er Lacan nos remete ao texto de Freud, e a cada retorno a Freud, temos uma surpresa. É pelos caminhos de Freud que podemos ver o terreno no qual Lacan se apoiou. Façamos, então, como Lacan insiste: ‘Retomemos o texto de Freud’.(1)
A questão do tempo foi tratada por Freud com muito apreço. Sua preocupação ia desde o tempo de duração das sessões ao tempo do tratamento e mesmo o tempo do inconsciente. Em Análise terminável e interminável, ele inicia uma discussão sobre o encurtamento ou não do tempo de tratamento. Localiza a tentativa de Otto Rank como ‘um produto de seu tempo’ a uma resposta à urgência que o pós-guerra trouxe a partir da miséria na Europa e prosperity na América. Em seu pós-escrito A questão da análise leiga, isso fica ainda mais claro. Ele diz: ‘Certo, time is money, mas não se compreende muito bem por que deve converter-se em dinheiro com tanta pressa [...] Os decursos psíquicos entre consciente e inconsciente têm, pois, suas condições temporais particulares, que afinam mal com a demanda americana.’(2)
Vemos ai que o tempo de uma análise não pode seguir uma lógica cronológica e menos ainda mercadológica, tanto que na continuação de Análise terminável e interminável ele faz uma revisão de seus conceitos, as suas primeiras idéias sobre o fim de uma análise, as idéias comuns sobre alguém analisado e as relações entre as instâncias psíquicas para
dizer, só no fim, o que viria a ser o término de uma análise.
Nos deteremos aqui na articulação que Freud faz do tempo do trauma para pensarmos por qual caminho podemos seguir o tempo da constituição de um sujeito. Para isso, vemos a importância do conceito de nächtraglich que Freud já utiliza no ‘Projeto’ quando relata o caso de Emma. Nele, Freud demonstra como o trauma se manifesta no ‘só depois’.
No caso Emma, Freud propõe um esquema que pode ser chamado de rede ou grafo, conforme define Eidelstein: ‘Chamamos grafo ou rede à tríade de vértices, arestas e função, de modo que a cada aresta corresponde a dois vértices, assim como à função específica que possuem’.(3) (figura 1 – exemplo de rede) O que Freud desenha, no caso de Emma, pode assim ser chamado grafo ou rede. Ele escreve neste grafo apenas alguns significantes depois de relatar o caso desta moça. (figura 2 – rede de Emma)
Resumidamente, Freud relata que Emma acha-se dominada atualmente pela compulsão de não poder entrar nas lojas sozinha. Como motivo para isso ela citou uma lembrança da época em que tinha doze anos, quando ela entrou em uma loja para comprar algo, viu dois vendedores rindo juntos e saiu correndo, tomada de uma espécie de susto. Em relação a isso, terminou recordando que os dois estavam rindo de seu vestido e que havia sentido atração sexual por um deles. Ressalta ainda que tanto a relação desses fragmentos entre si quanto o efeito da experiência são incompreensíveis. Prosseguindo nas
L
investigações, revelou-se uma segunda cena em que, aos oito anos de idade, foi duas vezes comprar doces numa confeitaria, sendo que logo na primeira o proprietário agarrou-lhe as partes genitais por cima do vestido. Apesar disso, voltou lá de novo a agora se recrimina por essa segunda vez, como se, com isso, tivesse desejado provocar o atentado. E, com efeito, sua torturante má consciência pode ser atribuída a essa experiência.
O vínculo associativo entre as duas cenas é o riso (dos vendedores e o do confeiteiro). A lembrança evocou o que ela certamente não estaria apta a sentir na ocasião: uma liberação sexual que se transformou em angústia. Devido a essa angústia, teve medo de que os vendedores da loja pudessem repetir o atentado e saiu correndo. Freud conclui que decisão – de não permanecer sozinha na loja devido ao risco do atentado – é perfeitamente lógica, levando em conta todos os elementos do processo associativo, e que esse caso é típico do recalque que se produz na histeria. Sempre se comprova que se recalca uma recordação, o qual do nächtraglich chega a converter-se em trauma.(4)
Em Lacan, podemos pensar nesses elementos como ‘significantes’, e que foi ‘entre’ eles que algo do sujeito em questão surgiu. A segunda cena traz o peso traumático da primeira, sob o efeito do nächtraglich. Emma sente a recriminação – o efeito do recalque da primeira cena – somente na recordação que a segunda cena lhe traz e do caráter sexual da primeira, fazendo uma ponte entre elas.
