Parte II – Prática de Ensino Supervisionada em contexto de jardim de infância
1. Apresentação do contexto educativo: jardim de infância
A parte II deste relatório é composta por dois capítulos, nomeadamente o capítulo 1 que se intitula “Dimensão reflexiva” e o capítulo 2 denominado de “Projeto: pesando e medindo as crianças”, referentes ao contexto jardim de infância. Nos dois capítulos relato experiências e aprendizagens neste contexto e descrevo o projeto desenvolvido com as crianças no segundo semestre.
CAPÍTULO 1 – DIMENSÃO REFLEXIVA
INTRODUÇÃO À DIMENSÃO REFLEXIVA
A dimensão reflexiva do relatório de Prática de Ensino Supervisionada, contexto de jardim de infância é composta por quatro partes. Tal como no contexto de creche, primeiramente apresento o contexto educativo, bem como a caracterização da sala de atividades e do grupo de crianças, com o objetivo de propiciar um conhecimento do contexto onde realizei a Prática. Na segunda parte desta dimensão reflexiva, abordo duas propostas educativas realizadas no decorrer deste percurso, que constituíram-se importantes para o meu processo de aprendizagem enquanto futura profissional de educação. Na terceira parte descrevo um pequeno desafio, que coloquei a mim mesma, no intuito de auxiliar algumas crianças a ultrapassarem uma dificuldade que apresentavam. Na última parte desta dimensão reflexiva, tenciono referir algumas evidências das minhas aprendizagens, salientando ainda o papel do educador de infância no contexto de jardim de infância.
1. APRESENTAÇÃO DO CONTEXTO EDUCATIVO: JARDIM DE INFÂNCIA
A Prática de Ensino Supervisionada, em contexto de jardim de infância desenvolveu-se no Jardim de Infância da Guimarota, desde do dia vinte e quatro de fevereiro a dezoito de junho de 2014. O Jardim de Infância da Guimarota pertence ao Agrupamento de Escolas D. Dinis e situa-se na zona urbana de Leiria.
50 O Jardim de Infância da Guimarota, de cariz público, que acolhe crianças dos três aos seis anos, encontra-se inserido na Escola Básica do 1º. Ciclo (EB1 da Guimarota). A educação pré-escolar tem como objetivos: proporcionar o desenvolvimento integral da criança; estimular a inserção da mesma em diversificados grupos, ganhando noção do seu papel na sociedade; fomentar a igualdade de oportunidades a todas as crianças, garantindo o sucesso da aprendizagem (Lei n.º 4/97 de 10 de fevereiro. Diário da República — I Série A – N.º 34 — 10-2-1997, Capítulo IV, artigo 10.º, pp.671 e 672). A educação pré-escolar apresenta ainda como objetivos estimular o pensamento, o espírito crítico e a curiosidade das crianças; garantir condições de segurança e bem- estar; e fomentar o envolvimento das famílias no processo educativo, criando relações com a comunidade (ibidem).
1.1. Caracterização da sala de atividades
A sala do Jardim de Infância da Guimarota é uma das salas da Escola Básica do 1.º Ciclo da Guimarota, encontrando-se no rés-do-chão. Esta era bastante ampla, com muita luminosidade e ventilação natural, provenientes de cinco janelas viradas para o exterior. Segundo Zabalza (1992, p.120) “O espaço na educação constitui-se como uma estrutura
de oportunidades.” O autor supramencionado (p.123) acrescenta ainda que
Não podemos fazer programações em que tudo esteja previsto de antemão: a plasticidade de interesses, desejos e comportamentos dos pequenos, a descontinuidade do seu esforço e da sua atenção, tornam mais funcional um modelo aberto de programação. Modelo em que o espaço organizado actua como elemento integrador entre o previsto e o conjuntural (o que surge, quer por iniciativa das crianças quer porque seja um evento casual que se introduz inopinadamente na marcha do processo).
Ao longo da sala existiam três grupos de mesas, adequadas ao nível do tamanho das crianças, que permitiam a existência de diversos momentos. Esta sala era composta por diversas áreas, nomeadamente a “Área da Mercearia do Sr. Joaquim”, que incluía uma bancada e três cadeiras. Junto a esta área existia a “Área da casinha”, com diferentes elementos que representavam uma casa na realidade, que possibilitava situações de jogo simbólico. Perto desta área, havia a “Área dos jogos”, onde se encontravam duas estantes, que continham diferentes caixas com legos, carros, animais de plástico, puzzles e diversos jogos. Numa das estantes encontravam-se cartões com a fotografia de cada criança e o seu respetivo nome. Junto a esta área e à parede da sala encontrava-se a “Área da biblioteca”, composta por um armário, que continha três caixas coloridas com diversos livros de diferentes formatos e ainda por quatro cadeiras de madeira,
51 almofadadas, sendo que esta área destinava-se a momentos de exploração de livros. Existia ainda a “Área da tecnologia”, composta por um computador, uma impressora e duas colunas. Para diferentes momentos do quotidiano do grupo de crianças, havia ainda a “Área do tapete”, onde se encontravam quatro almofadas coloridas de diferentes dimensões e ainda um tapete colorido plastificado. Formosinho (1996, p.58) defende que
As áreas organizadas, com materiais visíveis, acessíveis, variados e interessantes, convidam ao uso e convidam à fala – à fala da criança com a outra criança, à fala da criança com o adulto, à fala dentro dos pequenos grupos ou no grupo todo.
