• Nenhum resultado encontrado

2. O MODELO DE CIÊNCIA PROPOSTO POR KUHN NA ESTRUTURA

2.2. CONCEITOS-CHAVE DO MODELO KUHNIANO

2.2.3. Anomalia

Uma anomalia é algo que foge às regras do paradigma, tornando-o irregular ou deformado. A anomalia é aquilo que não foi previsto e não pode ser compreendido com base no atual estado do paradigma. É como se uma predição fosse desenvolvida no período de ciência normal sem que houvesse constatação conforme o esperado, gerando a quebra da expectativa inicial. Toda vez que uma expectativa é quebrada, adiciona-se mais um elemento causador de dúvida no caminho empreendido até então.

Talvez o aspecto mais interessante da ciência normal seja sua preocupação em resolver quebra-cabeças. Como a ciência normal “(...) não se propõe descobrir novidades no terreno dos fatos ou na teoria”, pois, “(...) quando é bem sucedida, não os encontra” (KUHN, 1992: 77), sua forma operacional básica resulta na observação de anomalias para que possam ser resolvidas. O êxito da ciência normal seria, em tese, resolver todas as anomalias. No entanto, a

ciência normal enquanto empreendimento voltado para resolver quebra-cabeças não tem conseguido um êxito duradouro, haja vista o constante surgimento de anomalias e, por conseguinte, a substituição de paradigmas.

A resolução de quebra-cabeças é o constante trabalho de forçar o paradigma na elucidação de anomalias. A analogia de Kuhn ao quebra-cabeças parece bastante pertinente, pois a compreensão que é pretendida está num plano macro, no qual diversas especializações se fazem necessárias para corroborar uma teoria. Assim, cada ponto trabalhado por uma comunidade será como uma peça de quebra-cabeças, que devem ser articuladas e meticulosamente montadas para mostrar uma imagem. Essa imagem seria uma teoria capaz de explicitar uma conceituação bem articulada, como um quebra-cabeças que está completamente encaixado.

O paradigma em sua proposição inicial é apresentado como norteador da compreensão geral sobre a investigação científica e, de forma mais atenuada nas primeiras anomalias constatadas, o paradigma será questionado. Às vezes as anomalias são resolvidas com pequenos ajustes da teoria geral do paradigma, outras vezes são tomadas como erros metodológicos do cientista, o que implica em novas tentativas de resolvê-las.

Porém, às vezes as anomalias tomam proporções elevadas, colocando em dificuldade a continuidade do paradigma. Resolver quebra-cabeças é a habilidade do cientista normal que é cobrada quando do surgimento delas e sua competência (tanto do cientista quanto do paradigma) estará à prova toda vez que uma anomalia for observada.

A anomalia não deve ser considerada como estando na natureza. O esforço em caracterizar a natureza é um empreendimento humano, que necessita das aproximações propostas pelo paradigma para ser compreendido dentro da linguagem de uma disciplina científica. O surgimento das anomalias é, portanto, erros de percurso na tentativa de compreender a natureza dentro de uma teoria.

A consciência da anomalia não é tarefa simples para o cientista normal. Pelo contrário, exige dele um domínio elevado dos padrões emanados do paradigma para a constatação de que alguma coisa deu errado. Por conta da hegemonia do paradigma, quando uma anomalia é observada, o cientista inicialmente suspeita de si mesmo, imaginando que foi incapaz de articular bem o paradigma. Se por meio de novas articulações do paradigma a anomalia for superada, estará claro que a falha foi do cientista; quando não, as condições iniciais para questionar o paradigma estarão dadas.

Na sequência do trabalho de articular o paradigma, após a descoberta da anomalia, segue a exploração das áreas onde ela aconteceu, visando um ajuste que a resolva. Quando o ajuste for possível, a anomalia será tomada como um dado novo e o equívoco será compreendido como de responsabilidade do pesquisador. No tempo em que o contrário ocorrer, ou seja, quando não houver ajuste, a anomalia se confirmará e terá outros desdobramentos. A constatação da anomalia é o reconhecimento de que a natureza violou as expectativas paradigmáticas.

