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Paulo Marcos Rona

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 185-188)

breve análise que aqui proponho se apóia, de um lado, no caso Emma, apresentado no Projeto para uma psicologia científica (Freud, 1895) e, de outro, nas elaborações de Alain Badiou, tanto em L’être et l’événement, quanto em Logique des mondes, em uma tentativa de mostrar uma interação possível com a teoria do significante de Lacan. Trata-se de exercitar uma leitura do Projeto a partir da chave da multiplicidade, ou da teoria dos conjuntos, tal como Badiou a formula, e daí, de mostrar a aparição do significante e do tempo.

Emma, nos conta Freud, é uma jovem que se acha dominada por um medo de entrar sozinha em lojas. Inquirida pelas possíveis razões disso, a moça apresenta uma lembrança da época em que tinha cerca de doze anos e na qual havia entrado em uma loja para comprar algo. Ali havia visto dois vendedores, dos quais ao menos de um ainda se lembra, porque a havia agradado, rindo juntos. Tomada por um afeto de susto, a garota saíra correndo, e considera que a razão do riso – essa é sua associação – eram as suas roupas. Se o motivo real fossem suas roupas, isso já teria sido remediado, vez que, como adulta, já se vestia de modo diferente; além disso, entrar em um loja sozinha ou acompanhada nada teria a ver com as roupas. E que dizer ainda da lembrança de que um dos vendedores a teria agradado? Não faria diferença se estivesse acompanhada. Incitada por Freud, Emma apresenta uma outra cena: aos oito anos, ela havia entrado em uma confeitaria para comprar doces, e o proprietário lhe

havia agarrado as partes genitais por cima das roupas, expressando um riso. Apesar dessa experiência, ela ainda voltara à confeitaria - recrimina-se por isso –, e depois não fora mais lá.

A tese sustentada por Freud é a de que a primeira ocasião, a do ataque, só chegou a ser traumática pelo efeito da segunda, aquela do riso dos vendedores. Supostamente, a liberação do afeto sexual, presente na puberdade, fez re-significar (ou significar) a primeira cena. Ficaram retidas em sua memória, o interesse pelo vendedor na segunda loja, como representante do despertar sexual, as roupas, como representante do interesse sexual do confeiteiro, e o riso, comum à expressão dos dois homens nas duas cenas. Essa análise de Freud, aparentemente, provocou os efeitos desejados, fazendo desaparecer o sintoma.

Nosso interesse, obviamente, repousa na temporalidade dessas duas situações e no fato de que o sintoma de Emma, a manteve presa no tempo.

Todo múltiplo é composto de múltiplos, diz Badiou, em uma disseminação múltipla que persiste, seja até o vazio que os constitui, a todos, no caso o mais natural, seja até o elemento mais opaco, em que o vazio se esconde insidiosamente. A função de um conjunto é a tentativa de estabelecer uma consistência disso que se reúne sob um traço. Essa tentativa do conjunto é redobrada pela constituição de um segundo conjunto. Se o primeiro, Badiou chama de uma situação, ao segundo denomina estado da situação, e sua função é a de estabelecer as partes componentes da situação, na crença de que se as partes são consistentes, seu conjunto

A

também o seria. Uma situação apresenta seus elementos e o estado da situação os re- apresenta. Ele é o conjunto das partes. Um teorema na teoria dos conjuntos, fruto do conhecido paradoxo de Russel ou do auto- pertencimento, entretanto, reza que o conjunto de todas as partes – e, particularmente daquelas de um conjunto infinito – excede absolutamente o tamanho do conjunto original; tem um tamanho desmedido. Se, fruto desse teorema, não se pode garantir que tudo o que se inclui em um conjunto a ele pertença, tenta-se o inverso: o de tentar garantir, ao menos, que o que pertence seja incluído, e isso, transitivamente, de multiplicidade a multiplicidade, conforme a constituição múltipla disseminada das situações. Pode ocorrer, no entanto, que a uma situação pertença um conjunto cujos elementos não se apresentem e que, fugindo assim à condição de transitividade, tampouco se representem no estado da situação.

