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Arte urbana, arte de rua

No documento DiverCity: diversity in the city (páginas 42-46)

Na rua, teatro espontâneo, torno-me espetáculo e espectador, às vezes ator. Nela efetua-se o movimento, a mistura, sem os quais não há vida urbana, mas separação, segregação

em negociação para a permuta de terrenos entre a prefeitura e as construtoras proprietárias, o que resultaria na viabilização do projeto do Parque Augusta.

2 O empresário João Dória, filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

3 O referido programa foi instituído pelo então prefeito no dia 02/01/2017, com o objetivo de “revitalizar áreas degradadas da cidade”. Segundo

o site da prefeitura, as ações do programa incluem “serviços de manutenção de logradouros, conservação de galerias e pavimentos, retirada de faixas e cartazes, limpeza de monumentos, recuperação de praças e canteiros, poda de árvores, manutenção de iluminação pública, reparo de sinalização de trânsito, limpeza de pichações, troca de lixeiras, e reparo de calçadas”.

4 Do professor universitário Fernando Haddad, filiado ao Partido do Trabalhadores (PT).

5 No dia 01/02/2015 o então prefeito, inaugurou o maior mural a céu aberto de arte urbana da América Latina como parte de sua política de

reconhecimento e incentivo às manifestações artísticas urbanas. A elaboração do mural, totalmente financiada pela gestão, contou com a participação de aproximadamente 200 artistas na composição de um mural com 15.000 m², divididos em 70 muros.

6 Aqui incluem-se os cartazes denominados “lambe-lambes”. Segundo a definição de Navarro (2016, p.62). "Lambe/cartaz: Suporte em papel

a ser afixado com cola industrial ou artesanal em locais públicos. Pode ser impresso artesanalmente em serigrafia, em gráfica comercial, ou ainda escrito ou pintado à mão. A técnica é tradicional e pode ser utilizada tanto para fins publicitários quanto artísticos”.

estipulada e imobilizada. Henri Lefèbvre

Não há definição simples para aquilo que se denomina “arte de rua”. A natureza difusa dessa prática escapa inclusive de denominações precisas. Termos chave como arte urbana e arte de rua são usados de forma intercambiável (Ulmer, 2016). Em uma tentativa de definição, o pesquisador de arte urbana Ricardo Campos propõe:

(...) gostaria, então, de esboçar uma breve mas provisória definição da “Arte de Rua” contemporânea. Na verdade, deveria ser uma expressão no plural, dadas as múltiplas facetas daquilo que se pode enquadrar nesta categoria. (...) Em primeiro lugar, são formas estéticas (pictóricas, musicais, performativas, etc.) que tomam partido da rua e das suas particularidades, quer enquanto espaço físico, quer enquanto espaço social e simbólico. Deste modo, de alguma forma dialogam e interagem com o edificado, com a paisagem e com os habitantes, inscrevendo no próprio território as suas marcas de forma mais transitória ou permanente.

Em segundo lugar, são expressões não oficiais e não legitimadas pelas instâncias do poder ideológico (Estado, Municipalidade, Academia, Escola, etc.) como formas consagradas de arte. Logo, apresentam sempre um elemento de ruptura, de inovação ou subalternidade, que colide com as artes oficiais propagandeadas pelo regime e apadrinhadas pelos media, pelas indústrias culturais e pelo mercado da arte. (...) Em terceiro lugar, são formatos vernaculares, muitas vezes provenientes de meios populares e de culturas urbanas invulgares que utilizam o espaço urbano para comunicar e não os convencionais media de massas.

Em quarto lugar, estas são artes democráticas. O facto de não estarem encerradas, protegidas e com acesso condicionado, converte-as em obras potencialmente disponíveis para todos.

Por último, eu diria que são geralmente de natureza efémera. São fenómenos imprevistos, transitórios, “sem hora marcada”, que ocorrem nos lugares e tempos mais inesperados. Como se depreende das minhas palavras, esta Arte Urbana tem sempre de transportar algo de alteridade, de diferença, de choque, que questione ou abale anteriores convicções éticas e estéticas. Enfim, a Arte enquanto “Outro” e a cidade como o terreno privilegiado para a sua manifestação. (Campos, 2013)

No meio urbano tais práticas são elaboradas por grupos extremamente heterogêneos, que incluem atores,

performers, bailarinos, músicos, cineastas, arquitetos, pintores, muralistas, designers gráficos, grupos de jovens7,

entre outros.

Neste trabalho não nos interessou rotular essa arte, admitimos sua condição fluida, essencialmente efêmera, processual, coletiva e muitas vezes anônima.

Escolhemos observar e fotografar sete muros e fachadas selecionadas no trecho da rua Augusta que conduz ao centro da cidade8. Não procuramos registrar as obras individualmente, desmembradas de seu entorno. Registramos

pichações, graffitis, lambe-lambes, stickers, stensils, em seu contexto urbano original, ou seja, misturadas aos anúncios publicitários, propagandas eleitorais, palavras de ordem, declarações de amor e palavrões.