Durante o trabalho de ciência normal, a constatação de anomalias pode acontecer em pequeno ou grande número. Quanto maior a quantidade de anomalias, maior será a quantidade de iniciativas para salvaguardar o paradigma, o que só se efetivará mediante a solução das anomalias observadas. Menor quantidade de anomalias representa um maior domínio do paradigma pela comunidade, bem como uma boa articulação dos aspectos do paradigma com o que tem sido observado nas análises empíricas. Neste último caso, o paradigma continua exercendo, sem questionamentos, sua hegemonia.

O grande problema não é necessariamente a existência de anomalias, pois tal aspecto é comum até mesmo na mais articulada investigação. O que realmente implica problemas para o paradigma é a não resolução das anomalias. Quando as anomalias não conseguem ser resolvidas segundo as predições do paradigma, elas se acumulam e passam a representar um empecilho para a realização da promessa de sucesso estabelecida pelo paradigma.

O acúmulo de problemas sem resposta gera a crise do paradigma. Tais anomalias, que inicialmente podiam conviver com o desenvolvimento do paradigma nascente, tornar-se-ão, com o tempo, incômodos, pois vão crescendo em número e em importância. Em referência à constatação de anomalias, Kuhn aponta que tal estágio da pesquisa científica possibilita descobertas.

A descoberta começa com a consciência da anomalia, isto é, com o reconhecimento de que, de alguma maneira, a natureza violou as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal. Segue-se então uma exploração mais ou menos ampla da área onde ocorreu a anomalia. Esse trabalho somente se encerra quando a teoria do paradigma for ajustada, de tal forma que o anômalo se tenha convertido no esperado. A assimilação de um novo tipo de fato exige mais do que um ajustamento aditivo da teoria. Até que tal ajustamento tenha sido completado – até que o cientista tenha aprendido a ver a natureza de um modo diferente – o novo fato não será considerado completamente científico (KUHN, 1992: 78).

O que devemos esperar, em se tratando de um entendimento específico para fornecer uma definição mais próxima do fenômeno estudado, é a compreensão do ponto que torna a teoria problemática, pois o desenvolvimento da ciência pressupõe a compreensão de anomalias para que elas possam ser superadas. É esse o ponto crucial que tornará o paradigma mais adequado. Quando o cientista percebe a anomalia, seu trabalho volta-se a esse ponto em específico, seus esforços se voltarão para superar a anomalia e perpetuar a fonte norteadora de suas ações: o paradigma.

Quando há persistência da anomalia, como já explicitei antes, o cientista desconfiará de si mesmo, supondo que algo deu errado em algum passo que deveria ter sido tomado, ou que ele não foi capaz de compreender o fenômeno, ou algum aspecto dele, o que permitiu a anomalia. Nesse caso, a anomalia é considerada enquanto elemento equivocado na compreensão do cientista.

Outra possibilidade, essa mais grave, se torna efetiva quando a ciência normal não consegue cumprir conforme o esperado, ou seja, não consegue resolver os quebra-cabeças oriundos do trabalho de atualização do paradigma. Agora, superado o estigma de que o erro foi no desenvolvimento da metodologia empreendida, ou aconteceu por conta de alguma incapacidade do cientista, a dúvida se voltará contra o paradigma. Este, por sua vez, será considerado como ineficiente ou incapaz, caso a anomalia não consiga ser resolvida.

Ambos os casos são aceitáveis ao longo do período de ciência normal. Todavia, o segundo caso é bem menos comum que o primeiro, pois a quantidade de anomalias superadas é proporcionalmente maior que as não superadas. Essa proporcionalidade garante o sucesso da ciência normal enquanto empreendimento altamente qualificado.

A perspectiva kuhniana de ciência normal como resolução de quebra-cabeças apresenta a pesquisa científica como passível de fracasso. De certa forma, o fracasso na construção científica com base em um paradigma específico não é de todo ruim, pois esse fracasso do paradigma é a fonte de diversas anomalias (KUHN, 1992: 88) que permitirão um trabalho mais aprimorado da ciência.

