1. As mulheres da elite cafeicultora paulista e a escrita de receitas culinárias
1.3 A trajetória de vida de três autoras de cadernos de cozinha
1.3.2 Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro
A nossa aproximação com Anna Henriqueta de Sousa Campos deu-se por intermédio das pesquisas realizadas junto aos documentos referentes à família Sousa Campos e de Maria de Lourdes de Sousa Campos Badaró, sua filha caçula. Essa nos recebeu generosamente em sua casa para falar de sua família, cumprindo assim, a última vontade de seu irmão Theodorinho. Foi graças ao empenho desse que as memórias dessa família, presente em Campinas desde sua fundação, foram preservadas.145
Por vontade de Theodoro de Sousa Campos Filho, formado em veterinária estudioso e conhecedor da história da cidade de Campinas, foram doados ao Centro de Memória da Unicamp seu arquivo, biblioteca e objetos de uso pessoal e doméstico. Juntamente com os documentos vieram os cadernos de receitas de sua mãe e entre os objetos doados, estão candelabros em prata com as iniciais JSC (José de Sousa Campos), colheres e facas de prata, jogo com cinco facas com as iniciais TSC (Theodoro Sousa Campos) e toalhas de mesa. Esses objetos constam dos inventários das senhoras Miquelina Dulce do Amaral e Maria Gertrudes de Sousa Campos, sua bisavó e avó, respectivamente.
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PROJETO Temático Observatório das Migrações em São Paulo – Linha Temática 1 – Migrações internas e internacionais na formação social paulista: uma perspectiva histórica. REGISTRO Civil (digitalizados). Campinas (SP) – Óbitos. Distrito de Santa Cruz 1875-1912. BADARÓ, Ricardo de Souza Campos. Campinas, o despontar da modernidade. Campinas, Centro de Memória-UNICAMP, 1996. (Coleção Campiniana). p.30.
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BADARÓ, Maria de Lourdes Sousa Campos. Depoimento com descendentes de famílias Campineiras. Campinas, 13 de junho de 2006. Entrevista concedida a Eliane Morelli Abrahão.
Para traçar a trajetória de vida de Anna Henriqueta contamos, além desses, com uma quantidade maior de documentos, desde inventários post mortem de membros de diversas gerações de sua família, à genealogia elaborada por seu filho, Theodoro de Sousa Campos Filho, até o depoimento oral de sua filha, Maria de Lourdes Sousa Campos Badaró. Para melhor compreender o percurso de vida de Anna e os costumes adotados por sua família, nos deteremos sobre a família de seu consorte, Theodoro de Sousa Campos, por estarem os Sousa Campos estreitamente ligados à fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas de Mato Grosso.146
Anna Henriqueta nasceu em Brotas, interior de São Paulo, em 1871, mudou-se para a capital da província ainda no século XIX, com seus pais – o coronel Antonio Joaquim de Sousa Pinheiro, natural de Braga, Portugal e Maria Carolina Vieira de Albuquerque.147 Cresceu e foi educada em São Paulo, provavelmente sob os cuidados de professora particular, prática usual das famílias da elite.148
Em 20 de dezembro de 1894, em São Paulo, Anna Henriqueta, com 23 anos de idade, desposou Theodoro de Sousa Campos membro de uma tradicional família de Campinas, os Sousa Campos. Nessa ocasião, Theodoro residia na capital da província.
Iniciaremos a relação de sua genealogia pela linhagem de seu marido. Os Sousa Campos – família de onde provinha Theodoro – é uma sequência do ramo familiar iniciado por um dos filhos do capitão José de Sousa Siqueira. O capitão foi sertanista e um dos patriarcas fundadores de Campinas. De seu casamento com Margarida Soares de Campos, nasceram quatro filhos, um deles, João de Sousa Campos, tataravô de Theodoro.149
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Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Campinas de Mato Grosso foi o primeiro nome dado a Campinas, em 1774. Na época de sua fundação estava ligada a Jundiaí. Foi elevada a Vila de São Carlos no ano de 1797 e, em 1897, passou à categoria de cidade.
147
LEME, op.cit., 1903-1905. v.V: Título Alvarengas, pp.314-315.
148
LACERDA. op.cit. 2003. p.170.
149
CAMPOS JR., Theodoro de Sousa. A Família Sousa Campos. Revista Genealógica Brasileira. Instituto Genealógico Brasileiro, ano I, n.2, segundo semestre de 1940. pp.305-316. LEME. op.cit., 1903-1905. v.I: Título Carvoeiros, p.155.
