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As novas Comunidades de Aliança e de Vida

No documento Luzia Maria de Oliveira Sena (páginas 107-112)

Novos movimentos e novas comunidades eclesiais

2.2. A Igreja Católica e os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais

2.2.2. As novas Comunidades de Aliança e de Vida

Criadas, geralmente, por participantes dos grupos de oração da RCC, as Comunidades de Aliança e de Vida têm crescido muito em todo o território nacional. Segundo Mariz (2005), o surgimento de tais comunidades é um fenômeno recente no Brasil, registrado pelos pesquisadores somente a partir da década de 1990 e nos anos de 2000. Entretanto, este é um fenômeno não apenas brasileiro, mas de dimensões internacionais, presente nos vários continentes. Inclusive algumas dessas comunidades como, por exemplo, a Canção Nova, a Shalom, a Toca de Assis, a Aliança de Misericórdia que tiveram sua origem no Brasil já se expandiram para outros países, como também encontram-se no Brasil comunidades que tiveram origem em outros países, como as comunidades Focolares (Itália), Emanuel (França) e Missionária de Villaregia (Itália), dentre outras.

A configuração de alguns dos novos movimentos, o modo como se estruturam, os aproxima mais das formas particulares de vida comunitária do que de uma simples associação de fiéis. Por isso, alguns deles recusam serem chamados de movimentos e optam por chamar-se de comunidades. Alguns apresentam duas formas distintas e complementares de viver um mesmo carisma e espiritualidade: a comunidade de vida e a comunidade de aliança.

No Brasil, muitas dessas comunidades surgiram por iniciativa dos próprios leigos, a partir de grupos de oração da RCC, outras, por iniciativa de algum sacerdote, porém com a colaboração dos leigos, e destinada a eles. Tais comunidades contam com a assistência espiritual de um sacerdote, têm sede própria, estatutos ou regra de vida, carisma próprio, registro civil da entidade e coordenação independente do movimento que lhes deu origem, a RCC. Algumas comunidades assumem a formação de vocacionados ao ministério sacerdotal, os quais, depois de ordenados, permanecem como membros das respectivas

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Disponível em: <http://www2.iccrs.org/about_ccr/ccr_worldwide/rccnomundo.htm>. Acesso em: 11 de julho de 2010.

comunidades e dedicados inteiramente ao serviço delas. A formação desses sacerdotes, segundo a CNBB (2005), é acompanhada pela autoridade eclesial diocesana, pois esta é uma exigência canônica.

Com o apoio e o incentivo da Igreja oficial, especialmente dos dois últimos pontífices João Paulo II e Bento XVI , os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais proliferaram e se difundiram amplamente, principalmente sob a forma de Comunidades de Aliança e de Vida.

As Comunidades de Aliança são constituídas por homens e mulheres, casados e solteiros, jovens, adultos, famílias, profissionais, que se reúnem em torno de experiências espirituais e de projetos comuns de evangelização. Fazem votos de consagração a Deus, vivem a mesma regra dos membros da Comunidade de Vida, porém continuam a exercer suas atividades profissionais no mundo. As Comunidades de Vida são grupos com fortes vínculos de comunhão, partilha de bens e vida em comum. Fazem votos dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, como consagração radical e total da vida a Deus. Algumas vezes essas comunidades criam grupos mistos nos quais homens e mulheres, solteiros e casados, compartilham de uma morada comum. Estas comunidades buscam o reconhecimento canônico da Igreja através da aprovação diocesana onde se deu a fundação e, depois desta, podem até pleitear o reconhecimento canônico em Roma. As Comunidades de Aliança e de Vida distinguem-se também pela sua configuração jurídica tanto civil quanto canônica. Embora não constem como tal no atual Código de Direito Canônico,32 as novas

comunidades têm seus direitos e deveres fundamentados nele.

