As raízes da preservação e sua contextualização no Brasil

No documento Diagnóstico sobre a institucionalização e o grau de efetividade do planejamento em municípios históricos: Diamantina e Tiradentes (páginas 32-38)

B- Descentralização e Desconcentração Administrativa em

2 A PROBLEMÁTICA DO PATRIMÔNIO : AVANÇOS E RETROCESSOS

2.2 As raízes da preservação e sua contextualização no Brasil

A preservação surge em um contexto da modernidade11, onde o que estava em evidência era a destruição, a transformação da cidade em algo diferente do que existia. Frente a esse contexto, surge a necessidade de preservação de “pelo menos alguma coisa” que representasse o passado. Eis que surge a preocupação com a preservação dos monumentos históricos, e não, necessariamente, com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A princípio, poderia parecer um completo paradoxo, visto que é um processo crescente de dissociação entre a memória e a história – emerge a consciência de preservação. Segundo Moreira12 (2000, p.19), é nesse sentido que a relação entre tabula rasa e preservação pode ser colocada: “em termos de uma tensão em torno da transformação da cidade, pela ruptura de uma ordem existente, no caso da tabula rasa, e de sua persistência pela preservação”.

De acordo com as análises de Moreira (2000), pode-se entender por tabula rasa, em seu sentido urbanístico, como uma “intenção de transformar a cidade e de criar algo novo, decidir sobre seu presente e seu futuro”. Esse conceito está dissociado do ato de preservar, mas atrelado ao de inovar.

A tabula rasa moderna implica a recusa das experiências consideradas não modernas, sobretudo da cidade como existia à época, a que Corbusier e outros modernos julgam pertencer ao passado que se desejava extinguir ou superar, já que ainda viviam nele [...] (MOREIRA, 2000, p.44).

Em contraposição, o conceito de preservação refere-se “ao desejo de perpetuar elementos e objetos – a materialidade da cidade – ou princípio, modos de fazer, tradições e costumes – a cultura urbana” (MOREIRA, 2000, p.18). Analisando

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Aproximadamente em 1928, arquitetos modernistas que formavam o CIAM (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) decidiram incorporar o modelo progressita em que o traçado urbano deveria ser caracterizado pela setorização espacial, conforme uma análise das funções humanas, que seguia uma setorização rigorosa instalando os distintos locais de hábitat, trabalho, cultura e o lazer. Esse modelo progressista negava qualquer herança urbanística dos traçados das antigas cidades medievais, para submeter-se a uma geometria racional, setorial, segregada dos grandes centros urbanos. Embora, na Carta de Atenas, reconhecessem a necessidade de preservação de exemplos excepcionais.

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Em seu livro “A cidade contemporânea: entre a tabula rasa e a preservação”, Clarissa da Costa Moreira analisa os conceitos de tabula rasa e de preservação como elementos que estiveram, muitas vezes, em oposição, mas que houve momentos em que ficou claramente colocada uma relação de complementaridade. Esses dois conceitos foram analisados, pela autora, no final dos séculos XIX e XX, buscando depreender as medidas urbanísticas que foram tomadas na época, para então trazer a discussão para o momento atual.

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esses dois conceitos, percebe-se que um anula o outro e, teoricamente, não teriam como se complementar. No entanto, na prática urbanística, ao se pensar na complexidade do espaço físico-territorial seria, em extremo, a sua conservação total como uma forma de resistir a qualquer alteração, ou o contrário: a destruição total de todo seu patrimônio histórico e arquitetônico como uma forma de reinventar um novo modo de vida e de moradia, sem qualquer relação com a herança passada.

No final do século XX, ocorreu um significativo redirecionamento da questão, em que esses dois conceitos – tabula rasa e preservação – já não significavam uma contraposição, sendo “diluídos” como parte de uma mesma estratégia de construção da cidade. Uma das primeiras evidências da necessidade de associar esses dois termos pelos arquitetos modernistas está presente na Carta de Atenas em que a questão da preservação do patrimônio histórico é inseria em meio a um discurso progressista e racionalista da modernidade.