Embora toda vez que se constate algum tipo de incongruência na relação entre teoria e observação a culpa recaia sobre o cientista28, a mudança de paradigma só ocorre quando todas

28 Isso acontece porque a comunidade científica tende a reconhecer que antes do paradigma ser falível, o cientista

é falível. Dessa forma, como já foi anteriormente apresentado, anomalias são consideradas inicialmente como resultados da incapacidade do cientista em lidar com o paradigma e não uma discrepância do próprio paradigma. Nesse ponto há que se levar em consideração que dependendo de qual cientista observou o paradigma, haverá a

as soluções possíveis, imaginadas pelos membros da comunidade científica, tiverem sido empreendidas sem sucesso, pois é nesse ponto que se conclui que não há erro metodológico, mas que as expectativas geradas não poderão ser supridas pelo paradigma. Mas não porque as expectativas são demasiadamente altas, e sim porque o paradigma é incapaz de fornecer as soluções almejadas.

Ao final do período de ciência normal, o cientista terá adquirido uma capacidade maior de enxergar anomalias e uma maior familiaridade com os fenômenos observados, com maior capacidade intelectual de fornecer dados para a construção de um próximo paradigma. Além disso, observar a anomalia é a constatação de que alguma coisa não foi bem, o que gerou frustração das expectativas. Estas frustrações poderão ser tomadas como exemplos em pesquisas futuras, pois representam alguns caminhos que não devem ser tomados.

Reafirmando a importância da especialização no período de ciência normal, observa-se que

uma maior familiaridade dá origem à consciência de uma anomalia ou permite relacionar o fato a algo que anteriormente não ocorreu conforme previsto. Essa consciência da anomalia inaugura um período no qual as categorias conceituais são adaptadas até que o que inicialmente era considerado anômalo se converta no previsto. Nesse momento completa-se a descoberta (KUHN, 1992: 91).

Percebemos que Kuhn admite a descoberta a partir de um processo que se inicia com uma anomalia que, numa proporção pequena, é como uma crise no interior do paradigma vigente. As anomalias constituem-se enquanto alerta para a comunidade científica – ou para o cientista que as observa. É quando de sua observação que inevitavelmente o cientista procurará resolvê-las com o próprio paradigma vigente. Entretanto, uma vez que não se consiga resolver essas anomalias – e essa tentativa de resolução também é uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se no molde do paradigma – a emergência de um novo paradigma não poderá ser evitada.

Segundo Kuhn (KUHN, 1992: 81), existem duas possibilidade para a descoberta. A primeira possibilidade é por assimilação conceitual e a segunda forma é acidental, a qual, segundo Kuhn, “(...) ocorre mais frequentemente do que os padrões impessoais dos relatórios científicos nos permitem perceber” (KUHN, 1992: 83).

consideração de sua possível incompetência em maior ou menor escala, pois aqui também considera-se o peso da autoridade.

O primeiro caso, Kuhn exemplifica com a teoria de Lavoisier sobre a combustão pelo oxigênio. Segundo Kuhn, a descoberta do oxigênio foi o resultado de um trabalho realizado ao longo de muito tempo, mais especificamente entre 1772 e 1777. O período de tempo foi suficiente para que diversas verificações e conclusões colaborassem para uma teoria fundamentada. O tempo é um aliado importante nesse tipo de descoberta, pois possibilita que o cientista se aprofunde em cada aspecto necessário para a correta compreensão do fenômeno.

Para o segundo caso, descoberta acidental, é necessário que o cientista tenha certa sensibilidade para perceber que houve uma descoberta. Com um resultado não esperado, o cientista pode considerar que houve um erro na experimentação e acabar descartando o resultado obtido. No entanto, se ele conseguir fazer uma análise do que foi observado como um novo fato, que embora não se encaixe nas descrições correntes, possa ser tomado como uma nova espécie de fenômeno, a descoberta acidental terá ocorrido.

Em ambas as possibilidades, a descoberta está relacionada com a observação de anomalias (em maior ou menor grau). No primeiro caso – descoberta por assimilação conceitual – há algo como uma elucidação de pontos observados, como se a teoria resultante fosse o fim de toda a construção teórica empreendida, algo como uma conclusão das pesquisas. No segundo caso – descoberta acidental – há algo como um “deparar-se”, o que ocorre de forma bem mais imediata e não programada.29

É importante observar que no primeiro caso a descoberta está acompanhada de um planejamento minucioso e o resultado, em algum momento do planejamento, já pode ter sido previsto. No segundo caso, não há planejamento para a descoberta, o fenômeno se apresenta e cabe ao cientista classificá-lo como nova descoberta.

