A ritmografia urbana é introduzida e apresentada como uma possibilidade de abordagem e metodologia, crítica e rítmica, que toma como inspiração a ritmanálise (Lefebvre, 2008 [1992]), a crítica do quotidiano (Lefebvre, 2008 [1958]; 2008 [1961]); 2008 [1981]), a etnografia e fenomenologia. Na ritmografia que aqui se apresenta, usa-se como métodos principais a entrevista, o diário de campo e os ritmogramas. Dialeticamente, a ritmografia em cenários urbanos envolve uma escuta ondulatória entre a mobilização/imersão experiencial, sensorial e corporal e o afastamento reflexivo, analítico e conceptual. Pretende-se aceder aos ritmos - molares e moleculares; global e locais - da produção noctívaga da cidade - isto é, aceder à organização urbana/social, à experiência fenomenológica, aos ritmos urbanos e ao que o quotidiano revela e rebela (Rodrigues, 2016).
A cidade noctívaga - espaço-tempo de confluência e vivência do lúdico, festivo e boémio - é abordada dialeticamente, considerando a coexistência rítmica de forças e campos de produção neoliberais e de forças e campos de produção pöéticos e emancipatórios. A reprodução linear - neoliberal, hierárquica e alienante - e a
poësis urbana - transformação, emancipação e crítica através do quotidiano - vibram e coabitam uma cidade
noctívaga que, por sua vez, se afirma e é absorvida no quotidiano, acompanhando os ritmos de revitalização e requalificação dos centros urbanos característicos da cidade pós-industrial, da neoliberalização do espaço e do marketing urbano.
Regressa-se e retoma-se o centro do Porto, também, e particularmente, por influência e vigor do seu uso noturno; acolhe-se e promove-se a prática social de sair à noite. O ‘retorno’ ao centro da cidade – característico do desenvolvimento urbano da cidade europeia – ilumina, também, a sua face noctívaga; ‘revitalizam-se’, requalifica- se, com orientações e traços heterotópicos, os espaços e tempos de abandono e vazios urbanos. Diversos saberes e agendas olham, atualmente, para a cidade à noite que integra e adquire protagonismo no quotidiano e se apresenta como ‘apetecível’ dinâmica/prática social. A existência noctívaga da/na cidade é visível e viável, absorbe o quotidiano e é por ele absorbida, tornando-se, dessa forma e dialeticamente, quer alvo de controlo, quer cenário de libertação.
Em síntese, os ritmos de produção da cidade noctívaga são dialéticos, compassados pela triangulação entre festa, lazer e boémia e pela produção urbana que ‘reconquista’ o centro e constrói o party district. No contexto da iluminação do lugar urbano noctívago e do centro da cidade, a ritmografia do Porto efetua-se tomando o party
district - que se afirma no centro e Baixa da cidade do Porto na primeira década do século XXI - enquanto descritor
rítmico e projetor/projeção da cidade (noctívaga).1 O party district é, em síntese, um território simbólico e material,
que territorializa a noite e a escuridão na cidade e a sua zona central, transformando-a na compilação de diferentes e diversas práticas, lugares, culturas, cenas e personagens urbanas.
1 Este artigo parte do doutoramento “A Cidade Noctívaga: Ritmografia Urbana de um Party District na Cidade do Porto” (2016), realizado na
As ritmicidades – expressão e experiência de macro e microprodução urbana (Rodrigues, 2013) – traduzem vibrações heterotopianas captadas na ritmografia da cidade noctívaga. A diversidade e diferença de identidades, culturas, cenas musicais, práticas noctívagas, modos de vida e afirmações, assim como a diferença de lugares e de momentos de contacto social e intersubjetividade, ajudam a iluminar os atributos heterotopianos da cidade noctívaga.
A heterotopia, e os ritmos liminares que também a compõem, refere-se, na sua origem e essência, à vivência de tempos e lugares antieconómicos. “Heterotopia caters to an anti-economical time: the time of sacrifice, gift, play and squanders” (Dehaene e De Cauter, 2008, p. 98). Abordada enquanto heterotopia, repleta de espaços-tempos heterotopianos, a cidade noctívaga contraria e interrompe o tempo diurno, normativo, tradicional e hegemónico – sendo assim consonante com atributos heteropianos apresentados por Michel Foucault (1984).
