• Nenhum resultado encontrado

Gonçalo Moraes Galvão

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 136-140)

gostinho é um autor bastante lembrado quando se quer fazer referência ao tempo. Enquanto filósofo medieval percorre uma variedade de assuntos e entre eles está uma reflexão sobre o tempo que merece respeito e tempo de entendimento. Segundo ele por um lado podemos reconhecer, enquanto humanos, nossa inserção no tempo como algo corriqueiro e simples:

Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam.

(AGOSTINHO, 1970)

Por outro lado não escapa ao bispo de Hipona o quanto se ignora dessa mesma inserção, ou seja, aquilo que parece obvio traz uma série de problemas, quando nos propomos a trabalhar a questão com mais cuidado. É assim que sobre o mesmo assunto afirma:

Se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei.

(AGOSTINHO, 1970)

Esta ignorância não será um elemento paralisante, mas ao velho estilo socrático levará o filósofo a empreender um árduo trabalho para pensar o que é e quais seriam as condições do tempo para o humano. Assim parece viável pegarmos carona naquilo que destaca enquanto questão para avançar:

Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? [...] e que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa de sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?

(AGOSTINHO, 1970)

A partir destes elementos vai se delineando para este autor que, pelo menos filosoficamente, não é possível a existência de um tempo objetivo. Ele irá argumentar logicamente a favor da não existência objetiva do passado e do futuro. Um já foi, já passou e assim ‘já não é’ e o outro ainda não veio, ou seja, ‘ainda não é’; desta feita tão falso quanto afirmar a existência do passado é afirmar a do futuro. O presente, por sua vez, o único modo de lhe reconhecermos enquanto presente é quando contrastado aos outros dois tempos, passado e futuro, assim sendo também não tem existência em si mesmo.

Depois desta conclusão, de estranhamento frente ao tempo, o bispo de Hipona não para por aí. Irá propor a partir do já trabalhado um segundo momento de conclusão:

O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presentes das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem, pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. (AGOSTINHO, 1970)

A partir do destacado fica possível perceber os esforços para marcar o tempo como algo que de alguma maneira constitui- se a partir da relação com o sujeito sendo que o mesmo é seu corolário – o sujeito se dá no tempo – apesar de não ser algo que se apresente claramente, ou seja, não há consciência declarada destes aspectos. Se Agostinho aponta para o aspecto da subjetividade do tempo, ou seja, o tempo em sua teoria não é algo independente do homem e objetivo, mas contrário a isso, nos dirige também para perceber a relação de reciprocidade entre estes dois elementos. Se o tempo existe por causa de nossas consciências esta só se dá por conta do tempo.

Ao fazer uso de Agostinho, faço aqui uma proposital digressão, por saber que este foi lido por Heidegger que por sua vez foi lido por Lacan, para o qual o tempo não é qualquer coisa. O tempo é algo caro à teoria e à clínica lacaniana. Além de ser um divisor político, na história da psicanálise, se assim podemos entender, acaba sendo norte para a condução dos tratamentos. Se a chamada subjetividade humana se plasma numa certa temporalidade que se plasma no humano, então a clínica deve incluir como um de seus elementos passíveis de manejo o próprio tempo – não há clínica lacaniana sem uma séria reflexão sobre a incidência do tempo.

É desta maneira que entrada e saída não são termos ingênuos ou automáticos na proposta de J. Lacan, mas nos remete a uma preocupação que passou a ficar mais destacada na psicanálise a partir deste autor que acolhe o desdobramento das conseqüências do tempo no tratamento psicanalítico – não há entrada espontânea em análise e se assim o é, a mesma pode ser pensada como algo que se refere ao analisando, mas que envolve o analista em todos os seus aspectos da função que ocupa. Se não há entrada espontânea, então não basta um encontro de um sujeito que fala e outro que escuta – aqui estamos frente a uma

distinção possível entre a psicanálise e as psicoterapias. Não basta um ‘encontro’ onde um se põe a falar e outro a escutar, alguém deve se dispor a um lugar de escuta que inclua a indecorosa proposta de que o inconsciente se apresenta pelas vias inusitadas da linguagem – o inconsciente é estruturado como linguagem. Caso isso não ocorra corre-se o risco de se manter muito facilmente num registro dominado pelo imaginário onde a linguagem é um sistema de signos, que possibilita a comunicação e o entendimento entre, no mínimo, duas partes.

