6. À GUISA DE CONCLUSÃO
6.1 APREENSÃO DO PROCESSO E SUAS PERSPECTIVAS
Até hoje a PNH sustenta-se dentro e fora da máquina do Estado. Entretanto, nas instâncias de governo, ela vem perdendo cada vez mais a prioridade na agenda política. Sua chegada até aqui foi marcada pelas mudanças estruturais já apontadas. No diálogo com os atores sociais de um serviço de atenção básica de Campinas/SP, foi possível compreender melhor alguns desses paradoxos e desafios trazidos pelo material empírico.
Por mais que a PNH tenha transformado os princípios do SUS e algumas práticas de cuidado e gestão em suas diretrizes e dispositivos, pouco desse referencial, com 15 anos de construção, foi citado pelos entrevistados. Estes continuam referenciando sua forma de apreender humanização ao senso comum, ou a vivências passadas na política de saúde local e processos de formação em saúde coletiva ou saúde da família.
O que podemos observar, por exemplo, da sua aplicabilidade no âmbito da atenção básica de Campinas/SP, vem de uma tradição remetida ao Modelo de Saúde Paideia, atualmente fragmentado e desinvestido no município, e ao momento em que na Secretaria de Saúde existia um Grupo de Trabalho de Humanização, hoje extinto. O debate a respeito da humanização no município é retratado apenas pelos trabalhadores, com pouco envolvimento de usuários, gestão e estudantes, aos quais falta o conhecimento sobre a importância teórica e prática dessas experiências.
A questão da baixa governança e governabilidade é enfatizada nos três temas e aparece nas quatro categorias de entrevistados. Os atores veem-se com pouca capacidade de produzir mudanças estruturais nos serviços, o que converge com o material empírico, quando abordamos a importância da compreensão macropolítica nas indagações que perpassam os implementadores de políticas e suas questões micropolíticas, entendendo essas dimensões como dialéticas.
Observamos que, mesmo Campinas sendo parte do grupo macrorregional da Política Estadual de Humanização, com meta de implementação de 2012 a 2015, ações concretas no município e parcerias entre a DRS VII e a Secretaria Estadual de Saúde foram realizadas muito antes desse período, constatando pouco impacto dessa política nas ações da secretaria municipal de saúde de Campinas.
Contudo, hoje, a gestão municipal de Campinas não prioriza a PNH, nem a humanização em saúde em seus dois últimos planos municipais de saúde. A primeira não está sendo implementada e a humanização em saúde não é abordada de forma dialogada e referenciada. Acreditamos que, em decorrência disso, surgiram lacunas nas narrativas dos entrevistados sobre
determinados temas. A maior parte do conteúdo sobre humanização emerge na fala de trabalhadores que participaram de processos de sensibilização e formação continuada em saúde coletiva, saúde da família ou atividades de interface com a humanização. No âmbito dos usuários, percebemos que os que possuíam cargo de conselheiros locais elaboram questões para além do bom atendimento do serviço, conseguindo dialogar sobre os desafios enfrentados pelo SUS enquanto direito e pelas gestões municipal e federal.
Portanto, um levantamento bibliográfico pautado em temas como análise ou abordagem da humanização como política pública, Estado-sociedade, e elaboração de políticas públicas e suas arenas de disputa, formaram um escopo teórico que foi relevante para a análise do material coletado.
Entendemos que a PNH como política pública partiu de uma situação de oportunidade para conseguir entrar na agenda de disputa. Por mais que seu documento tenha sido escrito a partir de experiências do SUS, sua formulação só foi possível porque agentes dessas experiências foram ocupando cargos no Estado ao longo da formulação e implementação da PNH.
Não estamos descartando que essa nova forma de se fazer política, mais reflexiva, participativa e co-construída, tenha vantagens. Todavia, é importante esclarecer que as políticas tendem a ser capturadas pela lógica estrutural do Estado. Por mais participativas que elas desejem ser, é difícil não seguir essa lógica. Como consequência dessa dualidade dentro e fora do Estado, sem a legitimação de aportes legais, ela pode acabar perdendo sua capilaridade e continuidade de implementação como política pública, mas também pode gerar efeitos de suas peculiaridades de implementação em alguns territórios, que ainda necessita de mais estudos detalhados sobre esses eventos.
Visto isso, a escolha da PNH obter um caráter não normativo fez com que ela fosse submetida ao risco de ir perdendo seu espaço na agenda política. Alguns entrevistados trazem a importância da humanização como política pública, reforçando essa maneira tradicional de se fazer políticas enquanto caixas normativas para que se cumpram suas diretrizes. Outros sujeitos entrevistados sequer abordaram esse tema, ou mostram-se descrentes com à relevância de políticas públicas para a melhoria do serviço. Logo, acreditamos que, através desse trabalho de mestrado profissional, poderemos aproximar cada vez mais a construção de políticas em saúde aos seus atores sociais, para que estes reflitam caminhos da importância de posturas ético- políticas e acima de tudo cidadãs na produção de saúde, e não sejam apenas agentes implementadores de políticas.