A Carta de Atenas (1933) – elaborada pelo grupo do CIAM – versa sobre a conservação de monumentos históricos, de modo documental e museológico, como “obras de arte” pertencentes ao passado e impossibilitados de sofrer qualquer alteração que pudesse descaracterizá-los estilisticamente. Esse documento não abrange a preservação de cidades13. Em sua concepção, as antigas construções representariam testemunho de uma história – um bem imóvel com valor arquitetônico, histórico ou espiritural – e, por isso, deveriam ser preservadas, porém aquelas que não tivessem essa importância poderiam ser destruídas. Ao longo da argumentação percebe-se a aversão que os arquitetos do CIAM tinham em relação à imitação de um estilo arquitetônico. Defendiam que a forma de se edificar deveria ser fiel às técnicas construtivas que, por sua vez, se modernizavam. Por conseguinte, era inadmissível que se copiassem antigos estilos arquitetônicos em edificações modernas.

Copiar servilmente o passado é condenar-se à mentira, é erigir o “falso”como princípio, pois as antigas condições de trabalho não poderiam ser reconstituídase a aplicação da técnica moderna a um ideal ultrapassado sempre leva a um simulacro desprovido de qualquer vida. Misturando o

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A primeira discussão em que se procura atrelar a cidade como parte do patrimônio histórico, encontra- se na Carta de Veneza, elaborada em 1964, por arquitetos e técnicos. Consta no artigo 1°, da Carta de Veneza, que “a noção de monumento histórico compreende a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural, pois representa o testemunho de uma civilização passada”. Dessa forma, a Carta de Veneza começava a ampliar o conceito de monumento histórico ao abranger os sítios urbanos e rurais, em que a edificação não deve ser analisada isoladamente, mas como parte integrante e indissociável de um lugar. O patrimônio histórico estava sendo associado a uma ambiência que deveria ser preservada.

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“falso” ao “verdadeiro”, longe de se alcançar uma impressão de conjunto e dar a sensação de pureza de estilo, chega-se somente a uma reconstituição fictícia, capaz apenas de desacreditar os testemunhos autênticos, que mais se tinha empenhado em preservar (CARTA DE ATENAS, 1933, p.16, grifo nosso).

Pela primeira vez, os arquitetos modernistas começavam a entender que alguma parte da cidade deveria ser preservada, e ressaltavam a importância dos centros urbanos como ponto de encontro e vitais para o melhoramento da urbanidade14. Os modernistas, ao materializarem esse discurso de melhoria da vida urbana em um contexto marcado pelo novo, se voltam pontualmente para a preservação do patrimônio histórico e arquitetônico, e isso pode ser ilustrado por um exemplo brasileiro através da atuação do SPHAN, criado na década de 1930.

No Brasil, a partir da década de 20, a questão da preservação do patrimônio histórico e artístico nacional começa a tornar-se de interesse do Estado, tendo em vista que vários bens imóveis estavam desamparados, sem uma lei de proteção. A partir de denúncias sobre o abandono das cidades históricas e sobre a degradação do que seria o patrimônio nacional, o tema passou a ser objeto de debate entre os governos das diferentes instâncias e os intelectuais modernistas. Esse grupo decidiu que seria importante a elaboração de um documento oficial salvaguardando o que se poderia chamar de patrimônio histórico e artístico nacional.

A partir de 1936, o serviço de patrimônio foi institucionalizado através do órgão de preservação do patrimônio nacional, SPHAN, em um período marcado pelo Modernismo e pelo Estado Novo15. Segundo Fonseca (1997, p.130), “os intelectuais modernistas eram formados por especialistas de diversas áreas (historiadores, arquitetos e artistas plásticos, escritores, etnógrafos, geólogos, juristas, dentre outros) e conhecedores dos acervos dos diferentes estados do Brasil”. Alguns desses intelectuais modernistas – Lúcio Costa, por exemplo – faziam parte do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), responsável pela elaboração da Carta de Atenas de 1933.