De acordo com Kuhn, “(...) Quanto maiores forem a precisão e o alcance de um paradigma, tanto mais sensível este será como indicador de anomalias e, consequentemente, de uma ocasião para a mudança de paradigma” (KUHN, 1992: 92). Certamente não será a existência de uma ou outra anomalia que inviabilizará todo o trabalho de pesquisa do cientista, pois este estará pronto para defender seu trabalho, mostrando inclusive certa resistência em admitir algo novo. Contudo, quando um conjunto suficientemente grande de anomalias se

29 Convém salientar que nos dois casos a descoberta só é possível pelo esforço empreendido com uma metodologia

utilizada pelo cientista. Ainda que a descoberta, no segundo caso, seja compreendida como “acidental”, não seria interessante observá-la como “ocasional”, i.e., não é fruto do mero acaso, mas sim de uma série de ponderações realizadas ao longo do trabalho científico. Na descoberta acidental, o acidente está em não esperar exatamente aquele resultado, como se o cientista estivesse atento para outros resultados pretendidos; não se trata, portanto, de uma descoberta completamente despropositada ou alheia aos procedimentos científicos (Cf. BAILIN, 1990).

tornarem visivelmente sem respostas, o paradigma entrará em crise e deverá ser substituído por outro, mais completo, mais abrangente e, principalmente, capaz de resolver as anomalias suscitadas.

O trabalho da ciência normal é uma constante limpeza e revisão de anomalias – tanto as que surgem no processo de ciência normal, quanto as que colocaram o paradigma anterior em crise – o que atrela o desenvolvimento da ciência à capacidade de observar a existência de anomalias na teoria e, sobretudo, resolvê-las.

No final de todo esse processo teremos uma cultura científica própria, dotada de linguagem específica e capaz de propor teorias válidas sobre os fenômenos da natureza. A capacidade de solucionar esses problemas pode ser considerada como o resultado do desenvolvimento científico. Ainda assim, nos caberia perguntar sobre as razões do cientista em continuar seu trabalho, uma vez que o modelo de Kuhn aparenta defender que as conclusões científicas são apenas provisórias.

Segundo Kuhn, “(...) o que o incita ao trabalho é a convicção de que, se for suficientemente habilidoso, conseguirá solucionar um quebra-cabeça que ninguém até então resolveu ou, pelo menos, não resolveu tão bem” (KUHN, 1992: 61). Além disso,

o cientista deve preocupar-se em compreender o mundo e ampliar a precisão e o alcance da ordem que lhe foi imposta. (...) Esse compromisso, por sua vez, deve levá-lo a perscrutar com grande minúcia empírica (...) algum aspecto da natureza. (...) Se esse escrutínio revela bolsões de aparente desordem, esses devem desafiá-lo a um novo refinamento de suas técnicas de observação ou a uma maior articulação de suas teorias (KUHN, 1992: 65).

O que impulsiona o cientista é a esperança de ser capaz de solucionar os problemas que ninguém, até então, resolveu e outros mais que apareçam ao longo do processo. Não se trata de uma busca pela descoberta, mas de alargar o paradigma com as soluções das anomalias observadas. Esse processo de observar a anomalia e resolvê-la é o que pode ser compreendido no modelo de Kuhn como descoberta30.

30 Outrossim, posso concordar que nem sempre o cientista tenha claro para si mesmo que sua rotina é orientada

por um paradigma. No entanto, o modelo que tem na ideia de paradigma seu núcleo demonstra que a prática científica funciona mesmo sem que o cientista possua de forma clara e evidente a influência que um paradigma exerce sobre sua pesquisa. Com base nisso é possível supor que entre os elementos que constituem sua “motivação”, também deve ser considerado que a aplicação de um método, na crença de que chegará às conclusões almejadas no desenvolvimento de sua pesquisa, também possui grande relevância.

Onde estaria, então, o sucesso das investigações científicas? Embora seja cedo para concluir essa pergunta, posso apontar para o desenvolvimento da capacidade que a comunidade científica tem adquirido em perceber com mais clareza ou resolver com mais propriedade os enigmas fornecidos ao longo do trabalho de ciência normal.

Na sequência, analisarei o funcionamento das revoluções científicas como proposição do estado de crise e resultado do acúmulo de anomalias sem respostas.