Mais do que tentar resolver os problemas e contradições do SUS, precisamos antes nos colocarmos verdadeiramente neles, isto é, vivenciá-los no cotidiano, próximo aos usuários, à assistência e aos movimentos sociais. Os princípios do SUS não devem ser entendidos como dogmas, mas sim, mediante essa imersão entre seus problemas e contradições da vida cotidiana, suscitar bandeiras unificadoras para aspectos relevantes e de construção crítica da defesa de seus valores de justiça social e solidariedade na construção da sociedade que queremos. A superficialidade no debate pode vir a ser arruinante para o caminho de promoção de mudanças estruturais. Desta forma, acreditamos que a luta contra as políticas de austeridade que influem no desmonte do SUS passa por uma ação coletiva dos mais diversos sujeitos da sociedade e não apenas fruto de subjetividades individuais e identitárias, ou reduzida à espera de um profeta no âmbito político ou de disputa ideológica.
Foi nesse caminho que a PNH começou a abrir brechas, mas que foram se perdendo durante os anos, porque a lógica do capital fez um movimento de cooptação do SUS e do Estado. Acreditamos que a PNH não é uma bíblia dos princípios da Reforma Sanitária Brasileira e do SUS, que devamos seguir de maneira dogmática e incontestável. É preciso trazer cada vez mais para essa discussão o esforço de tentar quebrar o status quo dos modos de se fazer política no Brasil, bem como fomentar o surgimento de estratégias políticas, dentro e fora das instituições, que vão contra o desmonte do SUS.
O âmbito das políticas de saúde, que engloba sujeitos como estudantes, professores, profissionais, gestores e usuários, vem enfrentando atualmente uma difícil realidade sanitária, de sucessíveis retrocessos pelo Brasil. Essa situação solicita intrinsecamente maior protagonismo e corresponsabilização diante da imprevisibilidade cotidiana dos serviços. A questão amplia-se para além dos modelos de atenção e gestão, e chega até o esperançar que é apostar na contra-hegemonia do SUS em buscar construir um modelo de sociedade verdadeiramente humano e de bem-estar.
Exige também o entendimento de que em uma democracia todos nós somos formuladores de políticas públicas, e que elas podem ser um meio para garantir a efetiva defesa da vida e do direito à saúde, que devem ser diariamente conquistados mesmo estando presente nos aportes legais.
Percebemos que o debate sobre o marco-teórico da PNH está bastante resumido e desatualizado em seus documentos. Vivemos em um contexto de crescente monopólio das ideias neoliberais em todo o mundo, e que vêm promovendo o Estado-mínimo, pautado no discurso de que o gasto com políticas sociais prejudica o crescimento econômico do país. Contudo, o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (CEBES) (91) trouxe recentemente, em seu
relatório técnico sobre austeridade e políticas sociais, o cálculo multiplicador do PIB em relação ao gasto com saúde no Brasil. Segundo o relatório:
Em trabalho realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), calculou-se em 1,7 o multiplicador do PIB para o gasto com saúde no Brasil, ou seja, para um aumento do gasto com saúde de R$ 1,00, o aumento esperado do PIB seria de R$ 1,70. Neste estudo, o multiplicador do PIB também foi calculado para o gasto com educação 1,85, o Programa Bolsa Família 1,44, o Benefício de Prestação Continuada 1,38 e o Regime Geral de Previdência Social 1,23, resultando em efeito positivo para a economia, ao contrário das despesas com pagamento dos juros da dívida pública, que resultaram em multiplicador de 0,71. (91)
O enfoque da PNH foi no surgimento de novos modelos de atenção e gestão, que pudessem construir posturas ético-estéticas-políticas nos serviços. É quanto a estas posturas que nossa pesquisa gostaria de contribuir para uma abordagem da humanização na atenção básica. Estamos cientes de que não será uma tarefa fácil, e nunca foi, assim como sabemos que será um caminho longo, e até de retomada de algumas pautas dos primórdios do Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, já contempladas nas falas de Sergio Arouca e David Capistrano. Porém, concordamos com Liane Righi quando ela diz que novos mundos são possíveis e a construção deles não dependem só de nós.
Em Campinas, os modelos de referência na constituição de projeto de justiça social, apesar das contradições e enfraquecimento em seus métodos de ação iniciais, compõem uma longa trajetória cujos efeitos são lembrados, e às vezes referenciados como motivadores para a construção de trincheiras no SUS, pelos atores que as viveram. Este fato valida a necessidade da existência da PNH e do movimento sanitário campineiro, que hoje precisa ser ressignificado, para que ele não se limite a uma página boa da história.
Sugerimos então a construção de um guia prático da humanização enquanto política pública na atenção básica. Logo, em forma de produto técnico a presente pesquisa poderá dialogar de forma mais próxima dos serviços, visando uma discussão interativa e de fácil acesso e compreensão para trazer fatores que atravessam a humanização como política pública do SUS, assim como da importância de trabalhadores, usuários e gestores como atores éticos-políticos para consolidação dos princípios do Sistema Único de Saúde.