As Comunidades de Vida são vistas como uma nova forma de ordem ou de vida religiosa consagrada, segundo um modelo laico: os seus membros consagram-se inteiramente ao serviço de Deus, mediante a profissão dos conselhos evangélicos, ou seja, dos votos de castidade, pobreza, obediência; partilham os bens e têm vida em comum sob o mesmo teto. Constituem, portanto,

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O atual Código de Direito Canônico (CIC) foi promulgado pelo Papa João Paulo II em 25 de janeiro de 1983. Está disponível em:

<http://www.vatican.va/archive/ESL0020/_INDEX.HTM>. Acesso em: 15 de outubro de 2010.

uma forma associativa recente na vida da Igreja. Muitas delas surgem dos novos movimentos ou estão neles integradas, porém têm sua especificidade em relação aos movimentos. Também diferem das comunidades paroquiais, das CEBs e das comunidades religiosas de vida consagrada (CNBB, 2005).

Na sua missão evangelizadora, essas comunidades exercem inúmeras atividades como catequese, coordenação e participação de grupos de oração, atividades pastorais com o povo, assistência social em inúmeras e variadas obras caritativas e de promoção humana, destacando sobretudo o anúncio do evangelho e a oração nos encontros, reuniões e grupos.

Um aspecto que se destaca nos novos movimentos, especialmente naqueles de cunho reavivado, como por exemplo a RCC, o movimento Aliança de Misericórdia, dentre outros, e, consequentemente, nas Comunidades de Aliança e de Vida, é o componente juventude.

Várias Comunidades de Aliança e de Vida, além de serem constituídas, em sua grande maioria, por jovens, foram criadas por jovens ou com a colaboração destes, visando, especialmente, à evangelização da juventude. Nessas comunidades os jovens têm um papel preponderante no que se refere à sua organização e expansão, como também são responsáveis pelas inovações nas estratégias e métodos de evangelização e de abordagem do segmento jovem da sociedade. Para isso, recorrem habilmente às novas mídias e tecnologias digitais, aos meios de comunicação de massa, à internet, e às produções características das culturas juvenis, como música, dança, baladas, raves, bandas e festivais de música, para alcançar os seus objetivos de evangelização. As expressões culturais música, dança, baladas consideradas profanas são resignificadas e transformadas em instrumentos com objetivos religiosos. Dentre esses objetivos, se destaca o empenho em atrair os jovens e proporcionar-lhes uma experiência religiosa, um encontro pessoal com Deus.

Para exemplificar essa significativa presença e participação jovem nas novas comunidades, citaremos, entre outros exemplos, a comunidade Shalom e a Canção Nova, ambas de origem brasileira.

A comunidade Shalom foi fundada (1982), em Fortaleza (CE), por Moysés Azevedo, então participante de grupos de jovens da Igreja Católica e de grupos de oração da RCC. Com a colaboração de outros jovens de grupo de oração, Moysés deu início à comunidade a partir do trabalho de evangelização feito em uma lanchonete criada para esse fim. Segundo dados apresentados na

homepage33 da comunidade, a lanchonete Shalom, como foi chamada e

idealizada pelo seu fundador,

seria um ambiente descontraído em que se poderia evangelizar os jovens que não participam de Igreja. Nesta lanchonete, que seria, à primeira vista, um point da juventude, se abordam ainda hoje os presentes e se oferecem aconselhamento, conversas sobre Deus, e se convida para seminários de vida e grupos de oração. Os grupos desde então começaram a se multiplicar e muitos iam sendo tocados por este carisma novo que surgia […].

Nascida no meio dos jovens, a comunidade surgiu de um ardente desejo de evangelizar os jovens mais afastados de Deus. Transformamos uma lanchonete em um meio de atração dos jovens a Deus.

A Comunidade Católica Shalom, oriunda da RCC, integra Comunidade de Vida e Comunidade de Aliança, formada por homens e mulheres, solteiros e casados. Tem reconhecimento pontifício como Associação Internacional de Fiéis. Está presente em mais de cinquenta dioceses do Brasil e em alguns países como Uruguai, Canadá, França, Itália, Suíça e Israel.

A Canção Nova34 é a primeira Comunidade de Vida de que se tem notícia

no Brasil (CARRANZA, 2000:66). Teve início em 1978, na cidade de Lorena (SP), quando doze jovens decidem morar juntos, liderados pelo padre salesiano Jonas Abib, ordenado sacerdote em 1964. Com larga experiência de trabalho pastoral com a juventude, através de retiros e encontros de jovens, o padre Jonas visava

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Disponível em: <http://www.comshalom.org/>. Acesso em: 22 de janeiro de 2011.