Na sua natureza, a cidade noctívaga cria-se num tempo antieconómico e de experiência/vivência alternativa e inesperada dos espaços e dos tempos, podendo configurar-se como heterotopia. O outro do político, o outro do económico que caracteriza a heterotopia (De Cauter & Dehaene, 2008), vibra na cidade noctívaga. A heterotopia é um espaço neutral, à parte da sociedade ‘normativa’. Os lugares e momentos heterotópicos são outros espaços, outros tempos em que se podem representar, inverter e contestar ‘real sites’ (Foucault, 1984) e que envolvem diferença, diversidade e usos contra-hegemónicos de tempo e espaço. Na polirritmia da cidade noctívaga, experienciam-se e expressam-se usos inesperados da cidade e dos seus lugares.
A cidade noctívaga é lugar de resistência e de desenvolvimento de culturas com práticas e estilos de vida alternativos que rejeitam e invertem valores, práticas culturais e relações de poder dominantes.
A conceção original de heterotopia baseia-se na dialética entre a norma/desvio que se triangulam na diferença. As heterotopias da diferença envolvem uma multiplicidade de espaços e populações que mudam (Cenzatti, 2008). Neste sentido, as heterotopias relacionam-se intimamente com os ritmos liminares que desafiam e transgridem a ordem social (urbana), sendo a cidade noctívaga lugar de expressão de situações liminares, lugar de evasão e lugar de contestação de normas e convenções. Assim, a vida noturna, para além de promover a experiência de heterotopia, é uma zona liminar (Lovatt & O’Connor, 1995); os espaços noctívagos da festa, da rua são tradicionalmente lugares de liminaridade.
Atualmente as heterotopias já não estão confinadas aos clássicos e ‘monumentais’ ‘outros espaços’ de diferença - espaços para o desvio que Michel Foucault introduz - e já não são imóveis ou imutáveis. Na sociedade pós- moderna, na cidade pós-industrial, as heterotopias deslocam-se do locus monumental e institucional total foucaudiano, disseminam-se pela cidade e imbricam-se na dialética da produção espacial neoliberal. Também na cidade noctívaga se acrescenta, às heterotopias (clássicas) do desvio, as heterotopias da diferença difundidas no espaço urbano. Na sociedade pós-fordista, em que o ‘elogio da diferença’ é valorizado, as heterotopias estão presentes no dia-a-dia, podendo, inclusivamente, ser instrumentalizadas e apropriadas pela linearidade do quotidiano ao invés de invisibilizadas, afastadas, sitiadas. A heterotopia adquire um relevo na sociedade pós-civil,
no contexto de uma vida pública ‘económica’, ela reaparece como estratégia de demanda de espaços de alteridade (Dehaene & De Cauter, 2008).
A produção de diferença, e de espaços e tempos de diferença, constituem processos característicos da noite na cidade que afetam ritmicidades e estimulam o comunitário, alternativo e emancipatório. Porém, nem tudo o que
parece heterotopia o é, raramente, e em consonância com a produção social atual, ela existe em absoluto e em
permanência. Considera-se a produção de espaço apresentada por Henri Lefebvre (1991 [1974]), que contempla a dialética entre a reprodução urbana e poësis urbana, entre a hegemonia da neoliberalização e as heterotopias e liminaridades noctívagas. O espaço-tempo de diferença é contestatário ao mesmo tempo que é controlado e gerido por forças do capitalismo neoliberal.
Os momentos e lugares heterotopianos, ‘outros lugares’, espaços e tempos de rutura e de diferença, podem transformar-se subtilmente em lugares de uma trivializada e minimizada diferença (Nunes, 1996) e de uma contestação permitida (Bakhtin, 1984 [1936]). Pode considerar-se que, macro socialmente, estes lugares se tornam espaços e tempos de ‘indiferença’, linearidade e hierarquia (Rodrigues, 2016). São espaços e tempos situados entre a heterotopia e o espetáculo (Roberts & Eldrige, 2009), orquestrando, também, os ritmos da cidade noctívaga.
Tal como a heterotopia, que pode ser concedida, minimizada e trivializada, também determinados estados liminares de libertação e transformação são concedidos, reproduzindo uma ordem social/urbana, colocando-se ao serviço da gestão, domesticação, governância e controlo social, numa participação periférica legitimada (Lave & Wenger, 1991 apud Cabral, 2000).
Não obstante, são diversos os planos heurísticos da heterotopia, insurgentes e emancipatórios que cadenciam a cidade noctívaga, destacando-se e apresentando, neste artigo, breves fragmentos sobre os ritmos públicos, festivos, musicais, os ritmos de alteração de estado de consciência e os ritmos de emancipação do género, das orientações e das sexualidades.