João de Sousa Campos foi um dos primeiros povoadores das Campinas onde mantinha lavouras e fazendas. Desposou Úrsula da Silva Guedes, filha do capitão Francisco Barreto Leme. Tiveram nove filhos entre eles José de Sousa e Siqueira que se casou com Gertrudes Maria de Toledo, natural de Itu, os quais tiveram três filhos, entre eles o major José de Sousa Campos, avô de Theodoro.150
O major se casou por duas vezes, sendo sua segunda esposa Miquelina Dulce do Amaral, filha do capitão Francisco de Paula Camargo. Dessa união nasceram nove filhos, entre os quais José de Sousa Campos, também conhecido por Campinhos, em 1830, em Campinas. Campinhos, pai de Theodoro, contraiu núpcias com Maria Gertrudes de Sousa Campos, sua prima-germana151, em 19 de abril de 1851. O casal teve nove filhos, entre os quais Theodoro de Sousa Campos, batizado com 15 dias de vida em Campinas, no dia 9 de dezembro de 1865.152
Voltemos à personagem Anna Henriqueta que, em 1900, estava casada com Theodoro há seis anos. Nesse mesmo ano, devido ao falecimento de seu sogro (Campinhos), acompanhou o marido de mudança para Campinas, onde passaram a residir. Nessa ocasião, eles já tinham duas meninas, Maria Aparecida de Sousa Campos e Maria José de Sousa Campos. Nessa cidade, nasceram mais quatro filhos: Theodoro de Sousa Campos Junior, Henrique Pinheiro de Sousa Campos, Carlos José Pinheiro de Sousa Campos e Maria de Lourdes de Sousa Campos.153 Ainda em 1900 a mãe de Anna Henriqueta também veio a falecer, em São Paulo.
Com base nos inventários post mortem, tivemos acesso às formas de morar adotadas pela família Sousa Campos a partir da avó paterna de Theodoro. Muitos dos objetos constantes nesses documentos foram passados às mãos das gerações seguintes, o que possibilitou reconstituir, por meio de sua funcionalidade, alguns dos hábitos e costumes da família de Anna Henriqueta.
150
LEME. op.cit., 1903-1905. v.I: Título Carvoeiros, p.157-158.
151
Primo-germano: descendentes de dois irmãos e de duas irmãs.
152
CAMPOS JR. op.cit., 1940. pp.305-316; LEME. op.cit., 1903-1905. v.I: Título Carvoeiros, pp.159-162.
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A riqueza material presente nas residências das antigas gerações da família Sousa Campos revelou que seus membros procuravam morar em padrão condizente com seu poderio econômico. Mais que isso, pode-se perceber que a educação e a sociabilidade eram itens importantes na esfera social que ocupavam. Hábitos sociais requintados vêm desde a época de Miquelina Dulce do Amaral, segunda esposa do major José de Sousa Campos, casados em 17 de setembro de 1821, em Campinas.154 As primeiras núpcias do major foram com a irmã de Miquelina, Antonia Euphrosina do Amaral, que faleceu em 21 de abril de 1821, deixando um único filho. Observa-se também que, nessa família, ocorreram muitos casamentos entre parentes, fato que contribuiu para consolidar e ampliar o domínio econômico e político dos Sousa Campos.
O major Sousa Campos teve importante participação na história e política campineira. Sargento-mór, vereador por diversas vezes, procurador do Conselho em 2 de fevereiro de 1822, tomando parte nos sucessos da Independência. Membro de família de proprietários rurais, foi considerado um dos pioneiros na plantação de café, devido à formação dessa cultura em sua fazenda d’Atybaia no ano de 1830. O major mantinha residência em Campinas e essa casa passou às mãos de seu neto Theodoro de Sousa Campos, por herança.155
Para além das atividades sociais, a matriarca Miquelina, avó de Theodoro, mantinha em seus aposentos particulares um oratório esculpido em pedra que abrigava a imagem de Cristo. Diante dele, provavelmente todas as noites, ela fazia suas preces com o auxílio do livro de orações Voz de Jesus Cristo. Ambos, oratório e livro de orações, estão relacionados em seu inventário.156
O rol de bens constantes desse inventário aponta ainda o mobiliário e os demais objetos de valor da residência de Miquelina. Na sala de estar de sua residência, à rua do Rosário, numero 38, havia marquesas tecidas em palhinha, com e sem encosto, mesas de canto, vasos para flores, quadros e relógio de
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Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Miquelina Dulce do Amaral. FTJC, 3.Of., 1863, Cx.394, Proc.6980.
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CAMPOS JR. op.cit., 1940. pp.305-316.
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Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Miquelina Dulce do Amaral. FTJC, 3.Of., 1863, Cx.394, Proc.6980.
parede iluminados por castiçais de prata. Para os jantares oferecidos aos amigos e familiares, a dona da casa podia arrumar a mesa com requinte e delicadeza. À luz das serpentinas, via-se o brilho dos copos de vinho e água dispostos sobre a toalha de linho engomada, os talheres, salvas e farinheiras de prata completavam o arranjo com as peças do aparelho de jantar.157
Caso Miquelina pretendesse receber as amigas e parentes para o chá da tarde poderia, utilizar seu completo aparelho de prata para chá e café, composto de bule, manteigueira, açúcareiro, escaldadeira, cafeteira e leiteira. Os saborosos biscoitos, bolos e sequilhos poderiam ser servidos às convidadas para o chá arrumados em salvas de prata. Enfim, ela possuía uma variedade de apetrechos para uso ligados à alimentação. 158
O ritual de consumo do chá tinha um código de etiqueta e gestualidades próprios desse momento. E a aparelhagem, por sua vez, era mais um detalhe que conferia sofisticação à ocasião. Séc.XIX.
