• Nenhum resultado encontrado

conceito lacaniano sobre o sujeito nos orienta quanto ao fato de que há algo da ordem da inconsistência e do não- todo. Jacques Lacan nos remete à linguagem, e às marcas que dela decorrem, para nos dizer que o sujeito é tão somente da ordem da representação. O sujeito é representado por um significante para um outro significante. Desde já há, aí, algo que é da ordem de um tempo que é o tempo do advir, tempo da castração, tempo da relação imaginária e tempo de uma verdade que se deixa surgir a partir da suposição de um saber. Ele nos remete ao fato de que o sujeito, mesmo, existe no intervalo existente entre os significantes S1 e S2 e que, portanto, o registro do real sempre aparece e opera como um índice do tempo existente no inconsciente. O sujeito é, logo, o resultado de uma significação que se deu a partir do encontro com o indizível do real apresentado pelo Outro.

Apropriamo-nos da teoria freudiana para dizer do inconsciente correlato a uma trama – contendo muitas redes e entrecruzamentos por onde, então, encontraremos marcações significantes por onde a libido transita. A rede é tecida a partir da linguagem que vem do Outro, e que, por ser assim, marca um tempo para o desejo. O tempo para o sujeito começa a ser contado, portanto, a partir do encontro com o S1 (mãe), seu marco zero, e ainda na infância. Tempo que é sempre infantil.

Ao se apoderar dos seus objetos internos ou externos, a libido circula de uma marca simbólica a outra, e percorre toda a cadeia significante presente no inconsciente.

Quanto mais o tempo do sujeito for aquele que possibilite esse trânsito, na associação livre, tanto mais serão os momentos oportunizados para o surgimento do seu desejo e da sua verdade. A verdade do sujeito está intimamente ligada ao recalcado. E, dessa verdade, nada ele quer saber. O recalcado – marca significante que guarda consigo o tempo do real da angústia – existe e insiste por um lugar na consciência. O S1 e S2, agora, podem ser interpretados como o tempo do antes e o tempo do depois para um ser que se põe a falar sob os efeitos da transferência analítica. O tempo do sujeito é, também, o tempo de uma decisão entre a vida e a morte.

Quanto mais o sujeito falar das marcas da linguagem da sua história amorosa, tanto mais serão as suas chances para um novo tempo, agora já não mais tão amarradas ao aspecto psicopatológico do sintoma. S1 e S2 podem ser identificados, aqui, enquanto tempo do sintoma do sujeito num dado momento antes da análise, e tempo em que esse mesmo sintoma se desdobra em sintoma analítico que, endereçado à figura do analista, vai para muito além dela.

Com isso, podemos falar, então, que o outro nome da repetição diz respeito

O

ao fato de não querer aceder às regras da associação livre sob o vetor transferencial.

É a linguagem que possibilita a codificação do sintoma, e é ela, também, que possibilita a sua decodificação, seu deciframento sob análise. Temos, aqui, portanto, o tempo do sujeito face a duas possibilidades: o tempo do sintoma (S1) e o tempo do deciframento significante (S2).

Esse intervalo diz da passagem do não querer saber da verdade inconsciente ao ato da livre associação significante amarrado ao desejo de saber. O interrogar- se sobre o porquê de um determinado significante estar representando o sujeito para um outro sujeito faz com que o falasser se descole do lugar de submissão frente à marca significante e, então, podendo olhá-la, agora com outros olhos, ressignificá-la, oportunizando um lugar para o seu desejo e para a verdade na sua vertente mais radical e singular. Essa retificação subjetiva, que é promovida em análise, faz alterar a relação do sujeito com o objeto, produzindo, assim, uma relação de causa de desejo. Revela-se, pois, que o Outro em questão é mesmo, e antes de tudo, o inconsciente. S1 = lugar do analisante para o tempo do S2 = surgimento do analista.

A possibilidade de que o sintoma do sujeito possa vir a se estabelecer enquanto sintoma analítico somente poderá ocorrer a partir do ponto em que o falante, na relação analisante-analista, sob o vetor da transferência e em livre associação, endereçar o seu sintoma para um outro significante, que ele cria – o significante que marca o lugar do Outro enquanto lugar de suposição de um saber: lugar do analista. Será essa mesma posição, enquanto significante de sujeito suposto saber, que, ao instituir o lugar do Outro da vida amorosa para o analisante, o faz lançar ao Outro do inconsciente. Podemos, então, dizer que o outro nome do S1 – S2 poderá ser analisante-analista! S1 = realidade

cotidiana para o tempo do S2 = realidade subjetiva.

