assim, da mesma forma, o ethos, como campo trans- individual, apresenta a mesma pulsação entre repetição e criação. Devemos lembrar a dupla nomeação do ethos: por um lado o “ethos (com eta inicial) designa a morada do homem...a metáfora da morada e do abrigo indica justamente que, a partir do
ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. O domínio da phisis ou o reino da necessidade é rompido pela abertura do espaço humano do ethos no qual irão se inscrever as ações... A segunda acepção de ethos (com épsilon inicial) diz respeito ao comportamento que resulta de um constante repetir dos mesmos atos” (Lima Vaz, 1993, p. 12). Assim, como hábito, o ethos traz em si a marca do que se repete e, como costume a inscrição do novo, da criação que escapa à necessidade natural.
No que toca a psicanálise e em particular Lacan é importante lembrar que a nomeação da experiência analítica pelo termo praxis só acontece a partir do sétimo ano de seu seminário, justamente em: “A Ética da Psicanálise”. Até então, Lacan normalmente utilizava a expressão “técnica psicanalítica”. Fica por saber, então, porquê um seminário em que há um claro esforço para distanciar a experiência psicanalítica do orthoslogos aristotélico, deixa-nos também, contraditoriamente, a herança de localizar a psicanálise no campo da praxis. A resposta pode estar em certa disjunção da “Ética a Nicômano” que se pode operar entre o que seria relativo às propriedades do ethos, nas quais vemos elementos concernentes à psicanálise, e o que toca a teleologia da ética aristotélica, diante da qual Lacan posiciona a experiência analítica como uma espécie de antítese.
Sobre o que afasta a psicanálise da ética aristotélica, isto está bem claro neste seminário na crítica à noção de “Soberano Bem” e no tratamento dado à questão do desejo. Esse não será o foco de nossa exposição. Mas pelo lado contrário, podemos trabalhar a aproximação da
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experiência analítica a praxis por alguns vértices, como a questão da alteridade e do endereçamento que se coloca no ato ou a questão da suposição ao saber também presente nesse ato. Devemos recordar que a liberdade implicada no ethos, como possibilidade de criação, está condicionada a alteridade posta no ethos como repetição. Isso decorre da dialética interna ao próprio ethos e refere o conflito ao campo do saber; conflito entre o saber constituído e o saber como razão, potência criativa. Assim tal alteridade se manifesta tanto na relação direta dos cidadãos na Polis, como também na relação do cidadão ao saber. A questão do tempo se insere como um outro vértice pelo qual podemos relacionar a psicanálise e a praxis, mas que acaba por incluir esses outros campos, como veremos.
O tempo, tal como indicamos, em se inscrevendo duplamente no ato da praxis, sugere proximidades ao tempo do sujeito tal como a psicanálise o concebe. O ato na praxis, como vimos, é um ato que é o seu próprio agente. Não é a apresentação de uma faceta ou a representação de um papel, mas sim, no ato está o próprio agente que é também o produto do mesmo ato. Assim, o que marca o ato como ethos é a instauração de um sujeito, pelo menos, até aqui, sujeito da ação. Mas também vimos como esse ato não está dado ao infinito de possibilidades abstratas, sendo, antes, suposto a uma alteridade que lhe convoca a um tempo de repetição, mas que se apresenta, igualmente, como a única possibilidade de inscrição de um tempo novo. Então, podemos ver como o ato é o instante mesmo em que o sujeito surge como submetido às coordenadas outras e como lugar da criação. Porém o ato é o sujeito. Portanto ele, o sujeito, é o instante, a suposição e é o lugar da criação. Daí podemos depreender a estrutura do sujeito em seu tempo.
Nessa mesma direção, vemos esses tempos se colocarem na transferência. Porque esses tempos do sujeito não nos
são dados senão pela realidade do inconsciente posta em ato, uma das definições de transferência dadas por Lacan. No dispositivo analítico, é na transferência como atualização da realidade inconsciente que a queixa, o sintoma, o acting-out e o delírio se desdobram em repetições que são, de fato, atualizações das relações que o sujeito criou com o Outro. Vemos assim, em um primeiro plano, como é na transferência que os tempos de criação e repetição da relação entre sujeito e Outro se inscrevem. Porém, salientemos por enquanto, que essa repetição, como nos adverte Lacan, é da ordem de autômaton e não de tiquê como veremos depois.