7 Frequentemente jovens moradores de bairros periféricos em busca de visibilidade na cidade formal, no caso dos grafittis e pichações. 8 A rua Augusta vai do centro de São Paulo ao bairro Jardim América. Um de seus trechos vai do centro à av. Paulista (região popular), e outro

Verificamos que muitos artistas de rua realizam suas práticas por diversão9, sozinhos ou em grupos, buscando

deixar sua marca pessoal na cidade, como em uma espécie de jogo10: cheios de ironia e humor, inserem nas paredes

da cidade mensagens anárquicas ou com conteúdo compreensível apenas para seu grupo, contestando autoridades, expressando suas opiniões políticas, deixando sua assinatura, ou de seu grupo, e exibindo grande habilidade física ao alcançar áreas proibidas e(ou) de difícil acesso.

Assistir à prática desse jogo, ou seja, as transformações nos muros e fachadas fotografados ao longo do tempo, nos permitiu observar outra característica peculiar desse tipo de arte: ela está sempre em processo, nunca acabada. É realizada pelos artistas que justapõem11 suas obras sobre as de outros e é modificada tanto pelo meio e

intempéries, quanto pelos observadores que se sentem provocados a rasgá-la ou rasurá-la, interagindo diretamente com o que encontram em seu caminho. Como resultado, os painéis são verdadeiras assemblages ou décollages12.

A desordenada sobreposição de tintas e colagens cria novas texturas, modifica tonalidades, revela ricas camadas de histórias sobrepostas.

9 O que não implica na desvalorização da prática, tampouco na perda de seu caráter político.

10 A vivência da cidade a partir de atividades lúdicas, buscando aguçar a percepção e vinculação com o meio, remonta à prática e pensamento

contestador das artes dos anos cinquenta e sessenta, com destaque para a obra do grupo de artistas da “Internacional Situacionista" (Jacques, 2003).

11 A justaposição dos trabalhos é parte de uma prática frequentemente realizada pelos artistas de rua, e por eles denominada “atropelo”. 12 A assemblage é a técnica de colagem, justaposição de imagens e objetos triviais numa superfície, visando à produção de novos sentidos. A

décollage é a técnica de criação de imagens a partir de cortes e rasgos de uma imagem original, em geral realizada a partir de cartazes publicitários. (Argan, 1992; Navarro, 2016).

Para encontrar um traço comum ou dominante nessas manifestações artísticas que orientasse nosso trabalho foi importante pensar nessa arte não apenas em sua forma material, ou conteúdo visual, mas em seu papel enquanto agente revelador e transformador da realidade urbana. Segundo Pallamin, a arte urbana define-se como prática

social relacionada a modos de apropriação do espaço urbano (2000, p. 46), (...) é vista como um trabalho social, um ramo da produção da cidade, expondo e materializando suas conflitantes relações sociais. (2000, p.20).

Ao praticar sua arte nas ruas, os artistas não apenas deixam suas marcas identitárias no espaço como, ao fazê-las, se confrontam com distintas formas de controle realizadas pelo Estado e pela iniciativa privada. Tais manifestações artísticas antagonizam com esse controle e evidenciam a grande vigilância a qual nossos espaços urbanos estão submetidos, demonstrando o quanto o espaço público não é livre, e muito menos neutro. Conforme exposto por Ulmer:

(...) os artistas de rua se reapropriam do espaço visual dos espaços públicos, não atuando somente em áreas disputadas dentro das cidades, mas sobretudo realizando um esforço muito maior de reformular a imagem e re-imaginar a cidade. Os artistas de rua, portanto, estão produzindo um trabalho que revela a cidade como ela é, enquanto imagina no que ela poderia se tornar. A batalha pelo espaço ocorre tanto pelo momento presente como por um futuro socialmente mais justo.13 (2016, p.443)

Expandindo nossa reflexão, identificamos algumas questões que nos pareceram importantes para pensar o potencial transformador que esse tipo de arte pode operar no espaço urbano: a) as transformações ocorridas onde as manifestações artísticas se implantam escapam do aspecto meramente visual, atuam na percepção do lugar, permitindo o estabelecimento de relações inusitadas e tensões entre quem as observa, o objeto artístico, e a estrutura urbana; b) a experiência do observador é decisiva, seja como receptor da mensagem, ou como coautor, que ativamente a modifica; c) a experiência do autor também é fundamental. A prática de realizar a arte em um suporte arquitetônico, muitas vezes de difícil acesso, subvertendo a lei, transforma a experiência artística não apenas em uma atividade intelectual e subversiva, mas em uma experiência intensamente física, provocativa e política.

Entendendo que a cidade tem seus sentidos recriados a todo momento através da arte de rua, nos ocupamos em realizar o registro fotográfico dos muros, diariamente, ao longo de 200 dias. Ao acompanharmos sua transformação, nos sentimos de alguma forma participantes, testemunhando suas mudanças e eternizando suas imagens para o futuro.

No documento DiverCity: diversity in the city (páginas 42-46)