O lugar do sujeito é mesmo o lugar do real. O conceito de sujeito se liga à resposta que o falante dá quando do seu encontro com o indizível do registro do real amparado pelos efeitos da linguagem. O seu lugar diz do intervalo significante que é marcado pela castração em seu viés com o Édipo. O tempo do sujeito é marcado no vir-a-ser, no vazio e no só depois significante.

O falante inaugura o campo do novo a partir do ponto em que ele se põe disposto a decifrar o conteúdo recalcado que tanto o assola e o faz padecer. O campo do novo se encontra enquanto uma virtualidade presente desde sempre na relação que se estabelece entre um inconsciente para outro inconsciente. S1 = inconsciente do analisante, S2 = inconsciente do analista constituído a partir da experiência e do saber extraídos de sua própria análise → Sn = cadeia de significante sob efeito da associação livre conduzida pelo analisante a partir da sua fala.

Só o tempo próprio à análise – com o corte que faz separar o sujeito do significante do seu gozo repetidor – é capaz de fazer com que o Outro do S2 possa cair e, então, o sujeito possa se descobrir ante ao recalcado que, agora, se faz novo a partir do deciframento do sintoma que sempre se fez seu parceiro. Resta tão somente ao sujeito, agora tendo como parceiros o resto do seu sintoma, a sua verdade, o seu desejo e a sua castração. No lugar de um Outro, que agora é inexistente, e para o qual ele sempre se dirigiu, o sujeito põe, com sua capacidade criativa, se quiser, a causa analítica e a Escola de Psicanálise orientada por Freud e por Lacan, que possibilitará o surgimento das trocas entre seus pares, das formulações, do estudo, e também dos impasses. S1 = transferência analítica ao S2 = transferência de trabalho. Mas, mesmo sendo assim, e exatamente por isso, revela

algo do resto significante com o qual todo sujeito tem de lidar em sua vida. O que fazer com o resto no âmbito da solidão que toca na verdade do sujeito. Para onde destiná-lo ? A Escola o acolhe e o recebe sob os nomes da verdade de cada sujeito e de sua castração, que, agora, se desdobram em produção e trabalho. A Talvez a Escola possa vir representar, mesmo, o quão difícil é para o sujeito lidar com o tempo para que se fique só e, ao mesmo tempo, ratificar seu mais radical tempo de solidão e desamparo frente ao outro. Daí vermos a solidariedade como fator tão valioso na Escola de Lacan. S1 = solidão do sintoma analítico ao S2 = solidão da sua verdade com seus pares.

O novo que surgiu toca no ponto que diz de um retornar daquilo que ali sempre estivera, a saber, o sujeito com a sua verdade inconsciente, e que agora ambos encontram solo para germinar no campo fértil da Escola, da Comunidade Analítica de Escola. Espaço onde o bem- dizer da experiência transmitida de um ao outro se dá com alguma sintonia àquilo que se fala e se escuta.

O novo tempo virá em função do circular da libido de um ponto ao outro, em

função de um significante que um dia foi estranho recalcado, e hoje é da ordem do familiar e do consciente; da transformação do sintoma banal para o sintoma analítico; das verdades à verdade do sujeito frente à vida, ao sexo, e à morte e do deciframento do sintoma. Abre-se para o ser falante uma nova relação com o objeto faltoso. O novo surge a partir das marcas simbólicas que ali sempre estiveram presentes, e que, sob a força da transferência analítica, e do desejo decidido do sujeito.

Novo que diz do fato de o sujeito ter conseguido fazer a reescritura da sua vida. S1 = texto sintomático para S2 = texto novinho em folha. Assim sendo, o sujeito o escreve, reescreve, pontua, resume para ao final intitulá-lo. Reintitula-o, agora, ao seu modo e estilo próprios.

A cada ida e vinda de um significante a outro significante há uma perda: perda de gozo, perda de parte do sintoma que se fixa ao significante. Perda de parte de si mesmo que se desdobra, ao final, no mais puro ganho.

____________________________________________________________▪ Tempo e estrutura

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 170-173)