Lacan pautado na proposta freudiana do ‘fale tudo’ coloca-nos frente a um dispositivo – nesta relação não espontânea vai se instalando aquilo que pode ser recortado como dispositivo que conta com o próprio analista como recurso, para que o ‘fale tudo’, o ‘não sugerir’, a outra cena, e até mesmo um outro tempo possa se instalar. Um tempo onde o sujeito possa se ver plasmado pelas teias significantes das quais fizeram dele e que fez uso para ser hoje o que é. Lacan como bom freudiano leva às últimas conseqüências a proposta do pai da psicanálise: implicar o paciente de outra maneira em relação a sua queixa e ao enunciado de seu tormento.

Desta feita fica claro que a psicanálise somente poderá se desenvolver ao preço de um constituinte ternário, que é o significante introduzido no discurso que se instaura – cabe ao analista dar ouvidos ao significante que se intromete no discurso. E isso somente é possível a partir do momento que há qualquer um ocupando o lugar de analista, mas não um qualquer, pois necessariamente precisou passar pelos desfiladeiros daquilo que agora pode oferecer. Escutemos Quinet:

É o analista com seu ato que dá existência ao inconsciente, promovendo a psicanálise no particular de cada caso. Autorizar o início de uma análise é um ato psicanalítico – eis a condição do inconsciente cujo estatuto não é, portanto, ôntico, mas ético, pois depende desse ato do analista. (Quinet, 1995, p.10)

É assim que a questão desse autor, em ‘As 4+1 Condições da Análise’, ganha sua extrema coerência: quais condições são necessárias para que ocorra uma análise? O que é a entrada em análise? Talvez possamos esboçar uma resposta a partir da personagem clássica de Clarice Lispector em ‘A Hora da Estrela’ – Macabéa – mulher de pouca valia que além de ser estrangeira na terra em que habita é também estrangeira de si mesma – parece desafetada do mundo. Apresentada e contada por um homem, Rodrigo S. M., artifício criado pela autora para marcar que uma mulher não suportaria acompanhar-lhe a trajetória: “(...) porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.” (LISPECTOR, 1998)

Assim se impõe a esse homem escritor, a possibilidade de se fazer enquanto tal – escritor – acompanhando/contando a história de Macabéa, que escreve por motivo de ‘força maior’, ou seja, ‘por força de lei’.

Algo se impõe a Rodrigo S. M. de forma absoluta e imperiosa, como uma lei. Mas trata-se de algo que se impõe inteiramente, mobilizando as raízes de sua própria subjetividade. Este vivencia a sua própria exclusão interior, pelo contato com esse outro ‘Macabéa’ que é ‘vida primária, que respira, respira, respira. ’ (PEREIRA, 1998)

É assim que aos poucos vamos tomando contato com essa nordestina, cadela vadia que não se faz perguntas, que apesar da miséria concreta de sua condição; não tem angústia. Nosso narrador, artifício de Clarice Lispector, não consegue deixar de demonstrar seu encantamento e interrogação frente a tamanha simplicidade: “ (...) como ela podia ser simplesmente ela mesma, sem se fazer perguntas?” (LISPECTOR, 1998)

Mas isso não basta para dizer de Macabéa, já que por outro lado é possível pensar que essa desafetação em relação ao mundo, as coisas e a si mesma – profundo desconhecimento de si – marca de sua aparente inocência, é uma forma de desviar- se de se ver pega enquanto desejante:

Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. (LISPECTOR, 1998)

Apesar de se manter enquanto aquele que dá voz à esta história, nosso narrador, Rodrigo S. M., não interfere consistentemente na mesma, fica inconformado com o estado de sua personagem; estado de absurda resignação e passividade. Frente a isso apenas pode usar daquilo que nomeia de ‘direito ao grito’. Mas esse não é um apelo de Macabéa, é apenas o protesto de um narrador frente à desenvoltura e força daquilo que narra. Sem ele seria impossível percebermos os contornos de Macabéa, assim é perceptível que o que faz funcionar algo da ordem do discurso que coloca em questão o lugar do outro.

Por conta de ser e suportar aquilo que se coloca na ordem da alteridade, Rodrigo S. M., faz girar sobre Macabéa a questão que lhe permitirá desembocar, mesmo que palidamente, nos umbrais de Madama Carlota, a cartomante: qual é a parte que lhe cabe, dessa história? Desejas? Ao emprestar a essa moça um encadeamento discursivo que tece a sua própria história, com metáforas e metonímias, alcançou-se algo a mais do que um simples relato – galgou se através de uma questão a possibilidade de um novo tempo, que pode ser conduzido imaginariamente ou sustentar a pergunta que se coloca suportando as suas conseqüências:

Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela logo já não é mais: passou o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.

(LISPECTOR, 1998)

Assim a posição de Madama Carlota pode ser desdobrada em dois pontos de reflexão: um aonde o imaginário conduz o sujeito ao pior e outro aonde a sustentação

do desejo do analista possibilita aparecer aquilo que é da ordem do desejo daquele que fala; ponto de entrada de uma psicanálise, propriamente dita: ‘Que queres?’ Instauração de um novo tempo onde aquilo que é da ordem do sujeito pode ser escutado. A possibilidade de escuta do inconsciente abre um novo tempo onde analista e analisando são convidados a suportar a alteridade, permitida pela intrusão do significante, único caminho para se alcançar uma verdade, mesmo que não toda:

Madama Carlota havia acertado tudo. Macabéa estava espantada. Só então vira que sua vida era uma miséria. Teve vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela que, como eu disse, até então se julgava feliz.

Saiu da casa da cartomante aos tropeços e parou no beco esquecido pelo crepúsculo – crepúsculo que é hora de ninguém. Mas ela de olhos ofuscados como se o último final de tarde fosse mancha de sangue e ouro quase negro. Tanta riqueza de atmosfera a recebeu e o primeiro esgar da noite que, sim, sim, era funda e faustosa. Macabéa ficou um pouco aturdida sem saber se atravessaria a rua, pois sua vida já estava mudada. E mudada por palavras – desde Moisés se sabe que a palavra é divina. Até para atravessar a rua ela já era

outra pessoa. Uma pessoa grávida de futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero. Se ela não era mais ela mesma, isso significava uma perda que valia por um ganho.

(LISPECTOR, 1998)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: AGOSTINHO, Santo. As Confissões. Rio de Janeiro: Edição de Ouro, 1970.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1998.

LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: J.Z.E., 2003.

LACAN, J. O Seminário, Livro 1 – Os Escritos Técnicos de Freud. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1981.

O Seminário, Livro 7 – A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1991.

O Seminário, Livro 8 – A Transferência. Rio de Janeiro: J.Z.E., 191992.

LISPECTOR, C. A Hora da Estrela. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

PEREIRA, M.E.C. Solidão e Alteridade em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. In Pereira, M.E.C. (Org.) Leituras da Psicanálise: Estéticas da Exclusão. Campinas, S.P: Mercado das Letras, 1998.

QUINET, A. As 4+1 Condições da Análise. Rio de Janeiro: JZE, 1991.

_________________________________________________▪ O tempo na direção do tratamento

No documento OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE (páginas 136-140)