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Segundo Moreira (2000, p.46), o conceito de urbanidade está diretamente associado à melhoria da qualidade de vida urbana. E é justamente essa urbanidade que materializa a associação da qualidade do que se deseja preservar no contexto da criação do novo.

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O Estado Novo, deu continuidade ao governo de Getúlio Vargas, sendo representado pela centralização administrativa e política do pais na figura do governo federal, que durou de 1937 a 1945. Orientou-se para a intervenção estatal na economia e para o nacionalismo econômico, influenciando no crescimento da industrialização do país.

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Vale ressaltar que esses intelectuais apesar de representarem um órgão relacionado à preservação, no sentido de buscar a continuidade com o passado, eram influenciados pelo modelo progressista-racionalista europeu. Esse modelo, destacado pelo CIAM, estava interessado em repensar uma nova organização do espaço e em criar uma linguagem estética no sentido de ruptura com o passado. Pode-se questionar se preservação e modernidade eram realmente concepções que se opunham. Esse grupo foi dirigido por Rodrigo Melo Franco de Andrade até 1967 e acreditava que seus próprios recursos intelectuais poderiam definir e avaliar o verdadeiro significado de preservação. Com a instauração do Estado Novo, a reforma administrativa foi ampliada16, e esse passou a ser apresentado como o representante dos interesses da nação; ainda que tenha instaurado a censura. O Estado Novo, ao assumir essa função na vida política e social, abriu espaço para os intelectuais modernistas, que viram nesse processo de reorganização uma possibilidade para participarem da construção da nação.

A definição de patrimônio estava relacionada com aspectos materiais – bens móveis e imóveis – que deveriam simbolizar a cultura brasileira. Assim, as “coisas tombadas” deveriam inserir-se numa tradição que representasse o caráter nacional da produção artística e histórica em um tempo e espaço marcantes na história do Brasil.

O traço maior do grupo que compunha este órgão era a crença na possibilidade de emancipação cultural da nação brasileira mediante a intervenção estatal neste campo, e a firme convicção de estar corretamente instrumentalizado para interpretar o caráter nacional e identificar os objetos que o representariam (SANT’ ANNA, 1995, p. 113).

Durante a direção de Rodrigo M. F. de Andrade, o grupo que integrava o SPHAN procurou dar caráter de universalidade, buscando desenvolver estratégias de legitimação de um conjunto de práticas culturais, destacando-se como a mais importante o instrumento de tombamento17 (SANTOS, 1996). Primeiramente, o SPHAN começou a

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Fonseca (1996) observa que essa reforma administrativa acontece quando Vargas estrutura o aparelho do Estado com a criação do Ministério da Educação e Saúde (1930), o Ministério do Trabalho (1930), o Departamento Nacional de Propaganda (1934) e o Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP (1938).

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O tombamento é o ato mediante o qual os bens selecionados são inscritos nos Livros do Tombo do SPHAN, nos quais serão inscritas as obras, a saber: no livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico; no livro do Tombo Histórico; no livro do Tombo das Belas Artes e no livro do Tombo das Artes Aplicadas. Nos trâmites legais, o tombamento pode ser indicado por qualquer pessoa, mas toda a avaliação da oportunidade do ato e do valor da coisa é feita pelo SPHAN. Dessa forma, esse ato é unilateral e centralizado no poder público federal. Contudo, Féres (2002, p.17) ressalta que o tombamento não implica na aquisição do bem pelo poder público, mas restringe sua forma de apropriação.

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trabalhar com registros da nação – através de documentações históricas e fotográficas –, procurando tornar visível a identificação de uma tradição cultural que tivesse uma duração no tempo e cujas características estilísticas e volumétricas se destacassem no espaço. Tal processo aconteceu com muitos conflitos políticos e sociais, principalmente por parte da população que não participava efetivamente das discussões sobre o patrimônio nacional – suas definições e os critérios de sua manifestação –, o que resultou em conflitos concernentes à hegemonia das concepções que deveriam simbolizar a coletividade, os valores e a cultura popular brasileira.