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A Canção Nova é constituída pela Comunidade de Vida e pela Comunidade de Aliança. Congrega homens e mulheres, solteiros e casados, sacerdotes, religiosas e religiosos e membros que optam pelo celibato. É reconhecida canonicamente como Associação Internacional de Fiéis. Atualmente, a sua sede principal está em Cachoeira Paulista (SP).

proporcionar a esses jovens um encontro pessoal com Cristo, segundo afirma o sacerdote, no portal da comunidade na Internet.35

Ainda seminarista, Jonas Abib participou dos encontros denominados de “Mariápolis”, promovidos pelos focolarinos da diocese de Lorena. Em 1971, padre Jonas conheceu a RCC através do padre Haroldo Rahm um dos fundadores da RCC no Brasil em um encontro sobre a efusão e dons do Espírito Santo, realizado em Lorena. Esse acontecimento marcou sua vida e ministério e a espiritualidade da comunidade que fundaria poucos anos depois. Pregador, cantor, músico e compositor, o fundador da Canção Nova foi um dos grandes impulsionadores da RCC, desde os seus inícios, e da música católica no Brasil.

O Ministério da Música da Canção Nova, criado em 1984, conta com renomados cantores, compositores e músicos católicos, com várias produções fonográficas e com um vasto trabalho de evangelização através da música em shows, encontros, louvores, congressos.

A missão da Canção Nova, segundo seu fundador, é evangelizar com os meios de comunicação social. Daí a importância dada a esses meios e à sua utilização desde 1980, quando passa a operar a Rádio Canção Nova, atualmente com potência que abrange grande parte do território brasileiro e de alguns países da América Latina, como Paraguai, México, Honduras, El Salvador, Guatemala e Nicarágua. O sistema Canção Nova de comunicação integra diferentes mídias: Rádio (AM e FM), TV (lançada em 1989),36 Portal na Internet, WebTV e Mobile

(tecnologia que permite a transmissão de músicas, fatos, imagens, vídeos e pregação pelo celular, palmtops e iPod). Além da editora e da gravadora que produzem e comercializam livros (mais de 1.270 títulos, inclusive a Bíblia oficial da CNBB, que inicialmente era uma coedição entre várias editoras católicas), CDs

35 <http//:www.cancaonoca.com.br/> 36

O sinal da TV Canção Nova é transmitido, para o território nacional, por 86 operadoras de TVs a cabo e, para o exterior (América Latina, Europa, Estados Unidos, e parte do Canadá, Norte da África e do Oriente Médio) é transmitido via satélite. Toda a programação pode também ser acompanhada em tempo real pelo seu portal na Internet. Informações disponíveis em: <www.cancaonova.com.br>. Acesso em 22 de janeiro de 2011.

e DVDs (445 títulos). Conta ainda com o suporte de uma central telefônica o Call Center que recebe, atualmente, uma média de 120 mil chamadas mensais, segundo dados disponibilizados no seu portal na Internet.

Embora as novas comunidades sejam independentes da RCC na sua estrutura orgânica e na forma como cada uma se organiza quanto à missão, aos seus estatutos e regulamentos, aos recursos financeiros e administrativos, às suas identidades carismáticas, tais comunidades encontram na RCC a fonte comum de sua espiritualidade, como constata a CNBB ao afirmar que

grande parte das novas comunidades se baseia principalmente na espiritualidade da Renovação Carismática Católica, enfatizando a experiência pessoal de Deus, a oração, o dom das línguas, a cura e a libertação pessoal, o uso da Bíblia […]. A figura de Maria recebe especial atenção. Esta espiritualidade, aliada ao carisma, dá forte identidade aos seus membros, estando na base do método de evangelização e na vivência dos “ministérios” no interior da comunidade (CNBB, 2005:22).

Segundo alguns estudiosos do assunto (CARRANZA,FABRIDOSANJOS, 2010), é praticamente impossível fazer o levantamento numérico das novas

comunidades existentes, devido a vários fatores, dentre os quais a dificuldade de

definir critérios que as caracterizem, pois em cada país ou continente elas assumem feições diferenciadas. Carranza, Mariz e Camurça (2009) estimam que há cerca de 550 novas comunidades católicas conhecidas no Brasil.

No documento Luzia Maria de Oliveira Sena (páginas 107-112)