Hohmann e Weikart (2011) afirmam que as crianças necessitam de espaço para se movimentar livremente, utilizar materiais e objetos, realizar explorações, falar sobre o que estão a concretizar, resolver problemas e ainda para guardar os seus pertences. Tanto os objetos como os materiais devem motivar as crianças e são essenciais para uma aprendizagem ativa (ibidem). Deste modo, é necessário que exista uma variedade de materiais e objetos, no intuito das crianças os explorarem e manipularem (ibidem).
Mas porque os interesses de cada criança diferem, esta, para ser activa, deve poder escolher. Para cada criança escolher, não basta que existam materiais, é necessário que sejam diversificados e que estejam organizados e guardados de forma visível e acessível. Isto implica que estejam estruturados em áreas de interesse bem identificadas (Formosinho, 1996, p.58).
Esta sala de atividades era bastante ampla, com espaços abertos e livres, que fomentavam a liberdade de movimentos e as oportunidades de interação com os outros (Zabalza, 1992). Estes espaços são importantes, visto que as crianças “Encontram-se num processo de construção da sua identidade individual, de conquista da sua autonomia operativizada em termos de movimentos, de actividade física, de relação
com as coisas e com os outros” (ibidem, p.125). Esta sala, tendo diferentes áreas
permitia a criação de ambientes diversificados de desenvolvimento global das crianças. 1.2. Caracterização do grupo de crianças
O grupo de crianças que frequentava o Jardim de Infância da Guimarota era composto por vinte e cinco crianças, sendo dez do sexo masculino e quinze do sexo feminino. Em setembro de 2013, nove crianças tinham cinco anos, dez tinham quatro e as restantes seis tinham três anos. Do número total de crianças, treze entraram neste último ano letivo (2013/2014) no Jardim de Infância da Guimarota, sendo que cinco dessas crianças vinham de outros jardins de infância. O grupo de crianças era caracterizado por ser sociável, afetuoso, comunicativo, mostrando interesse em expressar as suas opiniões e
52 era curioso, querendo sempre saber o “porquê?” e o “como?”. O grupo era autónomo relativamente à alimentação, higiene, decisões e escolhas. Por vezes, as crianças geravam alguns conflitos entre si, nomeadamente aquando da disputa de brinquedos, objetos, locais e prioridades.
Este grupo de crianças era interessado em participar nas propostas educativas, porém algumas crianças mostravam-se desconcentradas perante estes momentos de atividades/tarefas mais orientadas, por ainda preferirem os momentos de brincadeira livre.
Entre as brincadeiras preferidas pelas crianças eram de mencionar a realização de jogos de construção, a utilização do computador, a audição de música, a dança, a brincadeira na “Área da casinha”, a exploração de livros na “Área da biblioteca” e ainda a brincadeira no espaço exterior. Quanto às atividades, as crianças demonstravam preferência pelas dramatizações, pelos jogos dramáticos orientados, jogos de movimento, pelas pinturas e histórias.
As crianças que frequentaram este jardim de infância, no ano letivo anterior, demonstravam ser seletivas na escolha das crianças para as brincadeiras, formando pequenos grupos.
As crianças em idade pré-escolar encontram-se, segundo Piaget (1962), no estádio pré- operatório (Papalia, Olds, & Feldman, 2006; Tavares, Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007). Durante este estádio de desenvolvimento, as crianças começam a utilizar símbolos ou representações (números, palavras ou imagens) como forma de representar a realidade, atribuindo-lhe significado – função simbólica (ibidem).
As crianças apresentavam algumas dificuldades ao nível da linguagem, nomeadamente, articulação de palavras/troca de consoantes, omissão de consoantes e expressão de ideias/vivências. Todas as crianças demonstravam interesse em escrever o seu nome, sendo que algumas já revelavam o conhecimento de algumas letras. Quando estas necessitavam de ajuda para escrever o seu nome, solicitavam frequentemente a ajuda dos (as) seus/suas padrinhos/madrinhas, existindo assim um momento de cooperação entre as crianças. De acordo com Rigolet (2006) as crianças de cinco anos já demonstram curiosidade em conhecer as letras e como consequência escrever o seu nome.
53 Quanto ao nível da socialização, algumas crianças revelavam dificuldades em comunicar, negociar, brincar e partilhar com os pares. No estádio pré-operatório, é de salientar o egocentrismo que se define em a criança compreender e interpretar o que a rodeia, sob o seu ponto de vista, segundo a perspetiva autocentrada, impedindo que a criança compreenda o ponto de vista do outro (Tavares, Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007). A partir dos quatro anos, já se observa uma descentração cognitiva – pensamento intuitivo (ibidem). Ainda que autónomo, este grupo de crianças necessitava da presença constante de um adulto, no intuito de lhe dar um reforço/estímulo positivo, aquando da realização de variadas atividades. Segundo Mussen, Conger e Kagan (1977, p. 304)
A socialização é o processo através do qual o indivíduo adquire aqueles padrões de comportamento, crenças, normas e motivos que são valorizados por seu próprio grupo cultural e familiar e adequados a ele.
As crianças devem saber lidar com os seus sentimentos, aprendendo a controlar emoções como a ansiedade, bem como, a saber lidar com a autonomia e independência para que consigam controlar os ambientes físico e social, progressivamente (Tavares, Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007).
2. PROPOSTAS EDUCATIVAS EM CONTEXTO DE JARDIM DE