(Acervo Particular – Maria de Lourdes Sousa Campos Badaró.)
Comparando a relação de objetos descritos nos inventários de Miquelina e Maria Gertrudes de Sousa Campos, vimos que coube, na partilha dos bens, os castiçais e serpentinas de prata, além de salvas, trinchantes e paliteiros, também
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ABRAHÃO, op.cit., 2010. Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Miquelina Dulce do Amaral. FTJC, 3.Of., 1863, Cx.394, Proc.6980. pp.20-24.
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Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Miquelina Dulce do Amaral. FTJC, 3.Of., 1863, Cx.394, Proc.6980. fl.20v. Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Maria Gertrudes de Sousa Campos. FTJC, 2.Of., 1909, Cx.267, Proc.5837.
de prata, a essa última, sua nora e sobrinha que se casou com 14 anos de idade com seu filho, José de Sousa Campos, em junho de 1851.159
Além dos objetos herdados de sua sogra, Maria Gertrudes atenta à decoração de sua casa localizada à rua Francisco Glicério, numero 13, procurou mobiliá-la com o que havia de mais moderno e elegante. Na sala de estar existia um espelho oval, logo na entrada, a que se somava uma mesa de canto com tampo de mármore na qual ficava um relógio de cristal, um sofá, cadeiras de balanço e as de uso comum e o seu piano.
Analisando a documentação pessoal da família – além dos inventários correspondentes e do depoimento dado por sua filha Maria de Lourdes – concluímos que Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro, mãe de Theodoro, foi a autora dos três cadernos de receitas manuscritos presentes na Coleção Theodoro de Sousa Campos Junior doada ao Centro de Memória da Unicamp. Nesses cadernos ela compilou as receitas que aprendera com sua mãe, sogra e tias de seu marido.160
Com o auxílio da bibliografia sobre receituários de cozinha, sabemos que um livro de receitas sempre se inspira em outros.161 Ao lermos os receituários de Anna Henriqueta identificamos uma mescla de instruções culinárias antiquíssimas, presentes em livros antigos, com outras “modernas” o que faz desses cadernos um registro valioso das mudanças que ocorreram na culinária paulista ao longo dos tempos. Estimamos que ela os escreveu compilando receitas que foram passadas de geração em geração e ou registrando as presentes em livros de cozinha, desde a década de 1900 até os anos 1940.
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CAMPOS JR. op.cit., 1940. pp.305-316. Arquivos Históricos-CMU. Inventário de Maria Gertrudes de Sousa Campos. FTJC, 2.Of., 1909, Cx.267, Proc.5837.
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Anna Henriqueta e seu filho Theodorinho zelaram pela saúde das senhoras Maria Aparecida de Sousa Reinhardt, viúva do major Benjamin Reinhardt e Maria Apparecida de Sousa Campos, solteira. Essas informações foram obtidas no depoimento dado a nós por sua filha Maria de Lourdes. BADARÓ, op.cit., 2006.
161
LAURIOUX, Bruno. “Cozinhas medievais (séculos XIV e XV)”. In: FLANDRIN; MONTANARI, 9direção), op.cit., 1998. pp.447-465.
Retrato de Anna Henriqueta de Albuquerque Pinheiro (1871-1950). Pintor: Salvador Caruso, óleo sobre tela, 0,95 x 0,80, s.d. (Acervo Centro de Memória-Unicamp).
Anna Henriqueta vivenciou um período de consolidação das mudanças políticas e econômicas pelas quais passava o país, com o advento da República e a crise financeira de 1929, entre outras. E seu filho, Theodorinho como era carinhosamente chamado – atento à salvaguardar a memória de sua família e das pessoas com as quais se relacionava, preservou os manuscritos culinários de sua mãe, possibilitando que esses chegassem aos nossos dias.162
Segundo o depoimento de sua filha Maria de Lourdes, por ser muito religiosa Anna Henriqueta chegou a ser priora da Ordem terceira do Carmo na capital da província. Ao transferir-se para Campinas continuou com essa função, tendo ela e o marido Theodoro se tornado priores da Matriz Velha, hoje Basílica Nossa Senhora do Carmo. Quando de seu passamento, em 1950, Anna
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As senhoras Maria de Lourdes Souza Campos Badaró e sua prima Maria Henriqueta de Campos Pupo Nogueira doaram ao Centro de Memória-Unicamp objetos de uso pessoal e documentos guardados pelo Comendador Theodoro de Souza Campos Júnior ao longo de sua vida.
Henriqueta, foi enterrada com o hábito da Irmandade do Carmo, em respeito à sua religiosidade e em homenagem às suas funções junto à Igreja.163