A preservação do patrimônio, por meio do tombamento, parecia ser para os membros do SPHAN uma forma de sacralizar o passado pelo resgate de uma tradição que acreditavam ser notória na história e, portanto, capaz de constituir marco de uma nação. Essa constituição, em torno das questões do que deveria ser tombado e como deveria ser preservado, incidia sobre concepções de cultura, de história, de passado- futuro, de tradição, de original-antigo, de arte e de arquitetura. O discurso construído pelos seus membros, visando argumentar em favor dos inúmeros tombamentos realizados – os monumentos, em sua maioria – enfatizava sempre o caráter de utilidade pública dos mesmos, na medida em que representavam valores históricos e estéticos coletivos.

Os monumentos foram pensados como reveladores do testemunho da história, através dos modos como foram construídos, dispostos e utilizados. Consequentemente, para os intelectuais modernistas, a memória tornava-se correlata à própria história através da preservação dos monumentos que se firmavam no tempo. Uma das mais importantes estratégias utilizadas pelo SPHAN foi a criação do Conselho Consultivo, ao qual competia a determinação do tombamento e a respectiva inscrição dos bens nos livros do Tombo e, portanto, sua nomeação oficial como monumento. A composição desse Conselho já o qualificava como um órgão técnico, que simbolizava um saber consagrado, um conhecimento acima de qualquer suspeita e que deveria ser respeitado sem questionamento. Além dessa soberania técnica, os membros deveriam ser reconhecidos no meio político. Através de reuniões do referido Conselho – composto por homens de espírito público e consagrado saber técnico –, objetos móveis e imóveis foram julgados e seus pareceres omitidos como uma forma de verificar a

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instauração simbólica e material da idéia de patrimônio presente em seu caráter histórico e artístico singulares.

As sedes do poder político, religioso, militar e da classe dominante consagravam e definiam os elementos simbólicos dignos de preservação como monumentos históricos. Contudo, esses bens simbolizavam o poder constituído e não condiziam com a memória da população que, por sua vez, continuou sem reconhecer plenamente sua cultura, seu ofício e costume nesses monumentos. A população era destituída de sua memória e de sua história na medida em que não tinha seus valores representados como um símbolo de importância para a história da nação.

A total confiança em seus próprios recursos intelectuais, e o entendimento da preservação como atividade exclusivamente técnica, também levaram o SPHAN a se distanciar da própria sociedade, tornando-se, de certo modo, impermeável aos seus reclames (SANT’ ANNA, 1995, p.114, grifo nosso).

Neste contexto, é importante ressaltar que o SPHAN considerava como patrimônio de uma dada sociedade, o símbolo e o valor que um objeto, ou monumento, representava em um espaço e tempo delimitado. O monumento era o próprio testemunho representativo da nação. Esse momento de releitura do Brasil, através dos monumentos tombados, colabora para o surgimento de uma nova idéia de patrimônio sendo entendida, pela primeira vez, como manifestação estética e histórica racional.

O grupo SPHAN buscava historicizar a sociedade através da historização do tempo, ou seja, buscava recriar a história como uma forma de dar um significado ao passado e inventar um futuro. A historizacão, segundo Pierre Nora, diz respeito à necessidade da sociedade de recordar o passado, uma sensação nostálgica de uma memória que já se perdeu. Assim, os membros do SPHAN acreditavam que sua ação e seu discurso estavam sendo pautados por uma ética de responsabilidade pública, cujo conteúdo era por eles articulado a partir da idéia de construção da nação, através das evidências culturais, históricas e estéticas. Ou seja, suas descobertas e manifestações sobre o patrimônio nacional iriam pautar a própria formação e continuidade da história brasileira. O SPHAN construiu sua própria identidade e a da nação embasado na idéia de memória e de tradição nacional, como forma de impedir que o passado caísse no esquecimento.

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