Quando Lacan articula o ‘inconsciente como uma linguagem’ indica que Freud, ‘dócil à histérica’, chegou a ler os sonhos, lapsos e até mesmo os chistes como se decifra uma mensagem cifrada.(5) Vemos que desde Emma o tempo está posto em relação à linguagem, conforme nos indica o próprio Freud em duas observações nas quais vemos a
possibilidade de leitura do inconsciente pela via da estrutura de linguagem:
1. O Vínculo associativo: Ele escreve: ‘O vínculo associativo entre as duas cenas é o riso.’ Percebemos na leitura que o que Freud escuta não são os fatos em si, mas o ‘vínculo associativo’. O riso é lido como signo que liga o confeiteiro e os rapazes, signo que tem em si a marca de algo sexual. ‘Vestido’ como significante que se repete nas cenas e que porta uma incongruência lógica.
2. Sobre a Verdrangung (O Recalque), em sua relação com o tempo ‘só depois’, Freud escreve: ‘Sempre se comprova que se recalca uma recordação, o qual do a posteriori chega a converter-se em trauma.’
O Riso ser um signo nos evoca as tantas vezes que Lacan recorre à lingüística para articular o que é um significante e o que é um signo. Enquanto signo, o riso significa algo para alguém, e esse alguém é Emma. Para que houvesse ‘vínculo associativo’, ele precisou deslizar para o caráter de significante, fazendo assim com que o sujeito pudesse advir em uma cadeia / rede associativa.
O tempo está nesse desenrolar da cadeia, pois como puro signo algo parava Emma em seu próprio movimento, haja vista sua queixa (inibição). Freud a faz voltar no tempo, recordar para dizer algo que, apesar de ser passado, está sendo vivido no agora, em sua ‘agorafobia’. É o que Lacan aponta na retroação da cadeia associativa, em seu movimento sincrônico: um significante não se significa por si, ele precisa de um outro. As marcações freudianas no valor do riso e da palavra ‘vestido’ fazem com que essa cadeia se rompa e passe a outra, marcando um ponto de basta na história relatada, indicando sua diacronia, passando a outro patamar. Vemos, como indica Lacan, que o instante de ver é a sincronia, que no relato de Emma se localiza nessa mirada dos vendedores rindo para ela e o desencadeamento de sua ‘agorafobia’. A
diacronia é o tempo para compreender, que no caso dessa paciente se dá pelas escansões que Freud efetua e que a faz voltar à cena de sua infância. O momento de concluir é a pressa que, pensando neste caso específico, poderia ser sua liberação para o movimento, sua saída do sintoma. (6)
Em seu seminário 23, Lacan diz que: ‘A reminiscência é distinta da rememoração. As duas funções são distintas em Freud, porque ele tinha o senso das distinções [...] A idéia testemunhada por Freud no projeto é de figurar isso através de redes, e foi isso talvez o que me incitou a lhes dar uma nova forma, mais rigorosa, fazendo com isso alguma coisa que se encadeia, em vez de simplesmente de trançar’. (7)
Se inicialmente as redes freudianas poderiam ser relidas pelo grafo, vemos ai um passo a mais por onde poderíamos ler as redes pela via do nó. A inibição de Emma pode ser localizada pela articulação do Simbólico com o Imaginário, e é pela via do sentido (sens) que algo dessa inibição se dissolve e o inconsciente se mostra como um saber, S2. Mas esse S2 traz o sentido no a posteriori ao retroagir sobre S1, fazendo algo do sujeito comparecer entre esses dois significantes. Como lemos ainda neste seminário: ‘A rememoração consiste em fazer essas cadeias entrarem em alguma coisa que já está lá e que se nomeia como saber [...] O
que Freud sustenta como o inconsciente supõe sempre um saber, e um saber falado [...] Daí minha escrita do saber como tendo suporte no S com índice pequeno dois, S2. A definição que dou do significante ao qual confiro o suporte S índice um é representar um sujeito como tal e representá-lo verdadeiramente’. Através de Emma, um caso que está tão no início da Psicanálise, acompanhamos os passos dados por Lacan no rastro freudiano, a leitura do inconsciente estruturado como uma linguagem, as articulações significantes do Grafo do desejo e ainda do Nó Borromeu. Por essas vias, cabe a nós, analistas pensarmos por onde colocamos nossos pés.
BIBLIOGRAFIA
1 – Jacques LACAN, O seminário 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 136.
2- Sigmund, FREUD, ‘Fragmento inédito do pós- escrito ‘A questão da psicanálise leiga (1927)’, in A análise é leiga (revista), Rio de Janeiro: Escola Letra Freudiana, 2003, p. 15.
3- Alfredo EIDELSTEIN, Modelos, Esquemas y grafos en la enseñanza de Lacan, Manantial Estúdios de Psicoanalisis, p. 131.
4- Sigmund, FREUD, ‘Projeto’, in Obras Completas, Biblioteca Nueva, 4ª edição, 1981, p. 252.
5- Jacques LACAN, Televisão, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 22.
6- Jacques LACAN, O seminário 12 (inédito), Lição de 13 de janeiro de 1965.
7- Jacques LACAN, O seminário 23, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 127.
____________________________________________________________▪ Tempo e estrutura