Emma apresenta duas situações, que são múltiplos, ou seja, conjuntos, com seus componentes também múltiplos. Em ambas, alguns múltiplos em comum: roupas, riso, loja, vendedores, sexo. Na primeira, no entanto, um dos elementos da situação apresenta-se de maneira perfeitamente opaca, não deixando transparecer, quanto à sua composição, nenhum elemento particular. Diríamos, corriqueiramente, sem sentido: nada nele é inteligível. Essa característica, segundo o filósofo, daria a essa situação a propriedade de ser uma singularidade e, ao elemento considerado, a de ser algo que ele denomina de um sítio eventural (site événementielle). A característica básica de um elemento com essa propriedade é que ele tem o potencial de ser um evento (événement). No caso de Emma, não foi. Para que pudesse ter sido um, teria sido necessária uma decisão – um ato, diríamos – que caracterizasse o evento como evento, fazendo-o pertencer à situação. Mais: teria sido necessário que suas conseqüências

tivessem sido fielmente acompanhadas em sua disseminação pelo estado da situação. Porém, a situação de um evento corresponde, segundo Badiou, por sua estrutura paradoxal, a um indecidível, fruto mesmo do indiscernível dos componentes de um sítio. A partir de Logique des mondes, diríamos possivelmente que a intensidade de aparição do inexistente próprio à situação não teria sido suficiente forte, relativamente, para que um evento encontrasse lugar, ou então, o que seria mais provável, que as condições daquilo que em que consistiria um corpo, capaz de tratar o evento, não estavam presentes.

Segunda situação: e, num certo nível da disseminação múltipla, os mesmos elementos se apresentam, mas agora, o conjunto cujo traço característico é a sexualidade não é mais opaco – a menina já tem doze anos, afinal. Porém, não se pode dizer que esse conjunto apresente tampouco todos os seus elementos. Deriva- se da tese freudiana do traumatismo da sexualidade que algo sempre permanece opaco nessa conformação múltipla, o que quer dizer que sempre há alguma singularidade que pode se apresentar aí; e o potencial para um evento. Há que se considerar, portanto, que essa segunda situação também configuraria um sítio eventural, mas que, aí, a decisão de que um evento teria tido lugar foi tomada. O ponto chave é que, fruto de sua estrutura paradoxal, como um conjunto que pertence a si mesmo, um evento só pode ascender a essa mesma condição por efeito de uma intervenção cuja possibilidade lógica são as conseqüências de um outro evento. Dito de outra maneira, o evento é o que faz tempo.

É o que se afiguraria com Emma, a menos da redução da distância cronológica, que faz com que o evento anterior, que habilita a decisão do posterior, passa à condição de evento no mesmo tempo lógico que esse. De uma certa maneira, são o mesmo evento. Do ponto de vista dos elementos múltiplos componentes,

realmente o são: é fruto do axioma da extensionalidade da teoria dos conjuntos.

Mas também, tomando as formulações de Logique des mondes, poderíamos supor que, mesmo a intensidade de aparição do inexistente que caracteriza o sítio tendo sido máxima, e, novamente, que não havendo condições de tratar o evento ou, o que é mais provável e de acordo com a tese de Freud, que a posição subjetiva em questão, e aí, de acordo com Badiou, seria a de um sujeito reativo, capaz de negar as conseqüências do traço do evento e, portanto, incapaz de produzir um novo presente. Em ambas perspectivas, o tempo ficou congelado.

Na segunda situação, a se supor a ocorrência de um evento, teria havido aquilo que propriamente o caracteriza, isto é, a escolha de um nome, colhido na borda do vazio (quase) apresentado, um nome comum, contingente, cuja função, para o evento, seria a de representá-lo, sem ter legitimamente tais poderes. Porque, do indiscernível, o que estaria sendo discernido? Que isso seja possível é um dos axiomas da teoria dos conjuntos, o axioma da escolha, e a tese é a de que esse nome comum, que não representa nada em particular, entra na composição múltipla da situação e de seu estado, disseminando-se, relacionando-se com outros elementos. Um significante, portanto, como Lacan o

define. Porém, nessas condições, um significante que não faz tempo.

A terceira situação é a análise com Freud. É necessário supor que aí tenha havido também um evento; que o inexistente, que seu vazio intrínseco, tenha tido a ocasião de se insinuar; e que o tenha feito com intensidade máxima. É necessário supor a presença de um corpo (corps) capaz de tratar a singularidade, porque, como diz Lacan “é incorporada que a estrutura faz efeito” – aí, talvez, a presença necessária e a função do analista. Uma análise, nesses termos, deveria ter o potencial de constituir evento, ou eventos, habilitados por eventos anteriores, e talvez, esses, só chegando a essa condição pela operação analítica. Constituir eventos e, portanto, significantes que, por poderem tratar em um corpo os eventos segundo suas conseqüências, esses sim, fariam tempo.

REFERENCIAS

BADIOU, Alain. L’être et l’événement. Paris: Éditions du Seuil, 1988.

___________ Logique des mondes: l’être et l’événement 2. Paris: Éditions du Seuil, 2006. FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Trad. sob direção geral de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996

___________ (1895) Projeto para uma psicologia científica

____________________________________________________________▪ Tempo e estrutura

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 185-188)