Seguindo nosso caminho, devemos agora abordar a questão do tempo a partir da praxis no que toca não apenas o sujeito e a transferência, mas o tempo desses tempos na experiência analítica. Porque o sujeito na transferência estar entre criação e repetição é condição de possibilidade, mas não condição suficiente para que sua análise se inicie. A entrada em análise tem a marca de sua direção e se estabelece por um tempo e por um ato. A isso Lacan nomeou retificação subjetiva, mas podemos também situar este ponto no primeiro tempo dos tempos lógicos, o “instante de ver”. Aqui se fortalece a aproximação com a praxis no sentido da finalidade do campo da ética e da política entre os gregos. O fato da psicanálise não compartilhar da mesma direção não a posiciona necessariamente fora do campo da ética e da política.
Em primeiro lugar, a direção é dada no sentido de que se transforme a transferência imaginária posta na figura do analista em transferência ao saber. O sujeito suposto saber. Essa é uma operação que será feita pelo sujeito, mas no dispositivo. Aqui é um outro ato se que coloca como paradigmático: o ato falho. Pois a posição subjetiva no ato falho está colocada na determinação de sua relação
com o Outro. Porém, não basta surgir o ato falho, mas que seja possível que o sujeito se veja neste tipo de posição em que é o Outro quem nele fala. É essa posição retificada por esse “ver” que pode abrir à Outra cena como nos apontava Freud. Essa é a primeira escansão, um corte como criação, mas que redunda na repetição do automatismo significante do segundo tempo da análise, o tempo de compreender.
Todavia, para seguirmos, e finalizarmos, torna-se necessária a introdução de um elemento novo. Esse elemento, vemos Lacan introduzi-lo também e curiosamente no seminário 7: “Pois bem, coisa curiosa para um pensamento sumário que pensaria que toda exploração da ética deve incidir sobre o domínio do ideal, senão do irreal, iremos, pelo contrário, ao inverso, no sentido de um aprofundamento da noção de real” (p.21).
Os passos dados até aqui: o tempo do sujeito, a transferência como ato e a entrada em análise, poderiam se sustentar somente em Freud. Mas a abordagem do real como direção para a praxis analítica, isto se deve a Lacan. Pois os tempos da análise não se esgotam no tempo do sujeito e no “instante de ver”. O “tempo de compreender” e a escansão que se denomina “momento de concluir” são implicações lógicas daqueles tempos (embora não necessárias) que devem introduzir a dimensão, não mais apenas do sujeito, mas também do objeto. Objeto pequeno a como nos indica Lacan.
Isso se opera pela transferência, mas agora em se tratando de “sacar como a transferência pode nos conduzir ao núcleo
da repetição” (Lacan, S11, p. 71). Esse núcleo real da repetição como tiquê, curto- circuita os tempos de repetição e criação, pois o tempo da repetição é sempre o tempo da primeira vez, porque não há inscrição do que se repete na cadeia significante. É, portanto, um tempo sempre novo. “O tempo da pulsão é muito diferente. É um tempo de encontro, estruturado como um instante, que opera como um corte na continuidade do tempo significativo” (Soller, 1997, p.66). No “tempo de compreender”, trata-se da experiência dessa repetição, as voltas da demanda como nos descreve Lacan. Trata- se de descobrir que a repetição é a criação que se fez a partir do objeto como objeto cedido ao Outro. Mas isso só encontra o fim por um outro ato com seu tempo; no ato da escansão do “momento de concluir”, no ato analítico como passagem, travessia, a praxis grega é subvertida pela psicanálise. Pois aqui, no momento do ato, não há sujeito, e na posição de agente se coloca o objeto. Ato que marca um giro e instaura o psicanalista. Analista que só se autoriza de si mesmo (Lacan, 2003, p.248).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, J. Outros Escritos. Jorge Zahar editora. Rio de Janeiro, 2003.
LACAN, J. O Seminário - vol VII. Jorge Zahar editora. Rio de Janeiro, 1985.
LACAN, J. O Seminário - vol XI. Jorge Zahar editora. Rio de Janeiro, 1985.
LIMA VAZ, H.C. Escritos de Filosofia II – Ética e Cultura. São Paulo, 1993.
SOLLER. C. O Sujeito e o Outro. In: Para Ler o Seminário 11 de Lacan. Jorge Zahar Editora. Rio de Janeiro, 1997.
_________________________________________________▪ O tempo na direção do tratamento